sábado, 28 de fevereiro de 2009

FRAQUEZA

O coração abraça a dor
Como se a protegesse
Com seu pulsar e calor.

Angustiado, a expiação
Toma conta da alma
E a cada pulsar do peito,
Uma afiada faca ferre a palma
Do meu ser miúdo...

Confuso como o sol que se perde
Entre a imensidão do céu
E a pequenez da terra;
Em crepúsculo sozinho,
Sofro na impotência de minha
Pequenez humana;
Sou humano e choro!

28 de fevereiro de 2009, 23h02min.
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

NO HORIZONTE


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

FADO

Tornas ti só minha
Ó dor solidão por que,
Sozinho estou mitigando
Ao vento compaixão.

À alma que, dilacerada
Pelo capricho do destino
Vê esvair-se entre os dedos
As alegrias de menino
Que, a pensar no futuro
Brincava com bola de sabão.

26 de fevereiro de 2009, 23h37minRobério Pereira Barreto

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

VOLÚVEL CHAMA

A vida não é romance
Que se ler do começo para fim
Mas capítulos que se abrem
Como as manhãs; às vezes cinzas
Outras lindas aquarelas.

A vida é luz de vela que,
Em sua fragilidade ilumina
A imensidão escura.

Agora, quando posta ao relento
Torna-se indefesa e qualquer brisa;
A derrota ela se paga!

O que é a vida?
Para quem é a vida?
Se é tão simples ser perdida!

25 de fevereiro de 2009, 22h13min.
Robério Pereira Barreto

sábado, 21 de fevereiro de 2009

SOZINHO CHORO

Quando choro, desafogo
A alma da dor que o fogo
Consome a como o faz
Com a folha seca...

Minhas lágrimas são
Meu ser derretendo
Diante de uma dor confusa
E solitária que me corrói
Na solidão da perda.

Minhas lágrimas invadem
Alma que, ao degustá-la
Faz de mim um ser menor
Frente à imensidão desse sofrer...

Sem saída, diminuo a cada
Hora que penso que podes partir
Ainda na flor da vida.

21 de fevereiro de 2009, 21h18
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

SUA VAGA

No caminho que trilho
O meu caminhar às vezes
Tem flores e brilho;
Noutras há escuro e dor.

Ao seu encontrou vou
Rompendo barreiras
Sentindo frio ou calor
Aproximando de ti...

Estando contigo me acho
No vigor de claridade
Do dia anunciada
No sorriso seu à madrugada.

19 de fevereiro de 2009, 20h47
Robério Pereira Barreto

domingo, 15 de fevereiro de 2009

QUERO-TE OUTRA VEZ

Quero acordar com os canarinhos
Assobiando para o dia que vem vindo
Afinados cânticos de bem querer.

E, sentindo seu peito suspirando
Aos meus ouvidos carinhos
Depois da noite de amor
Um belo dia viver.

Quero levantar quietinho
Fazer um cafuné
E te despertar aos beijinhos
Na preguiça da manhã.

Quero no calor do seu agrado
Voltar para cama e de novo
Ser fisgado pelos afagos
E, me envolver nos seus cabelos
De onde exalam os cheiros
Do amor a pouco feito.

Quero-te outra vez
Simplesmente, Quero!

15 de fevereiro de 2009, 21h23
Robério Pereira Barreto

sábado, 14 de fevereiro de 2009

ENSINO-APRENDIZAGEM SOCIOINTERACIONISTA DE LEITURA

Robério Pereira Barreto*

Resumo: Este artigo visualiza a discussão do ensino de leitura na sala de aula a partir da compreensão de que o ensino-aprendizado de linguagens e leitura é um processo dialógico e, portanto, requer interação entre os sujeitos; seja eles autores de livros, estudantes, professores e comunidade. Por essa ângulo é importante destacar que a metodologia usada nesse processo é significativa e, portanto, cabe ao professor traçar metas que o leve juntamente com os alunos à construção de saber sistemático e crítico a respeito do mundo da leitura e do trabalho, uma vez que, ainda, nossa escola é fundamentada na perspectiva de formar os sujeitos tão somente para o trabalho em detrimento da cidadania e do diálogo entre culturas.

Introdução

Percebe-se que no final do século passado é rompido o monopólio da cultura impressa como único processo de apropriação do conhecimento. A escrita invade e transforma o mundo em uma sala de leitura, rompendo a exclusividade da escola no ensino dessa aprendizagem. A leitura vai perdendo seu caráter público sonoro e se transforma numa forma dinâmica, íntima e silenciosa do leitor se divertir, se informar, se orientar, criar e participar. Aqui a internet que, com uma grande explosão de informações o leitor abandona velhos hábitos remanescentes e desenvolve estratégias diversificadas de leitura; tornando-se múltiplo e seletivo, recorrendo à escrita todas as vezes que busca dar sentido ao mundo ou a si mesmo.
Neste sentido, a cada dia, a sociedade exige dos indivíduos diferenciados tipos de leitura, que visem a uma interpretação crítica da realidade. O leitor antes condicionado a simples processo de decifração de códigos, agora se preocupa com a participação ativa na sociedade.
Como resultado dessas grandes mudanças é imprescindível que o professor redirecione suas metodologias para o ensino da leitura, de maneira a contribuir para a formação de leitores competentes. A afirmativa de que os alunos do ensino fundamental não gostam de ler, deve nos motivar a realizar atividades juntos com outros professores e bibliotecários, para verificação dessa possível realidade e, por conseguinte, contribuir para que se formem novos leitores.
Desse lugar, pode-se iniciar uma pesquisa-ação objetivando, também, a detectar as possíveis causas do desinteresse dos estudantes pela leitura. Com isso procura-se identificar as metodologias utilizadas no que tange ao incentivo e à prática da leitura na unidade escolar. De acordo com o momento histórico atual, sob as influências do neoliberalismo, onde a burguesia elevou a capacidade de exploração e especulação do capital financeiro, gerando mudanças na sociedade e, conseqüentemente, no indivíduo nela inserido é importante que a escola forme cidadãos com consciência necessária para fazer a leitura desse contexto.

Referenciação teórica

Hoje, escola improdutiva que trabalha apenas com ensino fragmentado não interessa. O baixo nível de escolaridade, hoje já não mais contribui para a manutenção da ordem capitalista, afirmam os especialistas em educação e trabalho. Assim, na incorporação do novo padrão tecnológico, no processo de organização da produção e circulação, com novos materiais, processos, nova organização e gestão do trabalho que, segundo Frigotto, dá-se o surgimento dos conceitos; globalização, qualidade total, flexibilidade, integração, trabalho enriquecendo, ciclo de controle de qualidade, a velha escola ficou ultrapassada e a sociedade capitalista se empenhou para influenciar a formação de novos objetivos escolares.
O mundo do trabalho busca uma nova relação entre escola e sociedade, defendendo arduamente uma educação básica que possibilite a formação de um sujeito participativo, flexível e com elevada capacidade de abstração e decisão, a fim de satisfazer as novas exigências do mercado. Dessa maneira, se a escola é local de formação de cidadãos e, além disso, os formar também para o mundo do trabalho é hora de reconhecer que está recebendo um novo emaranhado de objetivos e propostas, as quais já vêm estabelecidas verticalmente. Estas escolas estão até sem entender o porquê das ordens emanadas dos governos dos Estados, desencadeando campanhas que dizem respeito à escola, entende-se que isto seja reflexo da nova ordem econômica que tem se estabelecido no campo empresarial. Diante disso temos a afirmação que diz:

Estamos diante de um dualismo resultante das ações de uma sociedade capitalista e, conseqüentemente, individualista em que a produção vem sendo discutida como algo que deveria ser a salvação da escola e da humanidade, ou seja, a escola precisa produzir leitores e escritores capazes de responder às necessidades do mercado. (BARRETO, 2004, 39).

Faz-se crucial que, aqueles que lutam pela formação do professor e, principalmente, uma formação consciente, busquem este espaço dentro da própria escola, ou seja, a escola é o espaço também dos grupos sociais que formam a classe trabalhadora. Isto é, levando em consideração de que o aluno deve desenvolver em si a capacidade de análise crítica e abstração que são fundamentais para o indivíduo analisar e compreender o momento histórico atual.
A educação enquanto promoção do homem deve estar fundamentada na ação dialética da mesma, reflexão ideológica, a fim de propiciar a uma prática eficaz, pois, o ensino aprendizagem é e deve ser uma prática dialética.
Educar é uma coisa muito ampla, trata de uma formação global e mais completa de um povo, não se restringe ao campo de mera transição de conhecimentos, mas de maneira objetiva, correta e moral dos usos de métodos e meios, ao serviço do bem comum; não é restrita a uma elite, mais distribuída a um grupo, muito mais numeroso, com oportunidades iguais que vão desde condições dignas de sobrevivências até o direito de escolha do tipo de educação e de instrução que pretende ter.
As considerações partem da definição proposta por Saviani que vê a educação como “... mediadora no seio da pratica social global...” (SAVIANI,1989, 17), definição esta retomada por Newton Duarte quando descreve que a prática pedagógica transforma a prática social, não de maneira imediata; essa transformação se dá de maneira indireta, através da ação transformadora de cada indivíduo.
O ensino aprendizagem se torna transformador na medida em que gere nos sujeitos dele participantes transformações que contribuirão para a sua atuação, como sujeitos transformadores da social global.
A pratica social deve orientar os fins da prática educativa, pois do ponto de partida e de chegada podem assumir ou não o mesmo. É o mesmo porque constitui o alvo da ação, o fundamento e a finalidade. Não é o mesmo, se considerar que o modo de se situar como agentes altera-se qualitativamente pela ação pedagógica. Importante lembrar que a alteração da prática se da a partir da nossa condição de agentes sociais ativos, reais, moldados pela ação pedagógica. A educação por tanto, não transforma de modo direto e imediato, e sim, indireto e imediato, agindo sobre os sujeitos da ação.
Nesse contexto social amplo e em constante evolução, a leitura torna-se um mecanismo de interação do homem com a sociedade, possibilitando-lhe uma visão real do mundo. Percebe-se que a leitura aqui mencionada não pode ser considerada com um processo mecânico de decifração, mas uma elaboração ativa do pensamento em busca da compreensão geral.
Se o objetivo de nossas escolas é formar cidadãos capazes de compreender a realidade e superá-la, a leitura como instrumento dessa transformação deve ter por objetivo a formação de leitores competentes.
Através da afirmação de que: “A leitura como prática, é sempre um meio, nunca um fim. Ler é resposta a um objetivo, a uma necessidade pessoal. Fora da escola, não se lê para aprender a ler, não se lê de uma única forma, não decodifica palavra por palavra”. (PCNs, 2001, 57) Uma prática constante de leitura pressupõe o trabalho com a diversidade de objetivos, modalidades e textos que caracterizam as práticas de leitura de fato.
Formar um leitor competente é formar alguém que tenha iniciativa própria, capas de selecionar, que compreenda o que lê, que possa aprender a ler também o que não está escrito, identificando elementos, para que realmente o indivíduo assuma um papel crítico dentro da sociedade. Como afirma Kleiman.

A criança em fase de alfabetização lê vagarosamente, mas o que ela esta fazendo é decodificar, um processo diferente da leitura, embora as habilidades necessárias para a decodificação (conhecimento da correspondência entre sons e letra) sejam necessárias para a leitura. O leitor adulto não decodifica; ele percebe as palavras globalmente e adivinha muitas outras, guiadas pelo seu conhecimento prévio e suas hipóteses de leitura. (KLEIMAN, 2002, p.13).

Através desse processo chegará à construção de uma visão de mundo crítico, embasada, capas de levar o cidadão a agir por si só, sem resquícios de uma sociedade dominadora e castradora de ideais. O indivíduo dito competente, será dito um cidadão segundo o seu sentido denotativo.
Todas as sociedades letradas, os que têm acesso à escrita podem desenvolver quatro habilidades no uso da língua: falar e escrever ouvir e ler. Ao analisar o contexto social brasileiro, vários fatores sociais sócio-econômicos influenciam o desequilíbrio no desenvolvimento dessas habilidades, afetando as condições e chances para o desenvolvimento total do indivíduo. Não se deve deixar de levar em conta também que antes de tudo se encontram aspectos ideológicos, sociais e antropológicos que vão determinar o desenvolvimento das habilidades individuais.
Nos dias atuais, ler e escrever são duas práticas sociais básicas, independentes das importâncias a elas atribuídas. O ensino aprendizagem não é apenas o simples ato de ler e escrever, mas uma habilidade que recebe irrestrita aprovação social institucionalmente incentivada, com status de virtude de caráter normativo e prescritivo.
O educador deve possibilitar o tratamento da leitura como uma atividade de interação através do texto, pois a criança sempre se encontra em situação de aprendizado formal e, na maioria do tempo, está submetida à condição de ouvinte e na medida em que se ignora a leitura dos textos orais, passa por cima de um dos problemas mais elementares da escola. O professor deve trabalhar com textos autênticos pois, o contexto de leitura da criança já está internalizado quando ela vem para a escola e, cabe ao educador aproveitar o conhecimento já adquirido para que a leitura não se restringe as repetições, mas que possibilite uma interação da mesma com a sociedade.
Assim, a escola levando em conta os pressupostos de que o educador já possui algo a ser transformado, deve considerá-lo um ser definido nas ações reflexivas e sistematizada, capaz de articular com os movimentos concretos o processo de transformação em que se encontra e respeitar os valores de cada indivíduo.
Com o intuito de formar cidadãos competentes no desempenho de seus papéis, a leitura é um instrumento que vai possibilitar a interação do indivíduo com o meio, pois a leitura pode ser a interpretação de um fato, de uma situação, de um discurso, etc. O mundo pode ser visto como um grande texto que está pronto para várias leituras. Por base esses preceitos, o professor tem o desafio de trabalhar o ensino da leitura, de tal forma que os educandos possam interagir com a diversidade de texto e estar pronto e admitir as várias leituras possíveis, superando o mito de interpretação única.
Desta forma, o indivíduo que pode diferenciar os vários tipos de texto, que reflete sobre o grau de persuasão do texto apresentado, será um cidadão melhor preparado pára os novos desafios de um mundo em constante evolução, podendo assumir seu verdadeiro papel de transformador da realidade. Para que o professor consiga chegar a esses objetivos é preciso que o mesmo se mostre envolvido com a pratica da leitura. Isto também com base em referência de artigos publicados no PCN que diz:

Para os alunos não acostumados com a participação em atos de leitura, que não conhece o valor que possui, é fundamental ver seu professor envolvido com a leitura e com o que conquista por meio dela. Ver alguém seduzido pelo o que faz pode despertar o desejo de fazer também” (PCNs, 2001, p. 58).

Com isso observa-se que não basta apenas dizer aos alunos faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço.
O domínio da língua tem estreita relação com a possibilidade de plena participação social, pois é por meio dela que o homem se comunica, tem acesso à informação, expressa e defende pontos de vista, partilha ou constrói visões de mundo, produz conhecimento. Assim, um projeto educativo comprometido com democratização social e cultural, atribui à escola a função e a responsabilidade de garantir aos seus alunos o acesso aos saberes lingüísticos necessários para o exercício da cidadania, direito inalienável de todos. Essa responsabilidade é tanto menor quanto for o grau de letramento das comunidades em que vivem os alunos. Considerando os diferentes níveis de conhecimento prévio, cabe à escola promover a sua ampliação de forma que, progressivamente, durante o ensino, se forme no aluno a capacidade de interpretação de diferentes textos que circulam socialmente, a habilidade com a palavra e, como cidadão, de produzir textos eficazes nas mais variadas situações.
Tradicionalmente, a leitura tem sido tomada na escola como cumprimento de uma finalidade, priorizando sons e letras, ou o simples processo de decodificação de palavras, como afirma Silva que: “A leitura é sempre colocada como um evento desligado da esfera humana, caracterizada mais como um fenômeno físico que pode ser observado através de lentes de um microscópio.” (SILVA,1991, p. 54).
Visando a formação de cidadãos críticos e participativos, faz-se necessária uma abordagem da leitura numa concepção de linguagem interacionista, que supere a compreensão superficial e se envolva num processo dinâmico entre sujeitos que instituem troca de experiência por meio de textos escritos. É preciso que o aluno leia o material lingüístico más também o implícito, o extralingüístico.
É importante deixar claro ao aluno que, a leitura é um diálogo, “[...] eu vou ao texto carinhosamente, de modo geral, simbolicamente, e ponho uma cadeira e convido o autor, não importando qual, a travar um diálogo comigo” (FREIRE, 1989, p.27). De forma simples constata-se que Paulo Freire sugere o texto uma perspectiva em que não esteja pronto e acabado, mas que seja possível o leitor agir durante o processo de leitura.
Quando tem clareza de que a leitura não é um simples processo de decodificação, e que constitui uma dimensão fundamental do domínio da linguagem, torna-se urgente repensar a prática que a escola vem tradicionalmente fazendo.
O texto não deve ser encarado como simples ato burocrático, onde tem um sentido utilitarista, ou seja, para resolver exercícios gramaticais, servir de modelo para estruturação de frase ou ate mesmo para preencher o tempo. Para reverter essa prática é preciso antes de tudo compreender que o leitor maduro não é um sujeito passivo mas, alguém que constrói, concordando ou discordando do autor do texto, a sua interpretação numa relação de diálogo intimo com aquilo que lê.
Para um progresso significativo e que o leitor e educador chegue a esse nível de autonomia, devemos ser capazes de apresentar o texto escrito não como representação da verdade absoluta, mas que a exposição de todo o tipo de texto ao aluno, (narrativo, informativo, dissertativo, poético etc.) possibilite a compreensão de cada um de sua especialidade e revele uma determinada interpretação sobre o real.
O gosto pela leitura e o despertar pelo prazer de ler podem nascer através de momentos de interação entre professor e alunos entre alunos, através de diálogo entre textos lidos e da valorização à leitura do outro. Para que ocorra essa evolução no processo de formação de leitores, é importante procurar condições, algumas sugeridas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais:
*organizar momentos de leitura;
*planejar as atividades diárias garantindo que as de leitura tenham a mesma importância que as demais;
*possibilitar aos alunos a escolha de suas leituras.
Assim a leitura deve ser um instrumento de construção e reconstrução do saber, pois se o educando estiver em contato com todo tipo de texto, sendo incentivado de forma correta a praticar a leitura, conseqüentemente, ele estará sistematizando o seu conhecimento, torna-se competente não só na leitura, mas em todo o seu desenvolvimento.
No modelo tradicional de educação, verificamos que o conhecimento é tratado como se fosse um conteúdo. Dizemos que temos que aprender o que esta nos livros. Essa noção do conhecimento não corresponde aos fatos demonstrados por pesquisas da psicologia cognitiva. Sempre participamos ativamente da construção de nossas idéias na vida cotidiana. Quando assistimos a um filme, tiramos nossas próprias conclusões sobre o significado. Assim, nossas interpretações podem ser totalmente diversas. Há um filme só. Mas nossa maneira de representar o filme mentalmente varia, dependendo de nossos interesses, experiências anteriores e capacidade. Por isso, dizemos que o conhecimento que temos sobre o filme não é o filme, é nossa maneira de representá-lo e interpretá-lo.
A aprendizagem é ato cognitivo que depende de fatores externos e dos sentidos para sua realização. É uma dimensão de ação, só posso aprender realmente o que faço, e só posso estar verdadeiramente seguro do que sei no momento em que me torno capaz de fazer. Toda aprendizagem começa pela ação e termina por ela.
Outra dimensão é a do conhecimento, só posso aprender o que compreendo, no momento em que o faço; é por isso que a análise do que se passa quando se aprende é uma passagem obrigatória de toda a aprendizagem, qualquer que seja a idade daquele que aprende. Esta dimensão do conhecimento se opõe ao condicionamento. Sem a consciência e sem a compreensão daquilo que se aprende, é impossível aperfeiçoar e adaptar esse conhecimento as novas situações. O condicionamento fecha o caminho para a aprendizagem verdadeira. A análise, o estabelecimento de relações é fator de desbloqueamento das dificuldades é fator de aprendizagem.
A cada conceito novo, se produz uma reorganização do saber anterior, a partir de uma seleção inconsciente do que foi dito ou lido. O saber se constrói e reconstrói por aquele que aprende, através do relacionamento de dois tipos de dados: o encontro de obstáculo que provocam a tomada de consciência de necessidades novas é desestruturação mental daquele que aprende, daquilo que sabe, frente ao que lhe é apresentado, acontece um julgamento interior colocando o que recebeu em confronto com que já tinha de experiência, formulando assim os seus conceitos, um saber novo.
Podemos afirmar que a aprendizagem acontece a partir da teorização, mas é determinada pelas experiências anteriores, a maneira cognoscitiva de organização do pensamento e do contexto sócio-cultural do aluno.
O estudo é a atividade cognoscitiva do aluno por meio de tarefas concretas e práticas, cuja finalidade é a assimilação consciente de conhecimentos, habilidades e hábitos sob direção do professor. A atividade cognoscitiva não pode ser considerada simplesmente como a manipulação de objetos, vivências de situações concretas, memorização de regras e fórmulas ou resolução de problemas e tarefas. Essas atividades externas só têm relevância se, gradativamente, forem transformando em atividades internas, como instrumentos do pensamento.
O professor precisa embarcar no nível de conhecimento e no ritmo e maneira de compreender de seus alunos; de como seus alunos estão formulando suas hipóteses; sugestionar a criar, a desenvolver a capacidade e habilidades pessoais.

Professor e cidadania
O professor perdeu através dos tempos, o direito, ou seja, a propriedade da sala de aula; raros são os professores que tem um projeto próprio para seu trabalho. O que tem passado aos alunos é apenas cópia ou parte de proposta de autores, fora do contexto de trabalho. Dessa forma o professor não é dono mais do que pratica. Nem ele próprio é capaz de fazer uma interpretação da realidade circundante sendo ele um peso morto.
A técnica utilizada para o ensino da leitura é aquela que visa a capacidade inata do aluno; isso prova porque a maioria do alunado que egressa não tem se apresentado capaz de se colocar de maneira firme, fazer o uso da norma culta e viver segundo os padrões de reflexão crítica do sistema. “... a opção por uma proposta é definida por uma concepção de objetivo de estudo e do que é ensinar e aprender” (MATENCIO, 1994,p.97). Sendo o objetivo estudo o aluno real, sua cotidianidade, uma proposta para essa realidade, gera uma ação pedagógica que desencadeará em ações cocientes na sua prática. Uma proposta nestes termos, aquela que o fio condutor é o aluno e o ensino aprendizagem, é constituída pelo professor em interação com seus alunos. Ao elaborar sua proposta, o professor se torna sujeito de sua prática; assim, o livro didático será apenas um meio, estará a serviço da ação do professor.
O professor sujeito é aquele que desenvolve uma ação pedagógica que colabora na formação do cidadão; é um professor consciente e criativo que sabe problematizar, sabe lidar com a individualidade e também com a coletividade da vida social, ou seja, que trabalha em prol da aquisição de conhecimentos por parte de cada aluno e que se preocupa na formação de uma proposta social enquanto coletividade, levantando e inserindo no seu trabalho questões relevantes do momento; assim, a aula é entendida como espaço privilegiado de formação de atitudes.
Um professor nestes moldes precisa receber uma qualificada formação. Para o professor Antonio Severino, a formação do profissional que trabalhe pela conscientização, deve acontecer em três dimensões:

A formação de professores é uma tarefa que pressupõe o desenvolvimento harmonioso de três grandes perspectivas ·que se impõe com a mesma relevância, que se distinguem, mas ao mesmo tempo, se implicam mutuamente, que só produzem seus resultados se atuando convergente e complementarmente. Essas três dimensões são as dos conteúdos, e das habilidades didáticas e das relações situacionais. (MATENCIO, 1994: 97).

A dimensão dos conteúdos é aquela relacionada com o domínio de conhecimentos. Tem a ver com a cultura científica em geral, com o saber. A outra face da pirâmide está no domínio de habilidades didáticas, que constituem a esfera dos instrumentos técnicos e metodológicos de sua profissão.
A exigência de domínio dos recursos técnico-científico de sua habilitação profissional de educador, além da apropriação do acervo de conhecimentos científicos que os fundamentam, resgata a essencial significação do trabalho enquanto atividade fundamental do modo de ser do homem.
A terceira dimensão é chamada de dimensão das relações situacionais. Isso porque o trabalho do professor pressupõe como uma necessidade, uma percepção muito clara e explícita das condições de existência de todos os sujeitos que estão envolvidos no processo educacional. Estas referências dizem respeito, para os sujeitos, à compreensão de si mesmos, dos outros, de suas relações recíprocas, a compreensão do grupo social ao qual pertence e da humanidade como um todo. As relações situacionais permitem ao professor uma auto-compreensão de si mesmo e de seus alunos.
Retomando a questão da dimensão dos conteúdos, domínio das habilidades técnicas e das relações situacionais, estas três dimensões devem ter desenvolvimento igualmente aprofundado, uma vez que cada uma delas, como cada um dos lados da pirâmide, pressupõe a outra, num processo de mútua implicação. A formação do profissional, que não tenha as relações situacionais presente e como ensinar estando implícitas as relações situacionais é uma formação incompleta. Dessas três, uma não pode ser diminuída em prol da outra. Ao contrário, se completam.
O currículo para a formação do profissional da educação, implica uma organização multidisciplinar, a educação vai buscar o conhecimento dos diversos campos, para organizar as bases da formação do profissional; assim, a educação recebe a contribuição dos diversos campos do conhecimento. “O professor é o principal livro a ser lido e estudado pelos alunos”. (SILVA, 1991, p. 21) Esse livro que é o professor, não só informa, mas também forma aqueles com quem convive. Dessa forma, a formação do professor além de ser multidisciplinar, deve ser interdisciplinar, as diversas disciplinas no curso de formação do professor se completam entre si. Assim, toda conclusão obtida numa área fica como que incompleta, aberta, como “encaixe” preparado para receber complementação de outra área
Somente com uma formação nestes moldes, o professor estará preparado com a devida competência para desenvolver uma revisão crítica dos vários discursos ideológicos, até mesmo dos discursos da ciência e da tecnologia, que envolvem essas práticas. É desta maneira que poderá estar continuamente reavaliando o seu projeto pessoal de profissional da educação e sua inserção no projeto político mais amplo de sua comunidade à luz de uma avaliação crítica dos processos históricos de construção do conhecimento e da revisão dos valores que são apresentados com critérios de sua ação concreta.
O professor cidadão é consciente de suas ações, que trabalha com vistas a dar respostas à sociedade, que desencadeia uma prática buscando valores e atitudes.

A vivência na escola
Para a formação do leitor ativo e consciente, quem ensina tem que se preocupar com a adequação dos textos, ao nível de escolaridade, ao nível do contexto social e do processo de organização cognitiva, do pensamento.
O empenho do educador está em estimular o raciocínio dos alunos, instigá-los a emitir opiniões próprias sobre o assunto, fazê-los ligar os temas a coisas e eventos do cotidiano. A percepção sensível de objetos, fenômenos e processos da natureza e da sociedade é o tipo de conhecimento pelo qual se inicia o tratamento científico da realidade.
Ao se observar à ligação entre os objetos e fenômenos, sua propriedade essencial, também se analisa a intervenção da prática social, a história da ligação da atividade humana com o objeto de estudo para satisfazer necessidades humanas. Na medida em que o processo educativo é indissociável da vida prática, a percepção é condicionada a essa atividade prática, que evidentemente tem a ver com a vida material e social dos alunos. Assim, as tarefas docentes devem convergir para incrementar capacidades cognoscitivas, operativas e a capacidade crítica, simultaneamente.
No estudo de um tema, é fundamental o encaminhamento dos alunos no confronto entre as noções sobre os fatos e os fatos mesmos. É necessário descobrir os nexos sociais implicados nessas noções, pois o conhecimento tem sua origem e sua destinação na prática social, porquanto o aluno se reconhece nos conceitos que lhe são significativos.
Os processos de apreensão das qualidades e características de objetivos e fenômenos e a formação dos correspondentes conceitos científicos estão vinculados à direção da atividade humana, seus objetivos e motivos, à experiência social e cultural do aluno, aos seus valores, conhecimentos e atitudes frente ao mundo.
A leitura na escola tem sido, fundamentalmente, um objeto de ensino. Para que se constitua também em objeto de aprendizagem, é necessário que faça sentido para o aluno, isto é, a atividade de leitura deve responder a objetivos de realização imediata. Como se trata de uma prática social complexa, para a escola converter a leitura em objeto de aprendizagem, deve preservar sua natureza e sua complexidade, sem descaracterizá-la. Isso significa trabalhar com a diversidade de textos e de combinações entre eles. Significa trabalhar com a diversidade de objetivos e modalidades que caracterizam a leitura, ou seja, os diferentes “pra quês” – resolver um problema prático, informar-se, divertir-se, estudar, escrever ou revisar o próprio texto – e com as diferentes formas de leitura em função de diferentes objetivos e gêneros, como diz Abramovich:...ler para mim sempre significou abrir todas as comportas para entender o mundo através dos olhos dos autores e da vivencia dos personagens (ABRAMOVICH,1991,P.14) ler, buscando as informações relevantes, ou o significado implícito nas entrelinhas, ou dados, para a solução de um problema.
Sendo o objetivo formar cidadãos capazes de compreender os diferentes textos com os quais se defrontam, é preciso organizar o trabalho educativo para que experimentem e aprendam isso na escola. Principalmente, quando os alunos não têm conhecimento sistemático com bons materiais de leitura e com adultos leitores, quando não participam de práticas onde ler é indispensável; a escola deve oferecer materiais de qualidade, propiciando a formação de leitores proficientes e práticas de leituras eficazes. É preciso, portanto, praticar a leitura buscando sempre um horizonte maior; é ler para ler o mundo...ser leitor é ter um caminho absolutamente infinito de descoberta e de compreensão do mundo... (ABRAMOVICH, 1991, P.14).
Em uma época, a Folha de São Paulo publicou um dado impressionante: menos de 1% (um por cento) da população brasileira detém 34%(trinta e quatro por cento) das terras do Brasil. O professor deve ter essa capacidade de visão mais ampla, não pode saber apenas o seu conteúdo, precisa ter a capacidade de juntar os fatos, de fazer uma análise bem fundamentada. Deve também, receber o que o aluno tem, a cotidianidade.
À escola não basta preparar para a vida, ela tem que ser vida. A aula tem que falar da vida, o que se fala dentro da escola deve ser o mesmo que se está falando lá fora. A questão é o ensino e a aprendizagem, é o ato pedagógico, através do que o professor vai questionar, ajudar o aluno aprender a aprender. O professor constrói e o aluno também constrói. É o que ele vai levar para a vida; não os nomes dos clássicos da literatura, mas o questionamento, o relacionamento, o pensamento, a reflexão filosófica.
O professor é a peça fundamental, é uma questão de postura metodológica, de encaminhamento. Para entender o que acontece no Brasil hoje e projetar no futuro, é preciso uma série de informações do passado. O trabalho do professor é ajudar o aluno a interpretar o mundo, a ler o que está acontecendo. Se vivemos em um país capitalista, onde melhorar as condições de vida é alvo da maioria excluída, o estudo é fundamental para descobrir que este sistema foi pensado por alguns e se alguns formaram o mundo desta maneira, temos que trabalhar para modificá-lo. Este é o trabalho da educação.
Os descaminhos têm se apresentado na escola na questão metodológica. O professor tem tido dificuldade em fazer uma prática a partir do embasamento filosófico-teórico, falta de coerência entre opção política e prática pedagógica,

[...]muitas vezes, o discurso sobre a mudança e inovação não passa de mero discurso, ou seja, o educador diz que está trabalhando em prol da transformação da sociedade e da libertação do povo, porém, em termos de encaminhamento do ensino junto a seus alunos, ele se trai completamente acionado conteúdos estéreis, procedimentos retrógrados e avaliações autoritárias. Enfim, esse educador é democrático no dizer, mas autoritário no fazer, demonstrando incompetência para vincular o seu pensamento e os seu discurso à ação, à prática concreta. (SILVA, 1991, p. 78)


Metodologicamente falando, somente a opção política não basta, ou o professor tem um encaminhamento claro para suas ações de acordo com sua opção política, ou se perde os objetivos. Por este encaminhamento, subentende-se conhecimento prévio da matéria, que dará autoridade ao professor, habilidade com as técnicas e procedimentos de ensino, e colocar-se profissionalmente como alguém que induza o questionamento, que venha buscar um novo conceito de ensino e leitura a partir das contribuições das relações situacionais.
Newton Duarte, citando Oliveira, coloca esta questão como a necessidade de colocarem objetivos “em si” ao nível de prática educativa “para si”.

É preciso tornar a prática educativa ‘em si’ em prática educativa ‘para si’. Isto é: é preciso questionar profundamente a ação especificamente pedagógica que pretende socializar o saber, intencionalizando o conteúdo a ser transmitido em relação orgânica com uma forma adequada, de maneira a tornar concretos os objetivos (os específicos e também os sociais) anteriormente previstos (...) O objetivo último de contribuir para a transformação das estruturas teria, portanto que ser assumido intencionalmente como fio condutor de toda a elaboração e realização dessa prática educativa. Não prever antecipadamente as condições básicas para a função daquele objetivo último, inviabiliza muito o trabalho pedagógico que pretende ser uma atividade mediadora intencional no seio da prática social global. (DUARTE, 1996, p.04)

O trabalho do educador é ajudar o aluno a interpretar o mundo; as aulas de leitura têm muito a colaborar com esse objetivo. A contribuição de cada professor será tanto mais eficaz quanto mais o professor seja capaz de compreender os vínculos de sua prática com a prática social global.
Uma maneira para se trabalhar o ensino da leitura, é a problematização. A educação problematizadora parte do pressuposto de que uma pessoa só conhece bem algo quando o transforma, transformando-se a si mesmo no processo; a solução dos problemas é uma forma de participação ativa e de diálogo constante entre alunos e professores para se atingir o conhecimento.
Tecnicamente falando, o processo de leitura deve ser organizado a partir da convivência com o meio social e cultural, a escola não pode perder esse fio condutor. Os temas abordados devem encaminhar-se para uma práxis. O contexto deve vir para a escola, ser debatido, questionado, problematizado, propostas de alternativas precisam fluir; o processo de leitura é a porta para essa problematização e as chaves estão nas mãos do professor.
Não se trata de ensinar a leitura com “temas geradores”, não importa como o professor começa a sua aula; o que importa é o que vai encaminhar com sua sala, é a capacidade que vai desenvolver em seu aluno. Havia três cegos e um elefante. O primeiro cego passou a mão na cauda e disse: é uma corda; o segundo tomou uma das patas e disse que era uma coluna; o terceiro passou a mão no corpo do elefante e afirmou que era uma parede.(JORNAL DO ALFABETIZADOR) Isso é o que acontece, somos treinados para ver não mais que pedacinhos, é a cultura do desvinculo. Esta tem atacado professores e chega aos alunos. Para isso, é fundamental a competência do profissional.
A função da leitura é desenvolver habilidades de análise, crítica, reflexão, perceber ideologias, enfim, colaborar na formação do cidadão consciente em suas ações.
Em um artigo publicado por BARRETO deixa claro que a escola deve desenvolver “o espírito crítico diante da mídia”. A leitura se faz presente ao cumprimento desse objetivo, pela sua importância na capacidade que apresenta na formação de atitudes e da reflexão crítica. A leitura não perde sua especificidade e sua importância, “a cada dia os meios eletrônicos nos apresenta uma quantidade considerável de informação, porém não são bem estruturadas, visto que as funções da linguagem usadas nesse tipo de textos são altamente direcionadas, levando o leitor a uma leitura tendenciosa” (BARRETO, 2004: 33,34). Dessa forma, por mais que o grau de desenvolvimento da tecnologia facilite a vida do homem, o processo de leitura o acompanha, a capacidade de compreensão, interpretação e comunicação são requisitos básicos em qualquer sociedade moderna.
As crianças e adolescentes de meios ditos iletrados, geralmente de classes economicamente desfavorecidas, ao entrarem na escola encontram discursos e modelos de socialização bastante distintos daqueles praticados no seu meio, precisando de um tempo maior de adaptação e aprendizagem. Esta descontinuidade, que já é lugar comum na nossa literatura especializada, se apresenta como uma das maiores dificuldades da escola, que ainda transforma dificuldade cultural em deficiência, reforçando e reproduzindo as discriminações. Como fazer com que estas crianças possam penetrar na corrente? Não basta ter o texto escrito exibido. Para ela, a escola é o agente de alfabetismo por excelência.
O texto escrito, escolhido pelo professor para leitura, tem que, necessariamente, conduzir à reflexão filosófica, a análise dos problemas reais da vida; devemos nos preocupar com uma intelectualidade, mas também com o retorno para a vida prática, devemos educar sobre valores reais sem perder de vista a cotidianidade do saber sistematicamente elaborado.
Para encaminhamento do processo de prática de leitura, estávamos falando da problematização. Com este trabalho é notável o aumento da capacidade do aluno para detectar os problemas reais e buscar para eles soluções criativas. O papel do professor nesse sentido é o de criar condições favoráveis de desenvolvimento das formas de pensar reflexivamente, de modo a atingir uma lógica no ato de pensar.
A problematização parte da realidade e volta para ela, passando pelo processo de síncrese, análise e síntese do conhecimento. O confronto entre as percepções primeiras dos alunos com o conhecimento já elaborado permite uma análise e compreensão mais profunda, lógica e até científica do que acontece na realidade, para se chegar a um conhecimento reelaborado por parte do aluno, um saber mais sistematizado.
Esta não é uma proposta nova para o trabalho com a leitura, sabemos que muitos educadores já traçam seu trabalho neste moldes; o que pretendemos foi apenas registrar algumas considerações pessoais que estão servindo como base para o nosso trabalho neste momento.
Sócrates, em sua dialética, já se preocupava em perguntar sobre os detalhes da vida cotidiana, buscando as evidências empíricas e racionais. Na problematização o questionamento é posto como um desafio a uma investigação eventual, ela instaura a dúvida nos alunos atitudes críticas e criativas em relação ao meio em que vivem. Desse modo, seu potencial de cidadão é mobilizado de forma intencional e sistematizado, como compete à Instituição Escolar proceder.
As reflexões aqui apresentadas sobre o processo pedagógico quanto ao ensino da leitura, procuram despertar para um novo processo referente à formação de leitores com competentes que estejam aptos a interpretar com criticidade a realidade.
Para tanto se torna crucial que o profissional envolvido com o processo de ensino aprendizagem e que pretende colaborar para o desenvolvimento desse processo se situe numa postura metodológica embasada teoricamente, que possa suprir as necessidades dos indivíduos.
O professor precisa se situar no meio histórico-social contemporâneo para não educar para o passado; o educando é um sujeito que vive o hoje, cheio de experiências, e pelas ações, parece que o professor ainda acha que o educando é uma folha em branco.
A leitura deve ser vista como instrumento de interação do homem com a realidade e, para tanto, é necessário o desenvolvimento de um leitor criativo, competente e dinâmico, fugindo do pragmatismo que vê a leitura como um simples ato mecânico.
Na tentativa de apresentar algo concreto, que vislumbre a formação desse leitor, é que foi elaborado esse trabalho, que através da análise dos referenciais bibliográficos constata-se a comprovação de que a metodologia utilizada pelos professores conota uma linha tradicional de ensino de leitura, voltada para a repetição e mecanicidade; daí a necessidade de uma reformulação da proposta metodológica para o ensino de leitura, para que atenda aos objetivos do processo de formação de leitores críticos e competentes, que estejam aptos a integrar-se com o meio que estão inseridos.
A falta de uma proposta metodológica para o ensino de leitura por parte dos professores, exclui a possibilidade de uma avaliação e reelaboração das idéias por parte dos alunos; pelo contrário, vai contribuir para uma leitura técnica ou sem objetivos, desvinculando-se do seu papel principal que é o desenvolvimento de um leitor apto a diferenciar as diversas conotações e persuasões contidas nos textos e situações que envolvem a leitura.

Referências
A escola tem que ser vida. Jornal do alfabetizador, Porto Alegre: Quarup. N.º 45, p. 03.
ABRAMOVICK, Tanny, ed. Scipicione. Literatura Infantil, Gostosuras e bobices. 2. edição São Paulo,1991.
BABOSA, Jose Juvêncio, Alfabetização e Leitura, São Paulo: Cortez,1994, 2 edição revista.
BARRETO, Robério Pereira. As práticas de linguagem no contemporâneo / Robério pereira Barreto (org). – Tangará da Serra: Sanches, 2004.
DUARTE, Newton. Educação escolar, teoria do cotidiano e a escola de Vigostski. Campinas: Autores Associados, 1996.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. 5. ed., São Paulo: Cortez e Autores Associados, 1989.
_______. Leitura: teoria e prática. Campinas: UNICAMP, 1985. Mercado Aberto.
MATENCIO, Maria de Lourdes Meireles. Leitura, produção de textos na escola. Campinas: Mercado de Letras e Autores Associados, 1994.
SAVANI, Dermeval. Escola e democracia. 21 ed., São Paulo: Cortez e Autores Associados, 1989.
SILVA, Ezequiel Theodoro da. O professor e o combate a alienação imposta. 2 ed., São Paulo: Cortez e Autores Associados, 1991.
VASCONCELOS, Celso dos Santos. Para onde vai o professor? 2. ed., São Paulo: Libertad, 1996.
Parâmetros Curriculares Nacionais: introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais / Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental.- 3ª. Ed.- Brasília: A Secretaria, 2001.
Parâmetros Curriculares Nacionais: língua portuguesa / Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental.- 3ª. Ed.- Brasília: A Secretaria, 2001.
KLEIMAR, Ângela, Textos e Leitor, Campinas, SP. 8ª edição. Pontes, 2002.
* Professor de Linguagens e Educação da UNEB – Campus – XVI.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

APÓCRIFO

A minha alegria é de todos
Mas, a dor que deveras sinto
É só minha e curto a na solidão
De minha própria condição humana.

Do meu coração ufano que sangra
Sobrou apenas a dor.
E não estar contigo agora
É expor a ferida aberta
Na minha alma pela sua ausência

Dos olhos escorre a dor que,
Abrindo feridas no peito
Vai ardendo na alma como se fogo fosse
A cada lembrança de ti.

12 de fevereiro de 2009, 18h06
Robério Pereira Barreto

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

DA ABSTRAÇÃO AO ESPESSAMENTO DO SENTIDO


A linguagem e a comunicação precisam de agentes para sua efetivação. Portanto, tal processo se dá quando os interlocutores (pessoas que participam do processo de ação comunicativa) interagem usando como meio a linguagem, a qual, por seu turno se constitui a partir da construção dos sentidos atribuídos, tanto pelo emissor quanto pelo receptor. Esta negociação se realiza porque os agentes comunicativos seguem regras efetivadas social e culturalmente em suas comunidades lingüísticas, facilitando assim o uso das mensagens que têm como construto a língua que, no nosso caso, é a língua portuguesa. Então, o domínio da língua faz se necessário para que haja a interação comunicativa. Dizendo de outro modo, conhecer a língua em suas variações (fala e escrita) é ter condições de transitar entre o universo cultural proposto pela sociedade lingüística.
Assim sendo, definir-se-á a língua como um tipo de código formado por sentidos diversos tirados do conjunto se palavras veiculadas no espessamento dos sentidos sociais, políticos e ideológicos da comunidade. Nesse sentido, Bréal (1992) considera que a riqueza das línguas se dá devido à existência de uma gama de abstrações advindas do latim, pois “uma palavra abstrata, em lugar de guardar seu sentido abstrato, em vez de permanecer o expositor de uma ação, de uma qualidade, de um estado torna-se o nome de um objeto material.”
Dessa forma, há que se considerar a existência da Lei da repartição na qual se tem o sentimento de que a linguagem é feita para servir à troca de idéias, à expressão dos sentimentos, à discussão dos interesses, ele se recusa a crer em uma sinonímia que seria útil e perigosa. Ora, como o povo é, ao mesmo tempo, o depositário e o fabricante da linguagem, sua opinião de que não há sinônimos faz com que, em verdade, os sinônimos não existam por muito tempo: ou ele se diferenciam, ou um dos dois termos desaparece.
Para Bréal (1992) o objeto da semântica é o sentido e por isso ele a considera como um sinal de civilização porque uma nova acepção equivale a uma palavra nova. O interessante nesse processo é que, novos sentidos, quaisquer que sejam eles, não acabam com o antigo. Ao contrário, enriquece e embeleza a língua, dando-nos a oportunidade de vê-los justapostos. Assim, “o mesmo termo pode empregar-se alternativamente no sentido próprio ou no sentido metafórico, no sentido restrito ou sentido amplo, no sentido abstrato ou no sentido concreto.” (Bréal,1992 p. 103).
No campo da comunicação a polissemia[1] possibilita uma série de inovações, uma vez que à medida que uma significação nova é dada à palavra, parece multiplicar-se e produzir exemplares novos, semelhantes na forma, mas diferente no valor.
Dentro desse quadro de tradição conceitual poderíamos encaixar vários conceitos, os quais preencheriam nossas necessidades, por outro lado, ficaríamos carentes em definições mais práticas e, portanto, continuaríamos no vazio dos conceitos. Todavia, adotaremos mecanismos que nos conduzam à compreensão de que há uma semântica formal a qual se ocupa e tem como objeto de estudo o sentido.
[1] Segundo semanticistas, o fenômeno da multiplicação de palavras e sentidos denomina-se polissemia. Na realidade todas as nações civilizadas participam desse fenômeno; quanto mais um termo acumulou significações mais se deve supor que ele represente aspectos diversos da atividade intelectual e social. Ainda segundo esses estudiosos, Frederico II via na multiplicidade das acepções uma das superioridades da língua francesa. Com isso, pode-se dizer que, a língua portuguesa em sua heterogeneidade de palavras de sentidos múltiplos é a demonstração da mais elevada cultura lingüística, tendo inclusive incorporado ao seu léxico paráfrase de expressões do rei Frederico II.

HONRA À LUA

Pela grade da janela
Vejo a lua, está tão bela
Que chego a confundi-la;
Com seu sorriso, uma aquarela.

Sua cor e gosto são espalhados
No meu corpo como a luz da lua
Espraia-se por detrás da nuvem
Como quando fazemos amor,
Nosso prazer esconde em nossas almas.

Gosto do gemido infinito
Sussurrado aos ouvidos
Na convulsão de prazer
Na cama que divididos...

Ainda deitados e sorrindo
Em companhia do luar;
Gosto do cintilar de sua pele suada.
Que, reluzindo na imensidade,
Mostra beleza navegada
Na fragata que corta
A maré enluarada, gata.

09/02/2009, 23h45min.
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

DIBUJO DE AMOR

Miro la luna en la inmensidad
Del universo y te deseo
Con gana y voluntad insana.

Pero la luminosidad serena
De ella mi quedo sano,
Y su imagen pone en paz
Los pensamientos calientes
Que arrebata la alma.

Dibujando su semblante con estrellas
Que caen del cielo luminoso,
Encuentro a los pocos
Una manera de calar el corazón;
Besote en la inmensidad…

Deseando-te aún,
Permanezco en la soledad
Porque no la tengo para amar
Debajo del manto refulgente
De la noche de luna bella.

05 de febrero de 2009, 19h53min.
Robério Pereira Barreto

SEMIÓTICA DA CORRUPÇÃO POLÍTICA NO BRASIL XXI

A sociedade brasileira ao longo das últimas décadas do século passado viveu uma série de acontecimentos que a levou à condição de nação democrática. No entanto, isso não a fez menos problemática no plano político. Ao contrário, vieram à tona questões de ordem política, social e cultural, nas quais se centra a principal, a corrupção no meio público. A partir dessa ordem de coisas, este trabalho toma como objeto de estudo - pesquisa -, os textos verbais e não-verbais que formatam as capas das principais revistas de circulação nacional, nesses primeiros anos do século XXI. Ademais, tentar-se-á descrever e argumentar sobre os elementos; semióticos e discursivos dos referidos textos. Para tanto, toma-se como base teórica às contribuições da semiótica e das teorias da linguagem. Com efeito, delimita-se como corpus de pesquisa principal revista de circulação nacional, Veja que traz em suas capas, signos e textos que narram ou indicam a presença de discursos que se voltam para exposição de ocorrência de corrupção no meio público do país, nos últimos anos. No Brasil, o problema da corrupção não é somente uma questão de herança histórica que durante muito tempo ficou escondida nos redutos regionais, onde os coronéis se mantinham no poder, ditando aos veículos de comunicação as notícias que seria ou não veiculadas – se lembrem da ditadura! A política de arranjos e conchavos partidários é, na verdade, resultado da inépcia da sociedade e, principalmente, do Estado. Este que, por sua vez, esteve sempre sob o comando de elites que, sem nenhum pudor controlaram (e continua a fazê-lo) nos meios de comunicação. Por que será que em todo o país, os meios de comunicação estão nas mãos de algum grupo político local? Em verdade, na resposta para esta questão, há toda uma semântica política, econômica e cultural do poder. E é nisto que se argumentará aqui: o político é um estelionatário visto que o povo depositou nele suas esperanças, no entanto, não foram respeitados. Portanto, há veiculado na mídia impressa nacional, nos últimos anos, uma série de reportagens que chamou atenção para o submundo da política, a corrupção. Nesse sentido, podem-se fazer duas leituras. A primeira é a de caráter mercantil. Ou seja, a revista como qualquer objeto comercializável, precisa atrair consumidores, neste caso, leitores. Então, expõem em sua capa elementos simbólicos que agregam valores lingüísticos e semiológicos para o texto que seguirá no corpo da revista. Já na segunda leitura, estão impregnados elementos políticos ideológicos que fazem da reportagem um mosaico de idéias, no qual o leitor menos avisado – leitor primário -, decodificador de signos – não consegue refletir e posicionar-se diante da informação apresentada: Corrupção! No Brasil, atualmente, o crescimento da corrupção, ou melhor, a veiculação de notícias que o expõem nas formas; ativa e passiva no meio político, é também herdeira da violência desenvolvida a partir das ações realizadas pelos políticos aliados e/ou integrantes dos governos. Daí pode-se afirmar que, a corrupção e o crime se tornaram de vez, a pauta da mídia impressa e, conseqüentemente, televisiva. Nesse contexto, Sant’Anna Afirma: “A violência entrou de vez para o texto de nosso cotidiano. Na interessa tanto se ela penetrou pela porta da direita ou da esquerda ou pela estupidez de ambos. O fato é que o cidadão acostumo-se (perplexo) a que uma “autoridade” ou uma “ideologia” pode dispor de seu corpo, objetos, família e vida.” (SANT”ANNA, 1987, p. 28). Mediante a argumentação do cronista, a violência é algo que se incorporou à mídia brasileira nos últimos tempos, especialmente, da última década do século XX ao dias atuais. Assim, a mídia impressa – Veja–, objeto desse estudo; após eleição do governo do PT, teve suas tiragens, vendas aumentadas devido à publicação de reportagens que sugeriam atos de corrupção tanto no governo federal, quanto nos governos estaduais e municipais. Assim, ficou entendido que tal processo se deu com edições da revista que traziam na capa símbolos, gravuras e ícones que reforçavam o texto sobre o tema: corrupção! Diante desse quadro de leituras semiológicas, surgiram várias possibilidades de interpretações, contudo, há uma que chamou atenção. Já são quase 20 anos, que o país entrou no processo de democratização, no qual a impressa se “libertou” das amarras da censura e dos Atos Institucionais. Não obstante, foi mais de uma década de governos mistos, isto é, nos governos antecessores ao do PT não se tinha claro que tipo de governante estava na presidência - de Sarney a FHC -. Com os quais os escândalos não se sabem o porquê, eram abafados pela mídia. Ou será que não existiam?! Segundo Sant’Anna, é por tudo isso que a democracia é a mais difícil das formas de Governo. Ele discorre ainda sobre o processo democrático instalado no Brasil, argumentando que: “Democracia deveria ser o regime que desse mais oportunidade para todos desempenharem seus papéis de sedução e conquista. No regime democrático maduro, deveria estar no poder aquele partido que propõe e realiza o discurso mais sedutor esperado pela coletividade.” (SANT”ANNA, 1987, p. 28). Na atualidade, pode-se afirma que o pensamento de Sant’Anna está concretizado, pelo menos no sentido do desejo da coletividade. Eis que, Lula estar no poder. A publicidade da corrupção Nos últimos anos, a linguagem da propaganda tem empregado recursos que vão além do universo conceitual dos signos. Para Barthes (2003:86), “a linguagem é encarregada de dar crédito, com as suas figuras, com sua própria sintaxe, a essa moral da réplica.” Dessa forma, entender o grau de veracidade que a imprensa tem dedicado à narração da corrupção no país, é, pois significativo, dando a entender que na maioria das vezes, tais fatos ocorrem em virtude de processos ideologicamente levantados pelo sistema político que deixou o poder. O que talvez não deixa de ser uma verdade. Ainda Segundo Barthes (2003:127) “O jornalismo está, hoje em dia, totalmente voltado para a tecnocracia, e a nossa imprensa semanal transformou-se no centro de uma verdadeira magistratura da consciência e do conselho, como na época áurea dos jesuítas”. Embora o texto do semioticista francês tenha sido escrito na década de 70, é atual. Em outras palavras, ao ler qualquer notícia da imprensa escrita, o leitor percebe que, na verdade, há uma exposição direta de símbolos que atentam a respeito da corrupção que está diluída na sociedade contemporânea brasileira. Naturalmente, a publicidade no contemporâneo se tornou um mito pequeno burguês visto que muitos elementos ideológicos são colocados a seu dispor. Discordar disso seria, portanto, de forma ilusória, tentar discriminar de maneira significativa o que está no inconsciente coletivo. Assim, entendê-la é a melhor forma de visualizar como se fala a respeito da corrupção no meio político brasileiro. Na formação semiológica da corrupção expressa pela revista, Veja em suas respectivas capas, é visível um subtexto no qual a mensagem escrita tem um caráter de fala. Logo, o discurso é representacional, porque se apóia em mitos, que direto ou indiretamente justifica a endemia brasileira; a corrupção no meio público. Segundo afirma Barthes (2003:200), “Esta fala é uma mensagem. Pode, portanto, não ser oral; pode ser formada por escritas ou representações: o discurso escrito, assim como a fotografia, o cinema, a reportagem, o esporte, os espetáculos, a publicidade, tudo isso pode servir de apoio à fala mítica” a qual elevou a níveis muitos altos a corrupção no país. As formas e sentidos da corrupção, segundo a Veja A partir dos símbolos e signos que permeia a corrupção, a qual é oferecida ao leitor às vezes por metáforas que caracterizam a subjetividade do assunto. Lembra-se, portanto, que os sentidos atribuídos a tais signos são de ordem significativa, pois o significante que se aplica nesse processo, é para saber e, sobretudo, estabelecer associações com os sentidos já realizados nos signos lingüísticos e semiológicos da mensagem publicitária. Barthes ao tratar das formas e dos sentidos que são apresentados pelas mensagens, cujo significante ganha aspecto mitológico diz que: “Enquanto sentido, o significante já postula uma leitura, apreendo-o com os olhos, pois ele tem uma realidade sensorial (ao contrário do significante lingüístico que é de ordem puramente psíquica) e uma riqueza: [...] O sentido já está completo, postula um saber, um passado, uma memória, uma ordem comparativa de fatos, de idéias, de decisões.” (BARTHES, 2003, p. 208). No entendimento da questão sígnica que se instala nas reportagens da revista Veja, especificamente sobre a corrupção, alguns ícones são inseridos para que o leitor estabeleça associações e sentidos, os quais levarão à compreensão da mensagem jornalística. Nesse contexto, Barthes ao tratar dos elementos de semiológicos nos informa que tudo isso é resultado da representação psíquica, na qual se fixam os espectadores. No sistema de comunicação em que se constitui a imprensa escrita – Veja – a liberdade em que se apresentam os textos ao combinar de maneira livre, porém harmoniosa, faz com que a informação contida na peça jornalística se transforme em paradigma, diluindo assim, as ideologias que permeiam a questão, neste caso, a corrupção. “... a criação das palavras, a liberdade de combinar “palavras” em frase é real, embora circunscrita pela sintaxe e, eventualmente, pela sujeição a esteriotipos; (...) as pressões de coerência mental do discurso que podem subsistir não são mais de ordem lingüística”, são, na realidade de ordem ideológica. (BARTHES, s.d. p, 74). A corrupção como sociedade anônima No material de pesquisa – revista Veja -, na qual foram estudados textos verbais e não verbais que narraram à corrupção nas instituições públicas do país nesses primeiros anos do século XXI, foi possível através da análise semiótica do significante e do significado entender como a corrupção foi transformada em uma sociedade anônima, cujas ações eram valorizadas de acordo com o humor dos negociadores – políticos e seus assessores -. A linguagem com a qual o narrador, jornalista se encarregou de apresentar e representar o real da informação – denúncia – foi preciso impor uma visão na qual a crítica dilui-se, deixando ao leitor a responsabilidade de julgar os envolvidos nos processos. Diante disso, podemos, pois, levantar que a historia política do país tem condicionado a corrupção e, conseqüentemente, a impunidade como práticas de uma elite política que oscila entre a burguesia e a oligarquia política. Isso leva ao entendimento da afirmação de Barthes, quando este criticou a burguesia francesa, chamando-a de sociedade anônima, disse: “quaisquer que sejam os acidentes, os compromissos, as concessões e as aventuras políticas e sejam quais forem as modificações técnicas, econômicas ou mesmo sociais que a história nos traga, a nossa sociedade ainda é uma sociedade burguesa.” (BARTHES, 2003, p, 229). A corrupção veiculada pela mídia impressa – Veja – determina uma ordem de coisas que se transformou em fenômeno social, isto é, ver a corrupção sob a ótica da noticia sem se deixar envolver pela ideologia que a burguesia utiliza como justificativa para tal atitude, sem dúvida, é fundamental um exame detalhado dos signos e, conseqüentemente, das significações que lhes impõem os textos verbais e não verbais. Hoje, a corrupção se dissolve na nação de tal forma que, simbolicamente, tem a representação de poder de mando, ou seja, àqueles que se integraram a algum esquema, estarão seguros em cargos eletivos. A partir disso, foi acrescido ao vocabulário político do país, expressões lingüísticas e códigos que representam a corrupção; a qual foi incorporado segundo textos de Veja, uma representação, cuja simbologia é um estrato do desejo que lava a ideologia de para chegar ao poder é preciso corromper, extorquir tanto proletários quanto burgueses.
Conforme apresenta o conjunto de signos expressos no texto na figura acima, tem-se como elemento representacional da avareza, segundo os textos de La Fontaine, a formiga.
Segundo o que relata dicionário de símbolos, várias sociedades usam a formiga como elementos simbólicos em seus rituais. Contundo, nenhuma a apresenta como distúrbios da sociedade, tal qual apresenta o conjunto textual acima mencionado.
Nessa ordem de discursos, toma-se a formiga como símbolo de uma organizada sociedade, na qual as atitudes são distribuídas de hierarquizada. Logo, se percebe no texto não verbal da reportagem – imagem da formiga cortando a cédula de cinqüenta reais-, que representa de maneira sígnica a corrupção do país.
Os discursos presentes na figura 1 evidenciam, de imediato, a grande complexidade que cerca a noção de corrupção na sociedade brasileira, especialmente, na atualidade. Dizendo de outra forma: há no universo discursivo apresentado pela capa da revista Veja, uma enorme gama de variações que leva à compreensão da corrupção como objeto de uma ação socialmente anônima, visto que aqueles ora representados pela formiga, estão, na verdade, escondidos na multidão de “formigas”.
Sem querer que estes argumentos andem pelo universo da contradição teórica. Então, assegura-se que é propositada a referência à semiótica americana, isto é, tomam-se nessa parte, as considerações de Lúcia Santaella, a qual é discípula do filosofo e lógico americano Charles Sanders Pierce.
Para Santaella há uma função para o signo, segundo a capacidade de comunicação que ele estabelece como o leitor. Assim, disse Pierce: “ O signo cria algo na mente do intérprete, algo esse que foi também, de maneira relativa e mediada, criada pelo Objeto do Signo, embora o Objeto seja algo essencialmente diverso do Signo. (2.231).

Concluindo temporariamente

A face oculta da corrupção é colocada ao público por um veículo de comunicação de massa, cuja ideologia é, sem dúvida, discutível. A despeito de quaisquer pensamentos apologéticos a partidos políticos, sabemos que isso é de caráter social significativo, até porque essa foi uma maneira de se ficar conhecendo os bastidores da política nacional, onde tudo é possível de acontecer, desde que se tenha algum acordo sendo feito em beneficio de pequenos grupos políticos.

Referências
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 10. ed. São Paulo: Hucitec, 2002.
BARTHES, Roland. Crítica e verdade. Lisboa, Edições 70, 1996.
_________, Elementos de semiologia. 14. ed. São Paulo: Cultrix. S.d.
_________, Mitologias. Rio de Janeiro: Difel, 2003.

Bibliografias
Veja, ano 33, nº 29, junho de 2000, pp. 41-7 (“Os rastros do ex-assessor”).
Veja, ano 33, nº 27, julho de 2000, pp. 40-4 (“O poderoso foi dormir na cadeia: principal peça do escândalo que desviou 169 milhões de reais, Luiz Estevão é cassado e preso”)
Veja, ano 33, nº 31, agosto de 2000, pp. 38-43. (“ A anatomia do crime:
Veja, ano 33, nº 35, agosto de 2000, pp. 38-40. (“A lei dos honestos: códigos de conduta não evita os crimes, mas dá aos bons funcionários limites ente o que pode e o que não pode”).
Veja, ano 34, nº 10, março de 2001. pp. 44-53 (“na alma e no bolso tucano; O custo econômico da corrupção: mais cruel que o imposto inflacionário, a roubalheira de dinheiro público atrasa e empobrece os países.”).
Veja, ano 35, nº 31, agosto de 2002. pp.40-51 (“As pedreiras de Ciro:O candidato perde seu coordenador, engolfado por suas traficâncias com PC Farias, e vive a ameaça de ter de trocar o vice”).
Veja, ano 37, nº 10, março de 2004, pp. 43-49 (“A crise rouba a cena).
* Professor da Uneb – Campus XVI Irecê - BA.

TRAMAS NA IMAGEM NA HIPERMÍDIA IMPRESSA

Fique nu... mas seja magro, bonito, bronzeado[1]


As tramas[2] que as imagens[3] representam no cotidiano têm nos acompanhado há algum tempo, e por isso adentramos ao universo teórico da semiótica, buscando dialogar com as asserções feita por Lucia Santaella a respeito dos usos das imagens na mídia. Fato este que nos possibilita, trabalhar com alguns conceitos de imagem, signo e símbolo na grande imprensa. Com efeito, nossa intenção é desenvolver nesse curso discussões que levem à leitura e, talvez, à compreensão dos elementos discursivos que compõem as imagens na hipermídia.[4] Para tanto, estudaremos as mensagens imagéticas como algo interdisciplinar porque nesse processo a imagem segundo Lucia Santaella e Winfried Nöth (2001), está presente no cotidiano independente de nossas vontades.

Imagens têm sido meios de expressão da cultura humana desde as pinturas pré-históricas das cavernas, milênios antes do aparecimento do registro da palavra pela escritura. Todavia, enquanto a propagação da palavra humana começou a adquirir dimensões galáticas já no século XV de Gutenberg, a galáxia imagética teria de esperar até o século XX para se desenvolver. Hoje, na idade vídeo e infográfica, nossa vida cotidiana – desde a publicidade televisiva ao café da manhã até as últimas notícias no telejornal da meia-noite – está permeada de mensagens visuais, de uma maneira tal que tem levado os apocalípticos da cultura ocidental a deplorar o declínio das mídias verbais.[5]

O visual e o verbal compõem a díade da comunicação contemporânea, tendo no discurso verbal a possibilidade da compreensão das teorias da imagem. Na verdade, o texto visual tem sua sustentação naquilo que Pierce chamou de iconicidade. Para Canevacci (2001), estudar a significação que o visual (imagem e sua dramaticidade) desenvolve na comunicação é, sem dúvida, relacionar o modo de ver a produção ideológica da sociedade contemporânea, partindo do uso plural das tecnologias de comunicação de massa. Além disso, assegura ainda que tudo isso só está sendo possível graças à expansão da semiótica nos territórios visuais circundantes da informação oriunda no texto visual.

Focalizar o visual da comunicação significa, pois, selecionar esse espaço da cultura contemporânea, enquanto em seu interior se concentram o poder e o conflito, a tradição e a mudança, a experimentação e o hábito, o global e o local, o homologado e o sincrético. [...] o visual refere-se às muitas linguagens que ele veicula: a montagem, o enquadramento, o comentário, o enredo, o primeiro plano, as cores, o ruído, as linguagens verbal, corporal e musical. Ao mesmo tempo, o visual refere-se também aos diferentes gêneros que podem utilizar as mesmas linguagens ou inventar outras: o cinema (ficção ou documentário), a televisão, a fotografia, a videomusic, a publicidade, a videoarte, o ciberespaço.[6]

Entendemos, portanto, que nas imagens da grande mídia há certos níveis de dramaticidade que conduzem à subjetividade das idéias nelas propostas. O discurso visual torna-se uma metalinguagem por que têm em sua essência fragmentos das culturas regionais nas quais são agregados novos significados e, por isso, conduzem o espectador[7] à busca da intertextualidade do discurso[8].
À maneira de Canevacci (2001) compreendemos que a imagem – texto visual – é produzida em contextos: social, cultura, econômico e ideológico que visa envolver todos os agentes sociais da comunidade em que ela se propaga, construindo dessa maneira os significados que a faz importante para a compreensão das relações interpessoais. Nesse processo, entendemos que há em tal narrativa imagética algo complexo que transforma conceitos e ideais dos agentes (criador, mensagem e receptor) principalmente no plano da comunicação ideológica em que participam sistemas de consumo dinâmicos. Assim, varias significações são negociadas com o leitor para que ele possa se situar na linguagem, deixando vir à baila seus anseios e angústias que o levaram a um continuum dramático. Nessa perspectiva, “A comunicação é um sistema de múltiplos canais nos quais o ator social participa a cada instante, querendo ou não: com seus gestos, seu olhar, seu silêncio, até com sua ausência...”[9]
O emprego das imagens na mídia contemporânea volta-se para o atendimento das ideologias da industrial cultural[10], consagrando o homem – leitor – como eterno consumidor de mensagens publicitárias que evocam dramas individuais e coletivos. Tais imagens se tornam instrumento de alienação e conduzem o espectador à crise de interpretação, pois, a cada instante ele é bombardeado por textos visuais com formas e sentidos diferentes, e que buscam no cidadão da polis um espaço para transformá-lo em consumidor. Não obstante, este sujeito, na maioria das vezes, não possui conhecimentos suficientes para apreender os significados existentes no texto visual. Na realidade, é ai que surgem os dramas dos receptores, pois, são vítimas de um sistema sócio-cultural que privilegia fetiches individuais e econômicos em detrimento do bem estar coletivo e do social.

Então os fetiches visuais, que proliferam na comunicação de alta tecnologia, são de tal forma incorporados pelas novas mercadorias que o próprio método de observação deve levar isso em conta. [...] “Ler” um texto visual – uma mercadoria ou um filme – é também uma tentativa de dissolver seus fetiches.[11]

No campo do visual e do cognitivo, a imagem é dividida a partir de domínios que, segundo Santaella, partem das representações visuais até a imaterialidade das imagens em nossas mentes. Assim os elementos visuais presentes em desenhos, gravuras, fotografias, imagens de cinema, televisão compõem o domínio visual. Enquanto no plano da abstração, as mensagens visuais são transformadas em visões, fantasias, imaginações e modelos que se caracterizam como pertencentes à categoria mental.

Ambos os domínios da imagem não existem separados, pois estão inextricavelmente ligados já na sua gênese. Não há imagens como representações visuais que não tenham surgido de imagens na mente daqueles que as produziram, do mesmo modo que não há imagens mentais que não tenham alguma origem no mundo concreto dos objetos virtuais[12].
A sociedade contemporânea se encontra em evolução política, lingüística, tecnológica e cultural, e por isso as imagens constituem a paisagem das pessoas, principalmente, no universo virtual em que a mídia eletrônica, devido à correria impossibilita o homem de ler textos longos e complexos, buscando assim, a emergência da imagem dos objetos.
As imagens que forma o “corpo social” segundo Bachelard têm valores que só podem ser medidos pela da ampliação do universo imaginativo do receptor. Assim, entendemos que a relação entre corpo e imagem se estabelece a partir das experiências humanas, sendo isso fruto do psiquismo. Por isso acreditamos que a junção das imagens captadas pela percepção humana no ato de leitura produz remissões que levam o leitor a divagações e, conseqüentemente, à ativação de seu “baú” imaginário.
No contexto da psicanálise, as imagens são tidas como elementos especificadores do psiquismo humano de tal modo que William Blake criou uma máxima para essa questão: “A imaginação não é um estado, é a própria existência humana.”[13] Pelo que ficou expresso até agora, e para compreendermos a real importância da imagem na vida do homem contemporâneo é, portanto, pertinente aceitar que imaginar é criar novas perspectiva para a vida, porque vivemos no mundo das imagens, ou seja, estamos sempre diante de objetos lingüísticos: a poesia e a arte que são construídos sob a premissa de que estamos diante de uma imagem a ser desconstruída pela imaginação através da interpretação de seus referentes textuais.

Para bem sentir o papel imaginante da linguagem, é preciso procurar pacientemente, a propósito de todas as palavras, os desejos de alteridade, os desejos de duplo sentido, os desejos de metáfora. De um modo mais geral, é preciso recensear todos os desejos de abandonar o que se vê e o que se diz em favor do que se imagina. Assim, teremos a oportunidade de devolver à imaginação seu papel de sedução. Pela imaginação abandonamos o curso ordinário das coisas. [...] Imaginar é ausentar-se, é lançar-se a uma vida nova.[14]

A sociedade contemporânea é, sem dúvida, um oceano de imagens no qual estamos navegando, e isso nos tem criado uma série de problemas, pois, à produção de novos significados para nossa cultura colocam em discussão os tramas e dramas que as imagens provocam em nosso inconsciente coletivo, fato que direto ou indiretamente fortalece cada vez mais a “Industria Cultural” devido a sua capacidade de incorporação no nosso cotidiano de narrativas imagéticas que atingem nossos desejos e vontades. Todos esses signos são promovidos à categoria de representação, a qual é tributária do sistema cognitivo do sujeito. Dessa forma, Santaella nos adverte que as representações visuais e mentais existentes nas leituras das imagens são objetos de investigação tanto da semiótica quanto da ciência cognitiva.
Para este estudo, no qual estudaremos os tramas e dramas da imagem na hipermídia, prioritariamente, nos pautaremos nos princípios da semiótica, devido a compreensão daquilo que Pierce chamou em 1865, de “teoria geral das representações”. Seguindo esse plano, representação para Santaella deve ser apreendida nas perspectivas pierceanas, embora ela apresente o conceito de representação defendido por Spencer (1985:77). Para representar é fundamental o uso da linguagem, esta, pois, transmite ao receptor os princípios da inventividade tanto na imagem quanto no texto. Assim, “Com a linguagem podemos inventar, cada sentença é uma nova invenção, produzida pela combinação de elementos familiares; a perfeição da inventividade humana está ligada à perfeição da linguagem humana.”[15]
Historicamente, toda a cultura ocidental transmitiu seus conhecimentos morais, religiosos e, principalmente artísticos através de textos mistos, ou seja, sempre houve a presença do visual e do verbal nessas produções, cujo caráter ideológico, às vezes, está implícito e, portanto, não é de fácil acesso ao leitor comum. Atualmente, a ciência da imagem [imagologia se é que podemos chamá-la assim, tem atendido basicamente aos métodos da tecnologia]. Em outros termos, os recursos tecnológicos cujos princípios comunicadores estão centrados na dissecação de imagens. E por isso veiculam com maior amplitude e atingem um número amplo de cidadãos.Portanto, é nesse plano que a hipermídia atua e a cada dia conseguem maior inserção e adesão para suas mensagens.

A imagem do século XX é determinada por milagres tecnológicos como o cinema, a TV em cores, o computador e, mais tarde, as tecnologias relacionadas à internet. [...] É fundamental que a relação entre as novas mídias e as mídias antigas se desenvolva como uma coevolução, mas sob uma nova perspectiva em que natureza e máquinas se unem formando uma coisa só. De alguma maneira, isso significará que não se encontrará nenhuma diferença importante entre as experiências reais e virtuais.[16]

O espaço e a tensão estabelecidos entre a criação e propagação das imagens nos meios de comunicação, os tornam homogêneos e, conseqüentemente, estabelecem um jogo dramático tanto no espaço exterior quanto no valor intrínseco da peça publicitária para o receptor. Dessa forma, a imagem para Bosi é:

(...) um modo da presença que tende a suprir contato direto e a manter juntas, a realidade do objeto em si e sua existência em nós. O ato de ver apanha não só a aparência da coisa, mas alguma relação entre nós e essa aparência. (...) imagem amada, e temida, tende a perpetuar-se:vira ídolo ou tabu. E a sua forma nos ronda com doce ou pungente obsessão. (...) Toda imagem pode fascinar como uma aparição capaz de perseguir. O enlevo ou o mal-estar suscitado pelo outro, que impõe a sua presença, deixa a possibilidade, sempre reaberta, da evocação[17].

É importante visualizarmos que na mídia os signos têm o papel de representar, ou melhor, parecer real a existência da coisa que se pretende fixar no cognitivo de cada um que consome a imagem. Com efeito, esse processo corrobora singularmente para a reificação das ideologias implantadas pela burguesia capitalista. Ou seja, as representações que a Industria cultural, os meios de comunicação de massa e a cultura de massa usam para manipular as vontades e desejos cidadão - seus possíveis consumidores – pautam-se na fixação de ideais homogeneizadores, colocando todos independentemente de sua condição sócio-cultural e econômica, merecedores dos mesmos objetos.
Nesse contexto, inferimos a importante participação dos veículos de comunicação de massa na propagação das imagens, destacando dessa maneira o pensamento de Pignatari que diz: “Os poderosos meios de comunicação de massas tornam anacrônicos os métodos tradicionais de ensino; esses próprios meios, sendo ou tendendo a ser antiverbais[18]...” Assim, temos a perspectiva que cada vez mais somos e tornamos os outros em sujeitos alienados diante das imagens e dos textos que trazem em sua essência o fetichismo das mensagens publicitárias, as quais nos induzem ao consumismo.
Concluindo rapidamente esta discussão, acreditamos que a Industria cultural tem transformado o homem contemporâneo em simples receptáculo de suas ideologias mercadológicas e consumistas, tendo a seu favor os meios de comunicação de massa que, por sua vez, constroem tramas de dramas que envolvem todos os cidadãos, criando neles, ou melhor, em nós necessidades imediatas.

Representação e fetichismo da imagem na hipermídia

Nas peças publicitárias os elementos que formatam a comunicação a partir da definição de gênero e poder e que constituem as imagens que persuadem e seduzem o leitor. São assim, centro da discussão e a análise da grande estrutura argumentativa existentes em imagens de bebidas, cosméticos e carros são necessárias para a vida moderna.
A publicidade no contemporâneo se torna cada vez mais persuasiva e leva o leitor-consumidor à alienação. Isso acontece em virtude do uso continuum de imagens que, de acordo com especialistas, criam necessidades instantâneas no sujeitos, fazendo vir à baila desejos recalcados que através da imagem ganham vida e, assim, os levará ao consumo. Por isso, podemos afirmar que as imagens possibilitam a interatividade com o leitor, produzindo no seu cognitivo uma revolução a respeito das representações que a linguagem imagética apresenta.

(...) o visual refere-se às muitas linguagens que ele veicula: a montagem, o enquadramento, o comentário, o enredo, o primeiro plano, as cores, o ruído, as linguagens verbal, corporal e musical. (...) o visual envolve também diferentes tipos de subjetividade que estão aprendendo a empregar esses gêneros e essas linguagens: não só ocidentais (em sentido amplo), mas também das populações nativas.[19]

Nessa perspectiva, os elementos imagéticos que compõem a publicidade moderna buscam mediante a subjetividade do visual, persuadir seus leitores, transformando os em consumidores em potencial. Assim, contemporaneamente, a cultura imagética da mídia estabelece padrões de comportamento e de consumo que criam fetiches[20] no inconsciente dos cidadãos. Com efeito, é importante destacarmos a busca por imagens que associem e, conseqüentemente, tornem ambíguas as leituras dos objetos, dando a eles, às vezes, certo grau de erotização. Embora estes aspectos fiquem ao nível do implícito entendemos que, a multiplicidade e a polifonia, tanto de imagem, quanto de discurso, são os responsáveis pela naturalização das vontades imediatas de objetos e serviços. Logo, estes eventos são o ponto nevrálgico da grande mídia, uma vez que a polifonia[21] toma conta de todo o processo textual, no qual imagem e discurso se entrelaçam para formatar mensagem midiática.
Nesse espaço intersemiótico estão elementos sócio-culturais que precisam ser ressignificados, ou seja, a mídia contemporânea encontra matéria-prima para suas publicidades no resgate das tradições populares[22], conseqüentemente as tornam vivas. Isso para o consumidor incauto é positivo porque traz à baila velhos paradigmas da identidade que estava esquecido, possibilitando assim, uma nova leitura da questão local, regional. (ver propaganda da pepsi em que se representam as figuras mitológicas do carnaval).
A propósito da questão de polifonia nas mensagens publicitárias acreditamos que, isso se dar porque é uma conseqüência natural da vida em sociedade, a polifonia reflete a interação do homem, como ser social, na troca de informações, nas tomadas de posição, enquanto sujeito ativo no processo de negociação de sentidos com os elementos textuais e visuais que formam sua cultura no decorrer de sua existência.

Sabe-se que a imprensa tem se caracterizado por exercer grande influencia sobre a sociedade. É a responsável pela constituição do imaginário social, já que é por meio dela que os grandes fatos são postos em debate e que se constituem os pontos vista. Pode-se dizer que ela é um dos pilares do universo midiático contemporâneo[23].

No mundo contemporâneo, estamos submetidos a uma gama de produtos, que pouco significaria para o cidadão comum se não fosse o glamour que a publicidade confere as imagens. Com isso ela vale-se do poder das palavras e das imagens para assegurar aos objetos um caráter especial de tal modo que os mitificam. Não obstante, entendemos que a linguagem da publicidade é eminentemente metafórica. Assim sendo, as imagens na publicidade ampliam seu campo de significação a partir do desenvolvimento de sentidos conotativos que valorizam a subjetividade.

Sendo a publicidade superlativa, os termos com semas positivos são altamente freqüentes nos anúncios, as palavras com traços negativos aparecendo, apenas, para estabelecer o famoso contraste do “antes” e do “depois”, pois a linguagem publicitária, de certa forma, escamoteia a realidade concreta, ou melhor, direciona a atenção do público-alvo apenas para o que lhe interessa, não revelado o que possa prejudicar a imagem do produto[24].

As artes visuais da propaganda são relacionadas à educação visual imposta pela grande mídia. Logo, é de fundamental importância que se realize uma alfabetização visual a partir de textos não verbais do cotidiano.

Alfabetização Visual

Na sociedade da comunicação por imagem, a invenção da câmera digital e dos computadores trouxe à propaganda um continuum da arte de desenhar que, historicamente, é considerada como a capacidade natural de todos os seres humanos. Recordemos, então as ações dos homens primitivos, os quais tinham em suas mentes as representações dos animais que caçava. Nessa perspectiva histórica, a arte e o significado da imagem por ela representada, conduzem à forma e à função do visual na expressão e na comunicação, porque nela se dar transformação das mensagens publicitárias em códigos estéticos que ampliam a fruição do leitor.
Dondis considera que a revolução tecnológica e os meios de comunicação de massa têm contribuído para uma educação imagética do leitor. Enquanto a arte tornou-se inerte às mudanças da sociedade consumidora de mensagens visuais. Embora sua fala seja demasiado funcionalista, faz-se pertinente citá-la:

Arte e o significado da arte, a forma e a função do componente visual da expressão e da comunicação, passaram por uma profunda transformação na era tecnológica, sem que se tenha verificado uma modificação correspondente na estética da arte. Enquanto o caráter das artes visuais e de suas relações com a sociedade e da educação sofreram transformações radicais, a estética da arte permaneceu inalterada, anacronicamente pressa à idéia de que a influência fundamental para o entendimento e a conformação de qualquer nível da mensagem visual deve basear-se na inspiração não-cerebral. (...) A expressão visual significa muitas coisas, em muitas circunstancia e para muitas pessoas.

A linguagem visual no contemporâneo é um processo cristalizado. Portanto, as imagens que a compõe têm em seu processo criativo algo que vai além do código verbal, exigindo do observador um nível mais acurado de percepção. Aqui, Dondis sugere que se faça uma alfabetização visual através de textos publicitários verbais e não-verbais.
Nessa linha de raciocínio MchLuhan comenta a papel da imagem na formação de uma consciência alfabetizadora a partir da câmera, a qual, segundo seus argumentos, têm importância tal qual o livro nos séculos XIII e XVI.

(...) a ordenação das palavras substitui a inflexão das palavras como principio da sintaxe gramatical. A mesma tendência se deu com a formação das palavras. Com o surgimento da imprensa, ambas as tendências passaram por um processo de aceleração, e houve um deslocamento dos meios auditivos para os meios visuais da sintaxe[25].

Segundo os princípios escolásticos, para que sejamos considerados alfabetizados é preciso conhecer e dominarmos os elementos básicos da linguagem escrita: as letras, palavras, frases, ortografia, gramática e sintaxe, isso é alfabetismo[26]. No mundo das imagens é fundamental que tenhamos uma percepção bastante arguta, ou seja, passemos a compreender os elementos culturais que nos cercam quando do ato de leitura das peças publicitárias. Eis aí uma perspectiva para uma educação visual.

Referências bibliográficas e notas explicativas

ARISTÓTELES (s/d). Arte retórica e Arte poética.Rio de Janeiro: Ediouro. (s.d)
FOUCAULT, Michel, Microfísica do poder. 19.ed. Rio de Janeiro: Graal, 2004.
SANTAELLA, Lucia; NOTH, Winfried. Imagem: Cognição, semiótica, mídia. 3. ed. São Paulo: Iluminuras, 2001.
CANEVACCI, Massimo. Antropologia comunicação visual. Rio Janeiro: DP&A, 2001.
[1] FOUCAULT, Michel, Microfísica do poder. 19.ed. Rio de Janeiro: Graal, 2004, p.147.
* Professor de Literatura Brasileira e Semântica do Curso de Letras – Unemat – Campus Tangará da Serra-MT., Coordenador do Núcleo Pedagógico da Unemat – Sapezal-MT. (Letras e Contábeis).
[2]S.f. Fio que se conduz com a lançadeira por entre os fios da urdidura; fios de seda grossa; fio grosso e dobrado, com que se fazem certos estofos; fio grosso; tecido; textura; (fig) sustentáculo; (bras) barganha; permuta; negócio; (Do lat. Trama).
[3] Tal termo é aqui tomado sob a ótica semiótica que, segundo Santaella e Nöth “são um sistema semiótico ao qual falta uma metassemiótica: enquanto a língua, no seu caráter metalingüístico, pode servir, ela própria, como meio de comunicação sobre si mesma, transformando-se assim num discurso auto-reflexivo, imagens não podem servir como meios de reflexão sobre imagens”.
[4] Tomamos como hipermídia os textos imagéticos que circulam nas revistas impressas e eletrônicas, bem como na TV e na Internet.
[5] SANTAELLA, Lucia; NOTH, Winfried. Imagem: Cognição, semiótica, mídia. 3. ed. São Paulo: Iluminuras, 2001, p. 13.
[6] CANEVACCI, Massimo. Antropologia comunicação visual. Rio Janeiro: DP&A, 2001, pp.7-8.
[7] Empregamos tal termo a partir do entendimento de que na comunicação os espectadores são sujeitos ativos no processo de construção de significado para o texto visual que aprecia.
[8]Laurent Jenny. A estratégia da forma. In: Intertextualidade. Coimbra, Almedina 1979, p. 6. comenta que a intertextualidade se apresenta além do código e vai até ao nível do conteúdo formal da obra, buscando a sensibilidade dos leitores o que pode variar de acordo com cultura e a memória imagética de cada um.
[9] Winkin, 1981, p. 7 citado por CANEVACCI, Massimo. Antropologia comunicação visual. Rio Janeiro: DP&A, 2001, p. 9.
[10] Termo usado à maneira de Adorno, pois entendemos que a hipermídia está a serviço da Industria Cultural que, por sua vez, cria condições cada vez mais alienantes para o leitor-consumidor na tentativa de implantar e aperfeiçoar o campo de atuação do comercio de bens e serviço, criando em nós, consumidores, uma sensação de impotência, visto que a todo instante somos enganados pelas imagens que criam novos desejos e necessidades em nosso subconsciente.
[11] CANEVACCI, Massimo. 2001, pp. 13-14.
[12] SANTAELLA, Lucia; NOTH, Winfried. 2001, p. 15.
[13] BLAKE, William. Second livre prophétique, trad. fr. Berger, p. 143. apud. BACHELARD, Gaston. O Ar e os Sonhos:Ensaio sobre a imaginação do movimento. São Paulo: Martins Fontes, 1990, p. 1.
[14] BACHELARD, Gaston., 1990, p.1
[15] MARIÁTEGUI, José-Carlos. Sobre o futuro da arte e da ciência através da inventividade humana. In: Arte e vida no século XXI (org.) Diana Domingues. São Paulo: Editora da UNESP, 2003, p.161.
[16] Ïdem, 2003, p. 162.
[17] BOSI, Alfredo, 2003, pp. 19-21.
[18] PIGNATARI, Décio. Informação Linguagem Comunicação. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. p. 93.
[19] CANEVACCI, Massimo. 2001, pp.7-8.
[20] S.m. (1873 cf. DV) 1 objeto a que se atribui poder sobrenatural ou mágico e se presta culto. 2 PSICOP objeto inanimado ou parte do corpo considerada como possuidora de qualidades mágicas ou eróticas. HOUAISS. A. Dicionário Houais da língua portuguesa . Rio de Janeiro, Objetiva, 2001, p. 1333.
[21] Tomamos polifonia aqui, à maneira de Bakhtin, a qual sugere a multiplicidade de vozes e de sujeitos responsáveis por vários pontos de vistas das falas, em um texto.
[22] As peças publicitárias dos refrigerantes (coca-cola e pepsi) têm explorado as festas e tradições populares do Brasil.
[23] RIBEIRO, Patrícia Ferreira Neves. Estratégias de persuasão e de sedução na mídia impressa. In: Texto e discurso: mídia, literatura e ensino. Rio Janeiro: Lucena, 2003. p. 121.
[24] MONNERAT, Rosane Santos Mauro. Processos de intensificação no discurso publicitário e a construção do ethos. In: Texto e discurso: mídia, literatura e ensino. Rio Janeiro: Lucena, 2003. p. 97.
[25] MCLUHAN, M. 1960 apud Dondis, 1997, p. 3.
[26] Tomamos o termo alfabetismo como o aprendizado que é compartilhado por uma comunidade de usuários de um código comunicativo para a realização de suas ações sociais.