sábado, 4 de outubro de 2008

MACABEA: HEROÍNA TRÁGICA NA METRÓPOLE


Robério Pereira Barreto©
Aquiles – Assim falou a águia, ao perceber as penas na flecha que a perfurava: Então somos abatidas por nossas próprias asas. Ésquilo*

Clarice Lispector publicou A Hora da Estrela em 1977. A narrativa é edificada sob o olhar do narrador Rodrigo S.M. que aos poucos demonstra como o sujeito clareceano é justaposto no meio social, cujo drama é corroborado pela falta de sentimento de pertença, ou seja, a protagonista Macabea vive as mazelas e vicissitudes da nova realidade sociocultural, Rio de Janeiro. Devido a isso, ela passa por grandes dificuldades em virtude da falta de intelecto e personalidade suficientemente fortes para lidar com os novos desafios que lhes foram impostos pelo novo lócus social. Restam-lhes duas saídas: i) negar sua origem e construir imaginariamente uma nova identidade; ii) atribuir suas incompetências e desgraças ao destino, tornando-se vítima da tragédia. Com isso Rodrigo S.M posiciona tragicamente Macabea, elevando-a ao panteão das vítimas da modernidade. O que se tem a partir daí é o drama interior do personagem em meio à busca e à fuga de sua verdade.
Para Aristóteles em sua Poética, a tragédia se caracteriza por ser:
... imitação de uma ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes (do drama), (imitação que se efetua) não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções. (ARISTÓTELES, 1973:447).
Estudiosos da obra de Lispector afiançam que A hora da estrela, de Clarice Lispector tem como base as influências da tradição do teatro grego no romance moderno, e por esse motivo é possível vislumbrar alguns pontos de contato com o texto trágico, não só no que concerne à transposição de recursos dramáticos para o gênero narrativo, como também no que diz respeito à proximidade de temas entre o texto clariceano e a obra Édipo Rei, de Sófocles, já que os dois textos tratam da angústia dos protagonistas em desvelar de si mesmo e do próprio destino.
A realidade trágica manifestada em A hora da estrela é dotada de extremo subjetivismo, não sendo uma essência, mas sim uma estrutura plurissignificativa que depende de uma determinada ótica para se manifestar sob uma forma distinta. Ou seja, na narrativa clariceana é comum o multiperspectivismo, isto é, coexistem o olhar do narrador e o olhar dos personagens, no qual só se pode falar em realidades plurais, uma vez que a protagonista se torna “fantoche”, sendo manipulada pelos fatos sócio-psicológicos que a acerca.
Para Aristóteles, neste tipo de discurso está presente a epifania, ou seja, é o medo de si e dos demais que Macabea apresenta ao estar em seu quarto ouvindo o radio-relógio; imaginando coisas que poderiam acontecer-lhe na mundo além do quarto. Isto a leva ao prazer trágico, o qual evocar a catarse, provocando alívio de emoções, através da purgação. A catarse aristotélica, de acordo com o Antônio Freire (1985), consiste na purificação, na moderação, na sublimação dos dois sentimentos mais característicos da tragédia: a compaixão e o terror. Portanto, a protagonista é uma mulher comum, para quem ninguém olharia, ou melhor, a quem qualquer um desprezaria: corpo franzino, doente, feia, maus hábitos de higiene. Além disso, era alvo fácil da propaganda e da indústria cultural (para exemplificar; seu desejo maior era ser igual à Marilyn Monroe, símbolo sexual da época). Nossa personagem não sabe quem é, o que a torna incapaz de impor-se frente a qualquer um, portanto é epifânica em essência.
Dessa forma, Macabea caracteriza-se como sujeito trágico, pois ao longo da narrativa, ela segue de maneira linear seu próprio esvaziamento enquanto sujeito, perdendo inclusive sua autonomia, devido à obediência aos ditames do destino. Se na tradição trágica se diz que o personagem sucumbe devido a um erro cometido por ignorância. Infere-se com isso que Macabea ao nascer cometera seu primeiro erro, passando a ter sua vida definida pelo poder metafísico.
Eu também acho esquisito, mas minha mãe botou ele por promessa a Nossa Senhora da Boa Morte se eu não vingasse, até um ano de idade eu não era chamada porque não tinha nome, eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome que ninguém tem mas parece que deu certo. (LISPECTOR, 1998:43)
O trágico não reside na noção do aniquilamento, mas na idéia de que a própria salvação torna-se o aniquilamento. Não é na degradação da heroína que se cumpre a tragicidade, mas no fato de ela sucumbir no caminho que tomou justamente para fugir da ruína. Deste modo, ao tentar escapar de seu destino, fugindo da casa da tia, Macabea encontra em figuras desconhecidas uma possibilidade se compreende enquanto sujeito. Triste, nossa personagem busca consolo numa cartomante, que prevê que ela seria finalmente feliz: “a felicidade viria do "estrangeiro".
Segundo Nietzsche (s/d), em A origem da tragédia, existem dois elementos essenciais na fundação da tragédia: o espírito apolíneo e o instinto dionisíaco. Nascido como conflito, o encontro destes dois estados, através de um milagre metafísico, harmonicamente, dá origem à tragédia àtica. Preso a um destino, o heroína trágica precisa cumprir seu percurso de desnudamento da aparência, o que ocorre através da extinção da individuação apolínea pelo êxtase dionisíaco. Reintegrado ao coletivo, Macabea receberá a gratidão da comunidade, pela qual doou seu sacrifício. Para haver tragédia é necessário o conflito, que irá se instaurar na medida em que os personagens buscam sua autonomia, desafiando os deuses e as leis da polis.
Em A hora da estrela, os acontecimentos – assumidos como história inventada e mediada pelo narrador – se materializam no decorrer da própria escrita: “Pergunto-me se eu deveria caminhar à frente do tempo e esboçar logo um final. Acontece, porém que eu mesmo ainda não sei bem como esse isto terminará”. Aqui, o narrador prefere se concentrar no interior da personagem Macabéa, pois é a partir dele que as reflexões e os conflitos se estabelecem. A heroína de Clarice é apenas mais um dos rostos sofridos dos que imigram para os grandes centros urbanos.
O pathos de Macabéa se relaciona com valores interiores; seu destino em nada influi na vida da cidade: “Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás dos balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam”. Macabéa é a anti-heroína, cuja história tem o valor questionado pelo próprio narrador.
Macabéa também não tem noção de si mesma: “Se tivesse a tolice de se perguntar ‘quem sou eu?' cairia estatelada e em cheio no chão. É que ‘quem sou eu?' provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.” Macabéa não se questiona; sua ignorância é total. Também não busca nenhuma verdade, não tem esperança no amanhã e no seu destino. O desvendar de sua verdade, que acontece por acaso na fatalidade de seu atropelamento, só lhe é possível na iminência da morte: “Hoje, pensou ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci.” É preciso ainda mencionar que Macabéa também encontra no final trágico sua forma de redenção – finalmente ela “é”, como personagem central de sua própria história, tornando-se a estrela de sua própria morte.
Para Derrida citado por Hutcheon “o sujeito é absolutamente indispensável. Eu não destruo o sujeito; eu o situo” (Hutcheon, 1991, p. 204). Dessa forma, podemos situar Macabea, conforme ensinamento do pós-modernismo é reconhecer e situá-la nas diferenças das ideologias e subjetividades do sistema, o qual a envolve e absorve nas teias dos sistemas culturais pelos quais ela passou.
Por fim, Macabea, esse sujeito feminino produto da espetacularização da fêmea desprovida de corpo e mente é consumida pela sua própria insignificância diante da grandiosidade do sistema. Mesmo na modernidade o, sujeito, às vezes, nem sempre suporta toda essa superposição de choques, essa impessoalização das relações e a falta de espiritualidade. Tampouco Macabéa o suportou, sobretudo ela que “era à-toa na cidade inconquistável”. O Rio de Janeiro era a cidade incompreensível, inatingível e impossível para Macabéa, na qual não consegui se situar na linguagem simbólica e cifrada da metrópole carioca, a qual acabou a “engolida”.
Referências
ARISTÓTELES. Poética. In: Os pensadores . Vol IV. São Paulo: Abril Cultural, 1973. BORELLI, Olga. Clarice Lispector – Esboço para um possível retrato. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
CANDIDO, Antonio. No Raiar de Clarice Lispector. In Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970.
ÉSQUILO. In: SZONDI, Peter. Ensaio sobre o trágico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.
FREITAG, Barbara. O Mito da Megalópole na Literatura Brasileira. Revista do Tempo Brasileiro, nº 132, Rio de Janeiro: 1998.
FREIRE, Antônio. O teatro grego . Braga: Pub. Da Faculdade de Filosofia, 1985.
HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela . Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
NIETZSCHE, Frederich. A origem da tragédia. /s.l./: Guimarães Ed., /s.d. b/.
NUNES, Benedito. O Drama da Linguagem – Uma Leitura de Clarice Lispector. 2. ed., São Paulo: Editora Ática, 1995.
SÓFOCLES. Édipo-Rei . São Paulo: Abril Cultiral, 1980.
SÁ, Olga de. A Escritura de Clarice Lispector. Petrópolis: Vozes, 1993. WALDMAN, Berta. Clarice Lispector: a paixão segundo C.L. São Paulo: Escuta, 1992.

© Professor de Linguagens e Literatura do DCHT- UNEB, câmpus XVI, - Irecê –BA. Poeta e escritor. Endereços eletrônicos: jpgbarreto@hotmail.com e jpgbarreto@gmail.com; diário eletrônico: www.poetadasolidao.blogspot.com

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

LUAR DE SAUDADE

A lua banha de magia o universo
E irradia o brilho de seus olhos
Enchendo o céu de alegria.

As estrelas cortam firmamento
E as ondas do mar gemem
Como se sentissem o sofrimento
Que parte esse peito...

O que fazer para acalmar o coração?
Não há nada a fazer.
Porque ele ver a dor que sente
A alma ao lembrar-se de ti.

Daí, olhar a lua nessa noite
É sentir sua presença em mim
E não tem para onde fugir;
É saudade sentir até não resistir
E esvanecer em lágrimas
cada gota de mim no oceano
da saudade...

16 de setembro de 2008, 23h58min
Robério Pereira Barreto

domingo, 14 de setembro de 2008

POR VOCÊ...

Por você subirei a serra
E no cimo dela respirei puro ar,
Correndo descerei para lhe entregar.

Por você mergulharei ao fundo do oceano
E de duras ostras extrairei lindas pérolas
Para com elas lhe enfeitar o colo
Com pedras belas.

Por você peregrinarei no meu deserto
Na busca de um sol que aponte
O jeito certo de lhe guardar
Com esse coração modesto.

Por você acordarei na madrugada fria
Para cobrir e aquecer lhes as partes
Que ficaram fora do cobertor,
Evitando ficarem geladas...

Por você descerei ao inferno
Para lhe salvar se preciso for...

Por você empenharei minha alma
Para que tenha felicidade...

Por você não importarei em tornar eterno devedor,
Porque, um dia, serei recompensado;
Terei o seu amor.

14 de setembro de 2008, 23h42min.
Robério Pereira Barreto

CHARME

O mel dos seus olhos
Mistura-se ao marfim
Do seu sorriso e faz de ti
Uma beleza capaz de me seduzir.

O cheiro de jambo de sua pele
Ao mais involuntário toque
Incendeia a mente e fere
Os mais castos anseios
Que ora devoto a ti.

O carmim de seus lábios me atrai;
Como as flores convidam
O ousado beija-flor para invadi-las
Com malicioso toque de amor,
Porém, ainda me sinto distante
Por causa de seu véu protetor.

13 de setembro de 2008, 19h55
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

APLAUSOS

Quando vejo a luz da lua
Nela sua sombra insinua
E sinto vontade de ter você...

Quando a lua se deita
Na madrugada,
Os meus olhos rejeitam
A luz do dia; por que ela [lua] os seduz.

Impaciente, na lucidez da lua
Sua pele de brancura nua
Desfila na minha mente
Como se passeasse na rua
Aos aplausos do meu coração.

12 de setembro de 2008, 19h39min.
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

OLHOS FECHADOS

É madrugada e meus olhos não querem o dia,
Fechados eles contemplam-te
Lindamente na beleza no primeiro encontro.

Naquele dia meus pés acariciavam o chão
E o coração apanhava mais do que batia
De tanto querer ter você depois da fantasia.

Mas e agora? Depois de tudo vai embora?
Simplesmente deixando para trás
Um rastro de nós diluído no ar

Ainda há tempo, venha...
Para os meus braços que,
Abraçados a escuridão da noite
Enfrentaremos sem pensar!

Venha, venha, venha...
E ria para mim trazendo
A luz a clarear a passagem
A caminho do mar...

05 de setembro de 2008, 12h13min.
Robério Pereira Barreto

ABRAÇO PÚBERE

Sussurros teus levam
Ao encontro do eu perdido
Entre dor e prazer
Na escuridão do destino.

A claridade desse olhar
Mareante guiando o pulsar
Do peito em descompasso...

Agora, derreado em púbere regaço
O amor preso a laço
Se solta para viver sem lastro
E achar a felicidade noutros braços.

05 de setembro de 2008, 01h45min
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O QUE QUERIA AGORA...?

Sabe o que queria agora, minha flor...
Sentir seu perfume diluindo no calor
Das gentes que passeiam sob a luz da lua.

Sabe o que queria ouvir, minha flor...?
Pessoas falando de ti como que
Embriagadas pelo seu fresco.

Sabe o que gostaria de diz-te
Nessa hora de alegria...?
Muito obrigado!

Deixaria vir de lá de fora
Toda a energia para alegrar-nos
Nessa imensidão de horas!

04 de setembro de 2008, 23h05min
Robério Pereira Barreto

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

POR QUÊ?

Quando todos ensurdecerem
E não conseguirem mais
Ouvir os gemidos do mundo
Seremos todos zumbis
A procura de si...

Quando todos queimarem
O último pau da arara
E vê-la pousando na terra
Ressequida e escaldante
Onde havia verde de montão
Veremos quão egoísta fomos.

Quando todos contaminarem
Com próprio sangue a
Última fonte de vida humana
Aceitaremos nossa condição
Impiedosamente de seres infernais.

Quando todos sentirem os corpos mortos
Respirando sua própria indignação
Saberemos quão impuros fomos
Com a natureza, matando-a sem compaixão.

03 de setembro de 2008, 21h34
Robério Pereira Barreto

ODISSÉIA

Pela estrada do mundo
É preciso se desvencilhar
De pedra e espinhos
Que nos levam abismos.

Por esses caminhos
Desejos se transformam
Em encruzilhadas
E, às vezes, elas nos desviam
Ao encontro do Minotauro.

Depois dos primeiros passos
No escuro e labirinto ambiente
Resta nos escolher; segurar
No fio de Ariadne ou lutar até
A morte diante da fera.

03 de setembro de 2008, 00h27
Robério Pereira Barreto

domingo, 31 de agosto de 2008

FULGOR...

Nem tudo que lhe digo é amor
Mas tudo o que lhe faço o tem;
A cada beijo que lhe dou
Entrego-me sem pudor.

Dizer isso é um risco...
Porém, querer-te me faz bem
Então, saiba que sem ti não
Quero ser ninguém!

Não há escuro nem espinho
Capazes de fechar o caminho
Por onde contigo hei de passear,
Porque sóis minha luz e lança
Que me permitem ao mundo desafiar.


31 de agosto de 2008, 00h15
Robério Pereira Barreto

sábado, 30 de agosto de 2008

DELIRANTE PAIXÃO


A vida é mesmo apaixonante e o que ela nos reserva é mais ainda. Passavam-se dias e noites e o marasmo contaminava-me em demasiada agonia. Ei-me diante de uma questão; continuaria a negar minha existência humana, ou, deixaria vir à tona travessuras e paixões loucas!
Entretanto, faltava-me o elo para que essa corrente ganhasse impulso e, com isso despertar os mais insanos e incontroláveis desejos humanos, paixão. Subitamente, encontrei-me diante de uma das mais belas ninfas de Calipso. Tal Ulisses tentou resistir a seus encantos da Ilha, não consegui, fui pretensioso demais e seus encantos fizeram-me seu escravo e agora lhe sirvo em adoração.
Contato físico não há, porém na minha imaginação já nos demos aos mais lascivos desejo aperte-lhe solenemente suas macias e belas mãos de princesa, beije-lhe os pés cuja sensibilidade supera a menina do conto de fada... Tudo isso foi tão rápido que voou e está registrado no livro do infinito.
Numa noite em que lua e estrelas como brilhantes enfeitam de luzes a face do universo, sentamos juntos na abóbada celestial para nos entregarmos ao devir a procura de nós!
Entremeadas de medos nossas vozes joviais tremulavam por entre sorrisos abertos e falas metaforizadas as quais não buscavam sentido algum, demonstrando os sintomas de nossa desvairada paixão. Poderia ser tudo isso apenas um sintoma de nossa grave doença, paixão! Que se manifestava aos poucos numa noite de muita luz e alegria...
30 de agosto de 2008, 22h
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O SABICHÃO

Se me dá licença uma prosa vou contá
Não é caso de trancoso
Nem besouro mangangá
Foi acontecido comigo
No sertão coisa e tá.

Havia lá um cabra metido a sabido,
E que por todos era temido,
Conhecido como Alberto
Mas, quando tinha bajulador perto
Queria ser chamado Berto.

Veja só que engranzia
Pois, não é que teve um dia,
Parecendo até coisa feita ou magia;
Nossos caminhos num se foram cruzá.

O cabra era afamado
E dizia o povo que era o tá
Era home das leis cheio de tarará.
Acredite, não era nada disso
Tinha mais era fuá.

Prosa séria cum ele tive de ter
E, logo, humildemente vi
Que o cabra que arrotava sabedoria
De sabido nada tinha,
Porque tudo que dizia, falsa romaria.

Desequilibrado o cabra se mostrou
Porque alguém lhe perguntou
Se ele ainda era o menino do Jumento?
Embrutecido tá gambá na moita
Logo despreparado se mostrou...

Achando-se mais sabido do que tudo
Já falando arto que nem o diabo
Palavras feia retrucou...

E me adiscurpe o meu senhô
Mas não falo o que ele disse,
Cabra desbocado, sem pudor.

Vendo que o tá era só fuá
Dei-lhe corta até se enforcá
Com suas falácias nada dizia,
Povo na platéia dele ri
Porque a cada discurso
Sua própria armadia construía.

Bruto que nem canção
O branco dos oio ficou vermeio
E acalmá o tá não houve meio
Falou sozinho tempo todo
O infeliz, nem tomava forgo.

Como todos puderam ver
Quereria ser sabichão no sertão
E passou o pior dos aperreio
Quando se acha que é sabido
Há de lembrar que não tem ninguém
Que possa perto de si ter um iguá.

Aí, senhô, meu avô há muito diz:
Quando tu escutá muito trovão
É siná de pouca chuva.
E todo sabichão é um mofino
Na hora da discussão.

29 de agosto de 2008, 20h
Robério Pereira Barreto

terça-feira, 26 de agosto de 2008

COBIÇA

A fraqueza do coração é a dor
Não uma expiação qualquer,
Mas sim, a aflição de sentir
Saudades de ti.

A dor é parte de mim,
E a cada amanhecer
Ao contar horas pare lhe ter
Nos brancos e boca nem
Que seja por um instante,
faz-me um cobiça-dor.

O encontro físico, clímax
Porque já a tenho em pensamento
E nele desnudo-te e enredo-te
Em mais alta adoração,
Para possuí-la sem moderação.


26 de agosto de 2006, 10h08
Robério Pereira Barreto

domingo, 24 de agosto de 2008

PROVERBIALIDADE NA COMUNICAÇÃO DO HOMEM DO POVO

Robério Pereira Barreto*

Ouve-se constantemente que o português que se fala nas ruas é diferente daquele que a escola ensina, bem como o que se pretende como instrumento de inclusão. Todavia, isso ganha novo entendimento a partir da aprovação da lei que estabelece o novo tratado de unificação da ortografia nos países lusófonos. Com isso, a língua portuguesa passa a ganhar e ocupar espaços nos fóruns internacionais, porque haverá maior intercambio de informações e textos nesse idioma.
Numa perspectiva prática, ganha espaço o idioma falado no Brasil e com ele vem à tona a comunicação do homem do povo, a qual é constituída por expressões populares, provérbios e frases feitas.
Sabe-se que, além disso, há corrente de lingüistas que sustenta que a fala é a forma fundamental e básica da linguagem e a escrita é apenas uma representação da fala em termos gráficos. E há também a tese contrária que afirma: “(...) a escrita é muito mais do que uma representação gráfica da fala. Há diferenças profundas entre a linguagem que utilizamos ao falar e a que utilizamos ao escrever: algumas dessas diferenças são de caráter gramatical, mas as mais importantes têm a ver com a maneira como estruturamos o próprio texto ao falar e ao escrever.” (Perini, 2004).
Para José Américo de Almeida em seu clássico A bagaceira, “não há quem não tenha seu pedaço de mau caminho. Há gente que anda de capas encouradas; quando menos se pensa, bota as mangas de fora.” É com base nesses comentários do escritor e do lingüista que se inicia a discussão sobre o folclore lingüístico que permeia nosso cotidiano de elementos que dinamizam a nossa comunicação.
Dessa maneira, pensar o folclore lingüístico conforme Herbert Palhano é reconhecer que existe dinamicidade na comunicação do povo, porque vivem nela elementos fundamentais para que se identifique o estágio evolutivo da língua na comunidade em que se produz tal idioma.

E não se diga, por isso, que o povo sempre fala mal. Muitas passagens há na sua parlenga que precisam ser vistas, não como simples erros, porém como estágios evolutivos do idioma; outras existem que, pela sua candura, avivam em nossa imaginação e lembrança do passado. Os escritores não as empregam hoje, mas o povo as conserva com as mesmas roupagens do período medieval.[1]

A partir dessa afirmativa, considera-se, portanto, que o folclore lingüístico é uma instituição abrangente e tem múltiplas facetas da linguagem popular. Isso demonstra que o homem do povo por meio de sua experiência vem perpetuando a cada geração a sobrevivência de elementos lingüísticos que o representa e mantém fixo sua identidade. Exemplo, provérbios e frases feitas que denotem “as lições de sabedoria” popular por meio da imaginação e espírito crítico do povo.
Relacionado a isso há ainda outro tipo de linguagem que acompanha esses saberes; gestos que nesse meio de comunicação do ser humano, seja qual for o seu grau de civilização e forma de sua cultura, pondera Weitzel.
É interessante lembrar que dentro desse quadro de compreensão do folclore lingüístico surge, portanto, a paremiologia popular na qual se evidenciam os saberes advindos da fala do povo. Trata-se na verdade de uma espécie de classificação na qual se agregam os ditados populares, os quais por sua vez se estruturam a partir de frases sentenciosas, concisa e que tem sua verdade assegurada na secular experiência do povo, e que tem como estrutura discursiva a poeticidade através da qual se garante a fixação no inconsciente coletivo.
Para Weitzel, o que assegura a permanência desse tipo de comunicação no meio social popular, são a simplicidade das palavras e a força rítmica do texto.

“O que faz a sua força e explica sua persistência no meio do povo é sua concisão, a profundeza do conceito, a construção quase sempre binominal, ritmada, e preferencialmente rimada, funcionando a rima como elemento embelezador e mnemônico.” (WEITZEL, 1995, p.118).

Nos ditados populares encontram-se questões de sentido que vão desde laconicidade até dogmatismo. O homem do povo, às vezes é descriminado linguisticamente em sua fala em virtude dela ser lacônica e desprovida de elementos de ação; verbo e ou vocábulos desnecessários. Ex. Doce quente, barriga doente; Perdido por um, perdido por mil.
Tais falas demonstram qual lacônica é a comunicação popular, entretanto, os usuários contínuos desse modo de expressão encontram seu lugar de fala e de escutar com a pertinência necessária para o entendimento do assunto tratado no grupo. Portanto, o laconismo na fala popular se traduz por ditos curtos e frases nominais conforme citado acima.
Além disso, tem aqueles ditados populares que ganham notoriedade devido ampla divulgação e aceitação pelo grupo, tendo inclusive, o poder de surpreender o ouvinte, pois parece que pronunciado pela primeira vez. Ex. Quem avisa amigo é. Quem com ferro ferre, com ferro será ferido. Antes só, que mal acompanhado.
Em continuidade à classificação do dito popular, existem aqueles que parece ter sido traduzido de outras línguas, todavia eles são conhecidos por povos de línguas diferentes, mas mantém sua significação e estrutura gramatical quando usado noutro idioma. Em português: Voz do povo, voz de Deus; em Latim: Vox populi, vox Dei; Espanhol: Voz del pueblo, voz del cielo. Francês: La voix du peuple est la voix de Deiu. Italiano : Voce di popolo, voc di Dio; Inglês : The people’s voice, God’s voice.
Estes exemplos demonstram a universalidade dos provérbios na produção discursiva do homem comum, bem como daqueles que se sentem diferentes social e culturalmente, porque os provérbios fazem parte da cultura oral das sociedades humanas.
Ainda nesse viés, ditados populares apresentam em sua constituição densidade semântica, exigindo dos interlocutores, interação e conhecimento sistemáticos, uma vez que são edificados em poucas palavras cuja profundidade de sentido leva a uma espécie de lição de vida, pois advém da longa experiência de quem os proferem. Ex. Diz-me com quem andas e te direi quem és; Quem com porcos se mistura, farelos come. Águas passadas não tocam moinho. Ver-se ai todo aprofundamento moral advindo dos saberes adquiridos pela observação e a vivências dos enunciadores.
Nesse contexto espraiam-se elementos afirmativos diante da autoridade que o adágio tem no meio social onde é enunciado. Então, a veracidade nele contida não carece de maiores explicações. Então, veja-se conforme segue: Quem chora não mama. Pede galinha não mata pinto. Um erro não justifica outro. Aqui, é fundamental que se busque a compreensão a partir do contexto, uma vez que se trata de mensagens carregadas de polissemia.
Em se tratando de elemento polifônico, é interessante a recorrência da generalização para garantir ao provérbio exatidão conforme as variadas circunstâncias em que se aplica. Ex. O cavaco não cai longe do pau. Quem cospe o caroço é que é dono da fruta. Filho criado trabalho dobrado.
Aos provérbios se aplicam as sabedorias populares e, com isso eles assumem um lugar prático na comunicação popular, evitando assim uso de retóricas. “Quando o citamos numa circunstância qualquer, temos a impressão de tê-lo inventado naquela hora, para atendermos àquela situação específica de fala.” (WEITZEL,1995, p.121). Ex. Quem vai na frente bebe água limpa.Chumbo trocado não dói. Achado não é roubado. Combinado não é caro.
Às vezes, quando se usa os provérbios em ocasião diferentes, colocando-os frente a frente pode ocorre contradição. Ex. Em boca fechada não entra mosquito./Quem cala consente. Os grandes venenos estão nos frascos pequenos./Os maiores perfumes estão nos menores frascos.
Além disso, os ditos populares vão além e buscam estabelecer parâmetros e, sobretudo, realçarem regras de conduta definidas ao longo dos séculos pela sabedoria humana, tendo seu maior suporte na questão da religiosidade. Conforme segue: Não se fala em corda em casa de enforcado. Boa romaria faz, quem em casa fica em paz. Não ria do mal vizinho, que o seu está a caminho. Há de se reconhecer que nem sempre na mensagem proverbial existe intenção moral. Às vezes, apenas enunciam um fato, apresentam uma verdade experimental, como: A cana só dá açúcar, depois de passar por muitos apertos. A formiga quando quer se perder, cria asas. Barata sabida não atravessa galinheiro.
No que se refere ao plano estético, tem se ai um ponto importante a ser considerando neste tipo de produção enunciativa; a forma. Esta, por sua vez traz em si elementos literários importantes, ou seja, nos ditados populares a forma é basicamente suportada por rima de sucessão regular, tendo tempos fortes e fracos. Ex. QUEM tem Boca, VAI a Roma. Água Mole em Pedra Dura/TANto Bate atÉ que Fura. Também há que se destacar a forma rimada na qual se evidencia a identidade de sons, ao final de cada verso, sendo este um poderoso recurso mnemônico. Grande gabador/Pequeno fazedor. Quem guarda como fome/O gato come/Segredo contado/É logo espalhado. Dando continuidade à forma, o adágio popular constantemente é construído com binômios. Ex. Casa de ferreiro, espeto de pau. Quem vai ao vento, perde o assento. Quem não tem cão, caça com gato. Porém, há provérbios que não tem binômio. Ex. Santo, quando vê muita esmola, desconfia. O uso do cachimbo põe a boca torta. Macaco velho não mete a mão em cumbuca.
Nesse percurso, tentou-se evidencia a importância paremiologia na comunicação do homem a partir da compreensão do Folclore lingüístico, sem, contudo, adentrar as questões de análise semântica ou pragmática, visto que se trata apenas de uma demonstração do poder da linguagem, quando esta é manipulada pelo o homem do povo em suas ações comunicativas.
Bibliografias consultadas:
BASSO, Renato; ILARI, Rodolfo. O português da gente: a língua que estudamos a língua que falamos. São Paulo: Contexto, 2006.
BURKE, Peter; PORTER, Roy. Línguas e jargões: contribuições para uma história social da linguagem. São Paulo: UNESP, 1997.
WEITZEL, Antônio Henrique. Folclore literário e lingüístico; pesquisa de literatura oral e de linguagem popular. 2 ed. EDUFJF, Juiz de Fora, 1995.
* Professor de Lingüística e linguagens – UNEB – Campus XVI – Irecê-BA.
[1] Herbert Palhano – A língua Popular.

sábado, 23 de agosto de 2008

TECHONOLOGÊS: A REALIDADE DO MUNDO VIRTUAL

A linguagem do mundo é virtual conforme é definida por Phillipe Quéau (1993) se apresenta como uma base onde se encontra a dicotomia digital 0 e 1, isto é, é nesse binarismo em dados e imagens se transformam em informações a disposição dos usuários de equipamentos eletrônicos e digitais na sociedade contemporânea.
Em se tratando dessa questão Prado (2003) afirma que, segundo Quéau a “linguagem do virtual não é simplesmente técnica a mais na história das representações, é, literalmente, o surgimento de uma nova escrita comparável à invenção da imprensa ou ao surgimento do alfabeto”, por que se trata de “uma escrita interativa e imersiva que emerge nas comunidades virtuais, nas cidades e mundos virtuais, na realidade virtual onde se apresenta necessário penetrar nessa escrita, dominar sua gramática e seu estilo.” (Prado, 2003, p.207).
Entretanto, a realidade desse discurso é mais ampla e complexa, visto que os criadores dessa linguagem passam a deter o domínio de seus vocabulários e jargões. O exemplo, WWW, HTML e VRML siglas que a maioria das pessoas ouve falar e até as citam sem, de fato conhecerem seus significados. A partir disso, esta discussão busca simplificar traduzindo para a linguagem comum o que de fato são essas nomenclaturas e onde elas estão fixadas.
É importante de dizer que o sistema WWW é fruto de estudos e pesquisas feitas em laboratórios de física nuclear e seu autor é o inglês TIM Bernes-Lee, que definiu como um protocolo de comunicação que faz a transferência de imagens, sons e textos pela rede, internet. Já HTML (Hipertext Markup Language) neste contexto se tem amplitude da leitura das informações, porque nesse protocolo os dados ganham sentidos bidimensionais e dão sentidos diferenciados às páginas virtuais. A linguagem HTML permite a criação de locais de informações onde grandes textos contendo imagens, som e dados provocando várias formas de comunicação entre os usuários do sistema, com isso gera diversas possibilidade e análise e questionamentos, um “imenso hipertexto planetário, um espaço rizomático e visitável”. Além disso, surgiu VRML (Virtual Reality Modeling Language) criado por Dave Ragget da Hewlett-Packard com a intenção de aproximar e aumentar “a interatividade e interconexão assicrônica em tempo real de múltiplos participantes” Prado (2003).
Com esse modelo de linguagem digital é possível se criar, interagir e manipular objetos e cenas, bem como examiná-los sob vários pontos de vistas. “No caso de mundos de VRML, estes podem ser animados e permite-se ao usuário criar condições para interatuar com outros usuários em 3D.
Crê-se, que depois dessa reflexão teórica mais complexa é hora de começa a simplificar a linguagem usada nos meios digitais, para isso continua-se no campo da internet. Para isso se explica as diferença entre bit e Byte, uma vez que ambos são unidades de medidas do espaço cibernético. Sendo os dois unidades de medida digital (1Byte = 8 bits), mas são usados de formas distintas: Quando falamos em velocidade de conexão, usamos bits (600kps significa uma velocidade de 600 mil bit em um segundo), já quando falamos em “tamanho de arquivo”, usamos Bytes. Exemplo, uma música tem, mais ou menos, 5 Bytes de “tamanho”.
Agora, pode-se falar de internet e suas tipologias: Dial-up normalmente é aquela usada pelo acesso discado, ou seja, o acesso se dá via linha telefônica convencional. (você liga o computador direto à linha telefônica); Banda Larga é o termo usado para definir qualquer conexão à internet com alta velocidade. Numa conexão banda larga, os dados trafegam de forma mais rápida do que no acesso discado.
Outro ponto que precisa ser simplificado é a expressão 3G segundo especialista em tecnologias digitais esta é a geração de telefonia com acesso em alta velocidade. Assim você pode acessar a internet tanto do computador de casa como do computador portátil. Atrelado a este conceito vem WAP (Wireless Application Protocol (Protocolo de Aplicações sem Fio) Isso permite o acesso a internet por meio de equipamentos móveis, celular, computador portátil, etc.
Dessa maneira acredita-se que a linguagem no mundo digital é restrita aos iniciados, todavia esteve cada vez mais na boca do povo, como se estes fosse apenas reprodutores de falas que, de algum modo, lhes conferem lugar de destaque no meio social onde situam seus discursos.


MASIP, Fernando García. Signos em desconstrução. In. DIAS, Antônio Nascimento et ali. Desenvolvimento sustentável e tecnologias da informação e comunicação. Salvador: EDUFBA, 2007, pp.19-30.
PRADO, Gilberto. Ambientes virtuais multiusuários. In. DOMINGUES, D. Arte e vida no século XXI: tecnologia, ciência e criatividade. São Paulo: UNESP, 2003, pp.207-224.

PINGOS DO MEU EU

Cada lágrima que nego a estes olhos,
Profundas voçorocas nascem a cada gota
Que retorna ao peito,
Fazendo dele um Missipi de dor.

Assim, estes rasos olhos
Mostram quanto recolhi de mim
Para não mostrar a ti que sofria

E há em mim uma mina que
Goteja noite e dia
Deixando escorrer sobre a face
Alguns pingos de meu eu.

23 de agosto de 2008
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

ONDE TE CONHECI

Embora tivéssemos na primavera,
Levantava naquele sertão
Nuvens vermelhas a colorir a imensidão.

Ao longe se ouve o pulsar de um coração
Que buscava entre cortina carmim da poeira
Identificar uma flor de voz menina...

Em meios a gritos,
Abre-se o véu
E a ansiedade domina
Olhares e corações...

Segundos tornam-se eternidade
E eles se cruzam em surpreendente
E silenciosa admiração.

Eis que no meio do "nada"
Almas se encontram para
Viverem intensamente....

21 de agosto de 2008, 19h
Robério Pereira Barreto

domingo, 17 de agosto de 2008

A LINGÜÍÇA NÃO TERÁ TREMA E ETC E TAL

Devido aos constantes questionamentos sobre o novo acordo ortográfico que a mim são feitos diariamente, resolvi então resgatar o referido acordo e mostrar que não se muda os elementos de uma língua tão importante como a nossa repentinamente.
Dessa maneira, vejamos que o acordo está prestes à maioridade conforme segue:

Considerando que o projecto de texto de ortografia unificada de língua portuguesa aprovado em Lisboa, em 12 de Outubro de 1990, pela Academia das Ciências de Lisboa, Academia Brasileira de Letras e delegações de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, com a adesão da delegação de observadores da Galiza, constitui um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional;
Considerando que o texto do Acordo que ora se aprova resulta de um aprofundado debate nos países signatários: a República Popular de Angola, a República Federativa do Brasil, a República de Cabo Verde, a República da Guiné-Bissau, a República de Moçambique, a República Portuguesa e a República Democrática de São Tomé e Príncipe acordam no seguinte:
Artigo 1.º
É aprovado o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que consta como anexo I ao presente instrumento de aprovação, sob a designação de Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), e vai acompanhado da respectiva nota explicativa, que consta como anexo II ao mesmo instrumento de aprovação, sob a designação de Nota Explicativa do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990).
Artigo 2.º
Os Estados signatários tomarão, através das instituições e órgãos competentes, as providências necessárias com vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas.
Artigo 3.º
O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entrará em vigor em 1 de Janeiro de 1994, após depositados os instrumentos de ratificação de todos os Estados junto do Governo da República Portuguesa.
Artigo 4.º
Os Estados signatários adoptarão as medidas que entenderem adequadas ao efectivo respeito da data da entrada em vigor estabelecida no artigo 3.º
Em fé do que os abaixo assinados, devidamente credenciados para o efeito, aprovam o presente Acordo, redigido em língua portuguesa, em sete exemplares, todos igualmente autênticos. Assinado em Lisboa, em 16 de Dezembro de 1990.
Pela República Popular de Angola:
José Mateus de Adelino Peixoto, Secretário de Estado da Cultura.
Pela República Federativa do Brasil:
Carlos Alberto Gomes Chiarelli, Ministro da Educação.
Pela República de Cabo Verde:
David Hopffer Almada, Ministro da Informação, Cultura e Desportos.
Pela República da Guiné-Bissau:
Alexandre Brito Ribeiro Furtado, Secretário de Estado da Cultura.
Pela República de Moçambique:
Luís Bernardo Honwana, Ministro da Cultura.
Pela República Portuguesa:
Pedro Miguel Santana Lopes, Secretário de Estado da Cultura.
Pela República Democrática de São Tomé e Príncipe:
Lígia Silva Graça do Espírito Santo Costa, Ministra da Educação e Cultura.
BASE I: DO ALFABETO E DOS NOMES PRÓPRIOS ESTRANGEIROS E SEUS DERIVADOS
O alfabeto da língua portuguesa é formado por vinte e seis letras, cada uma delas com uma forma minúscula e outra maiúscula:

a A (á)
j J (jota)
s S (esse)
b B (bê)
k K (capa ou cá)
t T (tê)
c C (cê)
l L (ele)
u U (u)
d D (dê)
m M (eme)
v V (vê)
e E (é)
n N (ene)
w W (dáblio)
f F (efe)
o O (ó)
x X (xis)
g G (gê ou guê)
p P (pê)
y Y (ípsilon)
h H (agá)
q Q (quê)
z Z (zê)
i I (i)
r R (erre)

Obs.: 1. Além destas letras, usam-se o ç (cê cedilhado) e os seguintes dígrafos: rr (erre duplo), ss (esse duplo), ch (cê-agá), lh (ele-agá), nh (ene-agá), gu (guê-u) e qu (quê-u).
2. Os nomes das letras acima sugeridos não excluem outras formas de as designar: As letras k, w e y usam-se nos seguintes casos especiais:
a) Em antropónimos/antropônimos originários de outras línguas e seus deriva­dos: Franklin, frankliniano; Kant, kantismo; Darwin, darwinismo; Wagner, wagneriano; Byron, byroniano; Taylor, taylorista;
b) Em topónimos/topônimos originários de outras línguas e seus derivados: Kwanza, Kuwait, kuwaitiano; Malawi, malawiano;
c) Em siglas, símbolos e mesmo em palavras adotadas como unidades de medida de curso internacional: TWA, KLM; K-potássio (de kalium), W-oeste (West); kg-quilograma, km-quilómetro, kW-kilowatt, yd-jarda (yard); Watt.
Em congruência com o número anterior, mantém-se nos vocábulos derivados eruditamente de nomes próprios estrangeiros quaisquer combinações gráficas ou sinais diacríticos não peculiares à nossa escrita que figurem nesses nomes: comtista, de Comte; garrettiano, de Garrett; jeffersónia/ jeffersônia, de Jefferson; mülleriano, de Müller; shakesperiano, de Shakespeare.
Os vocábulos autorizados registarão grafias alternativas admissíveis, em casos de divulgação de certas palavras de tal tipo de origem (a exemplo de fúcsia/ fúchsia e derivados, bungavília/ bunganvílea/ bougainvíllea).
Os dígrafos finais de origem hebraica ch, ph e th podem conservar-se em formas onomásticas da tradição bíblica, como Baruch, Loth, Moloch, Ziph, ou então simplificar-se: Baruc, Lot, Moloc, Zif. Se qualquer um destes dígrafos, em formas do mesmo tipo, é invariavelmente mudo, elimina-se: José, Nazaré, em vez de Joseph, Nazareth; e se algum deles, por força do uso, permite adaptação, substitui-se, recebendo uma adição vocálica: Judite, em vez de Judith.
As consoantes finais grafadas b, c, d, g e h mantêm-se, quer sejam mudas, quer proferidas, nas formas onomásticas em que o uso as consagrou, nomeada­mente antropónimos/antropônimos e topónimos/topônimos da tradição bíblica; Jacob, Job, Moab, Isaac, David, Gad; Gog, Magog; Bensabat, Josafat.
Integram-se também nesta forma: Cid, em que o d é sempre pronunciado; Madrid e Valhadolid, em que o d ora é pronunciado, ora não; e Calecut ou Calicut, em que o t se encontra nas mesmas condições.
Nada impede, entretanto, que dos antropónimos/antropônimos em apreço sejam usados sem a consoante final Jó, Davi e Jacó.
Recomenda-se que os topónimos/topônimos de línguas estrangeiras se substituam, tanto quanto possível, por formas vernáculas, quando estas sejam antigas e ainda vivas em português ou quando entrem, ou possam entrar, no uso corrente. Exemplo: Anvers, substituíndo por Antuérpia; Cherbourg, por Cherburgo; Garonne, por Garona; Genève, por Genebra; Justland, por Jutlândia; Milano, por Milão; München, por Muniche; Torino, por Turim; Zürich, por Zurique, etc.
A partir desse tópico é interessante esclarecer que haverá mais modificações na grafia de usada em Portugal do que na nossa. Todavia, alguns aspectos serão observados no fututo, isto é, a partir do momento em que os livros e dicionários começarem a registrá-los tanto aqui quanto nos países de Língua Portuguesa seremos “obrigados” a seguir tal acordo. Embora saibamos que se refere à língua falada pouco o nada mudará, visto que boa parte dessas questões já é bem resolvida na produção oral. Para saber mais e como estão estas questões visite as fontes abaixo indicadas:
http://www.portaldalinguaportuguesa.org/index.php?action=acordo&version=1991
http://www.portal.mec.gov.br/sesu/index.php?option=content&task=view&id=693&itemid=303 http://www.static.publico.clix.pt/docs/cultura/acordoOrtografico.aspx

“DOIS A DOIS” DE SÓLON BARRETO: REINVINDICANDO A ALTERIDADE

Quais teriam sido os pensamentos e os vieses que permitiram ao ator e diretor de teatro, Sólon Barreto a consolidar num só quadro epistemológico o caos do ser contemporâneo: instabilidades emocionais, vaidades individuais consolidados e legitimados por questões sociais e morais numa perspectiva informal, “um papo comédia” no qual as relações e vaidades masculinas e femininas se acentuam definitivamente?
Ainda que no decorrer do “papo” o ator deixa vir à tona elementos do cotidiano, isto é, piadas e textos correntes na internet, ainda assim houve muita criatividade ao usá-los, de modo que a maioria da platéia deixou-se encantar pelo desempenho do ator, cuja expressão de palco é bastante significativa.
Além disso, é curioso perceber o potencial crítico do ator ao tratar de uma só vez, do pluralismo do dia-a-dia, violência doméstica, individualismos e, sobretudo, o quesito da alteridade, ou seja, ao se travestir nos personagens feminino-masculino reivindicava a alteridade da mulher contemporânea de um ponto de vista no qual se vê de uma forma crescente na platéia, a catarse feminina. Dizendo de outra forma, há em “D IS A D IS” a identificação insistente da presença da voz da mulher como um dos riscos mais assanhados da cultura pós-moderna. Embora fiquem evidências de que na tradição local quem vai predominar de fato é a voz do ideal de macho, isto é, o personagem Chico Navalha é o ponto nefrálgico do “papo”, porque há nele a possibilidade da maioria dos espectadores se identificarem, inclusive os homens tendem a seguir seus pontos de vistas e, as mulheres por sua vez, vêm nesse tipo dupla face da realidade local, pois uma pode estar representada na figura do pai ou do irmão homofóbicos e violentos.
No que se refere à natureza da apresentação é interessante observar como, apesar da experiência explícita do ator não houve interação com a técnica, uma vez que produção não estava atenta as ações do ator no palco, vindo a soltar a trilha sonora fora de tempo de cena. Outra questão intrigante em “D IS A D IS” é a presença de um Banner com foto de celebridades, visto que ator em momento algum fez uso efetivo daquele elemento cênico. (Será que tiveram a devida autorização para fazer o uso de tais imagens?)
A profundidade e a distância existentes entre homens e mulheres são de fato, uma questão importante, todavia o pensamento feminista marca todo o texto e exigiu do ator posicionamento de palco extremamente complexo, uma vez que a relação entre os sexos bem como todas as questões da sociedade contemporânea reivindicam sentidos, sejam, de forma sistemática, particularizada e ou localizada historicamente, opondo-se quaisquer perspectivas ontológicas de conciliação.
É ainda o caos humano que determina a ação do ator no palco. Porém o estilo proposto pela equipe ao invés de debater os assuntos subliminarmente jogados no texto, preferiram carnavalizá-los. Afirmando de outro modo, prefere-se o riso à problematização de temas importantes destacados por meio das personagens construídas ao longo da encenação.
Os sentidos carnavalizador e irônico da peça ficam evidenciados no “vocabulário praça da pública” onde as partes genitais tanto do homem quanto da mulher são ridicularizadas à medida que se coloca em destaque a questão do poder e da força advindas dessas partes (tamanho), sendo delegado ao homem todo faloegocentrismo permitido pela sociedade. Já à mulher lhe é permito apenas os devaneios em relação ao sexo.
Em “D IS A D IS” ficam evidentes tendências contemporâneas, o neorealismo no qual se usa vários elementos da cultura numa mesma perspectiva para denunciar fatos corriqueiros e, que por tanto, serão compreendidos como meras brincadeiras, pois não delimita nem o sujeito tampouco o objeto da ação.
Por fim, um dos efeitos mais importante desse trabalho é o questionamento da legitimidade dos sujeitos e lugares de fala cada um, considerados importantes para a reivindicação e manutenção da alteridade de ambos os sexos.