quarta-feira, 23 de abril de 2008

SONO INVADIDO

INVASÃO

Nesse momento, enquanto vejo no rosto
As marcas da noite anterior,
No espelho sua imagem toma meu espelho
Como se me dissesse: Eis me aqui novamente.

Não, não é verdade...
Você continua a me seguir
Essa noite não me deixou dormir
Invadiu meus pensamentos
Fazendo-me um zumbi...

Dê-me uma razão para estar assim
Ou melhor, me diga qual mal lhe fiz
Porque quero nesse momento apenas ser feliz.

Se lhe falei algo
É porque simplesmente lhe quis
Em meus abraços para beijar...

Mesmo que pareça infantil
Não há razão para seguir
Meus pensamentos
Me deixando assim...

23 de abril de 2008, 09h11
Robério Pereira Barreto

ERROS

FOI ASSIM...


A cada manhã procurando meus erros
Escritos nas linhas amassadas do lençol
Depois de uma noite sem dormir,
Olhando a estrelas e a lua sobre mim.
Foi assim... aqui estou...

No rosto estão as marcas da espera
Todo olhar voltado à porta.
Insone a noite inteira espreitando-te
Não veio, só judiou de mim.

O corpo chamou por ti
E em silêncio latejante,
No mais alto dos gritos infames
Calou o tambor do peito...

Padecendo de carinho toda a noite
Mantive meus pensamentos em ti
Tirando do tecido a maciez
Que queria tira da sua pele.
Não veio, só judiou de mim.

Derrotado, fiz do lençol Confessor
Que na balburdia do meu delírio;
Ouviu-me sonolento fazer promessas
De que se um dia nos encontrarmos
Não haverá razão que me segure
Amar-te-ei sem reservas seja
Onde estivermos...
Foi assim... aqui estou...
Não veio, só judiou de mim.

23 de abril de 2008, 00h44
Robério Pereira Barreto

terça-feira, 22 de abril de 2008

MALINO OLHAR

FULMINANTE OLHAR

Ao seu lado sinto medo
Porque desejo seu beijo
Em demasiada alegria.

O coração em arritmia
Se derrete ante este olhar
Ingênuo e fulminante...

Em volúpias mil
Sinto-me infantil a cobiçar
Um afago nesse regaço...

Em transe engulo ar ardil
E sigo vagante na aspiração
De tê-la ao menos num instante
Nem que para isso fique febril.

22 de abril de 2008, 16h43.
Robério Pereira Barreto

BELEZAD DE...

SINTO APENAS...

Neste imenso lugar
Sinto a falta de ti
Com esse matreiro olhar
Esgarçando-me em desejos...

E, por detrás da cortina branca
A cair do céu cobrindo-lhes
Ombros e cândida face,
Sobressai uma beleza deslumbrante.

Com formosura vibrante
A desabrochar naturalmente,
Amanhã se esforça na sua lindeza
Para alinhar-se a ti.

Tristeza e felicidade me fazem
Acordar olhando para o céu,
Esperando a caída do véu
Que cobre sua face e lábios de mel.

22 de abril de 2008, 13h
Robério Pereira Barreto

domingo, 20 de abril de 2008

AMOR NAS ALTURAS...

CAMA DE LUA.

Gosto de sentir os fios da lua
Roçando minha face como
Suas mãos suavemente nuas
Desciam em frenética maestria
Para encontrar abrigo em meu
Peito ofegantemente sem jeito.

Encabulado, porém gostando
De tamanha ousadia
Deixava a timidez ao vento,
Para tomá-la nos braços
E sob pingos de lua subtrair
Dessa beleza láctea o prazer
Num beijo demorado.

Depois de embebedado por ti
De forma sublime e crua
Desfaleço nos lençóis de cristais
Que cobrem a cama do universo
Na qual esse amor se perpetuará.


20 de abril de 2008, 22h45
Robério Pereira Barreto

COMPLEIÇÃO...

COMPLEIÇÃO
Posso ver e sentir
Seus braços aqui
Acariciando-me a tez
Em chama...

Depois de amá-la
Sonolento, fico sem voz,
Ouvindo sua aveludada
Fala acalentando esse exausto corpo.

Como recompensa
Entrego-me às suas mãos
Que enxuga o suor...

Em febre delirante
Convido-lhe a amar
Em paixão vibrante...

20 de abril de 2008, 19h27
Robério Pereira Barreto

SINA GUIA

SINA GUIA

Que a vida me guie
Ao encontro de algo
Ao qual certamente confie.

Nessa caminhada quero a luz
Que, como a paixão me leve
Me ceguei diante dessa beleza
Magistral de seu espírito flui.

Afogar-me-ei na secura da ilusão
De um pode ter a ti
Ofegante sobre o meu coração
Depois de amar-te de montão.

Lânguidos, olhos brilham
Como se fosse derreter
A escuridão...

20 de abril de 2008, 00h47
Robério Pereira Barreto

sábado, 19 de abril de 2008

Seria a Iracema do sertão?

BELA DO SERTÃO

Negros e belos olhos
Enfeitam-lhe a face cor de jambo
Emoldurada por essa boca
De lábios carnudos, macios
E doces tal caju colhido no pé.

Cabelos negríssimos
Cobrem-lhes delicado
E perfumoso pescoço
Por onde deslizo desfaço-me
Em maliciosas carícias...

Embriagado na simplicidade
De sua beleza coração pulsa
Porque a desejo...

Em desatino peço
Mais que carinho, Você!

19 de abril de 2008, 23h52min.

LIED

NARCÍSEA

Envolta na teia cristalina da lua
Caminhas pela noite iluminada,
Levando na bagagem mente
As saudades da gente.

Na aresta da avenida infinita
Há figuras desenhadas a pincel
Na tela da escuridão vibrante.

Coberta pelo globo de néon
Mimetiza-se na escultura fria
De luzes a confundir os passantes
A fitarem lhe de olhos vibrantes.

Perdida na vasta beleza de si
Como Narciso, passeia a esmo
Admirando-se no devir.

20 de abril de 2008. 22h32min
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 17 de abril de 2008

OBTUSA LUCIDEZ

Nos fios de lua
A mente vaga na rua.

A procura de si
Perambula na imensidão,
Carente isola-se na claridade
Que a faz demente.

Ofuscada pela lucidez da vida,
Entregar-se a leviandade
E Renegar a verdade:
Ora, chegou-se ao fim.

17 de abril de 2008, 08h08
Robério Pereira Barreto

quarta-feira, 16 de abril de 2008

BANQUETE

Em noite de amor em babylon
Corpos desfiam em suas peles
Carinhos que provocam arrepios
Como se fossem nylon.

Em movimentos frêmitos,
Bocas e braços entrelaçam-se
Em energia contagiante.

Absortos no prazer do encontro
Recolhem-se aos desejos,
De outrora escondidos na inocência.

Livres, a ingenuidade perde-se
Em meio aos sabores do banquete
Oferecido pela noite em que
O prazer suplanta saudade e dor.

Robério Pereira Barreto

POEMA NO VALE

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POEMA NO JORNAL

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domingo, 13 de abril de 2008

MÍDIA DE MASSA: O CORO DA TRAGÉDIA MODERNA

Neste ensaio, discute-se brevemente o poder da mídia de massa em fabricar consenso, adiantar-se a seu modo aos episódios, criando juízos de valores diante de acontecimentos cotidianos das metrópoles, crimes. Isto é, refere-se nas linhas a seguir a cobertura que a mídia, sobretudo, a imprensa televisiva de massa tem dado ao "Caso Isabella" – criança que morreu após ser encontrada no jardim do prédio onde morava com o pai e madrasta - ocorrido recentemente em São Paulo.
Sabe-se, portanto, que o papel da mídia na sociedade contemporânea é informar, pois estamos numa democracia cujo princípio é fazer com que o público, por meio dos meios de comunicação tenha acesso aos acontecimentos de maneira livre e imparcial. Entretanto, o que se viu nestes últimos dias nos telejornais foi um verdadeiro coro trágico, isto é, fez-se do ocorrido uma comoção nacional, (quantas Isabellas não morrem diariamente de fome, doença, miséria,etc., inclusive quantas não se foram recetemente de dengue no Rio de Janeiro) devido às interpretações e entrevistas controvertidas, ou seja, cada agente de fala ao se posicionar de seu lugar de discurso (polícia, promotor, advogados de defesa) contradiziam-se e neste labirinto de discursos a mídia de “grande consumo” acabou fabricando um consenso para o telespectador; a criança foi assassinada... a partir da fala da autoridade - promotor de justiça - tudo já está esclarecido, porém este discurso é desfeito pela fala da policia técnica quando afirma que ainda falta concluir os exames e laudos.
Destarte, estas contradições discursivas levaram a mídia de massa à exaltação de tal modo que, num processo catártico as pessoas nas ruas reproduzem a opinião dos apresentadores de telejornais como se estes fossem autoridades, levando ao acontecido tom de tragédia. Para Charaudeau, desse tipo de fato resulta que, “por efeito de retorno, as mídias são levadas a tomar posição sobre o que deve ser a informação, sobre a maneira de tratá-la” (CHARAUDEAU, 2006, P. 13).
Para Aristóteles em sua Poética, a tragédia se caracteriza por ser:
“... imitação de uma ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes (do drama), (imitação que se efetua) não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções.” (ARISTÓTELES, 1973:447).
Desse modo, há no discurso da mídia a promoção intencional da catarse aristotélica, a qual consiste na purificação, na moderação, na sublimação dos dois sentimentos mais característicos da tragédia: a compaixão e o terror. Sendo que, estes elementos são introduzidos no inconsciente coletivo pelos apresentadores de jornais de “grande consumo” de tal maneira que, mesmo sendo, ou não culpados pelo ocorrido, os “pais” já foram julgados e condenados pelo tribunal popular.
Evidencia-se assim o que Foucault considerou em seu livro Ordem do discurso (1971) de possibilidades de se atingir “o núcleo interior e oculto” do receptor por meio de um discurso, no qual existem probabilidades para que, neste lugar de fala se posicione o manipulador ante as deficiências do manipulado, espectador.
Este tipo de mídia conforme Charaudeau (2006, p.18) há o intento “em declarar sua intenção, a qual é somente através da vítimação e do engodo que se pode concluir que existe uma manipulação”. Isto mostra o quanto à imprensa de massa tem poder sobre aqueles cuja ignorância é marca de sua identidade, uma que vez o papel da imprensa é transmitir e informar um saber a quem supostamente não o possui e não aproveitar desse expediente para promover a catarse, levando a uma espécie de prazer trágico por meio da massificação das controvérsias das falas, as quais são produzidas por sujeitos que se posicionam apenas de seu lugar de fala, jornalistas interessados em vender notícias.
Para Charaudeau isto acontece por que a informação ganha status de produto de consumo e que ofertar primeiro no mercado da comunicação, o torno
“... mais forte quanto maior é o grau de ignorância, por parte do alvo, a respeito do saber que lhe é transmitido. Assim sendo, a informação midiática está diante de uma contradição: se escolhe dirigir-se a um alvo constituído pelo maior número de receptores possível, deve basear-se no que se chama de “hipótese fraca” sobre o grau de saber desse alvo e, logo, considerar que ele é pouco esclarecido. (Idem).
Para atingir esse nível, os agentes de comunicação usam linguagem afetiva, visando um retorno, porque elas não transmitem o que ocorre na realidade, são suposições, porém, se o fizessem não asseguraria a atenção dos espectadores. Assim sendo, pode-se afiançar que o “Caso Isabella” se tornou mais um espetáculo na mídia de grande consumo, colocando em xeque a capacidade das instituições do estado em se posicionar em tempo real do que reportar de um acontecimento estarrecedor.
Referências
FOUCAULT, M. Ordem do discurso. São Paulo: Graal, 2000.
CHAREAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2006.

sábado, 12 de abril de 2008

MACABEA: HEROÍNA TRÁGICA NA METRÓPOLE

Este ensaio traz à discussão a posição do sujeito desterritorializado, isto é, apresenta-se a trajetória da heroína trágica, Macabea. A narrativa A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector é edificada sob o olhar do narrador Rodrigo S.M. que aos poucos demonstra como o sujeito clareceano, Macabea é justaposta aos símbolos socioculturais de um meio social estranho ao de sua origem, cujo drama se inicia e é corroborado pela falta de sentimento de pertença, ou seja, a protagonista vive as mazelas e vicissitudes da nova realidade sociocultural, Rio de Janeiro, e não podia ter nenhuma referência para si. Devido a isso, ela passa por grandes dificuldades em virtude da falta de intelecto e personalidade suficientemente fortes para lidar com os novos desafios que lhes foram impostos pela nova realidade. Restando-lhes duas saídas: i) negar sua origem e construir imaginariamente uma nova identidade; ii) atribuir suas incompetências e desgraças ao destino, passando destarte, a ser uma nova vítima da tragédia. Com isso Rodrigo S.M a posiciona tragicamente, elevando-a ao panteão das vítimas da modernidade, imigração constante das massas e sujeitos. O que se tem a partir daí é o drama interior do personagem em meio à busca e à fuga de sua verdade.
Para Aristóteles em sua Poética, a tragédia se caracteriza por ser:
... imitação de uma ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes (do drama), (imitação que se efetua) não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções. (ARISTÓTELES, 1973:447).
Conforme Estudiosos da obra de Lispector afiançam, A hora da estrela, de Clarice Lispector tem como base as influências da tradição do teatro grego no romance moderno. Isto, sem dúvida é possível de vislumbrar em alguns pontos de contato com o texto trágico, não só no que concerne à transposição de recursos dramáticos para o gênero narrativo, como também no que diz respeito à proximidade de temas entre o texto clariceano e a obra Édipo Rei, de Sófocles, já que os dois textos tratam do desvelar de si mesmo e do próprio destino.
A realidade manifestada em A hora da estrela é dotada de extremo subjetivismo, não sendo uma essência, mas sim uma estrutura plurissignificativa que depende de uma determinada ótica para se manifestar sob uma forma distinta. Assim, na narrativa clariceana é comum o multiperspectivismo, isto é, coexistem o olhar do narrador e o olhar dos personagens, no qual só se pode falar em realidades plurais, uma vez que a protagonista se torna “fantoche”, sendo manipulada pelos fatos sócio-psicológicos que acerca.
Para Aristóteles neste tipo de discurso está presente a epifania, ou seja, é o medo de si dos demais, aqui representado nas ações de Macabea em seu quarto ouvindo o radio-relógio. Isto a leva ao prazer trágico, o qual evocar a catarse, provocando alívio de emoções, através da purgação. A catarse aristotélica, de acordo com o Antônio Freire (1985), consiste na purificação, na moderação, na sublimação dos dois sentimentos mais característicos da tragédia: a compaixão e o terror. Portanto, a protagonista é uma mulher comum, para quem ninguém olharia, ou melhor, a quem qualquer um desprezaria: corpo franzino, doente, feia, maus hábitos de higiene. Além disso, era alvo fácil da propaganda e da indústria cultural (para exemplificar, seu desejo maior era ser igual à Marilyn Monroe, símbolo sexual da época). Nossa personagem não sabe quem é, o que a torna incapaz de impor-se frente a qualquer um.
Dessa forma, Macabea caracteriza-se como sujeito trágico, pois ao longo da narrativa, ela segue de maneira linear seu próprio esvaziamento enquanto sujeito, perdendo inclusive sua autonomia, devido à obediência aos ditames do destino. Se na tradição trágica se diz que o personagem sucumbe devido a um erro cometido por ignorância. Infere-se com isso que Macabea ao nascer cometera seu primeiro erro, passando a ter sua vida definida pelo poder metafísico.
Eu também acho esquisito, mas minha mãe botou ele por promessa a Nossa Senhora da Boa Morte se eu não vingasse, até um ano de idade eu não era chamada porque não tinha nome, eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome que ninguém tem mas parece que deu certo. (LISPECTOR, 1998:43).
O trágico não reside na noção do aniquilamento, mas na idéia de que a própria salvação torna-se o aniquilamento. Não é na degradação da heroína que se cumpre a tragicidade, mas no fato de ela sucumbir no caminho que tomou justamente para fugir da ruína. Deste modo, ao tentar escapar de seu destino, fugindo da casa da tia, Macabea encontra em figuras desconhecidas uma possibilidade se compreende enquanto sujeito. Triste, nossa personagem busca consolo numa cartomante, que prevê que ela seria finalmente feliz: “a felicidade viria do "estrangeiro".
Segundo Nietzsche (s/d), em A origem da tragédia, existem dois elementos essenciais na fundação da tragédia: o espírito apolíneo e o instinto dionisíaco. Nascido como conflito, o encontro destes dois estados, através de um milagre metafísico, harmonicamente, dá origem à tragédia àtica. Preso a um destino, o heroína trágica precisa cumprir seu percurso de desnudamento da aparência, o que ocorre através da extinção da individuação apolínea pelo êxtase dionisíaco. Reintegrado ao coletivo, Macabea receberá a gratidão da comunidade, pela qual doou seu sacrifício. Para haver tragédia é necessário o conflito, que irá se instaurar na medida em que os personagens buscam sua autonomia, desafiando os deuses e as leis da polis.
Em A hora da estrela, os acontecimentos – assumidos como história inventada e mediada pelo narrador – se materializam no decorrer da própria escrita: “Pergunto-me se eu deveria caminhar à frente do tempo e esboçar logo um final. Acontece, porém que eu mesmo ainda não sei bem como esse isto terminará”. Aqui, o narrador prefere se concentrar no interior da personagem Macabéa, pois é a partir dele que as reflexões e os conflitos se estabelecem. A heroína de Clarice é apenas mais um dos rostos sofridos dos que imigram para os grandes centros urbanos.
O pathos de Macabéa se relaciona com valores interiores; seu destino em nada influi na vida da cidade: “Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás dos balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam”. Macabéa é a anti-heroína, cuja história tem o valor questionado pelo próprio narrador.
Macabéa também não tem noção de si mesma: “Se tivesse a tolice de se perguntar ‘quem sou eu?' cairia estatelada e em cheio no chão. É que ‘quem sou eu?' provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.” Macabéa não se questiona; sua ignorância é total. Também não busca nenhuma verdade, não tem esperança no amanhã e no seu destino. O desvendar de sua verdade, que acontece por acaso na fatalidade de seu atropelamento, só lhe é possível na iminência da morte: “Hoje, pensou ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci.” É preciso ainda mencionar que Macabéa também encontra no final trágico sua forma de redenção – finalmente ela “é”, como personagem central de sua própria história, tornando-se a estrela de sua própria morte.
Para Derrida citado por Hutcheon “o sujeito é absolutamente indispensável. Eu não destruo o sujeito; eu o situo” (Hutcheon, 1991, p. 204). Dessa forma, podemos situar Macabea, conforme ensinamento do pós-modernismo é reconhecer e situá-la nas diferenças das ideologias e subjetividades do sistema, o qual a envolve e absorve nas teias dos sistemas culturais pelos quais ela passou.
Por fim, Macabea, esse sujeito feminino produto da espetacularização da fêmea desprovida de corpo e mente é consumida pela sua própria insignificância diante da grandiosidade do sistema. Mesmo na modernidade o, sujeito, às vezes, nem sempre suporta toda essa superposição de choques, essa impessoalização das relações e a falta de espiritualidade. Tampouco Macabéa o suportou, sobretudo ela que “era à-toa na cidade inconquistável”. O Rio de Janeiro era a cidade incompreensível, inatingível e impossível para Macabéa, na qual não consegui se situar na linguagem simbólica e cifrada da metrópole carioca, a qual acabou a “engolida”; Macabéa não conseguiu se adaptar ao Rio de Janeiro, a cidade toda feita contra ela a levou a uma espécie de afasia. Na chegada quase muda, foi emudecida completamente, pois se tratava de uma lugar, para ela, surda e cega. (FREITAG, 1998).
Referências
ARISTÓTELES. Poética. In: Os pensadores . Vol IV. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
BORELLI, Olga. Clarice Lispector – Esboço para um possível retrato. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
CANDIDO, Antonio. No Raiar de Clarice Lispector. In Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970.
ÉSQUILO. In: SZONDI, Peter. Ensaio sobre o trágico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.
FREITAG, Barbara. O Mito da Megalópole na Literatura Brasileira. Revista do Tempo Brasileiro, nº 132, Rio de Janeiro: 1998.
FREIRE, Antônio. O teatro grego . Braga: Pub. Da Faculdade de Filosofia, 1985.
HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imafo, 1991.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela . Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
NIETZSCHE, Frederich. A origem da tragédia . /s.l./: Guimarães Ed., /s.d. b/.
NUNES, Benedito. O Drama da Linguagem – Uma Leitura de Clarice Lispector. 2. ed., São Paulo: Editora Ática, 1995.
SÓFOCLES. Édipo-Rei . São Paulo: Abril Cultiral, 1980.
SÁ, Olga de. A Escritura de Clarice Lispector. Petrópolis: Vozes, 1993.
WALDMAN, Berta. Clarice Lispector: a paixão segundo C.L. São Paulo: Escuta, 1992.

terça-feira, 8 de abril de 2008

ASPECTOS ESTÉTICOS NA LITERATURA E CULTURA DA DIÁSPORA DO CICLO FEIJÃO

ORALIDADE E SUPERAÇÃO NA POÉTICA DA DIÁSPORA DO “FEIJÃO”
Robério Pereira Barreto©
Este texto é a primeira (em formato de resumo) da parte do projeto homônimo desenvolvido por mim, no Departamento de Ciências Humanas e Tecnologias, da Uneb – Universidade do Estado da Bahia, Câmpus XVI, Irecê- BA, desde o segundo semestre de 2007, o qual foi aceito como comunicação no Congresso Internacional da ABECAN – Associação Brasileira de Estudos Canadenses, UFBA, Salvador-BA, de 11 a 14 de novembro de 2007. Objetivamos inicialmente compreender os aspectos estéticos provenientes da diáspora interna – ciclo do feijão – ocorrida na região de Irecê -BA, a partir da década de 70, momento em que o território ireceense recebeu significativa massa de migrantes dos estados nordestinos, Pernambuco e Paraíba, modificando ao longo do ciclo do feijão as características locais de tal maneira que, hoje, não se tem claro quais de fato são a identidade do povo e cultura locais.
Neste espaço, ocorreram simbioses importantes, isto é, as gerações que se seguiram à “diáspora do ciclo do feijão” construíram na diversidade suas relações socioculturais baziladas na tolerância e na superação, uma vez que a maioria dos descendentes enfrentou problemas relativos à sua aceitação individual e, sobretudo, cultural. Dizendo de outro modo, os primeiros migrantes foram levados a espaços de produção, ou seja, tiveram oportunidade de trabalhar a terra, e com isso realizarem seus sonhos: plantar e colher o alimento para o sustento de sua família. Já no que se referem ao uso de tecnologias ficaram bem além, pois não detinham saberes escolásticos suficientes para dominarem as tecnologias que iam surgindo ao longo do ciclo do feijão. É sabido ainda que uma parcela desses migrantes, não tendo acesso a terra para plantar feijão, dedicou-se ao comércio. Isso faz com que a cidade se tornasse o centro informal de comércio, onde se compra e vendia, na maioria das vezes, usando apenas o empenho da palavra e a garantia era o “fio do bigode”.
Estes fatos demonstram que a região é de cultura oral e, portanto, os espaços para o letramento só se tornaram possível a partir da segunda geração dos migrantes, a qual foi incentivada migrar para a cidade em busca de escolarização. Isto, conforme Jackson Rubem seu livro: Irecê, a saga dos migrantes (2004), possibilitou a construção de uma nova caracterização do cidadão irecense, pois muitos dos jovens, filhos dos paraibanos e pernambucanos que vieram para o cultivo do feijão, tendo ou não adquiridos patrimônio, fizeram com que seus filhos fizessem o caminho de volta em busca de estudos, especialmente com destino à Paraíba. Ainda de acordo com a obra citada, atualmente a maior parte dos profissionais formados, foi graduada nas universidades paraibanas. Por outro lado, os filhos dos nativos preferiam mandar seus filhos à capital da Bahia e, às vezes, ao Rio de Janeiro. Com isso, evidencia-se que, locais e migrantes promoveram de certa consciente ou inconscientemente a cultura híbrida que temos hoje; uma cidade que ainda não se definiu literária, artística e culturalmente, porque há em todos os recantos elementos culturais justapostos, fazendo com que não seja possível se compreender qual é afinal a identidade cultura da cidade, embora hajam manifestações isoladas, como por exemplo, a festa junina na qual predomina o forró, a vaquejada, etc. No plano literário sobressaem produções escritas, sejam elas poéticas ou não, fruto do trabalho de autores filhos da diáspora. De acordo com antologia publicada pela Academia Ireceense de Letras e Artes – AILA, fazem parte desse processo, os irmãos João e Pedro Correia – PB; Irajá Claudino de Souza[1]- PB; José Galdino de Souza – PB; José Otávio de Moura – PE. A partir da criação da agremiação literária e da editora Printfox, por Jackson Rubem surgiram escritores locais, como o próprio Rubem, Moacir Eduão Farias, Núbia Paiva e outros que, embora não tivessem nascidos em Irecê veio de cidades vizinhas para estudar e, assim, contribuir com a ainda incipiente produção literária local.
© Professor de Lingüística e Literatura da UNEB – Câmpus – XVI – Irecê – BA, poeta e escritor.
[1] Presidente da Academia Ireceense de Letras e escritor que prima pela poesia popular dando as suas palavras ritmos e cadência próprias da literatura de cordel.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

CATÁLISE POÉTICA NOS ESCRITOS DE REJANE TACH

Este pequeno ensaio chega com o objetivo de mostrar algumas das características da poetiza Rejane Tach que, como a maioria dos habitantes do Centro-Oeste, sobretudo de Mato Grosso são fruto de um processo diásporico interno que culminou em vários tipos de expressões socioculturais. Dentre estas destacam-se a literatura matogrossense na qual há vários estilos desde o clássico contemporâneo Manoel de Barros, passando pela pós-modernidade de Lucinda Persona até chegar ao estilo neo-romantismo, próprio da poesia de Rejane Tach. Em Mato Grosso, na verdade, existe uma produção artística que expressa os sentimentos de artistas que ao longo desse tres décadas em que se deu a separa e emancipação política administrativa do MAto Grosso do Sul, tem revelado a identidade de seu povo miscigenado, embora mantenha sua arte articulada com os elementos regionais.

Dessa maneira, é muito importante destacar a estilo rejaneano de fazer poesia falando das angústias que lhe toma a alma diante desse sistema brutal, o individualismo promovido pelas idéias de "modernidade tardia". Para isso, seguem algumas singelas linhas para demonstrar ao público com poetiza e poesia se imbricam num só ser ante as dúvidas da vida.

As ponderações que se seguem nas linhas abaixo são ínfimas, diante da grandiosidade que têm os versos confessionais de Rejane Tach. Diferentemente do seu livro anterior: Sanas loucuras, (2007) onde estão registrados sentimentos intimistas, estes, por sua vez parecem ter sido urdidos nas entranhas de um eu-lírico demasiado ambivalente, cujo desejo central parece ser a expurgação de todos os sentimentos que a alma humana guardou nos recônditos mais secretos e, agora, eles se rebelaram e vieram à tona, colocando o leitor para refletir diante de questões subjetivas, conforme sugerem os versos: A correr pelo silêncio/Sem contorno algum/Anda minha alma e/Decompõe-se num sopro Sutil...
Faz-se imperativo questionar: o que significa para o eu-lírico rejaneano a correria desta alma pelo silêncio? O que é este silêncio? Enfim, por ser uma poetiza de estilo ambivalente, sem dúvida, não existem respostas pré-configuradas. Ao contrário, à medida que se adentrar ao universo poético tacheano, novos inquéritos surgem ao invés de réplicas.
Em realidade, sua produção tem algo além do enigmático que, por natureza só a poesia oferece aos espíritos sensíveis às contradições da humanidade; encontram-se na maioria dos versos uma espécie de vazio, ou na melhor das hipóteses, uma continuidade do discurso do silêncio, todavia, esta alocução parece ser agressiva, logo é censurada pelo eu-lírico da poetiza. Comprava-se tal assertiva à medida que se nota a presença contínua e até exagerada das reticências em todos os poemas. Teria o eu-poético algo a confessar? Só lendo cada um dos poemas com a merecida atenção para se chegar a um veredito. Ai está o convite leitor para descobrir o “mistério” das reticências rejaneanas!
No poema a transcrito na íntegra a seguir, Rejane entrecorta os discursos de uma forma tal que ficam suspensas no ar múltiplas possibilidades de leitura, exigindo, portanto, para sua poesia um leitor modelo, conforma idealizou Umberto Eco. Mas, então como inferir os sentidos desses vazios?
Minha alma...fala comigo!
O que vai dizer-me?
Vai mentir-me?
Pra eu sobreviver como sempre foi?
Pateticamente transparente...
Sob um interminável apetite de...
Obscenas branduras...
Naturalmente, é possível que algum leitor imprudente venha sugerir uma exegese inapropriada e, assim, desvendar os misteriosos vazios dessa poesia cuja ambivalência promove uma assimetria na decodificação dos sentidos.
Sabemos que, na verdade, a poesia de Rejane é fruto de uma profunda catálise de signos, em que vários eu-liricos se manifestam por meio de uma linguagem alquimística. Nota-se que de acordo com movimento da linguagem empregada em cada poema, a poetiza expõe seus “arquétipos inconscientes”. Não seria forçoso sugerir que nos poemas da autora há uma intenção de obter por meio da expressão poética o resgate da personalidade, para isso é necessário tomar decisões complexas, cujo resultado é segundo se ver nas estrofes abaixo, uma ritual de passagem, ou melhor, o eu-lírico está diante de uma dicotomia universal: morte e vida.
Abraça a morte se quiser...
Sem receio de um dia
Aqui não caminhar...

Liberta-te!
Em teus anseios de sono
Para além
De algum lugar
Inimaginável em tua luz !
Assim, se ver na produção em destaque neste ensaio uma possível configuração poética em que se justapõem significantes e significados e, por isso, a metaforização da linguagem é acompanhada por profunda ambigüidade do eu rejaneano.

Robério Pereira Barreto

[1] Professor de Linguagem Literatura da Universidade do Estado da Bahia – UNEB – Câmpus XVI – Irecê – BA.

EXPLICAÇÕES AO BLOGGER-LEITOR

Prezados Senhores,

Antes, porém, agradeço-lhes a benevolência e a disposição em acessar este espaço de escrita e reflexão sobre as linguagens cotidianas. Ademais, gostaria de lhes informar que estou republicando poemas já veiculado em um jornal matogrossense "O jornal do Vale" para que você, blogger-leitor possa ter acesso a estes trabalhos ainda não publicado nestes espaço. Aproveitem!

POEMA DE JORNAL 2

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POESIA EM O JORNAL DO VALE

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