segunda-feira, 6 de julho de 2009

WEBLOG: LINGUAGEM E INDIVIDUAÇÃO DA PALAVRA ESCRITA

A linguagem e as formas nas quais os indivíduos contemporâneos produzem seus discursos é conseqüência das relações sociais, lingüísticas e culturais provenientes da presença social da web como espaço de comunicação, tendo nas tecnologias de informação e comunicação seu meio condutor e integrador dos enunciadores da língua(gens) possível no meio. “as formas de linguagem podem ser usadas de maneira mais ou menos consciente pelos grupos sociais, para se diferenciarem dos outros, por meio da fala, de uma forma elaborada ou “nobre” da língua ou mesmo de uma língua estrangeira...” (BURKE, 1993, p. 10).
Nesse contexto, a política de linguagem circulante na internet, sobretudo, aquela que movimenta as relações sócio-comunicativas dos cibernautas é estruturada sob a égide palavra escrita que, por seu turno, é carregada de ambigüidades com as quais, elementos semânticos e pragmáticos disputam a atenção dos interlocutores, isto é, a palavra escrita no weblog é vista como produção íntima, posto que a linguagem nesse contexto é carregada de sentidos individuais a tal ponto que se pode vê-la como existência histórico-social, cujo mérito é perpassado de interesses e fenomenologia da vida cotidiana na qual há o significado das coisas. (BURKE, 1993, p. 14).
No weblog, o autor é reconhecido como alguém que, em ação livre, expõe seus pensamentos, vontades definidas por meio de regras próprias, ou seja, a autoria da escrita nesse espaço é, sem dúvida, transcorrida por intimidades com as quais a polifonia discursiva constitui-se o universo da linguagem. “Agora que o “autor” foi proclamado morto, parece que tudo o que resta para ser analisado são as próprias regras que a linguagem possui para escrever a si mesmo, o “software” do texto. (BURKE, 1993, p. 14). Esse fato tem sido recorrente na transformação tecnolinguística e no desenvolvimento da linguagem produzida e veiculada no weblog.
Assim sendo, não se pode negar que a teoria da linguagem se faz cada vez mais presente, sendo assim, reconhece-se a produção escrita no weblog e seu autor como autoridade intima. “a linguagem e os mundos conceituais e simbólicos por ela moldados são classificados em termos gêneros de nomes maneira abrangente.” (idem, 1993, p. 14).
Nessa perspectiva, os grupos sociais entremeados pela força da palavra no weblog, constituem-se nas individualidades dos sujeitos de modo que nesse espaço de construção de cidadania e significados, a escrita é permeada por elementos de patriotismo e união de massas.
No plano da significação, a linguagem no weblog é entremeada de sociossemioses em que o visual – imagem – verbal – palavras e signos estruturam “o pensamento, transmitem informações e consolidam os contatos interpessoais. Nem toda troca é verbal: [...] e ignora a análise de funções tais como a comunicação, a preservação de memória e de registros, o exercício de documentação oficial, o próprio desenvolvimento da autoconsciência.” (BURKE, 1993, p. 18).
Este é um dos pontos de referenciação à linguagem no weblog, ou seja, este talvez seja o novo deslocamento, ou desvio, daquilo que é considerado a linguagem padrão, visto que é com a palavra escrita que se faz a aprovação dos modos de fazer educação por meio da internet, mídia social contemporânea.

Mesmo assim, a maioria dos grupos dentro de tais sociedades – dos mais privilegiados às classes mais baixam sem mencionar os imigrantes e as maiorias – continuam , e ainda continuam, a manifestar altos níveis de diferenciação na fala ou na escrita (ou em ambos), devido tanto à relutância quanto à incapacidade de adaptação. (BURKE, 1993, p. 20).

Os membros participantes da comunicação no weblog atuam de maneira a contrariar o padrão comunicativo até então vigente, pois deixam vir à tona elementos da língua falada de forma a relaxar as práticas comunicativas, indo ao aviltamento daqueles indivíduos que participam dos meios de comunicação em que as estruturas sociais são rígidas e perpassadas pelo rigor da escrita, empenhando-se, assim em campanhas de manutenção da “pureza da língua(gem) escrita.
Todavia, reconhece-se que isso não é a homogeneização da língua(gem) no plano da comunicação via weblog, ao contrário, é uma ação em que a fala e a escrita se aproximam no processo de interlocução dos cibernautas com seus interlocutores. Assim sendo, considera-se que a língua(gem) realizada nesse médium se aproxima da linguagem que sustentam as letras das músicas de “rap” às quais baseiam sua estrutura nos padrões rítmicos e de caráter pessoal que a linearidade da escrita não consegue registrar nem copiar. (BURKE, 1993, p. 21).
Diante disso, afinal, de que é constituída a linguagem escrita na weblog? Para Burke (1993) a palavra escrita individualizando os autores, ganha autoridade especial, posto que ela – escrita

Na maioria das sociedades todos falam, embora os membros de algumas ordens religiosas optem por não fazê-lo durante muito tempo. Há outros que são silenciados por deficiências que podem ou não ser naturais: a censura arquetípica é a excisão da língua. Escrever e ler são mais exclusivos. Conseguir que seus escritos sejam lidos é motivo de especial autocongratulação. [...] Os níveis de linguagem são dispostos em hierarquias sociais que, de maneira geral, são oficialmente reforçadas (e, às vezes, igualmente subvertidos, por meio das formas paródicas da comedia, do carnaval e da charge). (BURKE, 1993, p. 23).

Como conseqüência dessa multiplicidade de linguagens veiculadas pela tecnologia de informação e comunicação via weblog, bem como as mudanças nas maneiras de produzir e socializar informações individuais de caráter profundos, experimenta-se assim, contínuas e variadas maneiras de se reconhecer os sujeitos nas incertezas da era contemporânea. (MORIN, 2001).
Nesse sentido, a Educação na contemporaneidade pode ser compreendida por outra dimensão, isto é, ensinar e aprender por meio do uso da linguagem veiculada pela internet tem outro significado, pois proporciona aos cibernautas condições de produzir informações via palavra escrita numa grandeza maior, cuja abrangência tem levado à compreensão de que as pessoas aprendem a todo instante, de modo que o entendimento de aprendizagem, na atualidade tem sido posto à prova, uma vez que as relações no ciberespaço são fontes de aquisição de saberes e, portanto, levam à constituição de uma nova forma de se pensar e fazer linguagem por meio do reconhecimento de que a palavra escrita é carregada de ambigüidades como o é o discurso oral.
No ciberespaço são cultivadas heterogeneidades discursivas e culturais de maneira que a questão da palavra escrita leva à inferência de que a língua(gem) ponderada na comunicação via weblog, molda as identidades individuais e coletivas postadas na rede.
Nesse sentido, Burke (1993) afirma que a língua(gem) deve ser vista como viga mestra no surgimento de novas maneira de se produzir relacionamentos por meio do uso da palavra escrita, sobretudo, na manutenção de diários íntimos onde os indivíduos esboçam o registro e a reificação das memórias individuais e coletivas. Isso acontece porque

[...] nossa autoconsciência depende da posse da linguagem adequada, das palavras para dizer “eu”, devemos pensar no surgimento da subjetividade moderna não apenas como a criação de um domínio intensamente privado, mas que se tornou possível por meio de certos tipos de discurso público. (BURKE, 1993, p. 27).

Ademais, o próprio meio – ciberespaço – weblog tende a moldar a linguagem e remoldar o vocabulário, bem como coloca em destaque conceitos que levam à compreensão de que a palavra escrita no weblog é fruta da criatividade e dos jogos representacionais possíveis pelo sistema sígnicos publicamente convencionalizados na web e que são compreensíveis no universo da ciberlinguagem.
Assim sendo, os cibernautas, participantes do weblog se interessam pela

totalidade de códigos semânticos dentro de um sistema coeso; vão investigar os usos que indivíduos e grupos fazem da linguagem que lhes seja disponível; vão se preocupar com os mitos e ideologias que cercam a linguagem em geral (homo loques, o homem ou a mulher como animal) e as linguagens individuais específicas. Estarão alertados para as relações entre as linguagens e os mundos imaginados. (BURKE, 1993, p. 29).

Nesse processo, na realidade, a participação criativa na produção e publicação de informações pessoais e sociais no weblog é muito mais sério que o singelo ato de escrita, e a linguagem do consumo e da publicidade de caráter pessoal é bem mais compreendida na rede, do que em qualquer outro meio. O que realmente importa reconhecer é que por meio da palavra escrita no weblog, esta acontecendo uma revolução na maneira de se usar a linguagem como meio de exposição das intimidades.
Em verdade, o segredo desse tipo de produção escrita é a rapidez com que o interlocutor tem acesso às informações. Pois há nesse universo o hábito de se freqüentar diuturnamente as páginas – weblog – das pessoas com as quais se relacionam os cibernautas.

Assim que o hábito é criado, é difícil acabar com ele, porque o tempo é algom muito precioso hoje em dia. Eu visito milhares de blogs por ano, mas apenas um punhado diariamente. Esse “punhado” dificilmente é mudado e, se é assim comigo, também é com milhões. E de fato uma corrida para conquistar espaço na mente das pessoas, fazer parte dos hábitos do leitor da blogosfera. [...] a conversa tem valor mesmo se os autores não forem muito experientes; além disso, qual o sentido de uma reunião de debates sobre música em que não há compositores? (HEWITT, 2007, p. 19).

Reconhece-se, assim que a função primária da linguagem é a comunicação, então a noção de uma linguagem particular e até mesmo secreta é, sem dúvida, real no fazer discursivo da blogosfera. Para Burke (1997) esta forma de se usar a palavra escrita revela a relação diametral entre o privado e público, visto que há nesse contexto um sistema lingüístico velado que atua como um discurso realizado no interior do weblog. Destarte, os discursos praticados no weblog são mantidos nesse contexto sob a perspectiva de que há um segredo a ser revelado a público. “A exposição está implícita no segredo, e os segredos, especialmente quando relacionados a rituais, podem ser construídos para fins de revelação retórica.” (BURKE, 1997, p. 167).
Considera-se que a palavra escrita e a maneira como ela circulam no ciberespaço, weblog são conhecimentos de que essa língua(gem) especiais torna-se cada vez mais evidente nos dias atuais. Por isso, entende-se que o sujeito dessa linguagem é ontológico e, portanto, carrega em seu fazer discursivo sociossemioses que desloca do lugar comum a língua (gem) considerada padrão.
Dessa forma, as língua(gens) praticadas no ciberespaço, sobremodo, no chat e weblog dão conta de que, embora ainda a margem do processo lingüístico convencional, portanto, não reconhecida como atividade intelectual, tem se tornado a preferência de milhões de usuários para realizar comunicação entre aqueles que as compartilham como código.
Nesse sentido, este “código secreto” recorrente no ciberespaço – weblog e chat – tem fascinado milhões de pessoas a buscarem a conhecer as intimidades de outras pessoas, estas dispostas a publicizarem seus sentimentos na web. Mesmo assim, é interessante que se diga quão difundido na rede é a presença do cibervoyeur, ou seja, há indivíduos habituados bisbilhotar e o cotidiano das pessoas, visitando os blogs pessoais existentes na blogosfera.
Apesar disso, não se deve associar demasiadamente a forma como a palavra escrita à questão do interesse pela intimidade dos outros. Até porque os weblogs também têm apresentado outras possibilidades de comunicação, mormente, na perspectiva de entretenimento o que, é, sem dúvida, um espaço que gera “códigos secretos” da mesma maneira que outros espaços têm o fazem. “[...] isso tem ocorrido especialmente desde o final do século XVIII, quando diversos esportes foram institucionalizados, comercializados e formalizados [...] uma linguagem deturpada, do tipo falado...” (BURKE, 1997, p. 21).
Infere-se que por detrás dessa ação despretenciosa dos cibernautas ao usarem a palavra escrita no ciberespaço há uma inquietação no sentido de afirmar que existe uma nova prática de se produzir linga(gem), posto que os cibernautas, por meio do uso das tecnologias intelectuais disponíveis na web assumem diferentes posições no ato comunicativo, isso significa que usam códigos variados visando a comunicação e a interlocução com os ciberleitores.
Por isso, à medida que o individuo se relaciona seja no cotidiano real, ou no ciberespaço, ele é levado a exercer diferente papéis ao usar a língua(gem), inclusive a falar e escrever de maneiras diferentes. No chat e weblog isso fica premente quando são usadas imagens e avatares no ato comunicativo para que haja interlocução entre o enunciador e o enunciatário, posto que essa dependência é buscada no significado estabelecido em relação ao contexto e momento específicos da comunicação.
No ciberespaço esta produção criativa tem como finalidade a comunicação mais rápida e eficiente entre os iniciados. Já no que se refere à participação dos leigos nesse ato de enunciação, estes, sem dúvida terão dificuldades em se posicionar na conversação - chat, bem como na interação via escrita – weblog – visto que não domina o “código secreto”. Dessa maneira, a linguagem dos cibernautas e outros iniciados no ciberespaço não é só diferente, é particular, um meio de comunicação que o público, incluindo os possíveis interlocutores especialistas e os incautos que, certamente seria incapazes de decodificar tal ato enunciativo. “A linguagem das burocracias, em especial, tem sido criticada com freqüência como “elaborada para mistificar, para intimidar e para criar uma impressão de que a atual disposição da sociedade é imutável.” (BURKE, 1997, p.23).
Até agora foram apresentadas questões que levam ao entendimento de que aquilo que se apresentada na palavra escrita no weblog de maneira ostensiva, com certeza pode ser considerado conhecimento, bem como também pode mostrar que é uma forma de expressão de um individuo em um grupo no qual, fala para todos e todos falam para ele; na medida em que receber de volta comentários em seus textos. Logo, é recorrente a concepção de que a linguagem é um sistema simbólico, com qual lidam de modo eficiente os cibernautas na rede ao realizarem seus atos comunicativos.
Sendo, a linguagem é um sistema sociossemiótico e simbólico, e deveríamos, pelo menos, nos perguntar sobre as possíveis funções simbólicas da palavra escrita no ciberespaço. Como tal, por exemplo, pode ser empregada em forma entretenimento, brincadeira, como acontece com freqüência entre os cibernautas – crianças, adolescentes e jovens – quando a empregam em individual o coletivamente.
Nesse sentido, o uso da palavra por uma cibercomunidade é um dos meios mais potentes de inclusão e exclusão, pois ela representa e incentiva corporativismo, criando assim um sentimento de pertença naqueles que se vêem representados no ciberdiscurso realizado.
Desse modo não é por acaso

que essa forma de linguagem seja desenvolvida de maneira tão rica em instituições totais, em que habitantes sentem-se extremamente diferentes do resto do mundo – descrito por eles em um série de pitorescas expressões de desprezo tais como “civies” [paisanos], “landlubers” [marinheiro de primeira viagem], “suckers”[otários e outras. Isso sem dúvida [grifo meu] é um meio e um sinal de iniciação em uma nova comunidade, verdadeiramente uma “segunda vida” (drugie zycle),(BURKE, 1997, p. 24).

Nas cibercomunidades onde a palavra escrita é empregada de modo que cada um pode dizer o que deseja à maneira, cria-se mecanismos de interação, ou seja, de acordo com que é proposto no ciberdiscurso a língua(gem) expressa um desejo de isolamento social e psicológico e não um afastamento físico do resto da sociedade, até porque no ciberespaço a questão da espacialidade física é o que menos importa, visto que ali encontram-se sujeitos do devir em um tempo discursivo a ser realizado na interlocução síncrona e assicrona.
No plano do conteúdo semântico e pragmático da palavra escrita da mesma maneira que sua própria significação traz consigo significados simbólicos. O ciberdiscurso é carregado de figuras de linguagem, sobretudo, metáforas e eufemismos e códigos. Exemplo, “namorar” significa “ficar” que ainda não beijo na boca é conhecido na rede como “BV” – boca virgem – assim, a linguagem desse grupo social nesse contexto pode ser considerada uma forma de poder, isto é, uma maneira de se perverter o poder da língua(gem) e da comunicação dos grupos sócio-comunicativos até então instituídos.
Por outro lado, há que considere essa tipo de produção de língua(gem), considerando-a como uma língua(gem) franca, visto que esse tipo de comunicação realizada entre grupos na tensão cotidiana, isto é, ele se estabelece entre senhores e empregagos. Entretanto, no ciberespaço não é possível associar a língua(gem) realizada no chat e weblog sob essa lógica, porque todos se apresentam com as mesmas características e, por isso, não há como medir e reconhecer a classe sociocultural de cada. Destarte, faz-se necessário reconhecer que

Uma língua franca poderia muito bem dar a impressão de ser [...] elaborada pra permitir que dois grupos sociais se comunicasse entre si porque existe nessa cena enunciativa [grifo meu] algo em comum entre os dois e complementam os vernáculos nativos dos falantes. [...] essa língua desenvolve-se pela combinação de elementos dos vernáculos, caracterizando-se assim numa mistura em que sociossemioses constituem a relação da palavra escrita com o contexto em se organiza a comunicação entre sujeitos e grupos. (BURKE, 1997, p. 26).

Na resta dúvida de que há algo sedutor, excitante, inspirador e criativo a respeito do processo pelo qual a palavra escrita usada no ciberespaço chat e weblog torna-se um “código secreto e antilinguagem ” como vernáculo, ampliando seu vocabulário e suas funcionalidades semânticas e pragmáticas na web, constituindo-se de uma mistura sígnica e simbólica no sistema lingüístico contemporâneo.
Diante disso, faz-se necessário distinguir a existência de vicissitudes ocorridas no modo e no fazer lingüístico contemporâneo, os quais se constituem em “paralelos óbvios entre o processo lingüístico e outras mudanças culturais que tem ocorrido no mundo no final do século XX.” (BURKE, 1997, p. 27).
O fenômeno da escrita na web – mais precisamente, chat e weblog – às vezes é considerado como conseqüência da especialização e a competição no ciberespaço, o espraiamento de novas linguagens e a conseqüente necessidade que os cibernautas e suas cibercomunidades têm de manifestar, defendendo assim, seu sentimento de pertença ao demarcarem seus territórios virtuais e de destacarem-se em relação a seus competidores virtualmente distribuído na web.
Percebe-se nesse contexto que uma das maneiras de se garantir esse espaço está na criatividade em usar a língua(gem), isto é, recorrem os cibernautas à ininteligibilidade de suas enunciações para incluírem si e até excluir aqueles cibernautas considerados inaptos ou ameaçadores de suas realidades individuais e coletivas. Além disso, infere-se que, apesar das circunstâncias e contextos variáveis possibilitados pelo ciberespaço, há uma produção de antilinguagem na qual concentram elementos da língua formal justaposto a signos verbal, visuais e sonoros, cujos sentidos são decodificados por iniciados no ciberdiscurso da web.
A propósito do “código secreto” usado por grupos sociais na tentativa de se garantir sua legitimidade discursiva, faz-se importante destacar que, os primeiros indivíduos a fazerem uso desse artifício lingüístico-comunicativo foram os sofistas que, inclusive, foram criticados por Platão.
Numa dessas críticas Górgias foi alvo por ter sido considerado “astuto artesão do falar ” e sendo como tal “fazem, com o poder das palavras, as pequenas coisas parecerem grandes e as grandes coisas parecerem pequenas” por outro lado, Platão e Sócrates foram considerados importantes por falarem uma linguagem simples, bem como busca no cotidiano encontrar analogias da vida comum, do trabalho de parteiras e sapateiros seu vocabulário.” (BURKE, 1997, p. 35).
Nessa premissa se encontra as bases para se entender o porquê de os cibernautas atuarem e construírem sua comunicação usando a palavra escrita no weblog na perspectiva de hibridização, pois ao mesmo tempo em que rebuscam seus enunciados, usam vocabulários e signos cujo sentido denuncia a ingenuidade do discurso, isto é, há, na verdade, uma disposição em criar e circular no ciberespaço palavras e expressões novas, contrastando assim, com o ponto de vista instituído da língua(gem) formal circulante na escola e comunidades institucionais.

Referencias

BURKE, Peter; PORTER, Roy. (orgs.) Línguas e jargões: contribuição para uma história social da linguagem. São Paulo: Editora da UNESP, 1997.
______Linguagem, individuo e sociedade. São Paulo: Editora da UNESP, 1997.
HEWITT, Hugh. Blog: entenda a revolução que vai mudar o seu mundo. (trad. Alexandre Martins Morais). Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2007.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

LAN HOUSE: PERIFERIA E CENTRO IMBRICADOS

Sabe-se que a realidade comunicativa e intercultural dos sujeitos contemporâneos tem sido separada por uma linha muito tênue, ou seja, a linguagem e o espaço possibilitados pela internet, sobretudo, no que diz respeito da relação que os indivíduos tem com o seu lugar de fala e cultura e com os espaços dos outros é, sem dúvida, cada vez mais ampliado. Isso ocorre devido a presença de lan house em diversas regiões do país, sobremodo, nas periferias e rincões do Brasil, vindo dessa maneira colocar em discussão o papel de instituições até então referência no processo de formação social, política e educativos dos sujeitos que viviam a muito excluídos do mundo da informação e do saber.
Em verdade, a cibercultura é uma realidade no país e, portanto, traz consigo novas maneiras de se pensar a linguagem, a educação e as relações sociais e de lugar, posto que, já não é mais possível compreender a sociedade alijada do acesso à rede mundial, mesmo que estas esteja na periferia. Confirma-se isso no documentário periferia.com, conforme link abaixo.

http://www.youtube.com/watch?v=wkCJeYuDa98&feature=player_embedded

quarta-feira, 24 de junho de 2009

WEBLOG: ESCRITA E SOCIALIZAÇÃO DE EMOÇÕES NA REDE

Eu tenho meu diário na Rede e o torno público porque, precisamente, não tenho nada a dizer. Steven Rubio (blogueiro)
Robério Pereira Barreto©


Resumo: esta discussão articula-se acerca da questão da escrita como tecnologia intelectual usada no weblog para produção de discursos cuja linguagem é tida como construto na socialização das emoções e impressões estético-discursivas dos cibernautas participantes de cibercomunidades, que tem no weblog um espaço de ação verbal. Nesse raciocínio reconhece-se ainda a importância das tecnologias de informação e comunicação – TIC – na integração de saberes criados pelos sujeitos em seus lugares de fala e escuta na cultura local, vindo a promover a ação estético-discursiva das emoções do autor da enunciação no âmbito da internet. Por fim, apreende-se que a escrita no weblog demanda um código além do instituinte, isto é, pratica-se neste ato comunicacional o código secreto e antilinguagem do ciberespaço, contrariando assim a norma da escola.
Palavras-chave: weblog; escrita; antilinguagem; TICs.

Abstract: this argue is articulated concerning the question of the writing as used intellectual technology in weblog for production of speeches whose language is had as construct in the socialization of the emotions and participant impressions aesthetic-discursive of cibernautas agents of the cibercomunities that has in weblog a space of verbal action. In this reasoning one still recognizes the importance of the information technologies and communication - TIC - in the integration to know created for the citizens in its places of says and listening in the local culture, come to promote the aesthetic-discursive action of the emotions of the author of the articulation in the scope of the Internet. Finally, it is apprehended that the writing in weblog demand a code beyond the instituinte, that is, practices in this comunicacional act the private code and antilanguage of cyberspace, thus opposing the norm of the school.
Key-words: weblog; whiting, antilinguagem; TIC

Introdução
Como é que se articulam as intimidades no contemporâneo, as quais, por seu turno, são entremeadas por inúmeras questões simbólicas e de linguagem? Este, pois, é o inquérito que ora leva à escrita desse texto. Além de uma aparente simplificação da questão, apresenta-se a problemática que vem determinar a reflexão pretendida na discussão a seguir esboçada: A contínua utilização das tecnologias intelectuais engendradas e aportadas pela internet, sobretudo weblog, tem possibilitado a socialização das identidades dos cibernautas e a construção de redes sociais, na medida em que cada um compartilha, via escrita suas intimidades na web?
A rigor, não se quer, evidentemente, pensar em evidenciar quaisquer postulados, tampouco estatuto de originalidade sobre a questão. Ao contrário, visa-se, com isso, a interlocução com os autores que tratam da teoria do texto, destacando os estudos que define a escrita no weblog como sendo uma evolução do gênero epistolar – cartas e diários íntimos – a qual contemporaneamente é mediada pela internet.
Na perspectiva de textualidade e escrita íntima como ação recorrente na internet via weblog, toma-se de empréstimo e faz-se apropriação dos conceitos de gênero discurso e estética da criação verbal de Mikhail Bakhtin (2000); tecnologia intelectual de Pierre Lèvy (2000), tecnologia e educação de Lima Jr (2005) e dialética interna de Hetkowski (2009), pois, crê-se que a interlocução com estes autores auxiliam na compreensão do objeto proposto na medida em que se verifica cada vez mais a necessidade de se fazer ser no ciberespaço.
Para isso, os cibernautas produtores de discursos no weblog mostram-se cada vez mais dispostos a se relacionarem por meio da escrita virtual, à qual se condicionam percepções dos sujeitos diante das interfaces propostas pela internet, inclusive possibilitando a criação de máscaras sociais na medida em que se pedem perfis dos membros das cibercomunidades.
Parte-se ainda do ponto de vista de que cibernautas freqüentadores de weblogs buscam se entenderem mutuamente por meio dos discursos postados como linguagem e significados próprios àquele momento de comunicação assíncrona, isto é, o blogueiro sabe que a seu texto – comentário – somente será visto e lido depois de algum tempo, portanto, ele tem oportunidade de desabafar suas intimidades sem que haja de imediato a censura.
Esta é, sem dúvida, uma das possibilidades de comunicação ofertada pela internet a bilhões de pessoas no mundo, posto que as tecnologias de informação e comunicação, especialmente a internet, a qual trouxe ao indivíduo comum, condições de dialogar com seus pares em virtude do acesso ao computador ligado a rede mundial que, por sua vez não somente permitiu a leitura de informações, mas também de produzi-las com discursos cujos conteúdos variam de simples desabafos às questões comerciais e colaborativas.
Dessa maneira, faz sentido lembrar que nem a barreira da língua tem impedido a comunicação entre os cibernautas, uma vez que 1/3 dos cibernautas que dialoga diariamente na internet produzem seus discursos em língua inglesa. Todavia, há na própria rede uma série de ferramentas que possibilitam a tradução instantânea dos textos, levando o cibernauta à compreensão do que está sendo produzido enquanto comunicação. Além disso, há a universalização dos cibercódigos no qual registram cada vez mais signos e símbolos novos, somente reconhecidos pelos iniciados.
Tecnologia do virtual como linguagem
A contemporaneidade é caracretizada por um processo no qual o poder das tecnologias de informação e comunicação – TICs – proporcionam novos procedimentos educativos e sociais da sociedade, criando dessa maneira dois importantes sujeitos comunicativos e sociais; da linguagem: conectado e desconectado.
Nesse quadro de relações destaca-se a questão das identidades às quais são edificados elementos da linguagem no tempo e no espaço da pós-modernidade. “A pós-modernidade fala nas pessoas, cuja identidade importa pouco porque seu ser é dado pelo sistema de diferenças que cria a alteridade ou o outro:” (CHAUÍ, 2007, p. 490).
Assim, ver-se que cada vez mais a sociedade é posta em contato com novas formas de comunicação, as quais são resultantes de um processo proposicional em que as tecnologias de informação e comunicação como linguagem abrange uma série de signos fáticos cuja referenciação acontece na pragmática das interfaces expostas na tela. (TRIVINHO, 2001).
A partir disso
é necessário que professor e aluno experimentem o labirinto e a complexidade de seu trabalho na singularidade de cada organização/situação e na incerteza do aprender, conhecer e instituir novas práticas e realidades, nos contextos em que participam como parte integrante/integrado, como sujeitos históricos, de autonomia, de co-autoria e de co-responsabilidade. (LIMA JR. e HETKOWSKI, 2006, p. 41)

O processo criativo do qual ocupam um lugar de destaque as tecnologias de informação e comunicação – TICs –, quando pensadas a partir da racionalidade técnica; indo, além disso, é possível se verificar nas palavras dos autores que “as práticas pedagógicas a partir do uso crítico, colaborativo, solidário, criativo e transformativo que os educadores podem realizar mediante condições materiais e simbólicas inauguradas pelo advento das TIC e da generalização da informação e comunicação” (LIMA JR. e HETKOWSKI, 2006, p. 41).
O homem ser social e simbólico por necessidade cria ao longo de sua história, condições instrumentais para poder adentrar ao universo da linguagem e, com isso, agrega a si e os demais mecanismos que os possibilitem conviver e produzir significados via linguagem.

o ser humano desenvolve ações e atividades específicas, na forma de práticas sociais, individuais e coletivas, repercutindo na organização de instituições e de processos societários voltados para a produção da vida material humana. Por outro lado, por causa de sua entrada na linguagem, concomitantemente, produz relações, praticas e ações que visam satisfazer suas necessidades simbólicas, gerando com isso organizações, práticas, relações e instituições sociais espirituais e culturais. Neste duplo movimento, constitui a si mesmo como humano e humaniza a realidade da qual participa como parte integrante e integrada. (LIMA JR, HETKOWSKI, 2006, 31).

Na emergência da contemporaneidade houve por parte do homem a compreensão do binômio: técnica-tecnologia tomado ao rigor da existência humana, conduziu ao entendimento de que “corpo e linguagem humanas” formatam a dimensão história da humanidade, posto que os indivíduos se fazem ser do e no mundo. Portanto, ser humano é condição sine qua non para que se participe da operacionalização das tecnologias e suas linguagens visto que o homem enquanto ser criativo evolui à medida que

(...) utiliza-se de recursos materiais e imateriais, ou os cria a partir do que está disponível na natureza e no seu contexto vivencial, a fim de encontrar respostas para os problemas de seu contexto superando-os. Neste processo, o ser humano transforma a realidade da qual participa e, ao mesmo tempo, transforma a si mesmo, descobre formas de atuação e produz conhecimento sobre elas, inventam meios e produz conhecimento sobre tal processo, no qual está implicado. (LIMA JR, HETKOWSKI, 2006, 31)

Dessa maneira, a produção e utilização de mecanismos técnicos estão à capacidade do homem em se mover diante das necessidades de produzir e ressignificar os meios produtivos, pelos quais ele realiza vivências, as quais o situam no contexto sócio-técnico como cidadão ativo. Assim sendo, é interessante que o indivíduo seja exposto à construção coletiva de entendimentos dos programas educacionais, bem como suas políticas institucionais, considerando que sua inserção no processo produtivo como sujeito o leva ao entendimento de si e das novas formas de linguagem presentes na sociedade onde atua e por meio de “uma tecnologia intelectual não precisa ser efetivamente utilizada por uma maioria estatística de indivíduos para ser considerada dominante” (LÉVY, 1998, p.15). A exemplo disso, nos apresenta a escrita como tecnologia intelectual fundante à produção estético-discursiva no weblog.
Na perspectiva de que a escrita como tecnologia intelectual, faz-se lembrar que tal técnica de comunicação foi para boa parte dos franceses algo complexo até o século XIX, por eles não sabiam usá-la, pois eram analfabetos. Deste modo, escrita nesse sentido determinou o imaginário religioso, científico e político do mundo, pois através dela se inscreveu as “verdades do mundo” por aqueles que a dominavam como tecnologia.
Nesse sentido, Lévy considera a escrita uma tecnologia intelectual, a qual é resultante dos avanços da civilização, isto é, as sociedades urbanas passaram a partir de Gutenberg a ter acesso a textos e, com isso, promoveram a escrita a tal status. Antes, porém, os povos produziam e distribuíam seus saberes e conhecimentos numa espécie de rede de comunicação na qual a tecnologia intelectual presente era a fala. Não obstante à evolução das comunidades pós-industrialização; a fala e a escrita continuam seu caminho tecnológico a serviços da socialização do conhecimento.
Assim como a escrita, considera-se a internet como a mais ampla e complexa tecnologia intelectual, porque ela agrega em si, linguagens e técnicas comunicativas oriundas da oralidade e da escrita aportada pela linguagem da informática. “A informática deve ser analisada como tecnologia intelectual” (LÉVY, 1998, p. 15).
Numa concepção empírica, o filósofo francês assegura que a informática por meio dos computadores desenvolve uma linguagem que pode ser modificada e destruída ao mesmo tempo, posto que, suas significações são de certa maneira atemporais. “A informática expõe suas ferramentas: seres materiais, estruturas lógicas ou linguagens formais, pacientemente construídos. Esses instrumentos podem ser dissecados, examinados, sondados, são objetos de experiências. É essa a dimensão empírica da informática.” (LÉVY, 1998, p. 16).
Destarte, cabe ao estudioso e até mesmo ao usuário leigo considerar que, enquanto tecnologia intelectual, a informática contribui para determinar “o modo de percepção e intelecção pelo qual conhecemos os objetos. Fornecem modelos teóricos para as nossas tentativas de conceber, racionalmente, a realidade. (...) Os sistemas de processamento da informação efetuam a mediação prática de nossas interações com o universo.” (LÉVY, 1998, p. 16).
Já no que se refere à questão educacional, a informática como tecnologia intelectual tem sido, na maioria das vezes, má utilizada e, com isso, tem promovido a exclusão digital dos indivíduos, uma vez que o acesso a ela exige preparação antecipada. Em outros termos, a escola ainda não conseguiu promover a inclusão de seus agentes formadores no universo do saber em rede, o qual segundo Lévy (1998) ocorrem na perspectiva do hipertexto. “A utilização multiforme dos computadores para o ensino está se propagando na escola, na casa, na formação profissional e contínua. Essa utilização carrega em si uma redefinição da função docente e de novos modos de acesso aos conhecimentos.” (LÉVY, 1998, pp. 26-27).
É com essa perspectiva que se desenvolveu programas de inclusão digital nas escolas públicas do país, todavia não houve antecipadamente uma formação profissional dos agentes educativos que seriam os iniciadores das crianças no uso e na prática da linguagem tecno-digital da informática e, por conseguinte, o acesso à cibercultura.

Antes mesmo de influir sobre o aluno, o uso dos computadores obrigas os professores a repensar o ensino de sua disciplina. A elaboração de um programa de ensino assistido por computador (ECA) ou um software didático necessita uma clarificação e explicitação das intenções do conceptor, uma adaptação exata aos objetivos dos meios empregados, uma distinção dos gêneros de discursos (transmissão de informações positivas, comentários, conselhos, etc.). Muitas “linguagens autores” propõem aos docentes uma ajuda para elaboração de softwares didáticos. (LÉVY, 1998, p. 27).

Por isso é fundamental que os docentes estejam conectados com essa nova realidade de ensino-aprendizagem, posto que as fronteiras que dividiam os saberes estão sendo desconsideradas pelas novas linguagens das tecnologias intelectuais. Estas, por sua vez permitem aos agentes educacionais – professores e alunos – acessarem em tem real
as informações armazenadas em bancos de dados para obterem informações bibliográficas ou, diretamente, as informações procuradas fará parte, em breve, do mecanismo normal da aquisição dos conhecimentos. Os programas de ensino que requeiram um grande poder de cálculo só serão acessíveis através de redes telemáticas. As comunicações via fibra óptica autorizarão a consulta de bancos de imagens de alta definição. Percorrer as arborescências das linguagens documentais, explorar as ramificações das redes, outros tantos savoir-faire em breve indissociáveis dos aprendizados complexos. (LÉVY, 1998, p. 28).

Infere-se, assim, que há complexidades no fazer e no ser na/da escrita realizada no weblog, visto que a linguagem pretendida por esse lócus comunicacional e interativo é proposicional e solicita dos autores ações estético-discursivas pautadas no código secreto convencionamente articulado entre os sujeitos que partilham o weblog como meio de articulação individual, social e política.
Weblog: do argumento à gerência de emoções na rede
Apresenta-se a compreensão do que o weblog representa para a sociedade contemporânea; meio de produção e publicização de informações pessoais que por seu turno, associa-se, às vezes, ao individual e, por outro lado, ao social. O primeiro é nascente de uma tradição ocidental da escrita com a qual as sociedades registraram de maneira secreta suas emoções - diários íntimos -, mantendo dessa forma a questão da privacidade que até então não existia na sociedade grega, devido ser na Paidéia a melhor meio de se expressar os sentimentos individuais ao coletivo, isto é, os discursos eram àquela época públicos.
Com relação ao social, o weblog rompeu com a tradição da vida privada e põem em destaque e ao público as emoções dos indivíduos que, por necessidade psicológica de se fazer visto posta à rede seus cotidianos pessoais. Isso poderia ser compreendido como sendo uma espécie de sessão de análise pública, na qual todos se escutam e se expressam ao mesmo tempo, entretanto, esta questão não está a lume, visto que não se trata de uma abordagem psicanalítica. Porém, não se exime de reconhecer a importância que essa ancoragem teórica tem nesse contexto.
Sabe-se que na contemporaneidade há uma presença contínua das tecnologias de informação e comunicação - TICs que, segundo Lévy (2007) tem possibilitado à compreensão da chamada inteligência coletiva na qual os sujeitos interatuam inventando a linguagem quando jamais se falou, quando nenhum de seus ancestrais jamais proferiu uma frase (...).
É nesse sentido, portanto, que crer-se na idéia de que o weblog é um espaço de encontro de inteligências coletivas as quais se associam à linguagem escrita numa série de signos culturais que, distribuídos e coordenados pelos membros das cibercomunidades levam ao entendimento coletivo de que há signos, por sua vez, migrantes e mutatis mutantis; “deslizamentos vertiginosos entre as religiões e as línguas, zappings entre vozes e os contos, e bruscamente, na esquina de um corredor subterrâneo, surge à música do futuro... A Terra como uma bola sob o olho do gigante de um satélite” (LÈVY, 2007, p.16).
Em sendo o weblog uma tecnologia intelectual que se fundamenta em outra técnica, escrita; pode-se inferir que o reconhecimento de que as língua(gens) foram criadas e, convencionalmente, aceitas pelas sociedades em determinados momentos no interior de dadas comunidades. A produção da escrita no weblog é, sem dúvida, uma maneira de se repensar o conceito de público e privado, posto que o ato comunicativo per si assegure aos comunicadores possibilidades de trocas sejam elas simbólicas ou culturais.
Para Lèvy (2007) a democratização da sociedade moderna passa a evidenciar-se na medida em que os indivíduos vêem na língua a condição essencial para se realizar a comunicação social no interior das sociedades. Dessa maneira, reconhece-se que as práticas contemporâneas de comunicação realizadas por meio do weblog, são desconstruções desse processo. Isso tem ocorrido devido à capacidade e ampliação de espaços comunicativos criados pela web em escala global, deixando à mostra todas as relações que os sujeitos têm e criam com os grupos com os quais se identificam por meio da linguagem que praticam.

As línguas são feitas para a comunicação no interior de pequenas comunidades "de escala humana", e talvez para assegurar as relações entre tais grupos. Graças à escrita, vencemos uma nova etapa. Essa técnica possibilitou um acréscimo de eficácia da comunicação e da organização dos grupos humanos bem mais importante que o permitido pela fala. (LÈVY, 2007, p. 17).

Essa nova dimensão comunicativa tem permitido aos sujeitos expressarem seus sentimentos e emoções por meio de suas linguagens próprias como também a comunidades inteiras interagirem com o mundo em tempo integral. Isso para Lèvy (2007) é uma oportunidade até então ímpar, uma vez que a internet possibilitou o uso significativo das tecnologias intelectuais, sobremodo, weblog no qual a escrita ganha signos que a hibridiza, elevando, às vezes, a linguagem ao status de código secreto e, dependendo do contexto no qual se instala a comunicação inter-sujeitos-grupos, pode se chegar ao nível de antilinguagem no momento em que o diálogo é produzido de modo a contrariar todas as regras de comunicação escrita.
Destarte, o weblog como tecnologia intelectual da contemporaneidade tem permitido ao gerenciamento de emoções em rede de tal modo que “as diversas particularidades regionais, as especificidades locais, os vários dialetos, os usos e costumes, os estilos de vida e até as instâncias de gestão ou governo provinciais foram poucos esvaziados, suprimidos em prol dos Estados nacionais e de seus órgãos representativos.” (MAFFESOLI, 2004, p. 14).
Nessa lógica, outra reflexão torna-se possível: as tecnologias intelectuais autorizadas pela internet, sobremodo, a linguagem realizada no weblog por meio da escrita como código secreto: antilinguagem pode levar a uma nova maneira de se fazer a educação lingüística na contemporaneidade? Em outras palavras, há nessa perspectiva um “ideal democrático” Arendt (2008) com o qual as relações sociais na rede se estabelecem a ponto de levar o sujeito da linguagem à antologia do ser a partir da projeção de sentidos e significados individuais e coletivos possíveis pela estrutura tecnológica da web?
Nesse mister pondera Maffesoli (2004): A razão abstrata da estrutura tecnológica, que pretende, de fora para dentro, preencher as carências do individuo, corrigir os defeitos sociais, em suma, aperfeiçoar o que ainda existe de inacabado na natureza humana. (MAFFESOLI, 2004, p. 20).
Em verdade, a incompletude dos indivíduos os leva à socialização de suas inteligências coletivas e, com isso, estabelece-se uma ética com qual se pretende vivenciar uma série de acontecimentos nos quais as comunidades se auto-representam na web.

Quanto melhor os grupos humanos conseguem se constituir em coletivos inteligentes, em sujeitos cognitivos, abertos, capazes de iniciativa, de imaginação e de reação rápidas, melhor asseguram seu sucesso no ambiente altamente competitivo que é o nosso. Nossa relação material com o mundo se mantém por meio de uma formidável infra-estrutura epistêmica e de software: instituições de educação e formação, circuitos de comunicação, tecnologias intelectuais com apoio digital, atualização e difusão contínua dos savoir-faire... Tudo repousa, a longo prazo, na flexibilidade e vitalidade de nossas redes de produção, comércio e troca de saberes. (LÈVY, 2007, 19).

Desse ponto de vista, o weblog torna-se uma realidade enquanto ferramenta de comunicação na rede e, portanto, tem demandado linguagem própria utilizando como técnica a escrita meio de divulgação de informações e saberes na rede. Por outro lado, é fundante a compreensão de que a interação verbal suscitada no weblog ocorre de maneira assíncrona, isto é, se postam informações e, depois de algum tempo, os interlocutores postam seus comentários na rede.
Atividade estético-discursiva no weblog
Importa dizer que a relação entre o autor e o texto proposta pela dinâmica da internet se inscreve numa arqueologia da demanda e ação diligente contínua dos agentes discursivos que promovem a interação verbal, estética e discursiva, usando a tecnologia intelectual; escrita como mecanismo de ação.
Para Bakhtin (2000) a afinidade do autor com o lócus discursivo, tal como se registra na arquitetura comunicacional da internet e em sua vivacidade, precisa ser vista tanto do ponto sistêmico da relação hierárquica na qual as individualidades se revestem de autoridade do que diz.
O autor, desse ponto de vista é de certa maneira monitorado pela audiência à medida que ela [audiência] coloca em plano associativo os sentidos existentes no discurso.

[...] um autor modifica todas as particularidades de um discurso [grifo meu], seu traços característicos, os episódios de sua vida, seus atos, pensamentos, sentimentos, do mesmo modo que na vida, reagimos com juízo de valor a todas as manifestações daqueles que nos rodeiam: na vida, todavia, nossas reações são díspares, são reações a manifestações isoladas e não ao todo do homem, e mesmo quando o determinamos enquanto todo, definindo-o como bom, mau, egoísta, etc., expressamos unicamente a posição que adotamos a respeito dela na prática cotidiana, e esse juízo o determina menos do que traduz o que esperamos dele; ou então se tratará apenas de uma impressão aleatória produzida por esse todo ou, enfim, de uma má generalização empírica. (BAKHTIN, 2000, p, 25)

É nesse confronto entre o individual e coletivo em que se ancora a existência do autor da linguagem no weblog, pois à medida que ele se pronuncia deixa vir à tona questões de sua personalidade e também de seu fazer na comunidade onde atua.
Dessa maneira, a comunicação via weblog tem em sua base um autor que cria e socializa as manifestações isoladas de si, bem como dos demais em busca de reações que podem vir em tempo real ou no devir do espaço. Na verdade, esse autor é visto pelos membros da comunidade como uma espécie de herói contemporâneo, pois consegue expressar-se a maneira que todos o compreendam, mesmo que este às vezes cometa desvios e, assim, constrói um código secreto, vindo a ser uma antilinguagem àqueles que não conhecem o espaço ou que não dominam a linguagem realizada pelo grupo.
Nesse contexto, Bakhtin (2000) reconhece a autoridade do autor no ato de interação verbal, quando este se posiciona à pratica de uma atividade estético-discursiva perpassada por

[...] reação global ao todo herói cujas manifestações isoladas adquirem importância no interior do conjunto constituído por esse todo, na qualidade de componentes desse todo. Essa reação a um todo é precisamente específica da reação estética que reúne o que a postura ético-cognitiva determina e julga e lhe assegura o acabamento em forma de um todo concreto-visual que é também um todo significante. (BAKHTIN, 2000, p. 26).

Ver-se que esta ação postulado por Bakhtin é recorrente na intercomunicação no weblog, uma vez que os cibernautas desse espaço concretizam-se como sujeitos da enunciação estético-discursiva pautando-se nas sociossemioses possibilitadas pelo meio. Isto é, reconhece-se que a atividade estético-discursiva realizada no weblog passa pelo reino do aleatório que, por seu turno determina a ação dos sujeitos envolvidos no processo de enunciação.
Como em todo processo de criação estético-discursivo – literário, jornalístico, comunicativo – o autor no weblog não só é proativo quanto reativo às criações aleatórias que o fazem afastar-se de si e dos membros da cibercomunidade onde virtual reside, quando passa a considerar várias semioses:
[...] muitos disfarces, mascaras aleatórias, gestos falsos, atos inesperados que dependem das reações emotivo-volitivas do autor; este terá de abrir um caminho através do caos dessas reações para desembocar em sua autêntica postura de valores e para que o rosto da personagem se estabilize, pro fim, em um todo necessário. (BAKHTIN, 2000, p. 26).

Com esse ato intuitivo e criativo a linguagem no weblog é posta em destaque, isto é, cada indivíduo ao se pronunciar via ciberespaço põe a lume seu modo de ser e fazer, entretanto, às vezes não ver sua criação estético-discursiva, sendo objeto de compreensão no instante que a produz, ficando assim, à espera de interlocução a qual pode vir a posteriori.
No que se refere aos sentidos presentes nesse ato, Bakhtin considera que não há ideal de sentido proposto apenas numa ação estético-discursiva isolada, ao contrário, o autor em suas “confissões sobre a sua obra ou no que formular sobre o processo de seu ato criador” (BAKHTIN, 2000, p. 27), pressupõe-se ainda que o dizer de um autor vá além do considerado, ou seja, ao refletir a respeito de sua posição no ato enunciativo eivado de proposições emotivo-evolutivas de seu ser e não só de sua pratica lingüística no ciberespaço, concretiza-se enquanto ser da criação estético-discursiva no weblog. “[...] autor cria, mas não vê sua criação em nenhum outro lugar a não ser no objeto ao qual deu uma forma; em outras palavras, ele só vê o produto em devir em seu ato criador e não o processo psicológico interno que preside a esse ato” (BAKHTIN, 2000, p. 27).
Acontece, por certo, que no ciberespaço é recursivo o autor converter seu discurso individual em ação estético-discursiva à qual atribui perspectiva ética, social e política com o objetivo de fazê-la verdadeira, fundindo-a no princípio estético da relação com o qual os sujeitos alijados do processo social sejam reconhecidos como seres importantes. Assim sendo, o autor com sua maneira de ser pessoa cujo aspecto físico, contexto de vida promove uma visão de mundo que lhe são próprias na representação realizada por meio da atividade estético-discursivo possível no espaço comunicacional do weblog. Onde “[...] a propagação de uma idéia é substituída pelo que denominamos uma encarnação do sentido daquilo que existe” (BAKHTIN, 2000, p. 30).
Dessa maneira, infere-se que os sentidos atribuídos à produção estético-discursiva realizada no weblog é uma forma com a qual os cibernautas lidam diariamente com suas angústias individuais e, coletivamente, as socializam na rede por meio de uma sociossemiose em que pesa o fazer secreto e ou antilinguagem recorrente na enunciação dos autores.
Considerações temporárias
Diante da perspectiva apresentada e discutida nesse texto junto com as apropriações feitas dos autores e estudiosos citados, chega-se a compreensão temporária de que o weblog substanciado pelas tecnologias de informação e comunicação – TICs – , sendo estas entendidas como linguagem, possibilita cada vez mais a socialização de emoções e sentimentos por meio de uma escrita pautada na revelação das intimidades de seus autores.
Por outro lado, distingui-se o fato de que as tecnologias intelectuais perpassadas pelas sociossemioses do ciberespaço criam pontos de significância entre o dito e o pretendido do cibernauta, criando assim, uma atividade enunciativa em que discurso e autoria se imbricam de tal modo que nem sempre é possível situá-lo no plano da linguagem, ou seja, o ser da linguagem e da tecnologia intelectual é ontológico em essência estético-discursiva.

Referências
BAKHTIN, Makhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Hucitec, 2000.
LÈVY, Pierre. As tecnologias da inteligência. Trad. de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed 34, 1993.
______ O que é virtual. Rio de Janeiro: Ed 34, 1996
LIMA JR. Arnaud Soares de. A escola no contexto das tecnologias de comunicação e informação: do dialético ao virtual. Salvador: EDUNEB, 2007.
______ Tecnologias inteligentes e educação: currículo hipertextual. Rio de Janeiro: Quartet, 2005.
LIMA JR. Arnaud Soares de; HETKOWSKI, Tânia Maria. Educação e contemporaneidade: desafios para a pesquisa e a pós-graduação. Rio de Janeiro: Quartet, 2006.
MAFFESOLI, Michel. A contemplação do mundo. Tradução de Francisco Franke Settineri. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1995.
______. Notas sobre a pós-modernidade: O lugar faz o elo. Rio de Janeiro: 2004.
______. Sobre o nomadismo: vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro: Record, 2001.

domingo, 21 de junho de 2009

WEBLOG: DO ARGUMENTO AO GERENCIAMENTO DE EMOÇÕES NA REDE

Apresenta-se aqui de maneira breve uma compreensão do que o weblog representa para a sociedade contemporânea; meio de produção e publicização de informações pessoais que por seu turno, associa-se, às vezes, ao individual e, por outro lado, ao social. O primeiro é nascente de uma tradição ocidental da escrita com a qual as sociedades registraram de maneira secreta suas emoções - diários íntimos -, mantendo dessa forma a questão da privacidade que até então não existia devido a sociedade grega ter na paidéia a melhor maneira de conviver na sociedade grega, isto é, os discursos eram portanto, públicos.
Com relação ao social, o weblog rompeu com a tradição da vida privada e põe em destaque e ao público as emoções dos individuos que, por necessidade psicológica de se fazer visto, posta à rede seus cotidianos pessoais. Isso poderia ser compreendido como sendo uma espécie de sessão de análise pública, na qual todos se escutam e se expressão ao mesmo tempo, entrentanto, esta questão não está a lume, visto que não se trata de uma abordagem psicoanalítica. Porém, não se exime de reconhecer a importância que essa ancoragem teórica tem nesse contexto.
Sabe-se que na contemporaneidade há uma presença contínua das tecnologias de informação e comunicação - TIC que, segundo Lévy(2007) tem possibilitado à compreensão da chamada inteligencia coletiva na qual sujeitos interatuam, inventando a linguagem quando jamais se falou, quando nenhum de seus ancestrais jamais proferiu uma frase (...).
É nesse sentido, portanto, que se cre na idéia de que o weblog é um espaço de encontro de inteligências coletivas as quais associam-se à linguagem escrita uma série de signos culturais que, distribuidos e coordenados pelos membros das cibercomunidades levam ao entendimento coletivo de que há signos, por sua vez, migrantes e mutantis; deslizamentos vertiginosos entre as religiões e as línguas, zappings entre vozes e os contos, e bruscamente, na esquina de um corredor subterrâneo, surge a música do futuro... A Terra como um bola sob o olho do gigante de um satélite.(LÈVY, 2007, p.16).
Em sendo o weblog uma tecnologia intelectual que se fundamenta em outra técnica, escrita; pode-se inferir que o reconhecimento de que as língua(gens) foram criadas e convencionalmente aceitas pelas sociedades em determinados momentos no interior de dadas comunidades, a produção da escrita no weblog é, sem dúvida, uma maneira de se repensar o conceito de público e privado, posto que o ato comunicativo per si assegura aos comunicadores possibilidades de tracas, sejam elas simbólicas ou culturais.
Lèvy (2007) a democratização da sociedade moderna passa a evidenciar à medida que os individuos veem na língua a condição essencial para se realizar a comunicação social no interior das sociedades. Dessa maneira, reconhece-se que as práticas contemporaneas de comunicação realizadas via weblog é desconstrução desse processo. Isso tem ocorrido devido a capacidade e ampliação de espaços comunicativos criados pela web em escala glocal, deixando à mostra de todos as relações que os sujeitos tem e criam com os grupos com os quais se identificam por meio da lingaugem que praticam.
As línguas são feitas para a comunicação no interior de pequenas comunidades "de escala humana", e talvez para assegurar as relações entre tais grupos. Graças à escrita, vencemos uma nova etapa. Essa técnica possibilitou um acréscimo de eficácia da comunicação e da organização dos grupos humanos bem mais importante que o permitido pela fala. (LÈVY, 2007, p. 17).Ilustra-se essa discussão com o pensamento de Gilberto Gil realizado na música Pela Internet. Boa reflexão sobre a importância da internet e sua lingaugem no contemporâneo.


segunda-feira, 15 de junho de 2009

IMENSIDÃO...

Hoje meu peito chorou
Quando acordou e sentiu
Falta de nosso amor.

Triste e com vontade de você
Recolheu-se na tortura de estar só
Na cama do tamanho da imensidão do mundo.

Perdido em si tal folha solta ao vento
Ao ser é separada de seu galho fonte,
Meu coração agora só, sente sua falta
Como a última flor resistindo ao
Gélido frio do monte imensidão, Saudades.

15 de junho de 2009, 10h51
Robério Pereira Barreto

quarta-feira, 10 de junho de 2009

DE ONDE VEM...

Espalhando dores pelo universo
de minha alma, o vento chega
devagarinho como alguém que
quer ficar, mas deixa seu querer.

Na sua voz espalhando gemidos pelo ar
machuga o coração como a onda do mar
que espreme sem piedade a areia...


DIA DA LÍNGUA PORTUGUESA

Comemora-se hoje, 10 de junho, o dia da Língua Portuguesa e, assim, estamos vivendo um momento interessante; depois de muitos anos de confusão e luta, aprova-se a legislação sobre a nova ortografia, a qual "faria" a unificação da escrita nos países lusófanos. Certamente, Camões não aprovaria tal questão posto que seu pensamento era manter a ordem da língua portuguesa - Portugual -. Para comemora esse dia, segue abaixo o link ao qual podem ter acesso a um vídeo que, de maneira bem humorada fazer uma reflexão sobre a obra Os lusíadas.

Bom filme. rsrsrs

domingo, 31 de maio de 2009

ECLOSÃO DE...

No caminho do amor
Há sempre espinhos
Nos galhos que sustentam
A beleza da flor.

Assim, amar é passear
Entre os espinhos que antecipa
Desabrochar perfumado de corações
Que, tal as flores protegidas pelos espigões
Das dores do caminho;
Superam o perigo
E eclode na harmonia da manhã.


31 de maio de 2009, 21h 54

Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 29 de maio de 2009

CHEIRO DE SAUDADE

A saudade de Ti é tanta que me faz viver
Na ambigüidade de mim mesmo:
Quando te tenho nos braços
Flutuo no teu querer
E, agora longe, de saudades
O coração dispara, falto morrer.

Seu olhar e riso sutis me são
Agora caros a distância de Ti,
Seu corpo esculpido no mais
Raro metal brilha na minha
Memória e cega-me de tesão.

No seu cheiro espalhado pelo ar
Lateja o peito a ponto de não mais
Sem senti-lo respirar.

30 de maio de 2009, 9h47min.

Robério Pereira Barreto

sábado, 16 de maio de 2009

CUPIDEZ

Quando sinto seu cheiro
Bate o peito em desatinado
Furor e tamanho despejo
A dor toma a alma...

Quanto sinto sua pele em mim
É como se tocasse uma chama
Ao poucos passa a me consumir
No desejo tela aqui.

Na desesperação grito seu nome
Em grave tom de dor
Em saber que poucos de faz
Longe de quem amar ambicionou.

16 de maio de 2009, 15h05min.
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 7 de maio de 2009

UM OLHAR SOBRE IRECÊ: AÇÃO DIALÓGICA DA LINGUAGEM



Robério Pereira Barreto*

Se as portas da percepção fossem límpidas, tudo apareceria ao ser humano tal como é: infinito. William Blake



Resumo: A vida, o cotidiano as artes e as ciências na perspectiva da ação dialógica não nos permitem ver que as fronteiras entre ambas são difusas, visto que o uso criativo de tecnologias no contexto contemporâneo se apresenta em “um território entrecruzado de complexas camadas genealógicas: a sensibilidade da arte, a objetividade da ciência, a complexidade das tecnologias. Tentar entender esse novo ambiente social relacionado aos efeitos das tecnologias e das artes no contexto educativo e nas nossas vidas nos leva à consciência de que a presença do virtual, da interatividade e criatividade na sociedade contemporaneidade, torna-se as interfaces em que os profissionais da educação e linguagens artísticas devem atuar no ponto de vista de se levar os estudantes uma compreensão do lugar da arte na vida individual e coletiva.

Palavras-chave: Arte, Linguagem, Ação dialógica


Introdução

Este texto parte da premissa de que a arte é um processo no qual os indivíduos se situam e deixam vir à tona seus sentimentos e concepções de si e dos outros que, como ele, divide sensações e angústias e, a partir disso se constituem seres socialmente pro ativos.
Com base nisso, buscar-se fazer uma relação entre o aporte da teoria contemporânea (Jameson, 2004); (Hutcheon, 1991); (Connor, 1996); (Santaella, 2001); Bakhtin (2000) sobre o objeto estético-discursivo, tendo na semiótica ancoragem conceitual na medida em que serão analisados textos (escultura, fotografia, arte digital, etc.) apresentados na exposição Um olhar sobre Irecê, realizada pelos estudantes do quinto semestre do curso de Pedagogia da Universidade do Estado da Bahia – UNEB – Departamento de Ciências Humanas e Tecnologias – DCHT – Campus XVI – Irecê – BA. A referida mostra foi dividida por temáticas por meio das quais foi possível fazer várias inferências. São elas: Cheiros, sabores e cores; Além do cotidiano, Cuscuz nosso de cada dia; Cores e Encantos; Contrastes; Gastronomia é Arte e Inter: venção/ação.
Com efeito, numa perspectiva dialógica procura-se discorrer sobre o “olhar” dos artistas que, voltados para suas artes captaram em imagens, cores e sabores quase que numa ação sinestésica a essência do cotidiano da cidade, pondo em destaques as estéticas que, dialogicamente, convivem no dia-a-dia por uma desventura da contemporaneidade; o homem urbano constantemente na correria não aprecia as artes da natureza (flores desabrochando em meio ao cimento) e as intervenções humanas nos espaços públicos por meio de diálogos intertextuais (uso de processos sócio-técnicos) na constituição de novas imagens e releituras do fazer habitual.
Diante disso vislumbra-se a construção de inferências a respeito de cada objeto-temática proposta na exposição artística em que arquitetura e interfaces do corpo, mente e mundo se enlaçam em diálogos com o cotidiano em direção de práticas artísticas contemporâneas basiladas na subjetividade que particulariza o ser.

A linguagem da vida e da arte como interfaces da/para educação

A vida, o cotidiano as artes e as ciências na perspectiva da ação dialógica não nos permitem ver que as fronteiras entre ambas são difusas, visto que o uso criativo de tecnologias no contexto contemporâneo se apresenta em


um território entrecruzado de complexas camadas genealógicas: a sensibilidade da arte, a objetividade da ciência, a complexidade das tecnologias. A criatividade de artistas e cientistas configura homem uma grande comunidade que, ao lado de sociedades científicas, instituições e centros de pesquisas contemporâneos, está engajada na busca de explorar características próprias de nosso cotidiano tecnologizado. (DOMINGUES, 2003, p.11).


Sabe-se que a relação entre homem, arte, vida e tecnologias é, ante de mais nada “revolução” que, marcada pelo social é propiciada pelos sentidos individuais que cada sujeito desenvolve a partir de suas referências e contato com lugar que se interpõe entre cada uma dessas categorias, o homem e a realidade. Tentar entender esse novo ambiente social relacionado aos efeitos das tecnologias e das artes no contexto educativo e nas nossas vidas nos leva à consciência de que a presença do virtual, da interatividade e criatividade na sociedade contemporaneidade torna-se as interfaces em que os profissionais da educação e linguagens artísticas devem atuar na perspectiva de se levar os estudantes uma compreensão do lugar da arte na vida individual e coletiva.
Para Domingues (2003) essa questão ocorre devido a outros modos de subjetivação que, em ações contínuas eliminam a noção de território, promovendo a inclusão social e abreviando o entendimento de diversidade cultural. Pode-se dizer ainda que esse quesito foi amplamente atendido pelas temáticas propostas na exposição Um olhar sobre Irecê na qual foram ofertadas aos espectadores múltiplas leituras dos signos que, de maneira instigante convida o leito a se embrenhar no mundo fascinante da relação arte, ciência e tecnologia.


[...] o homem contemporâneo se enriquece com os processos cognitivos experimentados nas memórias [...] de computadores embute na vida das pessoas leis matemáticas e físicas, mistura suas possibilidades às das ciências da vida com sofisticadas tecnologias ligadas à biologia modifica as comunicações e a educação. De forma muito particular, a arte com os sistemas artificiais numéricos explora campos de atividades que permitem a ampliação do campo sensível. (DOMINGUES, 2003, p.14).


Segundo Koch (2000), no plano da ação dialógica tratado acima, registra-se que na mostra em discussão foi premente a idéia de interação, posto que na concepção interacional (dialógica) da arte, na qual os sujeitos são vistos como atores/construtores sociais, o fazer artístico passa a ser considerado o próprio lugar da interação e os interlocutores, como sujeitos ativos que – dialogicamente – nele se constroem e são construídos.
No que se refere à cultura contemporânea e suas significações, sobretudo, no plano da linguagem e expressão artística, Bourdieu (1999) nos fala a respeito das trocas simbólicas, que na prática comunicativa realizada na/pela amostra em análise as linguagens artísticas se justapuseram construindo sentidos diversificados a partir dos signos propostos em cada obra de arte ali apresentada.
Bernstein (1971) ressalta a existência de diferentes tipos de linguagens determinados pelo social. De acordo essa perspectiva teórica, é a estrutura social que determina os comportamentos lingüísticos, políticos, ideológicos e artísticos do envolvidos no processo de criação, sejam eles individuais ou coletivos.
Nesse sentido, a vida em sociedade supõe um problema de intercâmbio e comunicação que se realiza fundamentalmente pela elocução, e o meio mais comum de que dispõe os artistas para tal são as interfaces presentes em suas obras e fazer artísticos. Isso configura a compreensão de que é possível verificar na ação dialógica, traços de interação na qual as linguagens da arte no contexto da exposição Um olhar sobre Irecê editaram* o ambiente, como elas também editaram o leitor, como as pessoas foram sendo sensibilizadas pela leitura dos trabalhos mostrados, numa espécie de metonímia, isto é, naquela exposição imagens, textos e esculturas sensibilizaram tanto os criadores quanto os leitores, posto que todos pudessem perceber suas indiferenças em relação ao dia-a-dia no ambiente urbano.
Existe, é certo, múltiplas questões à compreensão do fazer artístico no espaço educativo e social, de modo que ao contemplarmos uma pintura, uma montagem fotográfica, uma escultura na perspectiva heideggereana de análise da idéia que se organiza em torno da obra de arte contemporânea “emerge na fratura entre a Terra e o Mundo, ou entre o que prefiro traduzir como a ausência de sentido na materialidade do corpo e da natureza e a doação de sentido na história social.” (JAMESON, 2004, p. 34).
Para Santella (2001) no plano do visual, a arte contemporânea é constituída por elementos de linguagens híbridas e, portanto, “a apresentação das modalidades da linguagem visual deve também ser antecedida por algumas reflexões preliminares, entre as quais se destaca o estatuto de linguagem da visualidade.”(SANTAELLA, 2001, p. 185).
As concepções de linguagem proposta pela semioticista brasileira ao tratar os signos como sendo elementos promotores da representação visual nos reporta às produções artísticas feitas em Um olhar sobre Irecê, visto que “as formas visuais que são produzidas pelo ser humano e, por isso mesmo, evidentemente organizada como linguagem. (...) representação tem sido um conceito-chave da semiótica e, a partir de meados do século XX, passou também a ocupar o terreno da ciência cognitiva.”(SANTAELLA, 2001, p. 185).
Nessa concepção de linguagem é interativa, e por meio do pensamento central de Bakhtin (2001) sobre o método dialógico por ele desenvolvido pode-se compreender o papel da linguagem da arte nos espaços socialmente construídos, posto que para o pensador russo a ação dialógica da linguagem permite o entendimento de que “um objeto específico ao sair da especificidade fechada para interagir com um universo muito mais amplo de vozes, valores e conceitos, faz-se na ação dialógica da linguagem (Grifo meu)” (Bezerra, 2001, p. xi.).
Dessa maneira, o encontro de linguagens artísticas propostas pela Um olhar sobre Irecê se visto pelo espírito dialético no conduz à inferência de que há uma marcação ideológica de que o comportamento do homem contemporâneo diante de expressões artísticas esta condicionado ao social e, com isso, relaciona-se com ele a partir da estrutura de classe da sociedade a que pertence. “A ênfase ideológica abrange todos os campos do pensamento, a pertença a uma classe como fator determinante das formas de pensar e agir torna-se axioma, e tudo é definido em função da classe a que o individuo está ligado”. (BEZERRA, 2001, p. xi).
Passa-se, desse modo, ao conceito de ideologia proposto por Vygostki, quando da construção de sua psicologia de base marxista, isto é, nesse sentido, ideologia é tida como estímulos sociais estabelecidos no processo de desenvolvimento histórico e consolidados em formas de normas jurídicas, regras morais, gostos estéticos, etc. Assim segue-se o pensamento de Bakhtin (2000) de todo signo é ideológico e, portanto, ver-se nele vários elementos de caráter socialmente construídos. Na poderia ser diferente a noção de signo apresentado na exposição em estudos.

Considerações (quase) finais

À luz dessa questão, pensa-se que as linguagens propostas pela a mostra Um olhar sobre Irecê foi perpassada por vários fenômenos sociais, políticos e ideológicos, com os quais cada um dos artistas se relacionou dialeticamente com o signo Irecê, como sendo este parte de sua constituição enquanto sujeito e, portanto foram colocadas em evidências as interfaces (fotos, poemas, escultura, etc) por meio das quais se construiu representação individual e coletiva sobre a cidade.
Com efeito, ação dialógica ocorreu de maneira significativa, entretanto viu-se que as temáticas não dialogaram entre si, tampouco numa perspectiva crítica. Poder-se-ia considerar certo distanciamento dos objetos e linguagens artísticas se visto sob o aspecto teórico-metodológico, porém isso não é foco de dessa discussão, ficando apenas como o registro de um ponto de vista no qual se questiona: se sabe fazer porque não se sabe explicar o ato de fazer?
Referências

BAKHTIN, M. O Freudismo. São Paulo: Perspectiva, 2001.
CASTORINA, José A. Dialética e psicologia do desenvolvimento: o pensamento de Piaget e Vygotsky. (Trad. Fátima Murad) Porto Alegre: artmed, 2008.
CONNOR, Steven.Cultura Pós-moderna:introdução às teorias do contemporâneo. 3. ed. São Paulo: Loyola, 1993.
DOMINGUES, Diana. Arte e vida no século XXI: tecnologia, cinecia e criatividade. São Paulo: Editora Unesp, 2003.
HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-modernismo: História, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
JAMESON, F. Pós-modernidade: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 2004.
______, Modernidade singular: ensaio sobre a ontologia do presente. Rio de Janeiro: civilização Brasileira, 2005.
KERCKHOVE, Derrick de. A arquitetura da inteligência: interface do corpo, da mente e do mundo. In. DOMINGUES, Diana. Arte e vida no século XXI: tecnologia, ciência e criatividade. São Paulo: Editora Unesp, 2003, p.15.
SANTAELLA, Lúcia. Matrizes da linguagem e pensamento: Sonora, viusal, verbal. São Paulo: Iluminuras, 2001.
*Mestrando do Programa de Pós – Graduação Mestrado em Educação e Contemporaneidade, da Universidade do Estado da Bahia – Campus I – Salvador – BA, Professor de Linguagens e Educação, Literatura e Outras Artes e Significação e Contexto, do DCHT – Campus XVI – UNEB – Irecê – BA.
* Este termo é usado por apropriação – derivativa à de Derrick de Kerckhove (2003) em que o autor o emprega no sentido de construção do fato pela mídia.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

PERAMBULANDO...

Pelo infinito passeando,
O vento penetrou na alma
Pelos poros de minha face,
Correu pelas veias indo ao
Coração acariciá-lo como
Se fosse suas mãos em mim.

De volta e nos seus braços
Tranqüilizei a tal ponto
Que adormeci a esperar
De seu beijo e...


20 de abril de 2009, 22h10min.
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 16 de abril de 2009

ALVEDRIO...

Nas asas a águia carrega
O livre-arbítrio de,
Cortando o infinito,
Iguala-se a mim ao deseja-te minha
E meus pensamentos de repente
Embriagam-me com seu sabor, liberdade!

16 de abril de 2009, 18h45
Robério Pereira Barreto

quarta-feira, 15 de abril de 2009

ME DEIXAS IR...

Hoje, eu não sei aonde vou,
Mas vou a algum lugar
Onde algo me faça feliz
Enquanto for eu mesmo.

Se vires que não te completo
Nas minhas ausências;
Me deixas ir ao encontro do meu vazio
Onde simplesmente eu mesmo serei.

Caso queiras comigo vir às delicias
De viver a intensidade de compartir
Vazios, preenchimentos e quereres;
Estarei perdido no teu querer,
Caso contrário, deixas me ir à busca
De mim mesmo no vazio de meu existir.

Salvador – BA., 15 de abril de 2009, 10h15min. .
Robério Pereira Barreto

domingo, 12 de abril de 2009

PÁSCOA DOS 20 MIL

Prezados webleitores,

Compartilhos todos vocês a alegria de nesse dia - Domingo de Páscoa - comemorar 21° mês de existência desse espaço de escrita e diálogo com todos, chegando, graças à apreciação de weleitores fiéis à marca de 20.000 acessos, uma média de mais de 950 acessos mês. Isso é uma realização importante, posto que esse nosso espaço é resultado de uma ação individual a qual se traduz numa política de expansão de leitura e compreensão da necessidade de publicização variadas concepções sobre o fazer cultural, poético e acadêmico na rede. Dessa maneira resta-me agradecê-los pelos acessos e dizer-lhes estarei cada vez mais produzido idéias que possam lhes oferecer momentos de reflexão.
Vinte mil vezes obrigado e espero comerarar nossa marca do 100.000 acessos!
Robério

sexta-feira, 10 de abril de 2009

INFINITIVOS

Acordar com você é sentir
A energia do raiar do dia
Quando seu sorriso inunda
Meu ser com alegria.

Estar com você é nutrir
A alma das mais belas fantasias,
Buscando nas lembranças
A Existência na pueril vida da roça.

Descansar com você ao lado
É sonhar a infância na sombra
Fagueira da arvore que derramando
Sua suave sombra faz-nos amantes...

Ficar sem você por um instante
É se perder na escuridão da noite escura
E ficar a mercê dos gritos do trovão
E lampejar dos raios...

10 de abril de 2009, 22h
Robério Pereira Barreto

domingo, 5 de abril de 2009

UM SONHO...

um sonho... um desejo de:

Sonhar dormindo contigo
É experimentar o sublime
Caminhar ao paraíso...;

Dormir contigo é estar
Na nau do prazer a navegar
Num mar de estrela
Que, nebriando o espaço
De luz e tranqüilidade
Faz-me sentir saudades
Que embriagam-me o ser
Levando-o ao delírio...;

Ao sonhar que ouço
O sussurro do seu prazer
No deleite de meu ser
Quando encontramo-nos
Em abraços no leito do amor
É deliciar-me no delírio de...

05 de abril de 09, 16h03min.
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O LENÇO...

Num lenço de papel
Recebi seu corpo que,
Ao meu se prende
Pelo cheiro seu que eleva
Meus sentidos aos céus.

Aos céus viajo para te achar
Entre estrelas que, rompendo
As escuridões da noite me guiam
Até você e entre elas para nos amar

Caído nos seus abraços
Sinto-me rei do universo
E não quero desse sonho acordar.

03 de abril de 2009, 22h16min.Robério Pereira Barreto

sábado, 28 de março de 2009

PUERÍCIA DE AMOR

Estar em seus braços
E carinhos é sentir-me
Um menino solto ao vento...

Sentir suas mãos passeando
Em meu corpo é viver
A essência da vida
Pulsando no peito.

Ouvir seus soluços no nosso prazer
É viajar na imensidão alegre
Da manhã que em sol a pino
Faz-me pensar e te querer...

Curtir a irrisão em nosso riso
É desfrutar da meninice que,
Em se manifesta depois do amor.

28 de março de 2009, 10h32min.

Robério Pereira Barreto

domingo, 22 de março de 2009

HOBSBAWM E A "ERA DOS EXTREMOS"

Este texto é parte da leitura da obra de Eric Hobsbawm, Era dos extremos. Portanto, apresenta-se de maneira sintética e não tem caráter de novidade tampouco de originalidade, posto que muitos leitores e especialistas já me antecederam nesse processo, podendo ocorrer encontros, aproximações e intertextualidades implícitas e explícitas com os pensamentos até então desenvolvidos sobre a obra. Assim sendo, disponbiliza-se na rede mais um olhar sobre a conteporaneidade a partir Hobsbawm.
HOBSBAWM[X1] [X2] [X3] [X4] [X5] , Eric. A Era dos Extremos: o breve século XX. São Paulo, Companhia das Letras, 1995. 598 p.

A era dos extremos de Eric Hobsbawm é composto pelos elementos pré-textuais: prefácio-agradecimentos e introdução intitulada O século: vista[X6] aérea[X7] , e está dividido em três grandes partes, sendo que, na primeira Hobsbawm denomina de A era da catástrofe, discorrendo de maneira articulada os acontecimentos bélicos ocorridos no Europa; a segunda parte, A era de ouro na qual estão narrados as ocorrências sócio-históricas desde a Guerra Fria até o “socialismo real” e na última parte está O desmoronamento, iniciado pela discussão de “As década de crise” que, segundo o historiador egípcio[X8] , está situada entre 1973 a 1993 “A história dos vinte anos após 1973 é a de um mundo que perdeu suas referencias e resvalou para a instabilidade e a crise.” (Hobsbawm, 1995, p. 393).
Com isso, Hobsbawm nos apresenta um mundo divido em momentos importantes para a humanidade, pois ressalta na primeira parte, em visão panorâmica, as catástrofes ocorridas no século. Nesse sentido, ele traz à baila os movimentos que transformaram a história ocidental no século XX[X9] , dizendo:
acumulei opiniões e preconceitos sobre a época, mais como contemporâneo que como estudioso (...) Acho que é possível ver o Breve Século XX – de 1914 até o fim da era soviética – dentro de uma certa perspectiva histórica, mas chego a ele desconhecendo a literatura acadêmica, para não dizer que desconheço quase todas as fontes primarias acumuladas pelo grande número de historiadores do século XX. (...) o máximo que consegui foi mergulhar na literatura das questões mais espinhosas. (Hobsbawm, 1995, p.7)
Dessa forma, mérito do livro da Hobsbawm[X10] é de nos informar sobre os flagelos sofridos pela humanidade no século passado, sendo testemunha ocular[X11] do tamanho da catástrofe que foi o século XX para homem o contemporâneo. Pode-se inferir nisso que houve grandes desgraças: mortandades gigantescas, sem equiparação possível com qualquer período histórico anterior; desvalorização do indivíduo, posto que ao homem foram negados todos os direitos humanos e civis, conquistados às duras lutas durante o ‘longo século’ precedente: 1789-1914.
Na obra, a catástrofe[X12] é intensa porque o período histórico anterior se marcou em todas as mentes como o século que colocaria a idéia do progresso como inevitabilidade, não só em termos materiais, mas também em relação ao avanço das liberdades, apesar das monarquias e das forças conservadoras, que resistiam intensamente desde a Revolução Francesa. Pergunta-se: como e por que a humanidade mundial pode regredir tanto na escala da civilização, tendo passado por uma vitória tão importante para as forças progressistas, a exemplo da Revolução Russa de 1917? O autor, de fato não pretendia mesmo responder a tudo isso, cabendo ao leitor fazer essas e outras perguntas mais cortantes.
O ano de 1917, explica Hobsbawm, pretendia ser o início da revolução mundial. E, desse modo, foi visto por milhões de pessoas, mesmo em países longínquos. Apesar disso, o autor acha que o mundo não estava maduro para uma revolução proletária naquele momento. É possível que seja uma suposição válida; e não é fácil provar o contrário. Mas cabe perguntar mais uma vez: será que algum dia haverá uma revolução que atinja imediatamente os principais países do mundo? Talvez o problema a resolver não seja por que a Revolução de 1917 não se espalhou imediatamente pelo mundo, mas antes por que a chamada revolução proletária pôde ser tão rapidamente submergida por uma vaga reacionária mundial. Hobsbawm mostra detalhadamente ser mais ampla que os movimentos baseados explicitamente no modelo italiano ou alemão de fascismo.
No fim do século, pela primeira vez, tornou-se possível ver como pode ser um mundo em que o passado, inclusive o passado no presente, perdeu seu papel, em que velhos mapas e cartas que guiavam os seres humanos pela vida individual e coletivo não mais representam a paisagem na qual nos movemos, o mar em que navegamos. Em que não sabemos aonde nos leva, ou mesmo aonde levar-nos, nossa viagem. (Hobsbawm, 1995, p. 25).
Em Rumo ao milênio capítulo final, Hobsbawm inicia a discussão afirmando que “O Breve Século XX” acabou em problemas para os quais ninguém tinha, nem dizia ter soluções. Enquanto tateavam o caminho para o terceiro milênio em meio ao nevoeiro global que os cercava, os cidadãos do fin-de-siècle só sublima ao certo que acabara uma era da história. E muito pouco mais[X13] .” (Hobsbawm, 1995, p. 537).
Em todo o caso, verificou-se concretamente que nesse período foram surgindo problemas sociais que elevaram os estados até então pequenos descobrirem-se importante, posto que, aquele momento era sem qualquer recurso para se independentes para deliberar sobre suas fronteiras, permanecendo, assim abandonados pelas grandes potencias. ficaram isolados e encurralados numa revolução nacional, cuja preocupação passou a ser logo a simples sobrevivência. Fato consumado[X14] . Nessa fase é que foram concedidas, sem conflito, as independências da Finlândia, da Polônia e dos Estados Bálticos, todos anteriormente províncias do Império Russo. Nenhum desses novos países declarou-se socialista.
“A democratização dos meios de destruição elevou de maneira bastante impressionante os custos da manutenção da violência não oficial sob controle. Assim, o governo britânico, diante de forças combatentes de fato de não mais de algumas centenas entre os paramilitares católicos e protestantes da Irlanda do Norte, mantinha sua presença na província com a permanência constante de 20 mil soldados treinados, 8 mil policiais armados e uma despesa de 3 bilhões de libras por ano.” (Hobsbawm, 1995, p. 540).
“A ascensão do fundamentalismo islâmico foi visivelmente um movimento não apenas contra a ideologia de modernização pela ocidentalização, mas contra o próprio Ocidente[X15] . Não por acaso os ativistas desses movimentos perseguem seus fins perturbando turistas ocidentais, como no Egito, ou assassinando moradores ocidentais em números substanciais, como na Argélia.”(Hobsbawm, 1995, p. 540).
“O século acabou em uma desordem global cuja natureza não estava clara, e sem um mecanismo óbvio para acabar com ela ou mantê-la sob controle[X16] . (Hobsbawm, 1995, p. 541).
“O Breve Século XX foi uma era de guerras religiosas, embora os mais militantes e sanguinários de seus religiosos bebessem nas ideologias seculares da safra do século XIX, como o socialismo e o nacionalismo, cujos equivalentes divinos ou eram abstrações ou políticos venerados como divindades[X17] .” (Hobsbawm, 1995, p. 541).
“Contudo, é bem possível que o debate que contrapôs capitalismo e socialismo como pólos opostos mutuamente excludente seja visto por gerações futuras como uma relíquia das Guerras Frias de Religião ideológicas do século XX. Pode revelar-se tão sem importância para o terceiro milênio quanto mostrou ser nos séculos XVIII e XVII sobre o que constituía o verdadeiro cristianismo.” (Hobsbawm, 1995, p. 543[X18] ).
“As Décadas de Crise demonstraram as limitações das várias políticas da Era de Ouro, mas sem – ainda – gerar alternativas convincentes. Também revelaram as imprevisíveis mas impressionantes conseqüências sociais e culturais da era de revolução econômica mundial desde 1945, além de suas conseqüências ecológicas potencialmente catastróficas. Em suma revelaram que as instituições humanas coletivas haviam perdido o controle das conseqüências coletivas da ação humana. Na verdade, uma das atrações intelectuais que ajudaram a explicar a breve voga da utopia neoliberal era precisamente que pretendia contornar as decisões humanas coletivas. Que cada indivíduo buscasse sua satisfação sem restrições humanas, e, qualquer que fosse o resultado, seria o melhor que se podia alcançar. Qualquer curso alternativo, argumentava-se implausivelmente, era pior.” (Hobsbawm, 1995, p. 543[X19] ).
Da década de 60 em diante, como vimos, precipitou-se o declínio do catolicismo romano. Mesmo nos países ex-comunistas, onde a Igreja gozava da vantagem de simbolizar a oposição a regimes profundamente impopulares, as ovelhas pós-comunistas mostraram a mesma tendência a desgarrar-se de seu pastor que em outras partes. (Hobsbawm, 1995, p. 544[X20] ).
(...) quão extraordinariamente pobre tem sido a compreensão de homens e mulheres que tomaram as grandes decisões públicas do século; pode dizer-nos quão pouca coisa do que aconteceu foi esperada, sobretudo na segunda metade do século, e menos ainda por eles prevista. Pode confirmar o que muitos sempre suspeitaram, que a história – entre muitas coisas, e mais importantes – é o registro dos crimes e loucuras da humanidade. Profetizar não ajuda nada. (Hobsbawm, 1995, p. 561).
Vivemos num mundo conquistado, desenraizado e transformado pelo titânico processo econômico e tecnocientífico[X21] do desenvolvimento do capitalismo, que dominou os dois ou três últimos séculos. (...) O futuro não pode ser uma continuação do passado, e há sinais, tanto externamente quanto internamente, de que chegamos a um ponto de crise histórica. As forças geradas pela economia tecnocientífica são agora suficientemente grandes para destruir o meio ambiente, ou seja, as fundações materiais da vida humana. Nosso século corre o risco de explosão e implosão. Tem de mudar. (Hobsbawm, 1995, p. 562[X22] ).

[X1]Segundo a professora Luciene, esse texto tem peculiaridades, posto que ele determina o lugares em que se situam os elementos fundantes da contemporaneidade: crise do humano. Advertências: O entendimento deve estar situado em sua época. Com isso, evita-se a assim a anacronia.

[X2]O “Quarto Estado” a partir de uma concepção do novo lugar em que o homem se posiciona fora dos lugares, ainda não localizado pelos sujeitos contemporâneos.

[X3]O mundo precisa mudar porque pode explodir devido ao caos instalado pela na humanidade.

[X4]Indicadores de referência do texto. Século XIX; breve Século XX.
a) II Guerras;
b) Nacisismo - Facismo
c) Revolução Russa
d) Deprssão econômica
e) O fim dos Impérios
f) Guerra Fria
g) Prosperidade do capitalismo 1950
h) Crise da classe operária
i) Migração e diversidade étnica
j) Inserção da mulher na educação superior
k) Revolução cultural: feminismo - renovação do conceito de familia
l) O movimento de 68 - desmoronamento
m) Desconstrução do conceito corpo - revolução - amor (texturas sociais
n) Explosão militar
o) Socialismo real
p) Cuba e sua resitência..
q) o fim do socialismo
r) a tecnologia usurpando a arte
s) rótulo do pós-moderna na década de 1980
t) tecnologização da ciência e Ciência da tecnologia
u) crise da ciência - verdade absoluta
v) a questão ecológica
w) enfraquecimento dos partidos políticos
x) fortalecimento da mídias

[X5]Hobsbawm reconhece sua dívida com o marxismo. Dizendo que o que lhe interessa é a história analítica. A história se faz como síntese dos fatos contemporâneos.

[X6]Uma fala construção da polaridade e, portanto, não fazer diferença para o neoliberalismo, posto que os economistas que fizeram previsões eram todas sendo assim descartáveis.

[X7]De toda forma, não é provável que uma pessoa que tenha vivido este século extraordinário se abstenha de julgar. O difícil é compreender. (Hobsbawm, 1995, 15).

[X8]Hobsbawm é, segundo alguns autores dos estudos culturais, uma pensador da diáspora. Com isso seu olhar é de narrador onisciente, uma vez que conviveu no e com os movimentos sociais e políticos do século XX.

[X9]Para o historiador italiano esse momento é uma constante renovação dos conhecimentos dentro de uma liberalidade.

[X10]Apresenta-se como uma memorialista que determina pontos para a compreensão do mundo no contemporâneo.

[X11]Para qualquer pessoa de minha idade que tenha vivido todo o Breve Século XX ou a maior parte dele, isso é também, inevitavelmente, uma empresa autobiográfica. Trata-se de comentar, ampliar (e corrigir) nossas próprias memórias. E falamos como homens e mulheres de determinado tempo e lugar, envolvidos de diversas maneiras em sua história como atores de seus dramas — por mais insignificantes que sejam nossos papéis —, como observadores de nossa época e, igualmente, como pessoas cujas opiniões sobre o século foram formadas pelo que viemos a considerar acontecimentos cruciais. Somos parte deste século. Ele é parte de nós. Que não o esqueçam os leitores que pertencem a outra era, por exemplo os estudantes que estão ingressando na universidade no momento em que escrevo e para quem até a Guerra do Vietnã é pré-história. Hobsbawm, 1995, p. 13.

[X12]Para Elio Gaspari o século XX apresentado por Hobsbawm é o século da matança, uma vez que nele se matou mais do que em qualquer outro tempo da historia mundial. Todavia, isso de algum modo conduziu o homem no século XX na Era de ouro – 1949 a 1973 a uma questão maior: nunca se matou tantas pessoas nesse espaço-tempo, bem como nunca se viu tanta sensação de bem-estar e a transformações jamais vistas nas experiências humanas.

[X13]Pode-se entender com isso que, a última década do século tornara-se uma nuvem nebulosa e, portanto, não se saberia o que aconteceria, posto que se tinha chegado a ela com todos os movimentos sociais, políticos e ideológicos esfacelados.

[X14]Mas o problema aqui é que Hobsbawm faz uma ligação direta entre a sobrevivência da Revolução Russa e a sobrevivência de uma unidade política abrangendo todo o antigo Império Russo. Essa ligação só teria sentido na perspectiva de uma "revolução socialista num só país", caso em que o tamanho do país é uma questão vital. Hobsbawm, porém, parece não acreditar na viabilidade da revolução socialista só na Rússia. Então seria o caso de fazer a distinção necessária: revolução mundial e sobrevivência da unidade do Império ex-czarista eram coisas diferentes e mesmo contrárias. Aliás, o governo bolchevique, em sua primeira fase, não pretendia impor-se sobre todo o ex-Império.

[X15]Isso pode se visto com maior ênfase no filme Babel de Alejandro Carpetier.

[X16]Nessa desordem foram se instalando ideologias e fundamentalismos que, sustentados pela fragilidade das nações, constituíram impérios destrutivos e, assim vieram a realizar sonhos. Exemplo disso, O 11 de setembro de 2001.

[X17]Pode-se dizer que o autor evidencia em toda obra o processo bélico pelo qual o passou a humanidade nesse pouco mais de 70 anos.

[X18]É interessante notar que o autor trabalha o tempo todo com dicotomias clássicas, Capitalismo x Socialismo, Bem X Mal, Judeu X Cristão.

[X19]Nesse sentido, o historiador apresenta elementos basilares para a compreensão do que viria a ser a vida na atualidade, sobretudo no que diz as questões ecológicas.

[X20]Nesse sentido viu-se crescer de forma ordena a presença de Igrejas protestantes, inclusive no Brasil isso se tornou uma prática, dando a uma delas o status de empresa. Exemplo disso é a IURD, que incorporando ao seu patrimônio religioso meios de comunicação tornou-se um império.

[X21]Pode se verificar isso nos filmes de Sci-fi, nos quais não se pensa em futuro, dando à sociedade oportunidade de se perceber na efemeridade das identidades, construído assim , aquilo que Bauman (2006) chama de liquidez do homem e sociedade contemporâneas a partir de uma ética pós-moderna, efemeridade do ser.

[X22]O fracasso da humanidade a levará ao pagamento de um preço altíssimo: a escuridão.