quarta-feira, 9 de julho de 2008

POR QUE NÃO DIZER A VERDADE?

Mais uma noite na escuridão
A mente não pára de pensar:
Por que não dizer a verdade
Se nosso mundo foi construído
Sobre os pilares da sinceridade?

Diz-me, agora a verdade
E deixarei de pensar em ti!
Para, assim libertaremos
Nossos corações dessa crueldade

Por que não diz a verdade?
Do jeito que tudo mal acabou,
Sinto que jamais a verdade gritou
Quando, no leito dizia
Que era todo meu amor.

Por que não diz a verdade?
Por quê?

10 de julho de 2008, 12h35min
Robério Pereira Barreto

terça-feira, 8 de julho de 2008

CONCUPISCÊNCIA

Ouço nos seus olhos um silêncio
cujo grito é agudo, porém cônscio
de que seu brado atinge-me o íntimo do ser.

Porque a fragrância de seu corpo inunda
meus olhos de desejo cuja lascívia
faz-me violentá-la com olhos impuros.

Com mãos cuja maciez lhe faz carícias
e, consequentemente, submerge-nos à lubricidade
do desejo conflituoso, porém nos conduz ao confronto final;
em que nossos corpos ruborizados se entregam ao incêndio da paixão.

Assim, derretem-se ao som de brados infinitos
em que à união de dor e prazer soma um só corpo,
fazendo com que os fluidos da vida escorram
graciosos e voluntariamente entre os últimos suspiros de amor.

O POETA NO CEMITÉRIO CIDADE

Madrugada Silêncio...
a cidade repousa
e seus moradores dormem
em suas tumbas modernas
preparando se para o dia seguinte
no qual se protegerão de si mesmos
dentro de seus caixões blindados e motorizados.

Enquanto isso seres se dilaceram
em compasso de espera
nas esquinas e avenidas da vida
procurando guarida nos braços do mundo
que em um segundo podem lhes tirar o direito
de respirar porque ao invés de prazer sentiu dor
levando à quebra do contrato regido por olhares
perdidos em meio ao desprezo
daqueles que buscam no dinheiro o valor
da vida e também do amor
medido e pago sem nenhum rancor.

A madrugada muda inerte
testemunha ocular
não quer tais segredos revelar
pois se falasse ninguém ia acreditar
porque no cemitério-cidade
os protegidos nas tumbas e caixões blindados
se preocupam em preservarem-se da maldade
posta à rua fruto da desigualdade.

OLHOS DA ALMA

Os olhos da alma são infinitamente fundos
E por isso ao mirar-te fico tonto,
Sentindo-me confuso ante as coisas mundo.

A luz dos seus olhos, oh alma límpida!
Apresenta-se para mim
Como as cores do arco-íris
Por detrás da nuvem
De chuva na tarde de outono.


Sou um louco
Que vive
As desventuras da vida;
Sou menino
Cuja inocência revela a carência;
Homem cuja maldade
Revela ao mundo a verdade
De quão duro é estar vivo
Na selva de hipocrisia
E mais valia!

La luz
la vida sin te
no tiene sentido para mí
y…
Por eso ayunque estoy aquí!

Mis ojos mareados
soy las marcas
de la ambición!

Mas sin ti
no voy conseguí
Vivir aquí.

Ahora voy buscarte
no infinito mismo que tenga
que encuentra la oscuridad.

SEIVA DA SOLIDÃO

A solidão é água de ribeirão
Que ao ser presa na concha da mão
Dá um jeitinho e foge entre os dedos
Procurando juntar-se ao mar;
Quebras as barreiras que há.

A prisão da alma por um amor
Malfadado é tentativa vã;
Controlar a vontade da alma
É sufocar o grito do vulcão roncador.

A solidão que há aqui
Tornar-se-á um furacão no devir,
Esperando você surgir diante mim
Com sorriso maroto no rosto
E balançar faceiros nos quadris.

Isso me tornará seu prisioneiro
À espera do encontro verdadeiro
Nem que tenha que viver na masmorra,
Onde a alma alimenta a solidão
Como se rega um jasmim.

Portanto, eu não vivi até aqui
Para deixar evadir-se de mim,
Por entre os dedos como seiva de capim
Que ao ser esmagado nas mãos
Geme sufocado até o fim.

VENDEDOR DE PAIXÃO

Solitário nas esquinas e avenidas,
ou acompanhado na multidão de bares,
está o vendedor de flores,
trazendo nos braços vários amores;
perfeitos e, às vezes mais que perfeitos
são lírios e margaridas.

As flores com seus perfumes
e cores se misturam
entre os sabores das paixões reais
e aquelas cuja formosura será despertada
no desabrochar de um copo de leite.

Os corações afloram diante da poesia
aveludada da rosa vermelha
e lírio cor de aquarela
que toca alma dos amantes
mesmo em momento de querela.

Oh, preciso comprar uma paixão
Para alegra meu coração!
Cadê o vendedor de flores
Que traz nos braços novos amores?

Quero o amor mais perfeito
Que dê a esse peito o pulsar
De infante diante da emoção primeira.

(...)

Sei que se não encontrar o vendedor
Posso ficar para sempre com a dor
De um amor que aos poucos se acabou.

A LITERATURA DE MATO GROSSO NO LIMIAR DA GLOBALIZAÇÃO

“Os sábios geralmente morrem como insensatos. Os tolos, ao contrário, morrem fartados de conselhos. Morre-se de idiotice quando se pensa demais. (...) Alguns sucubem por entender tudo, e outros vivem por não entenderem nada.” (GRACIÁN, Baltasar. Não morrer de ataque de idiotice in: Arte da Prudência, 2001. 57)


Sabe-se que a literatura em Mato Grosso tem dois momentos; antes e depois da divisão do Estado. Portanto, perguntar se existe literatura em nesse Estado é uma questão importante e que precisa de discussão ampla.
Segundo o que os estudiosos têm dito a quantidade de obras produzidas antes da divisão política-administrativa volta-se, sem dúvida, para o relato historiográfico no qual destacam-se os trabalhos de Rubens de Mendonça, História da literatura mato-grossense (1970), e Lenine Povoas, História da cultura mato-grossense (1982).
Para Magalhães (2001:15) este textos são, na verdade, fruto de uma compilação historiográfica do Estado. Portanto, qualquer pesquisador que queira entender os acontecimentos na literatura de Mato-Grosso deve lê-los, pois o mérito a eles atribuído é em virtude de fazerem uma relação minuciosa das produções literárias dos séculos XVIII e XIX.
A estudiosa ainda afirma que a História da cultura moto-grossense fornece informações sobre manifestações culturais que, certamente, conduzirá o pesquisador ao conhecimento da vida na sociedade da época.
Dessa maneira, pode-se dizer que a produção literária de Mato-Grosso, antes da divisão política (1977), e o Decreto que legalizou a separação é de 1979, era um misto de arte da palavra com história. “A nós interessa compilar a história da literatura de Mato Grosso buscando enfatizar as características estruturais e conteudísticas que a legitamam enquanto diferença no cenário literário nacional.” Afirma Hilda Magalhães.

Afinal, o qual é a posição da literatura de Mato Grosso no cenário literário nacional?

Antes de responder tal inquérito, faz se necessário esclarecer qual é a concepção que se tem sobre a literatura de Mato Grosso. Para tanto, empresta-se de Hilda Magalhães o discurso que afirma que é “literatura mato-grossense os textos escritos por autores que nasceram em Mato Grosso ou que nele residem (ou tenham residido), contribuindo para o enriquecimento da cultura do Estado.” (Magalhães, 2001, p. 18).
Com efeito, lembra-se que o pensamento da pesquisadora ao falar de literatura mato-grossense está baseando ainda no Estado indiviso, isto é, o Mato Grosso anterior à década de setenta.
A produção literária mato-grossense ainda não tem se mostrado suficiente para faz parte do cânone nacional. Contudo, tem se mostrado como elemento de compreensão das transformações da(s) cultura(s) do Estado. “(...) Quanto à variedade da produção literária mato-grossense, evidenciando a sua importância, enquanto diferença, no contexto literário nacional” pode-se dizer que responde às expectativas regionais.
De sorte que temos hoje, nomes que representam os Estado em concursos nacionais, tendo sido ganhador de prêmios importantes autores como: Hilda Magalhães Dutra, Aclyse de Matos, Lucinda Persona, etc.
Numa tentativa de responder a pergunta desse tópico, afirma-se que, a partir de 1970, foram desenvolvidas ações governamentais, cujo objetivo era criar e intensificar políticas que visassem o crescimento econômico do Estado. Dessa maneira, viu-se em um grande movimento migratório, destacando nesse contexto, o fluxo migratório do Sul, especialmente, sulistas.
No que se refere à cultura, comentar-se-ia que, nesse período a literatura e a cultura em geral tiveram grandes produções, porém foram suplantadas pela questão econômica, a qual deu ao Estado destaque no âmbito nacional. Tudo isso pode ser tributado ao “maciço investimento nos latifúndios, ao mesmo em que pequenos proprietários, sem acesso a financiamento, foram condenados ao empobrecimento” (Siqueira. 1990:196 apud Magalhães, 2001, p. 225).
Para Magalhães (2001:226), após a divisão, o Estado viu um momento de efervescência cultural, tendo no teatro um instrumento de divulgação social. Assevera-se ainda que nesse período surgiu também a criação da literatura infanto-juvenil. Ademais, apareceram produções poéticas que tinham, ou melhor, tem preocupações com os temas que universalizam a questão fundiária. (ver Matrinchã do Teles Pires, de Luiz Renato Pinto), bem como temáticas universais, por exemplo; o erotismo, a metalinguagem e os emblemas da pós-modernidade.

A arte regional na pós-modernidade

Na era digitação e na globalização, ainda é possível se pensar em arte regional? Bem, isso é uma questão reconhecidamente complexa, mas é passível de um consenso. Pois, José Nogueira de Moraes afirma que o termo regional é inadequado para a produção artística, visto que o significado que a arte e a literatura transmitem tem caráter universal.
Nesse mister, Nelson Brissac corrobora ao dizer que:

“Para artistas brasileiros contemporâneos, vivendo em metrópoles onde as arritmias da produção industrial e dos sistemas de comunicação são mais gritantes, nacional não se define pelo que se tenha de mais brasileirinho. Mas pela capacidade de tirar partido de uma condição especifica no concerto das contradições internacionais, operando as diferenças, os intervalos e as desproporções no interior do sistema, que às vezes aqui se fazem mais evidentes. (Brissac, 1996: 5-7) Apud Souza, 2001, p. 107).

O quadro poético de Mato Grosso, basicamente, está centrado nas questões apresentadas pelo articulista, sendo que o elemento responsável por isso, pode se dizer que ainda é e está relacionado com os acontecimentos políticos do fim da década de setenta – investimentos na construção de estradas e meios de comunicação fizeram a ligação das regiões do Estado e, também com o centro sul do país.
Para Bissac (1996:5-7), Os artistas ao produzirem suas poemáticas atuam como sujeitos ativos, que conseguem mesmo que deslocado do centro, produzem temas de caráter universais. Então, ouve-se o que ele nos disserta sobre a questão:

“Esses artistas indicam como alguém, embora localizado, conseguem ser universal. Situação que nada tem a ver com o apego a um lugar, a raízes provincianas. Trata-se de uma posição geográfica, uma inserção no mapa dos blocos e fluxos mundiais. Aqui, a geografia substitui a história, que fundava a tradição. No mundo da circulação generaliza, do predomínio da informação, não se tem mais passado. Apenas uma pontuação geométrica num campo sem profundidade. Onde tudo é movimento. Dinâmica que tende a abolir toda posição referencial, a convenciona relação centro periferia.” (Brissac, 1996: 5-7) Apud Souza, 2001, pp. 107-8).

A literatura de Mato Grosso absorveu nas últimas décadas alguns aspectos da pós-modernidade. Em uma palavra, temos em nossa produção poética; temas que tratam desde a epifânia (Lucinda Persona – Sopa Escaldante) até poema processo (Aclyse de Matos), que os coloca em posição de vanguarda na arte local.

Bibliografias

MAGALHÃES DUTRA, Hilda Gomes. História da Literatura de Mato Grosso: Século XX. Cuiabá: Unicen Publicações, 2001.
PEIXOTO, Brissac Nelson. Arte brasileira na era da globalização. In: Cultura Brasileira figuras de alteridade. Org. SOUZA MELO, Elaina Maria de. São Paulo, Hucitec, 1996, pp 107-12

segunda-feira, 7 de julho de 2008

AMBÍGUO CORAÇÃO

A cada manhã
Sinto que será
Mais uma luta para
O coração longe de você.

Ando pela casa e rua
E nelas há lembranças...

Levanto com pé direito
Para achar um jeito
De acabar com esse defeito;
Ainda lembrar-me de ti.

Esse ardor na alma
Parte em dois:
Um sente alegria na dor,
Outro brinda à liberdade...

07 de julho de 2008, 21h01min.
Robério Pereira Barreto

domingo, 6 de julho de 2008

RITUALIZAÇÃO DA CULTURA CONTEMPORÂNEA

No meio acadêmico o estudo da cultura brasileira passou a ser uma preocupação contemporânea. Tal procedimento se tornou uma atividade para entender os muitos motivos e caminhos que conduzem os grupos humanos às suas relações presentes e suas perspectivas de futuro.

“O desenvolvimento da humanidade está marcado por contatos e conflitos entre modos diferentes de organizar a vida social, de se apropriar dos recursos naturais e transforma-los, de conceber a realidade e expressá-la. A história registra com abundância as transformações por que passam as culturas, seja movidas por suas forças internas, seja em conseqüência desses contatos e conflitos, mais freqüentemente por ambos os motivos. (SANTOS, 1994, p. 7).

Pode-se ver que, atualmente, estudar as culturas brasileiras em suas peculiaridades é, sem dúvida, uma questão de construir as identidades nacionais. Em uma palavra, entender as culturas e literaturas mato-grossenses é, na verdade, uma necessidade imanente das sociedades pós-modernas.
Então, não se pode negligenciar que há traços e riquezas que a cultura brasileira pode nos revelar, pois, o Brasil é uma sociedade multicultural.

“A riqueza de formas das culturas e suas relações falam bem de perto a cada um de nós, já que convidam a que nos vejamos como seres sociais, nos fazem pensar na natureza dos todos sociais de que fazemos parte, nos fazem indagar das razões da realidade social de que partilhamos e das forças que as mantêm e as transformam. Ao trazermos a discussão para tão perto de nós, a questão da cultura torna-se tanto mais concreta quanto adquire novos contornos. (SANTOS, 1994, p. 9).

Com efeito, relacionar e, até mesmo, compreender as manifestações sócio-culturais com as várias classes e grupos que as constituem como cultura, é uma necessidade urgente, visto que nos queremos sujeitos ativos no processo cultural vigente. Então, sabe-se que a cultura de um povo constitui-se, principalmente, de sua arte e suas representações simbólicas.

Concepção básica de cultura

Segundo Santos (1994) a cultura pode ser entendida como a preocupação que os sujeitos têm com as existências sociais de suas realizações artísticas, econômicas e políticas. Entretanto, é importante destacar que estes processos nascem a partir da construção do conhecimento que indivíduos constroem ao longo de sua existência social.
Aqui, não se pode esquecer o papel que a culturas alternativas (literatura, música, artes, etc.) deram e dão à sociedade, contribuindo assim para o pensar a vida e as sociedades como um todo, visto que a vida e as ações dos sujeitos são enfatizadas, e que, segundo Santos (1994: 25) “tem por temas principais a ecologia, a alimentação, o corpo, as relações pessoais e a espiritualidade.”

Pluralidade e dialética na cultura

Para Bosi (2003:7), “a admissão do seu caráter plural é um passo decisivo para compreendê-la como um efeito de sentido”, cujo resultado é uma multissignificação; alterações e oposições no tempo e no espaço.
Nesse contexto, o indivíduo é o sujeito do código culturalmente instituído, uma que o seu raio de ação é delimitado pelas regras e, principalmente, pelas repressões criadas pelo grupo a que pertence.
Da Matta (1997: 219), corrobora ao afirmar que, numa cidade pequena não se usa essa forma de fuga ao mesmo ocorre em sociedades tribais, em que a posição numa se pertencer a determinada linhagem já definem a pessoa como possuidora de certas prerrogativas sociais”

As características entre indivíduos e pessoas na cultura contemporânea segundo Roberto Damatta:

Indivíduo
Pessoa
Livre, tem direito a um espaço próprio.
Presa à tonalidade social à qual se vincula de modo necessário.
Igual a todos os outros.
Complementar aos outros.
Tem escolhas, que são vistas como seus direitos fundamentais.
Não tem escolhas.
Tem emoções particulares.
A consciência é individual.
A consciência é social (isto é, a totalidade tem precedência).
A amizade é básica no relacionamento = escolhas.
A amizade é residual e juridicamente definida.
O romance e a novela íntima, individualistas (obra do autor), são essências.
A mitologia, as fromulações paradigmáticas do mundo são básicas como formas de expressa.

Bibliografias consultadas

BOSI, Alfredo. Cultura brasileira: temas e situações. 4. ed. São Paulo: Ática, 2002.
DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: Para uma sociologia do dilema Brasileiro. 6. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura. 14. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

RISCO DE PÓS-MODERNIDADE NA LITERATURA DE MATO GROSSO: GEREÇÃO DE 90

RISCO DE PÓS-MODERNIDADE NA LITERATURA DE MATO GROSSO: GEREÇÃO DE 90
Robério Pereira Barreto

O homem nasce bárbaro. Redime-se da condição de besta cultivando-se. A cultura nos transforma em pessoas; e tanto mais, quanto maior for a cultura. [...] Não é apenas a inteligência que devemos apurar, mas também nossos desejos e principalmente nossa conversa.
GRACIÁN, Baltasar. Cultura e esmero in: Arte da Prudência, 2001. 57)

Introdução

Oscilar entre o regional e o universal; esse é o caminho daquele que se interessa pelo estudo da literatura e cultura de modo sistemático, pois o imagético, lingüístico e, até mesmo o social, chega, às vezes, a ser enigmático. Portanto, os conceitos de arte e cultura a partir das teorias da pós-modernidade ganham campo e passam a abordar vários temas, observando é claro, as particularidades e as identidades de cada segmento.
Assim sendo, trata-se de buscar junto à produção literária de Mato Grosso na década de noventa, traços que apontem para o entendimento das teorias da pós-modernidade por parte dos autores – poetas e artistas – regionais, buscando assim, discutir as filiações, influências e tendências. Para tanto, elegrmod, a priori, como base de argumentação os pensamentos de Terry Eagleton, Antônio Candido e Afredo Bosi.
O pós-modernismo na visada de Terry Eagleton
Hoje, o conceito de pós-modernismo praticamente dilui-se em meio à diversidade das discussões acerca de sua aplicabilidade. Mas para fins didáticos, emprestamos aquele apresentado por Eagleton em As ilusões do pós-modernismo, 1998. “A palavra pós-modernismo refere-se em geral a uma forma de cultura contemporânea, enquanto o termo pós-modernidade alude a um período histórico específico.”
A definição do crítico nos remete à produção artística na década de 90, visto que a cultura no último decênio do século passado viveu várias vicissitudes. Nessa perspectiva convém apresentar o que Eagleton conceitua como pós-modernismo e pós-modernidade.

Pós-modernidade é uma linha de pensamento que questiona as nações clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, a idéia de progresso ou emancipação universal, os sistemas únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação. [...] um conjunto de culturas ou interpretações desunificadas gerando um certo grau de ceticismo em relação à objetividade da verdade, da história e das normas, em relação às idiossincrasias e a coerência de identidades, (EAGLETON, 2001, p. 7).

Dessa forma, Eagleton leva à visualização de que o mundo da pós-modernidade pode ser visto com algo ainda discutível, ou seja, as sociedades ainda estão construindo seus paradigmas tanto sociais quanto culturais. Na verdade, a pós-modernidade caracteriza as culturas em virtude da efemeridade do mundo e da razão – sistemas sólidos.
Eagleton conceitua e discuti o pós-modernismo que, segundo ele pode ser entendido como uma questão híbrida, conforme segue:

um estilo de cultura que reflete um pouco essa mudança memorável por meio de uma arte superficial, descentrada, infundada, auto-reflexiva, divertida, caudatária, eclética e pluralista, que obscurece as fronteiras entre cultura elitista e a cultura popular, bem como entre a arte e a experiência cotidiana. O quão dominante ou disseminada se mostra essa cultura – se tem acolhimento geral ou constitui apenas um campo restrito da vida contemporânea – é objeto de controvérsia. (EAGLETON, 2001, p. 7).

Pode-se chamar dialético a este processo porque ele tem realmente se constituído numa integração progressiva da atividade teórica e filosófica da vida nas sociedades modernas, por meio da tensão entre a questão clássica e o estilo empreendido pela cultura de dada época e região.

Os primórdios da cultura e da literatura em Mato-Grosso
Imagine a força que pode ter um movimento que nasça a partir de uma radical segregação interna. Em uma palavra, pense o que pode se tornar para a cultura literária nacional no momento em que a arte a cultura mato-grossense virem à tona.
Não obstante isso, Antônio Cândido pondera sobre a literatura brasileira e afirma:

A nossa literatura, tomando o termo tanto sentido estrito quanto amplo, tem, sob este aspecto, consistido numa superação constante de obstáculos, entre os quais o sentimento de inferioridade que um país novo, tropical e largamente mestiçado, desenvolve em face de velhos países de composição étnica estabilizada, com uma civilização elaborada em condições geográficas bastante diferentes. (CÂNDIDO, 2000, p. 110)

Se se aplicar o discurso de Cândido à atividade cultura desse estado [Mato Grosso] certamente, encontraremos ressonância na formação da literatura no período pós-democratização, ou seja, atualmente, o estado abraça uma série de identidades, visto que o processo de colonização se deu com a abertura das fronteiras agrícolas.
No que diz respeito à posição geográfica, o Mato Grosso tem se mostrado importante para a economia nacional. Contudo, os investimentos em arte e cultura, ou melhor, na valorização dos aspectos culturais tem sido de maneira fragmentada, até porque, não tem sobrado tempo para se investir em cultura. “A cultura dominada perde os meios materiais de expressar sua originalidade” afirma Ecléa Bosi.
Essas palavras são de profunda reflexão, pois nos remete a uma discussão sobre o conceito de desenraizamento[1] cultural e econômico vivido nos dias atuais pela sociedade mato-grossense.
“[..] Se hoje se luta pela demarcação de territórios, pela autonomia cultural do indígena, é porque não existe um todo social de que ele participaria, mas uma sociedade dividida em antagonismos onde ele entraria fatalmente como presa. Isola-lo do predador é defesa de sua cultura e de sobrevida.” (Bosi, 2002, pp 16-7).

Os aspectos e conseqüências da colonização moderna de Mato-Grosso.

Estamos no início do século e no Mato Grosso e os flashes da imprensa nacional se voltam para divulgar os avanços da questão agrícola, que define paisagem econômica propícia para novos investimentos. Contudo, estes mesmos atos, diretos ou indiretamente relegam os aspectos da cultura do estado ao segundo plano.
Dessa forma, se ganha de brinde a reificação da marginalidade quanto à cultura nacional. Para Beatriz Sarlo (2002:7), este esquema é uma característica das sociedades contemporâneas, nas quais o aspecto econômico torna-se elemento de primeira linha. “(daí o caráter tributário de muitos processos cujos centros de iniciativa se encontram em outro lugar); e a solene indiferença com que o Estado entrega ao mercado a gestão cultural, sem estabelecer para si uma política de contrapeso.”
Como outros estados brasileiros, o Mato Grosso vive um clima do que se chama conseqüência da pós-modernidade, pois há uma fragmentação e certos elementos paradoxais em suas atividades sócio-culturais. Então vejamos: São várias chamadas reificando as ações do estado voltadas para o desenvolvimento econômico. Contudo, não se tem mostrado nenhum projeto nem para o resgate nem para a valorização das artes.
Então, como pensar em identidade cultural em sociedade plural, cujas ações estão voltadas para a exploração e acumulação? Para responder esta questão tomo de empréstimo o discurso de Ecléa Bosi, o qual oferece um entendimento do processo de colonização sofrido pelos Estados de fronteira agrícola, por exemplo; Mato Grosso, Goiás e Rondônia.

A conquista colonial causa desenraizamento e morte com supressão brutal das tradições. A conquista militar, também. Mas a dominação econômica de uma região sobre outra no interior de um país causa a mesma doença. Age como conquista colonial e militar ao mesmo tempo, destruindo raízes, tornando os nativos estrangeiros em sua própria terra. (BOSI, 2002, p 17).

Ela ainda corrobora dizendo: “No campo brasileiro a conquista acontece sob as forma de monocultura e pastagens. O arroz, a soja, a cana provocam tão forte migração de lavradores que constituem genocídio pelo número dos que vêm morrendo no caminho para o Sul.” (BOSI, 2002, p 17).
Sintomaticamente, a escola não tem penetrado nem aos valores culturais populares nem burgueses, visto que usa de paradigmas que não se aplica mais à sociedade pós-moderna, na qual o processo de hibridização tornou-se uma constante e tem conseguido transforma as identidades ao sabor das ideologias do sistema.
A exemplo disso, é o sentimento de culpa quando se discuti a identidade dos sujeitos e suas classes. Para Bosi (2002:21), a escola apela para sentimento de identidade pessoal e, automaticamente, exalta a força individual como sendo a melhor maneira de manter os créditos pelo sucesso – self your self ­-.
Assim sendo, procura despertar no sujeito o convívio com a cultura. Contudo, esta não é a local, mas sim, culturas distantes – outras regiões e até outros paises.
Bibliografias
BOSI, Alfredo. Cultura brasileira: temas e situações. 4. ed. São Paulo: Ática, 2002.
CÂNDIDO, Antônio. Literatura e sociedade. 8. ed. São Paulo: T. A. Quiroz, 2000.
EAGLETON, Terry. As ilusões do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
SARLO, Beatriz. Cenas da vida pós-moderna:intelectuais, arte e videocultura na Argentina (trad.) Sérgio Alcides. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2000.
[1] Conceito usado por Ecléa Bosi no ensaio intitulado: Cultura e desenraizamento.

sábado, 5 de julho de 2008

SOPRO DA MUDANÇA

O vento da mudança
Sopra aos meus ouvidos
Lições de como viver feliz.

O vento da mudança
Canta uma canção de amor
Para minha alma alegrar
Com suave melodia do mar.

O vento da mudança
Traz-me alegria e bonança
Depois daquela tempestade
De orgulho e arrogância
Que feriu meu espírito
Com tamanha ignorância.

Agora, o vento da mudança
Sopra ao meu coração
As delícias da brisa leve
Que vem do horizonte,
E leva-me ao repouso
No leito aquecido; solidão.

05 de julho de 2008, 20h41mim
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 4 de julho de 2008

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ALUCINAÇÃO

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RESPOSTAS...

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quinta-feira, 3 de julho de 2008

ABRAÇANDO O VAZIO

Olhos fitos no céu
A desejar um sinal seu...

Estrelas brincam no universo
E vejo Alfa Centauro ao leu;
Meu pensamento ligado a ti
Prende a alma num mausoléu.

A luz no firmamento
Insiste minha alma iluminar,
Embora à sua abóbada
Não consigo mais enxegar...

Agora, tenho o vazio
E luz celestial para abraçar...


03 de julho de 2008, 22h02min
Robério Pereira Barreto

quarta-feira, 2 de julho de 2008

INFINDÁVEL DESGOSTO

A alma lamuria a solidão
Do amor passado a limpo
No calor da hora...

E agora nesta noite fria de sertão
Onde a friagem a pino
Endurece as veias do coração
E o sangue da saudade o congela
Sem gratidão.

Paralisada pela frialdade,
Alma desatinada vacila
Ao sabor do vento
E a cada sopro petrifica-se...


Em cachoeira, prantos
Tentam desenhar seu rosto,
Porém o que sai é o rascunho
Carregado de desgosto.

02 de julho de 2008, 23h30min.
Robério Pereira Barreto

domingo, 29 de junho de 2008

REFUGIADA ALMA

Os olhos fechados não
Admiram a lindeza
Que é o pôr do sol
Na tarde de inverno...

Tampouco apreciam
O brilho de um olhar
Apaixonado a lhe cotejar...

Nem as mais claras súplicas
De amor os libertam da escuridão,
Também não os deixar
Ver a alvura da paixão...

Inertes, se furtam da perfeição
Dos campos liriais a cobrirem
De brancas e magistrais flores
A imensidão de novo amor...

Frágeis, alma, espírito e corpo
Flagelam-se ao se refugiarem
No negrume do medo da rejeição...

29 de junho de 2008, 22h56min
Robério Pereira Barreto

RESTO DO MEU NADA

O coração ferido sibila
Palavras ao vento...

Como névoa de inverno,
Fatiado pelas lâminas
De sua gélida expressão;
Agora está.

A coisa mais cruel
Que senti foi ver
Restos do meu nada
Atirados ao longe
Pela indiferença de ti
Que, cata-vento da solidão
Atirou ao chão os pedaços
Daquela grande paixão.

29 de junho de 2008, 12h50min.
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 27 de junho de 2008

ANIMOSIDADE

Na ânsia do amor reprimido
Pelo tempo, dividi o Eu
Em demasiada embriagues
Para em sua boca me fartar
Em saboroso e molhado beijo.

Era tanta vontade de ti
Que me joguei no abismo
Sem reparar as pontiagudas pedras
No final do báratro à espera
Desse coração para espetar.

Agora, há um coração partido;
De um lado da lança ficou
Lembranças daquele amor amigável,
De outro restam dor e saudades,
Que a cada manhã são cobertos
Pelo véu da maldade.


26 de junho de 2008, 19h10min.
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 26 de junho de 2008

DISCURSO: UM ELEMENTO DE IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO

O sujeito na fala: preconceito sociocultural e lingüístico

É através da linguagem que a Sociolingüística procura identificar os reflexos das estruturas sociais e tem por objetivo sistematizar a variação existente na linguagem. A Sociolingüística “considera que o sistema da língua não é homogêneo, mas heterogêneo e dinâmico. As regras, portanto, têm de abranger a variação das formas”. (ORLANDI, 2001:51). Nessa perspectiva o falante de uma língua materna é considerado, e são analisadas as formas lingüísticas usadas pelos falantes em suas respectivas comunidades.
A Sociolingüística relaciona as variantes lingüísticas com as variantes sociológicas, ou seja, com profissão, educação, salário, e ainda com diferenças de raça, sexo, idade, enfim, explica a variação lingüística através de fatores sociais, pois ações lingüísticas e ações sociais são constituídas.
Orlandi (2001, p.55) considera que a língua, mais do que sistema, arranjo de relações abstratas, “se vai passando para uma noção de língua considerada em suas características concretas, de uso, no mundo”.

Se a língua não é mais vista apenas como instrumento do pensamento, como nos formalistas mais ortodoxos, vai-se percebendo que ela também não serve só para transmitir informações, como poderiam deixar crer os que trabalham a linguagem enquanto comunicação. Quando os homens se comunicam, eles fazem muito mais do que apenas informar. (ORLANDI, 2001:55).

Como prova de que o homem não usa a linguagem apenas para informar, (BARRETO, 2005,p.03) em seu ensaio “Desmistificação do erro na oralidade: construção de aprendizagem de LE”, afirma que “o homem é um ser dotado de poder de comunicação, o qual o conduz à reflexão e, conseqüentemente, à produção e propagação do conhecimento”. Para tanto, é necessário o uso da linguagem verbal, cuja prática o homem exerce por excelência.
Voltando a atenção às variantes lingüísticas, veremos que elas podem ser observadas entre a linguagem urbana e a linguagem rural. A linguagem urbana tende, cada vez mais, aproximar-se do que se pode denominar linguagem comum (que é a linguagem que permeia o padrão lingüístico e o subpadrão lingüístico), pela influência niveladora dos meios de comunicação de massa, da escola, da literatura; e a linguagem rural, considerada de menor prestígio, tende a ser arcaizante e, como considera alguns gramáticos ortodoxos, a linguagem dos falantes do povo menos culto.
Para Bagno (2003), “essa mesma relação faz com que a língua das zonas rurais seja mais arcaizante do que a língua das grandes cidades, onde as transformações mais rápidas são acompanhadas no mesmo ritmo por transformações na variedade lingüística” (BAGNO, 2003:124).
Entende-se que os dialetos sociais ou sócio-culturais estão relacionados às classes sociais ou aos falantes que as compõem. Por isso a Lingüística estuda todas as línguas naturais em pé de igualdade, não importando com o grau de desenvolvimento econômico, social ou cultural alcançado pelas comunidades que a falam. Em detrimento da grande injustiça social, acompanhando a desigualdade econômica, observações assistemáticas levam a crer que a escolaridade plena no Brasil, “é um funil por onde só passa uma porcentagem relativamente pequena de brasileiros” (BAGNO, 2003:166), que marcados pelo preconceito lingüístico são bombardeados por atitudes de rejeição diante de determinados interlocutores ou situações.
Os pesquisadores engajados nos grandes projetos de pesquisa lingüística do português brasileiro chegaram à conclusão de que é o nível de escolaridade o principal fator a ser levado em conta na hora de classificar um falante e sua variedade. Nesses projetos, o rótulo falante culto é aplicado ao indivíduo que tem curso superior completo. (BAGNO, 2003:161)

Considerando a língua como criação da sociedade e, ao mesmo tempo, seu reflexo, há que se dizer na existência de falantes que por razões sociais não se sentem retorquidos em seu modo de falar considerando sua norma, a norma padrão, e há, em oposição, falantes que consideram seu modo de falar pouco valorizado e que vêem no outro modelo a forma mais prestigiada e correta. Essa desagregação da linguagem verbal (diz-se, aqui, desagregação no sentido de aceitação e não aceitação) fica evidente em circunstâncias de comunicação onde muito trabalhadores, que necessitam do trabalho e que tem intenção de permanecer, precisam se adequar à forma de linguagem verbal de tal comunidade. Calvet (2002) trata dessa questão referindo-se ao plurilinguismo. “Esta é a situação na qual se encontram os trabalhadores migrantes que chegaram a seu país de escolha sem conhecer ou sabendo bem pouco a língua. Eles são forçados a adquirir essa língua no ambiente de trabalho”. (CALVET, 2002:40). No entanto, há que se admitir que essa mesma problemática se defina dentro de uma única língua, pois apresenta variáveis usadas por comunidades diferentes.
Outro aspecto de variação lingüística importante de ser observado é na variação de sexo, pois é notável a diferença do comportamento social e, por conseguinte lingüístico, entre homens e mulheres. Essa diferença é observada por Pierre Bourdieu (1982:35) citado por Calvet (2002:71) onde ele coloca que,

Como os sociolingüistas freqüentemente observam, as mulheres são mais inclinadas a adotar a língua legítima (ou a pronúncia legítima): do fato de que elas são votadas à docilidade para com os usos dominantes e pela divisão de trabalho entre os sexos, que as especializa no campo do consumo, e pela lógica do casamento, que é para elas a via principal quando não exclusiva, da ascensão social, e onde elas circulam de alto a baixo, estão dispostas a aceitar, especialmente na Escola, as novas exigências do mercado de bens simbólicos.” (CALVET, 2002:71)

Logo, “poderíamos então dizer inversamente que os homens não sentem necessidade de questionar seu modo de falar, que eles o consideram legítimo” (CALVET, 2002:72).
Em decorrência de motivos sócio-culturais e históricos, algumas variedades são consideradas como sendo a melhor, e essa se denomina língua padrão advinda do poder econômico, social e político; as outras variedades são formas lingüísticas consideradas pobres, e vistas é claro, de maneira pejorativa. Essas diferenças são estigmatizadas e, portanto, recebem a maior carga de preconceito e rejeição por parte do conhecedor do português padrão. Em vista disso, a língua já não pode ser considerada apenas valor ideológico, mas como resultado de fatos sociais, passíveis de ser analisados e compreendidos por critérios lingüísticos modernos.
Entretanto, deve-se considerar que todas as variedades da língua são valores efetivos e que não será negando-as e humilhando quem as usa que se fará ascender lingüisticamente tais locutores, pois bem se sabe que o desrespeito pelo diferente não leva a lugar nenhum e que “negar valor ao modo como a pessoa fala seria quase o mesmo que negar valor ao que a pessoa é” (BAGNO, 2003:188). Evidencia-se, portanto, que a língua padrão não é usada como meio de ascensão social, como muitos pensam ser essa a função dela, pelo contrário, ela é usada como mecanismo de exclusão social, de rejeição à forma diferente de linguagem usada por muitos falantes. Assim, o problema não está no que se fala, mas em quem fala e como fala. Então, o preconceito lingüístico é decorrente do preconceito social. E enquanto não houver igualdade social, onde todos possam ser considerados econômicos, social e culturalmente iguais, não haverá, por conseguinte, igualdade lingüística. Dessa maneira, Bagno infere o seguinte:


Como é fácil perceber, o que está em jogo não é a simples “transformação” de um indivíduo, que vai deixar de ser um “sem-língua padrão” para tornar-se um falante da variedade culta. O que está em jogo é a transformação da sociedade como um todo, pois enquanto vivermos numa estrutura social cuja existência mesma exige desigualdades sociais profundas, toda tentativa de promover a “ascensão” social dos marginalizados é, senão hipócritas e cínica, pelo menos de uma boa intenção paternalista e ingênua. (BAGNO, 2005:71)

Em rigor, ninguém comete erro em língua, o que normalmente se comete são transgressões da norma culta. Vale lembrar que a língua é um costume, e como tal, qualquer transgressão, ou chamado erro, deixa de sê-lo no exato instante em que muitos o cometem, passando, assim, a constituir fato lingüístico, registro de linguagem definitivamente consagrado pelo uso. Em vista disso, será útil eliminar do vocabulário palavras como certo e errado ao se julgar as construções lingüísticas de determinados falantes.
A língua pressupõe também cultura e, às vezes, o próprio povo se encarrega de rechaçar uma criação que não se ajuste ao espírito da língua como “evolução natural”. É através da grande variedade de práticas sociais que a aprendizagem, a conservação, a transformação e a transmissão da cultura se realizam, portanto, a linguagem é um fato eminentemente cultural.
Entendendo a língua como um veículo de comunicação, de informação e de expressão entre os indivíduos de uma dada sociedade, pode-se afirmar que todo indivíduo sabe a língua que fala que em linguagem todos são autodidatas, e com pleno êxito. “Todo falante nativo de uma língua sabe essa língua. Saber uma língua, no sentido científico do verbo saber, significa conhecer intuitivamente e empregar com naturalidade as regras básicas de funcionamento dela.” (BAGNO, 2005:35). O que vale lembrar é que, em toda comunidade de fala há formas lingüísticas em constante variação, que uma língua não pára nunca, ou seja, muda sempre e que “o que hoje é considerado como ‘certo’ já foi ‘erro’ no passado. O que hoje é considerado ‘erro’ pode vir a ser perfeitamente aceito como ‘certo’ no futuro da língua” (BAGNO, 2005:143). Portanto, consideram-se aqui, como variantes lingüísticas, as “diversas maneiras de se dizer a mesma coisa em um mesmo contexto, e com o mesmo valor de verdade” (TARALLO, 2004:08).
No entanto, para se realizar uma pesquisa sociolingüística é necessário compreender a relação entre língua e sociedade. Essa relação se estabelece ao verificar que a cada situação de fala em que os sujeitos se inserem e da qual participam, nota-se que a língua falada é heterogênea e diversificada. Da mesma forma, essa heterogeneidade existe economicamente, culturalmente, além das diversidades de raça, sexo, idade. Como coloca Luft (1997,p.67) “em sociedades econômica, social e culturalmente heterogênea, é inevitável a heterogeneidade no campo da linguagem”. Assim, cada falante possui um conhecimento internalizado de sua língua e a partir disso é possível dizer que a “gramática” de uma pessoa é mais simples que a de outra, mas nunca que a fala é errada. E ainda, como apresenta Saussure “a linguagem tem um lado individual e um social, sendo impossível conceber um sem o outro” (SAUSSURE, 2004:16). Portanto, fica evidente que o uso particular que cada falante faz da língua pode variar, segundo seu nível de instrução, condição sócio-econômico, idade, região e, principalmente, a situação em que acontece a fala, ou seja, os indivíduos que falam a mesma língua, não falam exatamente iguais, e isso acontece porque o homem, afirmando o que ora foi escrito, pertence a diversos grupos sociais e, consequentemente, é levado a falar de diversas maneiras. Assim, “em toda língua do mundo existe um fenômeno chamado variação, isto é, nenhuma língua é falada do mesmo jeito em todos os lugares, assim como nem todas as pessoas falam a própria língua de modo idêntico” (BAGNO, 2005:53).
Em toda comunidade lingüística há julgamentos de valores tanto lingüísticos quanto sócio-econômicos, portanto, “como qualquer língua, ou variedade de língua, é propriedade de um grupo social, vemos surgir julgamento de valores que se prendem às línguas, quando, na verdade, se aplicam às pessoas que falam essas línguas: tal língua é considerada admirável, outra desprezível” (BUYSSENS, 2002:103), então, fica subentendido o preconceito social disfarçado de preconceito lingüístico. Julga-se a pessoa pelo que ela representa não pelo que ela é, rejeita-se sua origem classificando-a como ignorante ou até mesmo pobre, mas é importante lembrar que poder econômico não corresponde, muitas vezes, com capacidade lingüística.
É muito comum se considerarem as variedades lingüísticas desprestigiadas como erradas e isso acontece porque o valor e a importância dada aos usos lingüísticos são determinados segundo as classes sociais dominantes. Assim, quando alguém fala, logo há a preocupação de observar se trata de alguém ignorante, pobre, de outra região, ou seja, diferente de quem ouve. E percebendo algumas características na fala, quem ouve costuma chamar de erros. É pensando nessa situação desconfortável para os falantes (de achar que sua fala é inferior, errada) que surge a necessidade de uma pesquisa de campo em que se concretizará o que foi estudado em algumas bibliografias sobre a língua materna.
Sendo a língua falada veículo lingüística de comunicação usada especificamente nas situações comuns de interação social, a enunciação dos fatos, as idéias, opiniões, acontecem sem a preocupação de como expressá-las e são essas partes do discurso, ou seja, essas situações naturais de fala que constituem o material básico dessa pesquisa sociolingüística.