terça-feira, 18 de novembro de 2008

domingo, 16 de novembro de 2008

INTIMIDADE

Silêncio entre nós
E do amor feito sobre lençóis
Que, agora úmidos de suor...

Realimentando nossos corpos
De cheiro e sabor inconfundíveis
Nosso abraço nos faz alma una.

Olhares lânguidos trocados
De quem em complacência
Doaram-se sem emergência.

Um riso à toa quebrando o marasmo do
Momento tal dissesse: Sentimos o amor?!
Talvez o façamos de novo? Não sei!


16 de novembro de 2008, 20h33min
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

RIO DA VIDA

O coração tal escravo
Com saudade de sua terra
À beira do rio da vida
Chora e sente falta de quem antes era.

Você chegou e as águas de verão
Levando minhas tristes lágrimas
Para o além mar.

De lá elas subiram ao céu
Formando nuvens de alegria...

Depois de chorar o coração
Sente e faz corpo e alma
Mais leves para te querer...

13 de novembro de 2008, 22h
Robério Pereira Barreto

INTERNETÊS NA MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA

A mídia digital tendo como mediador o ciberdiscurso[1]que modifica o fazer social, cultural, lingüístico e escolástico da sociedade contemporânea na qual a escola constitui-se no lócus econômico e político das comunidades de falantes, como mais uma possibilidade de ação. Uma coisa é certa: a rede digital traz para a escola uma nova linguagem com vocabulário e aspectos lingüísticos inovadores. Assim, é importante que os profissionais da educação e, principalmente, os professores da Língua Portuguesa entrem em contato com essas novas tecnologias urgentemente. Pois, sabe-se que os governos não têm conseguido atender as necessidades das escolas no que se refere à inserção dos profissionais da educação no universo da informática e, sobremodo, da rede digital.
Neste ensaio busca-se apresentar à comunidade educacional, possibilidades de se usar os conhecimentos e recursos da mídia digital – parcos, diga-se de passagem - para aperfeiçoar os mecanismos de construção de leitura, de escrita e de sentido das mensagens veiculadas na “sociedade da imagem”.
Quem usa a internet e seu hipertexto constitui-se em atores, cujas perspectivas há muito vêm sendo discutidas com grande insatisfação, pois as ações nesse processo são, normalmente, entendidas a partir da ótica da exclusão. Em outros termos, comenta-se que o acesso à mídia digital é uma impossibilidade por parte da massa proletária de estudantes e com isso, tem-se uma série de desequilíbrios político, social e cultural devido ao afastamento dos estudantes do saber tecnológico proposto pela rede mundial de computadores.
Por outro lado, a expansão do interesse pelo uso da mídia digital nas escolas brasileiras já está defasada há décadas, e pede publicação de trabalhos tanto teóricos quanto aplicados ao ensino de linguagem na escola pública. Pensado nisso, traz-se à baila uma visão instigadora das possibilidades que a internet e suas mídias podem contribuir para a ação pedagógica dos profissionais da linguagem, quando estes se referirem às práticas lingüísticas do cotidiano, posto que, na rede digital existem hipertextos que passaram a ocupar o inconsciente coletivo, dando assim um novo entendimento à variedade de campos do saber na literatura, no cinema, na publicidade, na televisão e também na música, sendo estes entendidos sob a ótica do leitor, como elementos subjacentes à comunicação de massa.
Nas próximas seções, seguem princípios teóricos e práticos que aludem à prática do professor em sala de aula, como sujeito e objeto da ação de ensinar e aprender a “navegar” nas ondas da fibra ótica e construir interatividade entre a mensagem da rede e o pensamento lingüístico e cultural dos “navegantes do oceano cibernético”.
O estudante vive experiência do cotidiano lingüístico digital e com isso transfere seu raciocínio para a prática efetiva da comunicação. Tal acontecimento precisa de orientação metodológica. Portanto, o professor precisa aproveitar essas informações e fazer com o aluno transforme tal bagagem em conhecimento, por meio de uma seleção discursiva. Em outros termos, o profissional da linguagem deve atuar como mediador no processo discursivo do aprendiz, lhe informado que o uso cotidiano da linguagem prática na rede digital não se aplica ao contexto exterior (sala de aula, entrevista de emprego, paquera e, principalmente na prática escrita formal), contudo seus saberes linguísticos digitais são importantes para sua convivência na comunidade internética.
Não obstante às críticas, o internetês como tem sido chamado, é uma realidade e por isso precisa ser entendida e apreciada como tal. Se se quer a compreensão de que a língua evolui conforme a sociedade que a pratica avança tecnologicamente, eis ai o resultado; a linguagem prática na internet seja qual for sua maneira traduz de forma singular o processo de modernidade. Dessa forma, a escola, principalmente, no que se refere ao ensino-aprendizagem de língua portuguesa ficou inerte, uma vez que professores de “língua portuguesa” ficaram presos a conceitos superficiais da língua, tendo inclusive engessado o idioma de Machado de Assis às regras gramaticais.
O que impressiona na prática lingüística internética são os números. Conforme pesquisas realizadas recentemente, o número de usuários desse veículo aumentou significativamente e, por isso, a comunicação e a língua por eles utilizada têm mostrado avanços no que se refere à dinâmica lingüística.
Para Silvia Marconato( 2006), no Brasil, um batalhão de 15 milhões de usuários troca 500 milhões de mensagens por dia por meio do Messenger (MSN), o comunicador instantâneo da Microsoft. O Ibope/NetRatings divulgou em janeiro que o internauta brasileiro continua sendo o campeão mundial da navegação, com uma média de 17 horas e 59 minutos, deixando para trás Estados Unidos, Japão e Austrália.
Assim sendo, a revolução do internetês é uma realidade e, portanto, nós, professores de língua portuguesa necessitamos “conectarmos” às suas variantes para na perdermos o rumo e a dinâmica da língua porque a “simplificação da grafia e uso de símbolos aplicam liberdade da fala à escrita; efeito sobre a sintaxe dos jovens pode não ser catastrófico como se imagina” afirma o lingüista Ataliba de Castilho.
Num trabalho denominado O professor de português junto ao aluno, usuário de sala de bate-papo na internet (2004), publicado no livro prática de linguagem no contemporâneo discute-se a relação do professor de língua, o aluno e escrita praticada pelos jovens, a partir de princípios da lingüística, tendo no pensamento de Pretti, (2003) o qual assegura que: “a língua funciona como elemento de interação entre individuo e sociedade em que ele atua. É através dela que a realidade se transforma em signos, pela associação de significantes sonoros a significados arbitrários, com os quais se processa a comunicação lingüística” (Pretti, 2003. 12 apud Barreto, 2004, p. 15).
A produção lingüística dos internautas tem tirado o sono dos puritanos da língua. Entretanto, tem havido uma preocupação saudável por parte dos estudiosos contemporâneos da língua no sentido de alerta aos professores e, consequentemente aos jovens que, tal prática tem como contexto apenas os ciberespaços. Então, sua realização fora desse contexto soa como erros, devido à permanência da gramática reguladora da produção escrita e, às vezes da fala. Por fim, acredita-se que o internetês configura-se como um mediador da prática lingüística contemporânea, embora seja vigiado pela norma padrão da língua. Não obstante, aos caprichos dos estudiosos ortodoxos da língua os quais o considera como interferência negativa na produção culta, uma vez que já temos muitos problemas no uso da língua padrão.
Segundo Chierchia “as línguas, por trás de sua fluidez, têm um esqueleto lógico, e ele permite que nos compreendamos”. Então, é por isso talvez que nos preocupamos com a produção lingüística dos internautas, porque não conseguimos interagir com eles. Tal fato nos tira a ‘autoridade’ que antes detínhamos ao promover a língua no variante padrão (escrita literária) à condição de mestra da boa comunicação e, sobretudo, instrumento de erudição.

Bibliografias
BARRETO, R. P. Práticas de linguagem no contemporâneo. Tangará da Serra: Sanches, 2004
BARRETO, Robério Pereira; BALDINOTTI, Sérgio, Ciberdiscurso e interculturalidade na Web. 2005.

[1] Cf. BARRETO, Robério Pereira; BALDINOTTI, Sérgio, Ciberdiscurso e interculturalidade na Web. 2005.

CRIATIVIDADE E CIDADANIA: ENSINO DE HUMANIDADES NA ESCOLA:

Robério Pereira Barretoã


Faz algum tempo que venho discutindo nos bastidores da Universidade e da Escola Publica onde trabalho, que o ensino de linguagem e, principalmente, das questões relacionadas à aprendizagem da leitura e da escrita por parte dos estudantes tanto do nível básico quanto do superior deveria ser através da arte, literatura, pintura e humanidades. É senso comum encontrarmos em todas as salas de professores (inclusive já me flagrei fazendo isso), alguém está sempre falando que os estudantes não estão nem aí para aula, os conhecimentos que lhes transmitimos pouco importam, etc. Então, resolvi aprofundar na reflexão e eis que cheguei ao seguinte entendimento. (claro que isso não é inédito). Tem-se muito estudante louco por leitura e que produz textos significativos, contudo, não é a tipo de texto reconhecido pela instituição escolástico e, portanto, não é certificado como tal. Por isso, eles não se interessam por tal prática, ou seja, por mais que leiam e produzam não lhes damos os devidos créditos, porque estamos pautados em tipologias e regras de leitura e produção textuais do século de Anchieta, que não mais acompanham a evolução do pensamento do estudante da era digital.
Nesse contexto, surge a pergunta: qual é a sugestão para resolução de tal problema, gênio? De acordo com os ensinamentos que realizamos em relação ao plano da leitura e escrita em todos os níveis educacionais, tanto na “esfera publica” como particular, uma coisa é certa; estamos fadados ao fracasso como professores! Mas nem tudo está tão ruim assim. Porque vejam: a minha idéia (brilhante). Se a filosofia da escola de ensino básico é formar estudantes para o mundo da linguagem e suas complexas relações com a mídia, então, a melhor forma é conduzi-lo a esse universo, usando as “armas” do inimigo onipresente; a mídia, através da exploração da criatividade deles, pois, esses cidadãos têm muito a nos informar e surpreender. Para tanto, basta incentiva-los no que eles têm de melhor, capacidade de invenção. Veja os exemplos da linguagem internética!
Ainda mantendo a provocação inicial, considero uma perda de tempo e dinheiro, a criação inócua dos chamados “cantinhos da leitura” nos quais temos de tudo – almofadas, pufes, paredes decoradas, etc., contudo, tal espaço é guardado a chave e o protagonista nunca estão em ação, estudantes escolhendo o que quer ler. Ao contrário, quando os sujeitos têm acesso a esse espaço, estão acompanhados de um professor que, por sua vez, dirige as atividades conforme seu gosto pessoal, ou do programa didático instituído pela escola. Para completar o princípio de discórdia (sei que alguns ao lerem - se é que lerão – encherão minha caixa postal de impropérios não tem problemas, estou acostumado com o rótulo de provocador). Tem-se nas escolas de ensino básico, a famosa prática – estudante que aprender rápido o raciocínio linear do professor e fica “bagunçando” em sala de aula deve ir à biblioteca. Graças a Deus! Feliz daquele que tem como castigo ficar horas junto a vários pensadores, artística, críticos, etc. seriam ótimos resultados se todos os professores que não conseguisse atenção dos estudantes dessem a esses, o castigo da biblioteca, certamente teria um número maior de leitores competentes e capazes de entender a homem e a sociedade na qual atua.
Diante de tamanha provocação, exponho a seguir a idéia base desse ensaio: minha tese é de que esse modelo educacional arcaico está falido faz um tempo considerável, sobre tudo no que diz respeita ao ensino-aprendizado de língua materna. Os profissionais formados no curso de licenciatura em letras e pedagogia deveriam se interessam em conhecer e dominar a linguagem das grandes obras de arte – literatura, pintura, teatro -, as quais, por sua vez, estão repletas de ensinamentos históricos, linguísticos, literários e culturais.
Para tanto, seria necessário criar mecanismos que acabassem com essa estrutura de aulas segmentadas – Português, Matemática, História – como se cada uma fosse objetos estranhos e que após a saída do professor da sala de aula, o estudante deve guardar em sua caixinha as informações que lhe foram oferecidas, para daqui a uma semana resgata-lo. Calma! Já explico como esses mecanismos seriam criados. Se a idéia da educação básica é formar cidadãos capazes de se relacionarem com seus iguais e produzirem conhecimentos por meio da aquisição da linguagem, tendo como mediador a língua. Então, vejam: pode-se instituir na unidade educacional que, durante o ano letivo, todos os profissionais da educação estarão envolvidos num projeto, o qual tem como objetivo a montagem de uma peça teatral, sendo que para isso, os conteúdos a serem ministrados aos estudantes devem referir-se a tal proposta. Dizendo de outro modo; o professor de língua materna apresentará aos alunos textos fundamentais da literatura dramática universal e os princípios da leitura e escrita da peça teatral, com quais eles desenvolverá suas atividades, tendo na reescritura a consolidação dos princípios da língua em suas variantes culta e popular; o professor de matemática trabalhará de maneira idêntica, adequando os conteúdos da disciplina ao estudo das dimensões do palco, bem como os fundamentos da geometria, criando expectativas para a montagem do palco – calculando área, quantidade de madeira, tinta, assoalho, etc. seriam necessários para tal construção -; a disciplina de Química e Física terão seus programas baseados nas cores e sentidos atribuídos aos elementos que comporão os cenários e; a Educação Física e artes trabalhar-se-ão as linguagens corporais e níveis de corporeidade, possibilitando assim a comunicação expressiva do estudante.
Ufá! Como seria bom se realmente tivéssemos alguém que comprasse, ou melhor, roubasse essa idéia e colocassem em ação, porém, creio que alguns ortodoxos dirão: essa só mais uma esquisitice, não dará certo. O pior é haverá quem afirme que essa idéia só aumentará a indisciplina dos estudantes, escola será uma bagunça! Antecipando-me digo: Não será, ao contrário, teremos estudantes mais interessados nas aulas, até porque será uma forma de valorizar o conhecimento e capacidade de criação que eles têm e nós com nossas soberbas e paradigmas arcaicos os impedimos de mostrar.
Para concluir, reafirmo; está na hora da escola se tomar iniciativa e buscar junto com seu quadro docente e discente inovações no campo do ensino-aprendizado, porque se continuar nesse marasmo estará fadado à derrocada total. Acordemos todos para as novas exigências da sociedade contemporânea, na qual a formação do homem moderno está além das recomendações contidas nos manuais de leitura e escrita. Hodiernamente, a comunicação se dá necessariamente por meio das imagens se símbolos convencionalizados pelos sujeitos da linguagem, na qual a comunicação se processa no plano da criatividade lingüístico, histórica e identitária, dando a cada um, perspectivas diferenciadas. Enfim, com a decisão os interessados em mudar esse quadro patético que nos apresentado pelos institutos de pesquisa quando se referem à questão educacional do país. Ah, lembre-se não estou dizendo para se fazer mágica ou pacto de mediocridade, conforme a expressão: vamos fingir que ensinamos, porque eles também fingirão que aprenderam e daí continuamos no mesmo zero a zero.
Bibliografia:
MORIN, Edgar. A religação dos saberes: o desafio do século XIX. 4. ed. São Paulo: Bertrand Brasil. 2004.

ã Professor de Linguagens e Línguística, poeta e escritor.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

FICÇÃO CONTEMPORÂNEA (1970 AOS NOSSOS DIAS)

A partir da década de 1970, a ficção brasileira de temática urbana foi condicionada por uma série de novos fatores econômicos, políticos e sociais, a saber:
- A ditadura militar prolongou-se por muito mais tempo que os oposicionistas imaginavam. O que era visto apenas como um golpe, condenado a curto prazo ao fracasso, consolidou-se como um longo regime com significativo apoio popular. Contudo, a crise do petróleo de 1973, os altos custos de empreendimentos estatais e as graves dificuldades do capitalismo internacional em fins dos anos 70 e início dos 80, fizeram com que a inflação se tornasse incontrolável. Só então a ditadura conheceu a impopularidade.
- Obrigados a entregar o poder à oposição confiável (Tancredo Neves-1985), os militares retiraram-se discretamente da política brasileira para não mais voltar. Uma democracia ampla e bastante liberal estabeleceu-se no país. A censura foi abolida, o habea-corpus restabelecido e as diversas formas de controle social foram completamente abrandadas. No entanto, a redemocratização não trouxe nem o controle da espiral inflacionária nem o retorno ao desenvolvimento. A derrubada da inflação viria ocorrer apenas com o Plano Real, em 1993.
- Os ideais esquerdistas-autoritários que imperavam entre a intelectualidade brasileira foram golpeados pelo desmantelamento da guerrilha (1969-1972) e, mais tarde, pela queda do Muro de Berlim e pelo colapso geral do socialismo. Muitos artistas e escritores viraram então "órfãos da utopia". Também o chamado "radicalismo democrático" da esquerda mais recente tem sido bastante abalado com a tendência centrista do governo Lula, o primeiro presidente a ser eleito por forças progressistas no país. Por isso, a "intelligentzia" parece ter perdido todos os seus referenciais utópicos, o que ajuda explicar um certo ceticismo generalizado que percorre a produção cultural contemporânea.- Por outro lado, de 1970 para cá o Brasil configurou-se definitivamente como uma nação capitalista e moderna, ainda que cheia de desigualdades sociais. O espetacular crescimento econômico da década de 1970 (em média quase 10% ao ano) atraiu milhões de trabalhadores rurais para as cidades. Muitos se integraram satisfatoriamente à vida urbana; outros foram sobreviver em favelas que brotaram aos magotes. Hoje elas circundam as principais metrópoles do país. Nas décadas de 1980 e 1990, as taxas de crescimento da economia baixaram significativamente, não permitindo uma efetiva integração das camadas pobres ao establishement nacional.
- Ainda que o êxodo rural e o pífio desenvolvimento econômico dos últimos anos expliquem a ampliação do número de miseráveis, outra circunstância tem peso decisivo neste processo. A ilimitada liberação sexual, que estimulou a gravidez sobremodo entre adolescentes, fez com que, entre a população marginal (ao contrário de outros setores) o aumento da natalidade tivesse uma progressão geométrica, criando um problema praticamente insolúvel: como integrar ao sistema econômico os mais de cem milhões de brasileiros gerados nas últimas décadas?
- Ao mesmo tempo, no plano dos valores, assistiu-se à derrocada final dos códigos de existência da sociedade patriarcal/agrária, substituídos por novos comportamentos e novas expectativas, todos correspondendo a princípios urbanos e capitalistas. O domínio do individualismo, a busca da felicidade pessoal, tanto em seus aspectos emocionais quanto sexuais, o culto ao dinheiro e à fruição de bens de consumo constituíram, a partir de então, os pilares éticos da nova sociedade brasileira.
Face a tais transformações – vertiginosas e radicais – os escritores tiveram uma experiência coletiva de esfacelamento e pulverização da realidade, quando não de caos. A velha ordem desabava e um mundo instável, frenético e aparentemente irracional ocupava o seu lugar*.Todas estas mudanças influenciaram decisivamente a prosa de ficção de temática urbana das últimas décadas. Apesar da proximidade histórica do período, podemos apontar algumas das tendências essenciais que configuram a atual produção ficcional brasileira:
1) Desintegração das formas realistas tradicionais, que haviam predominado (com as exceções de Clarice Lispector, Murilo Rubião e João Guimarães) até o fim da década de 1960. A partir dos 70, rompe-se com a linearidade narrativa e abandona-se toda a pretensão de uma concepção totalizante e lógica do mundo. Em admirável ensaio, José Hildebrando Dacanal fixou o caráter desta decomposição do realismo:
O mundo está destroçado e não há como remontar seus estilhaços. Os personagens padecem de total desorientação, sendo incapazes de organizar-se a si próprios e, muito menos, ordenar o universo à sua volta. Desesperados, buscam uma verdade, sem saber se há possibilidades de encontrá-la. Ou nem mesmo a buscam, limitando-se a sofrer ou a protagonizar a desordem, a violência física e moral e a destruição das formas de convivência social. (...) À desintegração ética corresponde à desintegração técnica, com a estrutura narrativa revelando-se desordenada, fragmentada e geralmente sem um foco narrativo, ou ponto de vista único ou claramente definido.
Entre os autores que expressam esta tendência encontramos Rubem Fonseca (O caso Morel, Lúcia Mcartney); Ivan Ângelo (A festa); Roberto Drummond ( D.J. em Paris); Antonio Torres (Os homens de pés redondos, Um cão uivando para a lua e Essa terra); Lygia Fagundes Telles (As meninas); Márcio Souza (Galvez, o Imperador do Acre); e Sergio Sant´Ana (Confissões de Ralfo). Contudo, quem condensou mais radicalmente as inovações técnicas e expressou mais fielmente a natureza caótica da época foi Ignácio de Loyola Brandão com o polêmico romance Zero.
Não se pode subestimar tampouco a poderosa influência exercida sobre estes autores pelos ficcionistas do chamado “boom latino-americano”: García Márquez, Alejo Carpentier, Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes, entre outros, já tinham equacionado o problema da construção de um mundo romanesco, valendo-se de procedimentos narrativos revolucionários e ao mesmo tempo sendo capazes de apresentar sugestivas totalizações da realidade. Eram, portanto, modelos insuperáveis da nova ficção que aqui se procurava fazer.
Ressalte-se, por fim, que já no final da década de 1970 e nas décadas seguintes, esta força de desintegração, que parecia arrastar a prosa brasileira para o caos, recuou, dando lugar a uma razoável síntese entre ruptura e tradição, fragmentação e criação de mundo. Esta síntese poderia ser designada como uma nova forma de realismo. Quem melhor a elaborou nos últimos trinta anos foi Rubem Fonseca, especialmente em seus contos. Entre os autores recentes cabe papel de destaque a Miltom Hatoum com os excelentes romances Relato de um certo Oriente e Dois Irmãos.
2) A impossibilidade de uma visão totalizante da nova realidade – a busca da totalização é uma das características principais do romance – pode ser a causa do triunfo do conto, que se tornou o gênero mais praticado no país a partir dos anos 70. Lidando com o relato breve, o registro de um flagrante da existência, o conto passa mais ou menos incólume pela desintegração de sentido de uma época. Daí a quantidade de bons contistas que surgiram então. Entre eles destacam-se Sérgio Sant’Anna (Confissões de Ralfo); Deonísio da Silva (Exposição de motivos); Luís Vilela (Tremor de terra); Sérgio Faraco (Hombre); Domingos Pelegrini (O homem vermelho).
3)Paradoxalmente, nos mesmos idos de 1970, ressurgiu uma espécie de realismo social à moda antiga, traduzido por relatos que representavam de maneira direta os dramas das camadas subalternas, sem muitas preocupações com a linguagem.Era uma resposta à censura imposta pelo regime militar que proibia a imprensa de noticiar os aspectos negativos do país. Era também uma forma de solapar a idéia do "milagre econômico", então dominante nos meios de comunicação, através do registro dos excluídos, das prostitutas, dos operários, dos camponeses, da gente sem eira nem beira, todos sonegados da visão ufanista do governo. Muitas destas obras não passavam de reportagens ficcionalizadas, escritas por jornalistas que se utilizavam da ficção para driblar a censura. O expoente do grupo, contudo, era um bom escritor, João Antônio, que tinha produzido os seus melhores contos nos anos de 1960 e que agora, como um cavaleiro andante, lutava para que os pobres do Brasil encontrassem seu lugar na literatura. No prefácio de Malditos escritores, João Antônio defende a arte como “um corpo-a-corpo com a vida”:
Estes escritos cometem (intencionalmente) quase todas as heresias diante de alguns conceitos tradicionais do purismo do fazer literário. (...) Desse corpo-a-corpo nasce uma escritura descarnada.(...) a refletir sem floreio, impostura ou retoques, um mundo de suores, amordaçamentos, pelejas e medos. Nesta linhagem do realismo social explícito figuram Wander Pirolli, Domingos Pellegrini Jr.Mais recentemente a obra de Paulo Lins, Cidade de Deus poderia ser enquadrada na referida tendência, com a vantagem de apresentar uma "visão de dentro" do universo semi-marginal urbano.
4) Neste período, a ficção introspectiva, à maneira de Clarice Lispector, foi reafirmada nas obras de Caio Fernando de Abreu, Morangos mofados, João Gilberto Noll, Hotel Atlântico e Lya Luft, As parceiras, entre outros. De certa forma, a exploração da subjetividade e a procura da identidade mais profunda dos seres era produto do grau maior de complexidade alcançado pela sociedade brasileira.
5) A partir da década de 1980, possivelmente como uma reação à desintegração das formas tradicionais de narrativa, ganhou espaço o romance histórico, isto é, aquele que evoca fatos e/ou personagens do passado reinterpretados por meio de uma visão crítica e desmistificadora. Normalmente este tipo de romance mantém-se dentro de um código mais ou menos acadêmico de narrar, contrariado experiências similares realizadas por ficcionistas do "boom hispano-americano", na mesma época, marcadas por densa invenção formal. Ana de Miranda, Boca do Inferno, A divina quimera e Luiz Antonio de Assis Brasil, Videiras de cristal e Concerto campestre são os principais representantes do romance histórico. Mas observe-se que escritores de outra linhagem, a exemplo de Rubem Fonseca, O selvagem da ópera, de Nélida Piñon, República dos sonhos, de Deonísio da Silva, A cidade dos padres e de Moacyr Scliar Sonhos tropicais, também se aventuraram neste terreno com resultados estéticos diversos.
6) Nos últimos anos assistiu-se, por fim, a uma crescente propensão de inúmeros escritores à fabricação de "best sellers", sob encomenda de editores ou não. São romances e novelas que atendem a presumíveis exigências do mercado: temas leves e pitorescos, reconstituições históricas convencionais, registro superficial dos costumes e da psicologia dos protagonistas e completa banalidade estilística. Trata-se de uma ficção descartável e freqüentemente idiota. Com muita propriedade o crítico Flávio Khote designou esses relatos como integrantes de uma nova categoria literária, a da narrativa trivial.

A prosa de ficção
No campo da ficção, em relação aos mundos narrados, duas tendências gerais predominaram no período:
Obras de temática rural
Obras de temática urbana
A narrativa de temática urbana
A ficção urbana brasileira, produzida entre os anos de 1945 e 1960, tem alguns elementos definidores do ponto de vista estrutural, lingüístico e temático:
A questão estrutural:
A par do romance, que continua sendo praticado, o conto começa a ganhar cada vez mais espaço.
A formulação narrativa da maioria dos autores do período ainda está próxima do modelo neo-realista. Surge um desvio neste modelo tradicional de narrar através da obra revolucionária de Clarice Lispector, marcada por inovações técnicas e sobretudo pelo uso intenso do monólogo interior.
Outra linha de ruptura com o procedimento realista ocorre com a publicação, em 1947, do livro de contos O ex-mágico, do autor mineiro Murilo Rubião. Os seus relatos são alegóricos, ou seja, centram-se em situações inverossímeis ou simplesmente fantásticas que possuem um caráter simbólico.
A questão lingüística:
 Sedimenta-se a aproximação - desencadeada pelos modernistas de 1922 - entre a linguagem literária e a linguagem coloquial urbana, conforme se pode verificar, entre outros, nas obras ficcionais de Fernando Sabino e de Carlos Heitor Cony.
A questão temática:
O neo-realismo explicitamente social continua sendo cultivado, sobremodo na década de 60. Sua tradução mais qualificada dá-se na obra de Antônio Callado, que busca registrar de modo amplo e totalizante dos dramas coletivos do país.
Há também um neo-realismo timbrado pela tentativa de síntese entre a realidade objetiva e uma densa subjetividade. Os romances de Lúcio Cardoso, Fernando Sabino, Autran Dourado, Carlos Heitor Cony e os contos de Lygia Fagundes Telles, por exemplo, expressam a dissolução do engajamento ideológico dos anos 30 e 40 e sua substituição por sensações de angústia e náusea, revelando influências do pensamento de Freud e de Sartre.
Absolutamente originais no contexto de sua época são as obras de Clarice Lispector e de Dalton Trevisan, cujos livros inaugurais vieram à luz respectivamente de 1944 e de 1954. Clarice cria no Brasil um tipo de ficção introspectiva em que o mundo concreto se torna quase opaco e pastoso, e os personagens mergulham em um grande vazio. Já Trevisan renova a linguagem do conto e disseca sem compaixão o pequeno universo da classes médias urbanas.
Não devemos esquecer, por outro lado, que alguns dos maiores romancistas de 1930 ainda estavam em plena atividade. Erico Verissimo, por exemplo, escreve nesta época sua obra-prima: O tempo e o vento. Também Jorge Amado produz alguns de seus textos mais apreciados como Gabriela, cravo e canela e Os velhos marinheiros.
A NOVA NARRATIVA DE TEMÁTICA AGRÁRIA
Um fenômeno novo marcou a ficção brasileira, a partir dos anos de 1950: um conjunto de relatos centrados no mundo rural, mas distantes dos padrões convencionais de realismo, que se encontravam, por exemplo, no chamado romance de 30.
O crítico José Hildebrando Dacanal designou esses textos como "nova narrativa épica brasileira". São obras que fixam o "desaparecimento do interior caboclo-sertanejo, face o avanço vertiginoso da civilização racionalista, capitalista e urbana." Esta civilização, nascida no litoral, e que avançava rumo ao oeste, era o fruto da expansão burguesa ocorrida, principalmente, durante a Era Vargas e a Era JK.
Outros críticos referem-se a tais obras como integrantes de um ciclo de "realismo mágico", pois eventos extraordinários ( e inverossímeis do ponto de vista do racionalismo urbano) ocorrem nas mesmas. Os personagens dos relatos vivem esses acontecimentos estranhos sem que isso os surpreenda. Ou seja, a sua consciência de mundo admite como real e natural o que julgamos inconcebível.
Basicamente esta tendência compõe-se de seis romances: Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, - o mais significativo de todos - e que, ao ser publicado em 1956, abriu caminho para a criação de um novo modelo narrativo no país; O coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho, que veio à luz em 1964; Chapadão do Bugre, de Mário Palmério, lançado em 1965; A pedra e o reino, de Ariano Suassuna, que é de 1970; Os guaianãs(em quatro volumes saídos entre1962 e1970), de Benito Barreto; e Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro, publicado em 1971.
As características mais ou menos comuns a todas essas obras são de natureza lingüística, estrutural e temática:
Lingüisticamente, há uma forte presença, ainda que as vezes residual da variante caboclo-sertaneja da língua portuguesa, transfigurada do ponto de vista do estilo por cada autor.
Estruturalmente, a verossimilhança, típica do romance tradicional, não é respeitada, com protagonistas relatando a própria morte, presença de demônios e outras entidades míticas.
Tematicamente, todas as obras possuem um traço comum: a ação se desenvolve, preponderantemente, no interior, no sertão, em regiões de pequena propriedade ou de criação de gado, surgindo não raro um conflito entre este mundo agrário - e os protagonistas dele procedentes - e a civilização urbana. Além disso, como já frisamos, é também freqüente a presença de seres superiores, como Deus e o Diabo, ou entes mitológicos, como a sereia, o lobisomem, etc.
Em termos gerais, pode-se dizer, que estes romances se ligam, no plano do assunto, ao Brasil antigo, pré-industrial, marcado por uma cultura rural e religiosa, de raízes ibéricas, transformada ao longo dos séculos.

Referências

BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. 38. ed. São Paulo: Cultrix, 2002.
JAKOBSON, Roman. Lingüística, poética, cinema.São Paulo: Perspectiva, 1970.
__________ Lingüística e comunicação. São Paulo: Cultrix, (s.d).
Literatura contemporânea. In.:http://educaterra.terra.com.br/literatura/litcont/litcont_4.

TRAMAS NA REPRESENTAÇÃO DA IMAGEM NA HIPERMÍDIA IMPRESSA

Fique nu... mas seja magro, bonito, bronzeado[1]
Robério Pereira Barreto*

As tramas[2] que as imagens[3] representam no cotidiano têm nos acompanhado há algum tempo, e por isso adentramos ao universo teórico da semiótica, buscando dialogar com as asserções feita por Lucia Santaella a respeito dos usos das imagens na mídia. Fato este que nos possibilita, trabalhar com alguns conceitos de imagem, signo e símbolo na grande imprensa. Com efeito, nossa intenção é desenvolver nesse curso discussões que levem à leitura e, talvez, à compreensão dos elementos discursivos que compõem as imagens na hipermídia.[4] Para tanto, estudaremos as mensagens imagéticas como algo interdisciplinar porque nesse processo a imagem segundo Lucia Santaella e Winfried Nöth (2001), está presente no cotidiano independente de nossas vontades.

Imagens têm sido meios de expressão da cultura humana desde as pinturas pré-históricas das cavernas, milênios antes do aparecimento do registro da palavra pela escritura. Todavia, enquanto a propagação da palavra humana começou a adquirir dimensões galáticas já no século XV de Gutenberg, a galáxia imagética teria de esperar até o século XX para se desenvolver. Hoje, na idade vídeo e infográfica, nossa vida cotidiana – desde a publicidade televisiva ao café da manhã até as últimas notícias no telejornal da meia-noite – está permeada de mensagens visuais, de uma maneira tal que tem levado os apocalípticos da cultura ocidental a deplorar o declínio das mídias verbais.[5]

O visual e o verbal compõem a díade da comunicação contemporânea, tendo no discurso verbal a possibilidade da compreensão das teorias da imagem. Na verdade, o texto visual tem sua sustentação naquilo que Pierce chamou de iconicidade. Para Canevacci (2001), estudar a significação que o visual (imagem e sua dramaticidade) desenvolve na comunicação é, sem dúvida, relacionar o modo de ver a produção ideológica da sociedade contemporânea, partindo do uso plural das tecnologias de comunicação de massa. Além disso, assegura ainda que tudo isso só está sendo possível graças à expansão da semiótica nos territórios visuais circundantes da informação oriunda no texto visual.

Focalizar o visual da comunicação significa, pois, selecionar esse espaço da cultura contemporânea, enquanto em seu interior se concentram o poder e o conflito, a tradição e a mudança, a experimentação e o hábito, o global e o local, o homologado e o sincrético. [...] o visual refere-se às muitas linguagens que ele veicula: a montagem, o enquadramento, o comentário, o enredo, o primeiro plano, as cores, o ruído, as linguagens verbal, corporal e musical. Ao mesmo tempo, o visual refere-se também aos diferentes gêneros que podem utilizar as mesmas linguagens ou inventar outras: o cinema (ficção ou documentário), a televisão, a fotografia, a videomusic, a publicidade, a videoarte, o ciberespaço.[6]

Entendemos, portanto, que nas imagens da grande mídia há certos níveis de dramaticidade que conduzem à subjetividade das idéias nelas propostas. O discurso visual torna-se uma metalinguagem por que têm em sua essência fragmentos das culturas regionais nas quais são agregados novos significados e, por isso, conduzem o espectador[7] à busca da intertextualidade do discurso[8].
À maneira de Canevacci (2001) compreendemos que a imagem – texto visual – é produzida em contextos: social, cultura, econômico e ideológico que visa envolver todos os agentes sociais da comunidade em que ela se propaga, construindo dessa maneira os significados que a faz importante para a compreensão das relações interpessoais. Nesse processo, entendemos que há em tal narrativa imagética algo complexo que transforma conceitos e ideais dos agentes (criador, mensagem e receptor) principalmente no plano da comunicação ideológica em que participam sistemas de consumo dinâmicos. Assim, varias significações são negociadas com o leitor para que ele possa se situar na linguagem, deixando vir à baila seus anseios e angústias que o levaram a um continuum dramático. Nessa perspectiva, “A comunicação é um sistema de múltiplos canais nos quais o ator social participa a cada instante, querendo ou não: com seus gestos, seu olhar, seu silêncio, até com sua ausência...”[9]
O emprego das imagens na mídia contemporânea volta-se para o atendimento das ideologias da industrial cultural[10], consagrando o homem – leitor – como eterno consumidor de mensagens publicitárias que evocam dramas individuais e coletivos. Tais imagens se tornam instrumento de alienação e conduzem o espectador à crise de interpretação, pois, a cada instante ele é bombardeado por textos visuais com formas e sentidos diferentes, e que buscam no cidadão da polis um espaço para transformá-lo em consumidor. Não obstante, este sujeito, na maioria das vezes, não possui conhecimentos suficientes para apreender os significados existentes no texto visual. Na realidade, é ai que surgem os dramas dos receptores, pois, são vítimas de um sistema sócio-cultural que privilegia fetiches individuais e econômicos em detrimento do bem estar coletivo e do social.

Então os fetiches visuais, que proliferam na comunicação de alta tecnologia, são de tal forma incorporados pelas novas mercadorias que o próprio método de observação deve levar isso em conta. [...] “Ler” um texto visual – uma mercadoria ou um filme – é também uma tentativa de dissolver seus fetiches.[11]

No campo do visual e do cognitivo, a imagem é dividida a partir de domínios que, segundo Santaella, partem das representações visuais até a imaterialidade das imagens em nossas mentes. Assim os elementos visuais presentes em desenhos, gravuras, fotografias, imagens de cinema, televisão compõem o domínio visual. Enquanto no plano da abstração, as mensagens visuais são transformadas em visões, fantasias, imaginações e modelos que se caracterizam como pertencentes à categoria mental.

Ambos os domínios da imagem não existem separados, pois estão inextricavelmente ligados já na sua gênese. Não há imagens como representações visuais que não tenham surgido de imagens na mente daqueles que as produziram, do mesmo modo que não há imagens mentais que não tenham alguma origem no mundo concreto dos objetos virtuais[12].
A sociedade contemporânea se encontra em evolução política, lingüística, tecnológica e cultural, e por isso as imagens constituem a paisagem das pessoas, principalmente, no universo virtual em que a mídia eletrônica, devido à correria impossibilita o homem de ler textos longos e complexos, buscando assim, a emergência da imagem dos objetos.
As imagens que forma o “corpo social” segundo Bachelard têm valores que só podem ser medidos pela da ampliação do universo imaginativo do receptor. Assim, entendemos que a relação entre corpo e imagem se estabelece a partir das experiências humanas, sendo isso fruto do psiquismo. Por isso acreditamos que a junção das imagens captadas pela percepção humana no ato de leitura produz remissões que levam o leitor a divagações e, conseqüentemente, à ativação de seu “baú” imaginário.
No contexto da psicanálise, as imagens são tidas como elementos especificadores do psiquismo humano de tal modo que William Blake criou uma máxima para essa questão: “A imaginação não é um estado, é a própria existência humana.”[13] Pelo que ficou expresso até agora, e para compreendermos a real importância da imagem na vida do homem contemporâneo é, portanto, pertinente aceitar que imaginar é criar novas perspectiva para a vida, porque vivemos no mundo das imagens, ou seja, estamos sempre diante de objetos lingüísticos: a poesia e a arte que são construídos sob a premissa de que estamos diante de uma imagem a ser desconstruída pela imaginação através da interpretação de seus referentes textuais.

Para bem sentir o papel imaginante da linguagem, é preciso procurar pacientemente, a propósito de todas as palavras, os desejos de alteridade, os desejos de duplo sentido, os desejos de metáfora. De um modo mais geral, é preciso recensear todos os desejos de abandonar o que se vê e o que se diz em favor do que se imagina. Assim, teremos a oportunidade de devolver à imaginação seu papel de sedução. Pela imaginação abandonamos o curso ordinário das coisas. [...] Imaginar é ausentar-se, é lançar-se a uma vida nova.[14]

A sociedade contemporânea é, sem dúvida, um oceano de imagens no qual estamos navegando, e isso nos tem criado uma série de problemas, pois, à produção de novos significados para nossa cultura colocam em discussão os tramas e dramas que as imagens provocam em nosso inconsciente coletivo, fato que direto ou indiretamente fortalece cada vez mais a “Industria Cultural” devido a sua capacidade de incorporação no nosso cotidiano de narrativas imagéticas que atingem nossos desejos e vontades. Todos esses signos são promovidos à categoria de representação, a qual é tributária do sistema cognitivo do sujeito. Dessa forma, Santaella nos adverte que as representações visuais e mentais existentes nas leituras das imagens são objetos de inestigação tanto da semiótica quanto da ciência cognitiva.
Para este estudo, no qual estudaremos os tramas e dramas da imagem na hipermídia, prioritariamente, nos pautaremos nos princípios da semiótica, devido a compreensão daquilo que Pierce chamou em 1865, de “teoria geral das representações”. Seguindo esse plano, representação para Santaella deve ser apreendida nas perspectivas pierceanas, embora ela apresente o conceito de representação defendido por Spencer (1985:77). Para representar é fundamental o uso da linguagem, esta, pois, transmite ao receptor os princípios da inventividade tanto na imagem quanto no texto. Assim, “Com a linguagem podemos inventar, cada sentença é uma nova invenção, produzida pela combinação de elementos familiares; a perfeição da inventividade humana está ligada à perfeição da linguagem humana.”[15]
Historicamente, toda a cultura ocidental transmitiu seus conhecimentos morais, religiosos e, principalmente artísticos através de textos mistos, ou seja, sempre houve a presença do visual e do verbal nessas produções, cujo caráter ideológico, às vezes, está implícito e, portanto, não é de fácil acesso ao leitor comum. Atualmente, a ciência da imagem [imagologia se é que podemos chamá-la assim, tem atendido basicamente aos métodos da tecnologia]. Em outros termos, os recursos tecnológicos cujos princípios comunicadores estão centrados na dissecação de imagens. E por isso veiculam com maior amplitude e atingem um número amplo de cidadãos.Portanto, é nesse plano que a hipermídia atua e a cada dia conseguem maior inserção e adesão para suas mensagens.

A imagem do século XX é determinada por milagres tecnológicos como o cinema, a TV em cores, o computador e, mais tarde, as tecnologias relacionadas à internet. [...] É fundamental que a relação entre as novas mídias e as mídias antigas se desenvolva como uma coevolução, mas sob uma nova perspectiva em que natureza e máquinas se unem formando uma coisa só. De alguma maneira, isso significará que não se encontrará nenhuma diferença importante entre as experiências reais e virtuais.[16]

O espaço e a tensão estabelecidos entre a criação e propagação das imagens nos meios de comunicação, os tornam homogêneos e, conseqüentemente, estabelecem um jogo dramático tanto no espaço exterior quanto no valor intrínseco da peça publicitária para o receptor. Dessa forma, a imagem para Bosi é:

(...) um modo da presença que tende a suprir contato direto e a manter juntas, a realidade do objeto em si e sua existência em nós. O ato de ver apanha não só a aparência da coisa, mas alguma relação entre nós e essa aparência. (...) imagem amada, e temida, tende a perpetuar-se:vira ídolo ou tabu. E a sua forma nos ronda com doce ou pungente obsessão. (...) Toda imagem pode fascinar como uma aparição capaz de perseguir. O enlevo ou o mal-estar suscitado pelo outro, que impõe a sua presença, deixa a possibilidade, sempre reaberta, da evocação[17].

É importante visualizarmos que na mídia os signos têm o papel de representar, ou melhor, parecer real a existência da coisa que se pretende fixar no cognitivo de cada um que consome a imagem. Com efeito, esse processo corrobora singularmente para a reificação das ideologias implantadas pela burguesia capitalista. Ou seja, as representações que a Industria cultural, os meios de comunicação de massa e a cultura de massa usam para manipular as vontades e desejos cidadão - seus possíveis consumidores – pautam-se na fixação de ideais homogeneizadores, colocando todos independentemente de sua condição sócio-cultural e econômica, merecedores dos mesmos objetos.
Nesse contexto, inferimos a importante participação dos veículos de comunicação de massa na propagação das imagens, destacando dessa maneira o pensamento de Pignatari que diz: “Os poderosos meios de comunicação de massas tornam anacrônicos os métodos tradicionais de ensino; esses próprios meios, sendo ou tendendo a ser antiverbais[18]...” Assim, temos a perspectiva que cada vez mais somos e tornamos os outros em sujeitos alienados diante das imagens e dos textos que trazem em sua essência o fetichismo das mensagens publicitárias, as quais nos induzem ao consumismo.
Concluindo rapidamente esta discussão, acreditamos que a Industria cultural tem transformado o homem contemporâneo em simples receptáculo de suas ideologias mercadológicas e consumistas, tendo a seu favor os meios de comunicação de massa que, por sua vez, constroem tramas de dramas que envolvem todos os cidadãos, criando neles, ou melhor, em nós necessidades imediatas.

Representação e fetichismo da imagem na hipermídia

Nas peças publicitárias os elementos que formatam a comunicação a partir da definição de gênero e poder e que constituem as imagens que persuadem e seduzem o leitor. São assim, centro da discussão e a análise da grande estrutura argumentativa existentes em imagens de bebidas, cosméticos e carros são necessárias para a vida moderna.
A publicidade no contemporâneo se torna cada vez mais persuasiva e leva o leitor-consumidor à alienação. Isso acontece em virtude do uso continuum de imagens que, de acordo com especialistas, criam necessidades instantâneas no sujeitos, fazendo vir à baila desejos recalcados que através da imagem ganham vida e, assim, os levará ao consumo. Por isso, podemos afirmar que as imagens possibilitam a interatividade com o leitor, produzindo no seu cognitivo uma revolução a respeito das representações que a linguagem imagética apresenta.

(...) o visual refere-se às muitas linguagens que ele veicula: a montagem, o enquadramento, o comentário, o enredo, o primeiro plano, as cores, o ruído, as linguagens verbal, corporal e musical. (...) o visual envolve também diferentes tipos de subjetividade que estão aprendendo a empregar esses gêneros e essas linguagem: não só ocidentais (em sentido amplo), mas também das populações nativas.[19]

Nessa perspectiva, os elementos imagéticos que compõem a publicidade moderna buscam mediante a subjetividade do visual persuadir seus leitores, transformando os em consumidores em potencial. Assim, contemporaneamente, a cultura imagética da mídia estabelece padrões de comportamento e de consumo que criam fetiches[20] no inconsciente dos cidadãos. Com efeito, é importante destacarmos a busca por imagens que associem e, conseqüentemente, tornem ambíguas as leituras dos objetos, dando a eles, às vezes, certo grau de erotização. Embora estes aspectos fiquem ao nível do implícito entendemos que, a multiplicidade e a polifonia, tanto de imagem, quanto de discurso, são os responsáveis pela naturalização das vontades imediatas de objetos e serviços. Logo, estes eventos são o ponto nevrálgico da grande mídia, uma vez que a polifonia[21] toma conta de todo o processo textual, no qual imagem e discurso se entrelaçam para formatar mensagem midiática.
Nesse espaço intersemióitco estão elementos sócio-culturais que precisam ser ressignificados, ou seja, a mídia contemporânea encontra matéria-prima para suas publicidades no resgate das tradições populares[22], conseqüentemente as tornam vivas. Isso para o consumidor incauto é positivo porque traz à baila velhos paradigmas da identidade que estava esquecido, possibilitando assim, uma nova leitura da questão local, regional. (ver propaganda da pepsi em que se representam as figuras mitológicas do carnaval).
A propósito da questão de polifonia nas mensagens publicitárias acreditamos que, isso se dar porque é uma conseqüência natural da vida em sociedade, a polifonia reflete a interação do homem, como ser social, na troca de informações, nas tomadas de posição, enquanto sujeito ativo no processo de negociação de sentidos com os elementos textuais e visuais que formam sua cultura no decorrer de sua existência.

Sabe-se que a imprensa tem se caracterizado por exercer grande influencia sobre a sociedade. É a responsável pela constituição do imaginário social, já que é por meio dela que os grandes fatos são postos em debate e que se constituem os pontos vista. Pode-se dizer que ela é um dos pilares do universo midiático contemporâneo[23].

No mundo contemporâneo, estamos submetidos a uma gama de produtos, que pouco significaria para o cidadão comum se não fosse o glamour que a publicidade confere as imagens. Com isso ela vale-se do poder das palavras e das imagens para assegurar aos objetos um caráter especial de tal modo que os mitificam. Não obstante, entendemos que a linguagem da publicidade é eminentemente metafórica. Assim sendo, as imagens na publicidade ampliam seu campo de significação a partir do desenvolvimento de sentidos conotativos que valorizam a subjetividade.

Sendo a publicidade superlativa, os termos com semas positivos são altamente freqüentes nos anúncios, as palavras com traços negativos aparecendo, apenas, para estabelecer o famoso contraste do “antes” e do “depois”, pois a linguagem publicitária, de certa forma, escamoteia a realidade concreta, ou melhor, direciona a atenção do público-alvo apenas para o que lhe interessa, não revelado o que possa prejudicar a imagem do produto[24].

As artes visuais da propaganda são relacionadas à educação visual imposta pela grande mídia. Logo, é de fundamental importância que se realize uma alfabetização visual a partir de textos não verbais do cotidiano.

Alfabetização Visual

Na sociedade da comunicação por imagem, a invenção da câmera digital e dos computadores trouxe à propaganda um continuum da arte de desenhar que, historicamente, é considerada como a capacidade natural de todos os seres humanos. Recordemos, então as ações dos homens primitivos, os quais tinham em suas mentes as representações dos animais que caçava. Nessa perspectiva histórica, a arte e o significado da imagem por ela representada, conduzem à forma e à função do visual na expressão e na comunicação, porque nela se dar transformação das mensagens publicitárias em códigos estéticos que ampliam a fruição do leitor.
Dondis considera que a revolução tecnológica e os meios de comunicação de massa têm contribuído para uma educação imagética do leitor. Enquanto a arte tornou-se inerte às mudanças da sociedade consumidora de mensagens visuais. Embora sua fala seja demasiado funcionalista, faz-se pertinente citá-la:

Arte e o significado da arte, a forma e a função do componente visual da expressão e da comunicação, passaram por uma profunda transformação na era tecnológica, sem que se tenha verificado uma modificação correspondente na estética da arte. Enquanto o caráter das artes visuais e de suas relações com a sociedade e da educação sofreram transformações radicais, a estética da arte permaneceu inalterara, anacronicamente pressa à idéia de que a influência fundamental para o entendimento e a conformação de qualquer nível da mensagem visual deve basear-se na inspiração não-cerebral. (...) A expressão visual significa muitas coisas, em muitas circunstancia e para muitas pessoas.

A linguagem visual no contemporâneo é um processo cristalizado. Portanto, as imagens que a compõe têm em seu processo criativo algo que vai além do código verbal. exigindo do observador um nível mais acurado de percepção. Aqui, Dondis sugere que se faça uma alfabetização visual através de textos publicitários verbais e não-verbais.
Nessa linha de raciocínio MchLuhan comenta a papel da imagem na formação de uma consciência alfabetizadora a partir da câmera, a qual, segundo seus argumentos, têm importância tal qual o livro nos séculos XIII e XVI.

(...) a ordenação das palavras substitui a inflexão das palavras como principio da sintaxe gramatical. A mesma tendência se deu com a formação das palavras. Com o surgimento da imprensa, ambas as tendências passaram por um processo de aceleração, e houve um deslocamente dos meios auditivos para os meios visuais da sintaxe[25].

Segundo os princípios escolásticos, para que sejamos considerados alfabetizados é preciso conhecer e dominarmos os elementos básicos da linguagem escrita: as letras, palavras, frases, ortografia, gramática e sintaxe, isso é alfabetismo[26]. No mundo das imagens é fundamental que tenhamos uma percepção bastante arguta, ou seja, passemos a compreender os elementos culturais que nos cercam quando do ato de leitura das peças publicitárias. Eis aí uma perspectiva para uma educação visual.

Referências bibliográficas e notas explicativas

ARISTÓTELES (s/d). Arte retórica e Arte poética.Rio de Janeiro: Ediouro.
FOUCAULT, Michel, Microfísica do poder. 19.ed. Rio de Janeiro: Graal, 2004, p.147.
SANTAELLA, Lucia; NOTH, Winfried. Imagem: Cognição, semiótica, mídia. 3. ed. São Paulo: Iluminuras, 2001, p. 13.
CANEVACCI, Massimo. Antropologia comunicação visual. Rio Janeiro: DP&A, 2001, pp.7-8.
[1] FOUCAULT, Michel, Microfísica do poder. 19.ed. Rio de Janeiro: Graal, 2004, p.147.
* Professor de Literatura e outras artes e Semióitca do Curso de Letras, e Linguagens e educação – Uneb – Campus XVI - Irecê - BA
[2]S.f. Fio que se conduz com a lançadeira por entre os fios da urdidura; fios de seda grossa; fio grosso e dobrado, com que se fazem certos estofos; fio grosso; tecido; textura; (fig) sustentáculo; (bras) barganha; permuta; negócio; (Do lat. Trama).
[3] Tal termo é aqui tomado sob a ótica semiótica que, segundo Santaella e Nöth “são um sistema semiótico ao qual falta uma metassemiótica: enquanto a língua, no seu caráter metalingüístico, pode servir, ela própria, como meio de comunicação sobre si mesma, transformando-se assim num discurso auto-reflexivo, imagens não podem servir como meios de reflexão sobre imagens”.
[4] Tomamos como hipermídia os textos imagéticos que circulam nas revistas impressas e eletrônicas, bem como na TV e na Internet.
[5] SANTAELLA, Lucia; NOTH, Winfried. Imagem: Cognição, semiótica, mídia. 3. ed. São Paulo: Iluminuras, 2001, p. 13.
[6] CANEVACCI, Massimo. Antropologia comunicação visual. Rio Janeiro: DP&A, 2001, pp.7-8.
[7] Empregamos tal termo a partir do entendimento de que na comunicação os espectadores são sujeitos ativos no processo de construção de significado para o texto visual que aprecia.
[8]Laurent Jenny. A estratégia da forma. In: Intertextualidade. Coimbra, Almedina 1979, p. 6. comenta que a intertextualidade se apresenta além do código e vai até ao nível do conteúdo formal da obra, buscando a sensibilidade dos leitores o que pode variar de acordo com cultura e a memória imagética de cada um.
[9] Winkin, 1981, p. 7 citado por CANEVACCI, Massimo. Antropologia comunicação visual. Rio Janeiro: DP&A, 2001, p. 9.
[10] Termo usado à maneira de Adorno, pois entendemos que a hipermídia está a serviço da Industria Cultural que, por sua vez, cria condições cada vez mais alienantes para o leitor-consumidor na tentativa de implantar e aperfeiçoar o campo de atuação do comercio de bens e serviço, criando em nós, consumidores, uma sensação de impotência, visto que a todo instante somos enganados pelas imagens que criam novos desejos e necessidades em nosso subconsciente.
[11] CANEVACCI, Massimo. 2001, pp. 13-14.
[12] SANTAELLA, Lucia; NOTH, Winfried. 2001, p. 15.
[13] BLAKE, William. Second livre prophétique, trad. fr. Berger, p. 143. apud. BACHELARD, Gaston. O Ar e os Sonhos:Ensaio sobre a imaginação do movimento. São Paulo: Martins Fontes, 1990, p. 1.
[14] BACHELARD, Gaston., 1990, p.1
[15] MARIÁTEGUI, José-Carlos. Sobre o futuro da arte e da ciência através da inventividade humana. In: Arte e vida no século XXI (org.) Diana Domingues. São Paulo: Editora da UNESP, 2003, p.161.
[16] Ïdem, 2003, p. 162.
[17] BOSI, Alfredo, 2003, pp. 19-21.
[18] PIGNATARI, Décio. Informação Linguagem Comunicação. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. p. 93.
[19] CANEVACCI, Massimo. 2001, pp.7-8.
[20] S.m. (1873 cf. DV) 1 objeto a que se atribui poder sobrenatural ou mágico e se presta culto. 2 PSICOP objeto inanimado ou parte do corpo considerada como possuidora de qualidades mágicas ou eróticas. HOUAISS. A. Dicionário Houais da língua portuguesa . Rio de Janeiro, Objetiva, 2001, p. 1333.
[21] Tomamos polifonia aqui, à maneira de Bahktin, a qual sugere a multiplicidade de vozes e de sujeitos responsáveis por vários pontos de vistas das falas, em um texto.
[22] As peças publicitárias dos refrigerantes (coca-cola e pepsi) têm explorado as festas e tradições populares do Brasil.
[23] RIBEIRO, Patrícia Ferreira Neves. Estratégias de persuasão e de sedução na mídia impressa. In: Texto e discurso: mídia, literatura e ensino. Rio Janeiro: Lucena, 2003. p. 121.
[24] MONNERAT, Rosane Santos Mauro. Processos de intensificação no discurso publicitário e a construção do ethos. In: Texto e discurso: mídia, literatura e ensino. Rio Janeiro: Lucena, 2003. p. 97.
[25] MCLUHAN, M. 1960 apud Dondis, 1997, p. 3.
[26] Tomamos o termo alfabetismo como o aprendizado que é compartilhado por uma comunidade de usuários de um código comunicativo para a realização de suas ações sociais.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

CURSO EXTENSÃO: RESSIGNICAÇÃO DO GOSTO POPULAR E O DISCURSO MÍDIA DE MASSA

Acontecerá em breve as inscrições para a segunda etapa do curso Comunicação de massa e a reorganização do gosto popular pela mídia. Nesta nova etapa o curso ganha nova roupagem devido às novas necessidades que surgiram durante a primeira parte, vindo, portanto, a receber novo título, conforme epigrafado no título. Todavia, seguem-se os mesmo referências teórico-meotodológicos com destaque para os novos recortes feitos nos corpus de análise. Leiam os anuncios nos murais!

TEMPO DE LEMBRAR...”: RESSIGNIFICANDO DO SABER DO IDOSO



Acudid a mis venas y a mi boca.
Hablad por mis palabras y mi sangre
Pablo Neruda, Canto general


Este artigo traz à baila observações feitas por meio de estudo de caso realizado na turma da Melhor idade, participante da Universidade Aberta à Terceira Idade – UATI – do DCHT, Campus XVI, Irecê – BA, da Universidade do Estado da Bahia. Nesse espaço há predomínio de saberes femininos, isto é, dos mais de trinta matriculados, há apenas dois senhores participantes ativos, os demais, senhoras.
Assim sendo, pôde-se perceber que os discursos se voltam para as atividades relativas às suas vivências de mulher, mãe, dona de casa, etc. lugares de fala que determinam origens e culturas que revelam as grandezas de cada uma, como sujeitos de suas histórias.
Nesse contexto aplicaram-se como metodologia os princípios da etnopesquisa porque se acreditou que seria necessário criam uma ambiente de confiança entre pesquisador e pesquisado. O que de fato ocorreu. Com efeito, recorreu-se também aos fundamentos da psicologia social, visto que se tratava de um grupo de sujeitos que ali estavam para se fazerem ouvi como agentes ativos da/na história e cultura locais.
Preferiu-se, portanto, partir do pressuposto de que os observados mais teriam para ensinar do que para aprender. Então, se seguiu o ideal de que, por se tratar de indivíduos situados social e historicamente numa comunidade de tradição oral, seria coerente atiçar suas memórias individuais e coletivas por meio de discurso dessa natureza; por isso o uso da música como instrumento instigação. “todo o edifício cultural está fundado sobre as lembranças dos indivíduos. A inteligência, nestas sociedades, encontra-se muitas vezes identificada cm a memória, sobretudo com a auditiva.” (LÉVY, 1993, p. 77).
Em seguida, vieram as associações de signos armazenados na memória de cada um dos observados. Desse modo, o contexto tornou-se o próprio meio e alvo da interação comunicativa.
Ainda seguindo a perspectiva de que os idosos são sujeitos que carregam consigo significativa bagagem de signos socioculturais e que precisam de ocasiões excepcionais para se expressarem; lembrando que, um dos objetivos da UATI é proporcionar domínios comunicativos nos quais, cada participante interpreta a sua maneira signos propostos pela ecologia cognitiva do meio discursivo. Assim sendo, segundo Lévy (1993)
O sentido emerge e se constrói no contexto, é sempre local, datado, transitório. A cada instante, um novo comentário, uma nova interpretação, um novo desenvolvimento podem modificar o sentido que havíamos dado a uma proposição.” [...] Quando ouço uma palavra, isto ativa imediatamente em minha mente uma rede de outras palavras, de conceitos, de modelos, mas também de imagens, sons, odores, sensações proprioceptivas, lembranças, afetos, etc. (LÉVY, 1993, p. 23).

Por isso os atores comunicativos ao se pronunciarem desse lugar de fala, deixavam vir à tona toda sua existência

Através de seus atos, seu comportamento, suas palavras, cada pessoa que participa de uma situação estabiliza ou reorienta a representação que dela fazem os outros protagonistas. Sob este aspecto, ação e comunicação são quase sinônimas. A comunicação só se distingue da ação em geral porque visa mais diretamente ao plano das representações. (LÉVY, 1993, p. 21).

O sentido atribuído pelo desenvolvimento sistemático das palavras em determinados instantes leva-as ao dialógico, isto é, ao se disponibilizar as canções Asa branca, de Luiz Gonzaga para audição dos idosos, percebeu-se que todos ativaram suas redes semânticas, buscando reorganizar suas imagens e sentidos no tempo e espaço da enunciação. Por isso, nas palavras de Lévy (1993)

O objetivo de todo texto (neste caso a música Asa Branca) é o de provocar em seu leitor um certo estado de excitação da grande rede heterogênea de sua memória, ou então orientar sua atenção para uma certa zona de seu mundo interior, ou ainda disparar a projeção de um espetáculo multimídia na tela de sua imaginação. (LÉVY, 1993, p. 21).

Com efeito, viu-se com essa atividade a revalidação do conceito de memória de longo prazo,os indivíduos a serem solicitados a associar objetos a título de música o fizeram significativamente, chegando inclusive discorrer sobre suas vidas quando, pela primeira vez ouviram as referidas canções. “Era menina nem me lembro quantos anos tinha, lá na roça e escutei no rádio do vizinho passando essa música, era bem no mês de agosto, estava tudo seco e feio.”[1]
Sabe-se que a capacidade de conhecer e reconhecer signos e domínios sociais se constrói na interação entre os sujeitos e os meios de comunicação, esse pertencimento serve para que cada um que participe dessa interação seja colocado como ser humano, antes de qualquer coisa. “A inteligência é um aspecto da totalidade do sujeito que, como os outros, assim irá se desenvolver. [...] sua interação dar-se-á com objetos, formas de agir e pensar diferentes.” (FAGUNDES, 1991, p. 175).
Viu-se, portanto, que as memórias dos participantes do curso foram avivadas a partir daquilo que Lèvy chama de inteligência coletiva, na qual todos se ajudam na compreensão dos significados dos signos que lhes foram propostos.

Referências

LÈVY, Pierre. Inteligência coletiva:por uma antropologia do ciberespaço. 5. ed. São Paulo: Loyola, 2007.
GUATTARI, F. As três ecologias. 4. ed. Campinas: Papirus, 1993.

* Professor de Linguagens e Lingüística da Universidade do Estado da Bahia – UNEB – DCHT – campus XVI – Irecê-BA.
[1] Depoimento de uma senhora participante das atividades realizadas na oficina Recordar é viver..., ministrada pelos universitários do 5° semestre de pedagogia que, por questões de preservação de identidade não será divulgado o nome.

LINGUAGEM COMO INSTRUMENTO CONTROLADOR DO PENSAMENTO MODERNO


A experiência não é nem formadora nem produtora. É a reflexão sobre a experiência que pode provocar a produção do saber e formação.
A. Novoa, 1996.

Apresentação

Este trabalho se apresenta em formato de comunicação, visto que foi construído numa perspectiva de levar os graduandos em Pedagogia, da Faculdade de Educação de Tangara da Serra, refletirem sobre os paradigmas[2] que cercam o uso da língua, nas vertentes escrita e oral, com destaque para o uso da linguagem eletrônica instituída pelo desenvolvimento da comunicação em alta velocidade. (computador, internet etc.).
Com efeito, este ponto de vista visa, trazer à luz episódios que estão sendo utilizados por instituições que trabalham com formação de professores comprometidos com a busca e o aperfeiçoamento intelectual, através de instrumentos didáticos que melhorem o nível sócio-cultural dos seus estudantes.
Embora seja evidente a falta de capacitação técnica de nossos sujeitos, acreditamos que a escola é o espaço que deve proporcionar discussões atinentes ao uso da linguagem e suas tecnologias.

A tecnologia e suas simbologias comunicativas

Ao longo dos séculos o homem ocidental baseio seus costumes e ações em processos comunicativos, de forma que sentiu pressionado a utilizar conhecimentos lingüísticos e, sobretudo, inventar instrumentos para sua propagação. Não obstante, este processo resultou na confecção de símbolos que tinham como objetivo registrar todos os eventos produzidos por determinados grupos humanos.
Eis, grosso modo, a criação da imprensa, que a partir renascimento foi muito importante para o desenvolvimento e aperfeiçoamento das ideologias cristã no mundo ocidental, de tal maneira que os jesuístas construíram um império na América em virtude da tecnologia advinda da criação da imprensa, cujo veiculo principal de propagação das ideais do catolicismo estava registrados no livro doutrinários..
Dessa forma, o semioticista Barthes (1978), diz que a linguagem é uma legislação, a língua é seu código. Não vemos o poder que reside na língua, porque esquecemos que toda língua é uma classificação, e que toda classificação é opressiva.
Referindo-se ao idioma o lingüista estruturalista Roman Jakobson provou que um idioma se define menos pelo que ele permite dizer, do que por aquilo que ele obriga dizer. A exemplo disso, o francês figura no todo deste discurso.
Dessa forma, fica claro que a estrutura da língua por natureza possibilita a língua criar uma relação entre a fala e alienação. Assim, falar significa, de acordo com os pensamentos dos estudiosos, não é necessariamente comunicar, pois a língua nada mais é do que uma reição generalizada.
Sabemos ainda que, o domínio da língua em sua vertente mais significativa – escrita – existe a serviço do poder, de modo que Barthes classifica este episódio em dois pontos de vista importante: a Autoridade da asserção, o gregarismo da repetição.
Para o semioticista, isso ocorre em virtude de que “a língua é imediatamente assertiva: a negação, a dúvida, a possibilidade, a suspensão de julgamento, requerem operadores particulares que são eles próprios retomados num jogo de máscaras linguageiras”;
Neste contexto, pode-se afirmar que a língua em sua essência cria uma relação dialética entre o poder e a servidão, ou seja, a utilização massificante e repetida de determinados tipos de discursos produzem em seu interior uma série de relações, as quais delineiam e, até confundem entre si, oferecendo ao leitor/ouvinte um verdadeiro labirinto.
Diante disso, pode-se estabelecer que a língua visa o real da linguagem, de maneira que ela reconhece em sua essência as implicações que formam o paradigma da língua como simbologia de um fenômeno controlador da realidade escrita.
Para Sánchez, os meios de comunicação e a sociedade estão articulados em um processo comunicativo em que a linguagem ganha uma amplitude sem igual. Não obstante, este fenômeno atingiu diretamente os professores em seu fazer diário, pois para se comunicar estes profissionais necessitam empregar terminologias que geram uma situação comunicacional, isto é, utiliza-se do que se dispõem no momento.
Neste plano, ainda há de se destacar que comunicar é, segundo, Schramm (1973) citado por Sánchez (1999: 55) é um ato voluntário, uma ação que envolve vontade entre os interlocutores, pois, é a partir da vontade que os comunicadores elegem seus instrumentos de comunicação.

A transformação do pensamento educacional pela tecnologia


É senso comum que os textos que aborda os problemas da educação, chamem atenção para o episódio da transformação do estudante por meio de novas teorias e o uso de instrumentos tecnológicos que facilitam tal atitude educativa.
Para os investigadores educacionais, transformar significa perceber os resultados de trabalhos complexos e árduos que ao longo das ações foram se organizando de tal maneira, que as práticas se interligam com os pressupostos teóricos levantados em busca da concretização da mudança. “Transformação também é um conjunto de atividades que podem alterar estruturalmente uma pessoa, que mudam a forma da psique e do corpo[3]”.
Este argumento sintetiza as ideologias empregadas pelos sistemas comunicativos instruído pelo sistema dominante – capitalismo – o qual tem como nervo central à dominação do sujeito de corpo e alma, criando assim um alienado.

O boom tecnológico: euforia no uso de tecnologias computacionais

Sabe-se que nos últimos anos criou-se uma corrida vertiginosa em busca de inovações socioculturais e, sobretudo tecnológicas que possibilitasse a manipulação do sistema educacional e formativo de nossa sociedade.
Neste contexto, está o computador como ferramenta que possibilita a criação de episódios e mundos simbólicos, ao mesmo tempo em que introduz diferentes formas de atuação e de interação entre as pessoas que circulam ao seu redor, motivando a inovações muitas vezes vazias.
Para Almeida (2000:12-17), o clima de euforia em relação à utilização de tecnologias em todos os ramos da atividade humana coincide com um momento de questionamento e de reconhecimento da inconsistência do sistema educacional. Embora a tecnologia informática não seja autônoma para provocar transformações, o uso de computadores em educação coloca novas questões ao sistema e explicita inúmera inconsistência.”“.
No plano histórico, lembremos que o inicio de uso e/ou invenção de tecnologia voltada para o ensino foi provocado por Comenius (1592-1670), ao usar o livro impresso como instrumento de trabalho, o qual estava baseado no pensamento de universalização da equação ensino-aprendizagem. Assim, compreendemos que o homem sempre buscou instrumento que possibilitasse a universalização do saber através de um processo didático, cujo objetivo é tão somente a massificação da informação.
Em suma, não é possível pensar em educação sem fazer uma referencias aos processos tecnológicos que são criados com intuito de “facilitar” a fixação do conhecimento. Não obstante, não devemos esquecer que para que esta atividade se de maneira concreta é necessário, antes de tudo a formação de profissionais engajados com desenvolvimento da sociedade de informação em alta velocidade.
Seguindo o pressuposto do sistema, é inevitável um inquérito; como agir o professor que está no meio desse fogo cruzado? De um lado analfabetismo e miséria, do outro e tecnologias futuristas, porém inalcançáveis.
Em se tratando das evoluções no sistema educacional é licito refletirmos sobre o discurso de Paulo Freire a este respeito, de maneira que este corrobora chamando atenção para o evento da integralização dos esforços para a facilitação do acesso ao conhecimento, de maneira que asssoma-se isso ao desenvolvimento técnico-cientifico presente nas discussões educacionais dos últimos 20 anos do século XX.
No que se refere à inclusão de tecnologias computacionais no ambiente educacional, é licito entender o paralelismo criado por esta ideologia de modernidade. Em outras palavras; ao mesmo tempo em que há uma busca incessante para a implantação de computadores nas escolas como meio de garantir a qualidade do ensino, visto que deparamos com uma deficiência básica, isto é, temos milhares de crianças fora da sala de aula, aquela tradicional (quadro de giz, professor) a qual oferece os primeiros passos para a construção da aprendizagem.
Todavia, temos que compreender que cerca de 40% dos professores que compõe o quadro de nossas escolas não tem habilitação em nível superior. Além disso, a maioria dos profissionais da educação tem conhecimento básico de informática. Então perguntamos mais uma vez; porque não qualificamos nosso corpo docente conhecimentos voltados para os paradigmas educacionais que funcionem de acordo com as nossas possibilidades e depois pensem no uso de tecnologias? A resposta para esta questão esta centrada simplesmente nos ideais americanizados de educação, onde a tecnologias é parte do cotidiano de uma sociedade industrializada, a qual possibilita altos investimentos em equipamentos tecnológicos para laboratórios e, sobretudo, na formação de professores.
Para Dowbor (1994:122), este procedimento deve ser visto de maneira ampla, pois “frente à existência paralela deste atraso e da modernização é que temos que trabalhar em ‘dois tempos’”, fazendo melhor possível no universo preterido que constitui a nossa educação, mas criando rapidamente as condições para uma utilização ‘nova’ dos novos potenciais que surgem “.
Assim sendo, abre-se possibilidades que levam-nos a compreender os discursos dos estudiosos que questionam o uso do computador, como sendo a salvação da falência da educação. Ao contrário, o computador e suas simbologias tecnológicas são apenas ferramentas de trabalho.

A panacéia[4] dos males da educação moderna: o computador

O uso da informática como projeto de desenvolvimento pedagógico tem suscitado uma série de discussões no meio educacional e acadêmico. Segundo a crítica especializada este fenômeno ocorre em todo mundo, visto que as tecnologias informática se desenvolvem em alta velocidade tal qual a veiculação das informações através delas. Como não poderia ser diferente numa sociedade globalizada, o Brasil não está do centro das discussões.
No ambiente acadêmico construí-se um pensamento extremamente complexo, isto é, há em sua essência pontos não esclarecidos, todavia, existe uma credibilidade aqueles que dizem que “a tecnologia informática não é a característica fundamental da transformação educacional, não obstante, deve ser usada como instigadora de reflexões que levem a concepção dialética do processo educativo do individuo”.
Percebendo toda falácia que existe em torno do computador, que suas funções e seu uso apresentam-se como salvadores dos problemas da educação, o investigador Drucker (1993:153), assevera que “a tecnologia está ‘engolindo as escolas’ e enfatiza ainda que é necessário ‘repensar o papel e a função da educação escolar – seu foco, sua finalidade, seus valores... A tecnologia será importante, mas principalmente porque irá nos forçar a fazer coisas novas, e não porque irá permitir que façamos melhor as velhas”.
Aparentemente, temos um debate, o qual pode ser compreendido a partir do discurso de LOJKINE ( 127), que diz que o computador possibilita novos níveis de interpretação e entendimentos dos eventos educacionais, de maneira que os sistemas inteligentes criados pelo homem levam uma exigência maior por parte do profissional da educação que ministra conteúdos soltos e desconexos.
Diante disso, uma questão é inevitável, afinal, os computadores, na estrutura da escola e da sociedade , estão a serviço de quem e com que objetivos, uma vez que a escola não tem pessoa e equipamentos que atendam as necessidades básicas do conjunto?
Segundo Simon (1980) “a autonomatização dos processos de produção é a conseqüência lógica e o prolongamento da revolução industrial, que seguramente da continuidade ao processo de substituição da energia humana pela energia mecânica e digitalizada. Fato este que em virtude de sua velocidade não deixa tempo suficiente para que haja o processamento da informação, que conseqüentemente deveria se transformada em conhecimento.

Referências

BARTHES, Roland. Aula (trad. Leyla Perrone –Moisés) São Paulo: Cultrix, 1978.
Mediatamente! Televisão, Cultura e educação. Brasília: Ministério da Educação, SEED, 1999.
Proinfo: Informática e formação de professores. Brasília: Ministério da Educação, SEED, 2000, v. 1.
Proinfo: Informática e formação de professores. Brasília: Ministério da Educação, SEED, 2000, v. 2.
LOJKINE, Jean. A revolução informacional (trad. José Paulo Netto) - 2. ed. – São Paulo: Cortez, 1999.
FIGUEREDO, José Carlos. Comunicação sem fronteiras: da Pré-História à era da informação. São Paulo: Editora Gente, 1999.
TILBURG, João Luís Van. A televisão e o mundo do trabalho: o poder de barganha do cidadão-telespectador. São Paulo: Paulinas, 1990.
GUARESCHI, A. Pedrinho. Comunicação & controle social. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2000.
MORAES, M.C. Informática educativa: dimensões e propriedade pedagógica, MACEIÓ, 1993.
[1] Texto apresentado no 2º encontro de orientação e debate sobre os paradigmas e temas atinentes ao Provão – 2002.
· Especialista em Metodologia do Ensino de Língua Estrangeira: Inglês – UNEMAT, professor de Língua Portuguesa da Faculdade de Educação de Tangará da Serra e Literatura da Universidade do Estado de Mato Grosso – Campus Tangará da Serra.
[2] De acordo com etimologia paradigma (do grego paradeigma: padrão, modelo) esta empregada em sua essência, pois estes veículos de comunicação criaram seus próprios padrões comunicativos e simbológicos, cabendo ao profissional da educação adaptá-los ao seu uso em sala de aula, visto que seu o objetivo é melhora o nível de conhecimento dos estudantes.
[3] SADEK, José Roberto. Educação, Movimento e escolha in: Mediatamente! Televisão, Cultura e educação. Brasília: Ministério da Educação, SEED, 1999.
[4] S.f. - Planta imaginária, a que os antigos atribuíam a virtude de curar todas as doenças.

ANÁLISE DO DISCURSO E OS AMBIENTES VIRTUAIS

Para a Análise do Discurso, não se focaliza o indivíduo falante, compreendido como um sujeito empírico, ou seja, como alguém que tem uma existência individualizada no mundo. Importa o sujeito inserido em uma conjuntura social, tomado em um lugar social, histórica e ideologicamente marcado; um sujeito que não é homogêneo, e sim heterogêneo, constituído por um conjunto de diferentes vozes. Assim as noções de polifonia e heretogeneidade também constituem objeto de reflexão e são necessárias para se compreender o que chamamos sujeito discursivo. (FERNANDES, 2007, p.11).
Aplicada a teoria do sujeito discursivo nos ambientes virtuais, onde os internautas atuam em nível heterogêneo de fala e sentido, tem-se, pois nessas reflexões necessárias para inferir que; a formação discursiva e o interdiscurso compõem o universo lingüístico-discursivo promovido por estes enunciadores sociais, uma que neles são realizados explanações que variam de acordo com o lugar social de cada sujeito do discurso.
Nos Chat e Weblog há entrecruzamentos dos aspectos sociais, históricos e, sobretudo, ideológicos da linguagem, conforme as vozes dos sujeitos discursivos se constituem como ponto de partida para a negociação dos sentidos por eles pretendidos nos contextos comunicativos em que se lançam no tempo e no espaço sociais elementos socioideológicos, tendo como meio de materialização destes, a linguagem, uma que os discursos realizados nos ambientes virtuais precisam da estrutura da língua (gem) para existirem, seja de modo virtual ou real.
Diante disso, a escolha do léxico e seu uso expõem os princípios ideológicos com os quais lidam em determinadas posições dos grupos sobre um determinado tema. É, portanto, necessário compreender ainda que seja nesse espaço que se manifestam os sentidos dos discursos, isto é, os sujeitos ao se pronunciarem em determinados lugares sociais por meio da linguagem levam ao nível máximo seus pronunciamentos.
Para a teoria da Análise do Discurso, os sentidos são produzidos em decorrência da ideologia dos seus enunciadores, de forma que cada um, de seu lugar de os compreende a partir de sua realidade política, social e cultural a que estão submetidos no momento da interlocução.
Assim, afiança-se que os discursos praticados pelos sujeitos discursivos, usuários de Chat e Weblog não são fixos, “estão sempre se movendo e sofrem transformações, acompanham as transformações, sociais e políticas de toda natureza que integram a vida humana.” (FERNANDES, 2007, p.20).
Sobre a natureza social do discurso Orlandi (1999, p.15) afirma: “a palavra discurso, etimologicamente, tem em si a idéia de curso, de percurso, de correr por, de movimento. O discurso é assim palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando.” Ao fazer isso ele [homem] se movimenta no tempo e nos espaços sociais e, com isso provoca no outro e no grupo social, inquietações que levam às reminiscências de questões até então vistas através neblina homogeneidade.
Dessa forma, quando se observa a produção lingüístico-discursiva dos internautas nos ambientes virtuais, busca-se a compreensão dos sujeitos no conjunto social, uma vez que AD sugere que a tal interpretação se levará em conta os sentidos atribuídos pelos falantes aos elementos socioideológicos presentes nas atividades sociais realizadas no contexto do discurso. Dessa maneira, crê-se que nos ambientes virtuais “A ideologia materializa-se no discurso de cada um dos participantes na medida em que se articulam acerca de uma temática específica. Para isso tem como suporte material a linguagem a qual se configura na forma de escrita-fala, uma espécie de código secreto por eles criado para manter suas informações restritas ao grupo, cuja ideologia determina o significado de cada fragmento de discurso realizado pela comunidade virtual.
Por isso, se diz que a produção de sentidos num discurso depende, exclusivamente, dos lugares ocupados pelos sujeitos no momento da interlocução. Em outras palavras, a depender do ponto de vista socioideológicos do falante as palavras podem ganhar significados diferentes, levando inclusive, a graves problemas de comunicação.
O estudo do discurso toma a língua materializada em forma de texto, fora lingüística-histórica, tendo o discurso como o objeto. A análise destina-se a evidenciar os sentidos do discurso tendo em vista suas condições sócio-históricas e ideológicas de produção. As condições de produção compreendem fundamentalmente os sujeitos e a situação social. As palavras têm sentido em conformidade com as formações ideológicas em que os sujeitos (interlocutores) se inscrevem. (FERNANDES, 2007, p.22).

Para Pêcheux, (1977b, p.190) a noção de sentido deve ser construída a partir das proposições sócio-históricas que as palavras carregam em virtude da coletividade ter dado à elas um lugar de destaque em determinado momento de sua existência. Nas palavras de Pêcheux “o sentido de uma palavra, de uma expressão, de uma proposição, etc., não existe “em si mesmo” (...) mas, ao contrário, é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico no qual as palavras, expressões e proposições são produzidas.” (PÊCHEUX, 1977b, p.190 apud FERNANDES, 2007, p.22).
Mister se faz dizer que o ponto central do discurso é a compreensão da ideologia na qual ele é produzido, visto que ambos se complementam para demonstrar o lugar de onde o sujeito do discurso enuncia, isto é, o falante ao se pronunciar ocupa um lugar de fala, e com isso inscreve-se em um espaço socioideológico e assim sua voz emana e reflete seus pontos de vistas histórico e social.

SEMANTICA E SEUS LIMITES NO TEXTO

Tratar das maneiras como a linguagem se articula na língua natural construindo sistemas de significação tal como ocorre no português e no inglês, é considerar que sistemas de signos são importantes para a comunicação. Por isso, “a referência a outros sistemas de signos acontecerá ocasionalmente e terá por objetivo a compreensão da estrutura das línguas naturais”[1]
No português, essas abordagens se dão a partir do entendimento de que há termos lingüísticos e semanticamente diferentes, no entanto, se aproximam quando abordados no plano da significação.

Por símbolo ou expressão, entendemos qualquer objeto físico (uma seqüência de sons, sinais gráficos, ou qualquer outra coisa) que, na consciência da comunidade que a utiliza, está associado, ou “está por”, alguma outra coisa. Já um signo é a associação convencional de um símbolo ou expressão com alguma outra coisa. Por exemplo, a seqüência de letras que formam o nome próprio Luciano Pavarotti é uma expressão; essa expressão junto com o célebre tenor que ela nomeia constituem um signo. As palavras e as sentenças das línguas são exatamente isto, signos[2].

É interessante perceber no texto de Chierchia a representação que os símbolos têm e desempenham na comunicação e na interpretação da linguagem. Assim, quando usamos um signo para informar algo a alguém, sem dúvida, precisamos empregar signos que sejam compreensivos tanto pelo emissor quanto pelo receptor. O contexto, normalmente define os atos elocutivos dos agentes da comunicação.

O contexto pode ser subdividido em contexto linguístico (o discurso no qual o ato lingüístico está inserido) e contexto extralingüístico (os fatos não-linguisticos que caracterizam o ambiente no qual a comunicação acontece (...) Uma língua fundamenta-se numa gramática, o sistema de regras e/ou princípios que governam o uso dos signos da lingua.[3]

Aqui, entendemos à maneira do semanticista citado que, linguagem dar-se a partir do uso que a sociedade faz da língua e sua significação, empregando de uma maneira ou de outra sua “gramática na vida de uma comunidade de usuários. Logo, Chierchia diz que: “A sintaxe estuda o aparato combinatório de uma língua; a semântica, seu aparato interpretativo. A pragmática trata da maneira pela qual a gramática como um todo pode ser usada em situações comunicativas concretas.”[4]
Diante disso, referência, denotação, significado ou sentido de um signo são elementos que contribuem para o entendimento das mensagens na comunicação cotidiana do grupos sociais.

Semântica e semiótica: uma aproximação empírica

Para a ciência do signo – Semiótica – o homem se diferencia do animal face a sua capacidade de comunicação simbólica. Por isso, a estrutura da semântica leva o sujeito a conformação do ser em seu universo ideológico e, principalmente o subjetivo.
A partir disso, se toma o termo; Semântica cuja perspectiva é de avizinhar-se, atualmente, de semiologia e semiótica. Contudo, nessas disciplinas há elementos conceituais e práticos que as diferenciam.
Para os filósofos empiristas da linguagem, tendo nesse quadro J. Locke como representante, a Semiótica – ciência dos signos -. Já na concepção do filósofo estado-unidense Ch. S. Pierce existem distinções acerca do icônico, indicial e, sobretudo o simbólico. Nesse sentido, ele compreendeu e havia confessado que: o que estudara até aquele momento, tudo era base na teoria semiótica na qual o símbolo possibilita e, conseqüentemente, se torna a marca distintiva do homem ante ao animal, constituindo assim, o ponto central comum ao estudo do mito, da religião, da arte e da ciência, que por seu turno são linguagens.
Na década de 60, os estudos de semântica junto com os marxistas, ocorreram na ótica da ideologia e da subjetividade, sendo que, Adam Schaff defendia a conciliação entre o pensamento marxista e a semântica, dado que a semântica passa a ser entendida como a “parte da lingüística que se ocupa da significação das palavras e da evolução dos seus sentidos”.
A linguagem no plano comunicativo foi entendida por Schaff como instrumento de socialização de ideologias. Portanto, para ele a função comunicativa se desenvolve a partir dos sentidos que o sujeitos atribuem aos objetos e coisas que usam para se expressarem.
Para o semanticista polonês, a função comunicativa da linguagem é desenvolvida a partir de:

O processo de comunicação e a relacionada situação-signo, isto é, a situação em que objetos e processos materiais se tornam signos no processo social da semiose, têm-nos servido de base à analise das categorias semânticas signo e significação. Tal análise, porém, mostra que, para entender o processo de comunicação e também o que é signo e significação, é necessário fazer referencias à linguagem por plano social e dentro da qual objetos e processos materiais podem, sob circunstâncias definidas, funcionar como signos, isto é, adquirir significações definidas. Eis por que a linguagem e a fala são elevadas ao papel de categorias fundamentais, em todas as pesquisas semânticas. Além disso, o lingüista, o lógico, o psicólogo, o antropólogo, etc., todos eles se referem à linguagem e a fala. (SCHAFF, 1968, pp. 355-6).

Embora tenha sido demasiado longa a assertiva mencionada acima, e cuja autoria é de Schaff, abre-se espaço para um horizonte de expectativa, isto é, há nessa discussão a tentativa de promover no sujeito uma série de possibilidades de leitura dos objetos que compõe o meio social em que se ele atua. Por isso, nosso estudioso assegura que a linguagem é “um sistema de signos verbais que serve para formular pensamentos no processo de reflexão da realidade objetiva pela cognição subjetiva e para comunicação socialmente esses pensamentos sobre a realidade, bem como as expectativas emocionais, estéticas, volitivas, etc., a esta relacionada”.
O objeto da semântica tem sido compreendido e delimitado pelos especialistas, embora se tenham notícias de vários semanticistas que expõem suas opiniões em defesa da ampliação do seu campo e objeto de investigação. Para melhor didatizar a discussão, deve se entender, grosso modo, que ela é.

Semântica é o estudo do significado em linguagem, semântica é a disciplina lingüística que estuda o sentido dos elementos formais da língua, ai incluídos morfemas, vocábulos, locuções e sentenças (= estruturas sintaticamente completas ou lingüisticamente gramaticais), ou, ainda, semântica é o estudo da significação das formas lingüísticas.
Estas, pois, são as palavras de Marques (1990:15), as quais afirmam que os significados das palavras, segundo os princípios da lingüística se dão em três níveis: semântica lexical, semântica da sentença – independentemente de condicionamentos contextuais ou situacionais – e o da semântica do texto – relativo ao uso concreto da língua em textos falados ou escritos, contextual e/ou situacionalmente condicionados.
Além disso, existem afirmações que dão conta de que a melhor maneira de se conceituar a semântica é conhecer que estamos diante de uma ciência que trata de significados. Portanto, a melhor forma de se amenizar as discussões sobre tal conceito é, sem dúvida, aceitar que se trata de um estudo heterogêneo dos sentidos. Para Fodor e Katz (1964, p. 417) apud Marques (2000:17) o lugar-comum entre lingüística e semântica é“... a única maneira que se tem de descrever de modo preciso a atual situação da semântica é mostrar parte de sua heterogeneidade.” Assim, tais palavras corroboram idéia de que se tem um ciência aberta à múltiplas aplicações quando se busca entender os sentidos das palavras em textos e contextos específicos.
Nesse quadro é importante que se tenha em mente o conceito de comunicação, pois é a partir dela que os seres realizam seus sentidos, ou seja, é por meio do ato de comunicar que se faz saber conhecimentos de várias formas. Segundo conceitua Ducrot “Comunicar seria, antes de tudo, fazer saber, pôr o interlocutor na posse de conhecimentos de que antes ele não dispunha: não haveria informaçao a não ser que, e na medida em que, houvesse comunicação de alguma coisa.” (Ducrot, 1972, p. 10).
Assim, tem se a possibilidade de verificar através dos princípios da semântica a intersubjetividade dos falantes. Tal perspectiva, segundo Benveniste é apontada no uso dos pronomes EU e TU, ambos com característica de próxima. Sendo que, Eu “é uma maneira mais rápida o próprio nome), têm, na realidade, uma função mais complexa.”

O que é texto na perspectiva semântica e semiótica?

Para a semiótica contemporânea as contribuições de C.S.Pierce e Saussure possibilitaram ao estudioso, sobretudo, ao leitor comum observar e analisar os significados que as palavras têm tanto na cultura quanto na sociedade em geral, tendo obviamente a língua particular como código e, portanto, os signos constituem sistemas de significação complexos.

Uma conseqüência da substituição do signo – conceito histórico, artefato analítico (e inclusive ideológico), como gostava de afirmar Barthes (1980:1074) – pelos sistemas de significação foi a de centrar a mirada semiótica (Fabbri, 1973) no texto (ou discurso) que produz sentido, considerado num primeiro momento como sequencia de signos. (LOZANO, 2002, p. 2).

Dando continuidade ao entendimento do que é o texto Derrida e Kristeva de forma particular, segundo Lozano, sustentam que os textos são o lugar em que o sentido se produz e produza (prática significante).
O objeto da semântica e da semiótica é o texto. A semiótica visa mostrar através da metalinguagem os discursos produzidos pela sociedade, e conseqüentemente explicar o que e para que servem seus sentidos.
Bakhtin (1977: 179), afirmou Onde não há texto, tampouco há objeto de investigação e de pensamento. É a partir desse momento que ele situou suas observações de pesquisa, situando o papel e o limite do texto nas disciplinas que utilizam o texto como objeto de análise: filosofia, lingüística, a chamada crítica literária.
O lócus de Bakhtin é sem dúvida o espaço do texto. Por isso ele dizia que o texto escrito e oral é dado primário de todas as disciplinas e, em geral, de todo o pensamento teológico e filosófico em suas origens. Nesse sentido, apontava que o “texto é aquela realidade imediata (realidade de pensamento e de emoções) sobre a qual só podem fundar-se estas disciplinas e este pensamento.” (BAKHTIN, 1997, p.197).
Essa idéia fundante de texto nos permite entender que o texto é o objeto que permite, em função de um interesse comum, a convergência de disciplinas distintas. Tanto a sociologia como a sociolingüística, a psicologia social a teoria da informação e a teoria da comunicação e muitas outras têm em comum o fato de trabalhar com textos. (LOZANO, 2002, p. 2).

[1]CHIERCHIA, Gennaro. Semântica. São Paulo: EDUEL, 2003, p. 25.
[2] Idem.
[3] ib idem. p. 25
[4] op. cit, p. 26.