sábado, 21 de julho de 2007

ÓSCULO DO DILÚVIO

No limbo de dor
Meu imo espera
Por um sumo de alegria,
Clamando pelo roçar
De corpos entre Beijos ardentes.

Nesse íntimo amor,
Minha alma pulula
Fazendo-me sentir
Escorrer nos lábios
A úmida língua
Carregada de fervor.

Sangue em brasa
Corpo febril
Lateja em mim
Vontade sem fim,
Pulsando no peito senil
A força e raça
De ser juvenil.

Tal ebulição me aquece
Porém, ao passar do dia
Como fogueira sem lenha
A chama arrefece
Faz-me apenas uma porção
De cinza que o vento
Violentamente arremessa
Contra ao nada da vida,
Desilusão!

30 de maio de 2007.

NOITE

A noite cai...
com ela chegam a mim
os fantasmas não exorcizados
no correr do dia;
as saudades dela.
Aos meus ouvidos encostam eles
a me dizer que sou alienígenas
dentro de mim mesmo.
Na penuria da solidão,
na alcova fria tento dormir
ao ritmo da calmaria
vinda da imagem
de nossos corpos em ebulição;
em alta voltagem
milhões de eletróns
encendeiam nossa pele...
Na espinha descargas elétricas
nos movem em alucinantes
movimentos de prazer...
21/07/2007, às 22 h 46 min

SUMO DA ALMA


Lágrimas são sumo da alma
dilacerada e partida
despétala sem pudor.

O coração chora...
as angústia e saudades
da paixão lançam-se
em profundo torpor
queimando a chance
do encontro renovador.
Sem destino o espirito
caminha clandestino
juntado os pedaços
amor que para traz ficou.
Então lágrimas,
molhem minha face
para que eu não
a esquece entre
ansiedade de querer-te
e cacos que ainda resiste...
21, julho de 2007, às 18h

MÍDIA DE MASSA: HOMOGENEIZAÇÃO DA DOR



Os meios de comunicação de massa informa e também homogeneíza opiniões. Por isso, sua função vai além do social e, às vezes, os profissionais que nela atuam ultrapassam o bom senso, criando assim ideologias e, por conseguinte, mantém vivos preconceitos. Este ensaio apresenta ponderações as manifestações da mídia televisiva durante a cobertura do acidente com airbus 3054 da TAM, no aeroporto de Conhgonhas – São Paulo – SP.
A mídia[1] tem alto poder de sedução na comunidade. Principalmente a televisiva, a qual transmite acontecimentos ao vivo e em cores para o mundo inteiro em questão de segundos. Até ai não demais se a entendermos como tecnologia digital transmitida por satélite. Entretanto, se se quer vê-la como mecanismo de informação e entretenimento, às vezes, em busca do “furo” de reportagem os profissionais que atuam neste meio de comunicação ferem o limite da ética e do bom senso, quando intensificam a reprise até exaustão de acontecimentos, principalmente aqueles de caráter trágico como ocorrido recentemente com Airbus 3054 da TAM, no aeroporto de Conhgonhas – São Paulo – SP, em, 17 julho de 2007.
Muitos estudos têm sido vazados em linguagem acadêmica sobre a presença e reflexos da mídia nas sociedades modernas. Neste não há tão grande pretensão, todavia visa apontar os excessos cometidos pela emissora de televisão que, sob o disfarce de informar; transformaram uma “desgraça” espetáculo. Por outro lado, nem se importaram com a dor dos parentes e famílias, construindo, inclusive hipóteses na tentativa manter a audiência de seus telejornais.
Com tanta influência para informar e formar opiniões os profissionais da mídia comercial ainda não se conscientizaram do limite entre a notícia e o sensacionalismo. Para tanto, deveria saber que o modo como comunicam os fatos é, na verdade, um construto de ideologia e preconceitos, de modo subliminar, ou até mesmo explicito.
O que as emissoras de televisão a semana inteira fizeram foi um massacre total à memória dos acidentados e, principalmente, uma afronta aos familiares que em meio a dor eram levados a emitir opiniões sobre um assunto tão delicado; o gesto do assessor da presidência, Marco Aurélio de Melo ao ver uma suposta informação de que a causa da “desgraça” não se aplicava ao Governo. Dessa maneira, ficam evidentes os objetivos da televisão comercial, sobretudo, da Globo, construir hipótese e massificá-la à exaustão sem levar em conta o sofrimento de ninguém. Tal massificação faz com que milhares de pessoas sejam responsáveis pelo acontecido, uma vez que cada uma elegeu os “gestores” que comandam, ou melhor, não comandam... daí ocorrem fatalidades dessas proporções para que se façam presentes, o que é pior, nem isso fizeram. Êita país desajustado! Vamos acabar com isso e começar tudo de novo!
[1] Emprega-se aqui tal termo, compreendendo-o como estrangeirismo naturalizado, isto é, o uso impôs à regra. Entretanto, sabe-se que, segundo Domicio Proença Filho tal vocábulo aportuguesou-se mantendo a pronuncia do termo em inglês: media, a que corresponde o mesmo significado: “media, aplicado à comunica de massa”. Essa media inglesa corresponde ao termo latino media, forma do neutro plural de médium, que queria exatamente dizer ‘meio’.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

CAUSOS DA GENTE DO POVO


Numa tentativa de resgatar o pensamento e a cultura de uma comunidade que tem na sua história registro de lutas homéricas contra os ditames da natureza, os documentaristas Jussivan Ribeiro Gama e Jair Alves Silva apresentam à sociedade um recorte da historia do povo de São Gabriel através da narração fílmica Retratos de São Gabriel: quando um povo conta sua história, cujo gênero documentário se confunde com a peleja do sertanejo com as dificuldades de se manter dignamente em meio a tantas adversidades.
Os documentaristas buscam através de discursos diretos, extraídos por meio de entrevistas feitas às “pessoas do povo” imprimir verdade e, às vezes, a verossimilhança toma conta do texto, uma vez que a verdade que se apresenta no filme é subjetivamente construída na memória da cada entrevistado.
Nesse trabalho os autores dão espaços aos registros de manifestações populares, bem como da religiosidade, marca explícita nas falas dos protagonistas do documentário. É interessante notar que a filmagem parece não seguir um roteiro fixo, visto que os participantes dirigem seus relatos à sua maneira e condições. Dizendo de outro modo, as ações são livres e, por isso, seus desvios estéticos e técnicos são visíveis, todavia colocados em segundo plano, por que a beleza e espontaneidade das conversas são depoimentos pessoais, igualando-se a qualquer outro documento histórico.
Por outro lado, este filme mostrar a necessidade de uma revisão no pensamento da comunidade sobre a história de vida dos mais velhos, sobretudo, no que se refere à busca pela alteridade dos valores culturais da comunidade que, segundo apresentam os artistas: “Retratos de São Gabriel busca contar momentos importantes da história da cidade de São Gabriel desde as origens dos avôs dos primeiros moradores até o inicio de uma nova fase em sua história quando foi emancipada.”
Além da pretensão, os autores dos documentos mostram-se com veia artística e técnica para este tipo de arte, mostrando em todas as ações e espetáculos das imagens que, de fato, retratam a paisagem e vida simples dos atores - reais. São evidentes ainda neste percurso, os “desvios” técnicos e estéticos conforme se mencionou acima. Nada demais quando se é advertido pelos cineastas de que tal produção se deu sob condições inóspitas – não serve de consolo, todavia é fato, o cinema documental do país tem vivido dias de miséria. Dizem até que melhorou bastante nestes últimos tempos, hein! (Diga-se passagem, para os cineastas profissionais do sudeste).
Neste texto fílmico, breve, mas instigante pela sua criatividade, (Gama e Silva, 2004) interrogam de maneira sintética, sobre: a origem e as condições às quais foram submetidos os primeiros moradores de São Gabriel; tudo que o foi dito pelos entrevistados é verdadeiro ou são causos e memórias de velhos? É evidente que boa parte dos fatos narrados é interpretação subjetiva das memórias coletivas acumuladas por cada um dos participantes.
Em Retratos de São Gabriel se formulam acontecimentos nos quais informações, idéias e opiniões dão-nos possibilidades de entender o grau de marginalização sofrido pelo “homem do povo”, até porque ele viveu em território subalterno, ou seja, as pessoas mais velhas participantes do comentário reiteravam suas posições de povo humilde. Contudo, suas esperanças nunca foram abaladas, pois tinha na fé, a esperança de melhorar de vida. O realismo das imagens deixa ver o nível de pobreza do sertanejo, e em várias cenas casas de chão batido e parede de barro batido são expostas. O cenário é rural, mesmo assim, é perceptível o estado de penúria e as condições das habitações mostradas no filme. Intencional ou não lá esta um estado declarado de miséria material. Dessa forma fica a pergunta: Será que desde o princípio foi assim? Em caso de positiva a resposta, temos ai um quadro de abando total do sertanejo por parte do Estado.
Com efeito, pode-se afirmar que os cineastas – autodidatas – apresentam em seu trabalho amador, paixão pela história da terra onde nasceram e vivem. No campo da semântica, é perceptível o convencionalismo do discurso, ou seja, os documentaristas usam texto e imagem de capa do DVD uma paráfrase do discurso institucional, colocando figuras e textos adaptados da estrutura textual do cinema oficial. Nada criativo, mas tecnicamente aceitável por ser é parte comercial, créditos e publicidade do trabalho.
Na capa do filme tem algo muito significativo para a análise do discurso; os cineastas usam discurso autorizado, que, sob o prisma da textualidade, pode ser visto com ironia, tamanha a influência dos textos oficiais: “O documentário que comoveu mais de 300 pessoas numa única exibição em público” vejam que chamada mais atrativa, além claro, da ambigüidade discursiva. Se você exibe algo é para o público, ou neste caso é diferente? Ambigüidades e desvios à parte se têm neste trabalho ousado e criativo um recorte significativo para a memória social e cultura da sociedade de São Gabriel.

À UMA GATA




Gata rima com prata
Que brilha tal farol,
Orientando a fragata
com intensa luz do arrebol.


A lagrima que lhe marca a face,
expressão da dor de saudade
E separação de amor
Sem maldade.

CLAUSURA


No meio da noite,
subitamente, sentiram-se sós
profundos eram os desertos
de suas almas e o fim estava perto.

Fissuras e vazios expostos
deixavam a alma em viva carne,
sangravam-lhes as veias,
escorriam os odores da vida.

A clausura lhes sucumbia o ser
Tamanha era a paixão
Que lhes impediam de ver
Quão triste era seu viver.

DILEMA


Acordo sob o mesmo dilema:
Por que estou aqui?
Por que não morri quando dormia?
Será porque amei!Amei! Amei...

Era feliz!?
Não saber me dói
Por que esse amor destrói?
Era amo que ai!

Maldade, amor de única via
Derrota e fim da alegria
Que por passou um dia.

Resisto e grito:
Viva a contradição
Estou vivo embora infeliz.

PELIGROSA AVENTURA


Las pasiones que el destino trae
es una gran y peligrosa aventura,
está apasionado es vivir
una mentira sin fin.

Apasionarse es:
vivir ilusión;
embriagarse con juras de amor;
sentirse en el dolor
descubrirse infeliz.

Abrir el corazón
para aceptar mentiras
y dejarse llevar por el soledad.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

TEXTO: MEMÓRIAS DISCURSIVAS

A civilização ocidental tem suas características asseguradas devido aos registros construídos; imagens e signos representacionais realizados pelos homens da caverna (Memórias discursiva, cultural e imagética). Tais procedimentos foram armazenados no inconsciente desses homens e transmitidos às novas gerações através de discursos - fala -, uma vez que, essa comunidade ainda não articulava significados para formação da palavra escrita, texto. Embora já fizesse usos da técnica escrita quando desenhava os animais abatidos durante a caça. Essa ação talvez fosse intencional, porque era uma forma de se colocar no papel de herói, dizendo aos demais que se baseassem na informação ali contida e a guardasse em suas memórias individual e coletiva, pois, o futuro e a sobrevivência da comunidade dependiam de tal habilidade; reconhecer os animais a serem capturado através das imagens desenhadas nas cavernas.

A palavra escrita ganha status e é usada com propósitos unilaterais (lembremo-nos do manuscrito de Em nome da rosa, de Umberto Eco), no qual o conhecimento é mantido sob a proteção da Igreja com objetivo de barganhar, pois este privilégio (dominar a leitura e a escrita, os textos bíblicos, doutrinários e artísticos) era reservado a poucos privilegiados, os quais, na maioria das vezes, recebiam da corte uma indicação, mantendo assim a dominação das informações estratégicas da corte. Ao homem comum, eram transmitidas idéias com força de lei.
Estes ensaios têm como destinatário, usuários da palavra falada e escrita que, na hora de comunicarem-se sentem algum tipo de dificuldade por não saber qual gênero textual deve empregar para a realização seu enunciado de maneira clara e legível. Não obstante, que a produção textual é o maior problema enfrentado por professores, alunos e aqueles que necessitam da palavra (oral e escrita) como instrumento de trabalho.

A diversidade de conceitos e práticas de escrita oscila entre os fundamentos da lingüística e as orientações de gramáticas. Assim sendo, oferece-se aos estudantes de linguagens, futuros produtores de textos e, consequentemente, professores de jovens escritores; informações didatizadas sobre os pressupostos e princípios de Semiótica (teoria do texto), visando uma ampla significação do texto enquanto objeto construído sob a perspectiva da interação. Para tanto, tomar-se-á a empréstimos os conceitos de gêneros do discurso de Bakhtin, bem como das premissas de leitura e sentido de Kleiman, bem como as assertivas anarquistas de Barthes sobre os sentidos históricos, culturais e sociais presente no texto, devido aos reflexos do fascismo da língua na vida do produtor do texto.

O livro [ensaios] está dividido em três grandes etapas. Na primeira, buscamos informar ao estudante sobre os conceitos de teorias de língua e linguagem; na segunda, serão estudados os gêneros textuais a partir de sua origem por meio de um resgate histórico e cultural, em seguida a sua aplicabilidade tanto na oralidade quanto na escrita através do estudo e da releitura dos textos de publicidades impressa e televisiva. Por fim, comentaremos os textos normalmente produzidos pelos estudantes, aplicando nesse processo, os conceitos e teorias a respeito dos gêneros em questão.
Diante dessa perspectiva, certamente irá surge uma pergunta crucial, portanto, antevejo para o leitor: Afinal, onde estará a questão da leitura nesse processo? Implícita! É a resposta. Explicamos então tal assertiva: Caro leitor! Se levarmos em consideração que o sujeito per si é um leitor desde o momento de sua concepção (junção do óvulo com o espermatozóide) exigindo desses organismos uma leitura das melhores condições do setting de fecundação para encontrar o melhor espaço no útero para o início da vida. Então está ai o motivo pelo qual somos os agentes de nossa própria memória. Sendo esta formada e ligada diretamente com as nossas realidades sócio-histórica e cultural, fazendo nos usuários e produtores contínuos de memórias - textos.
Os historiadores e psicológos sociais têm mostrado em suas teses a importância da memória para o entendimento da arte e da vida em sociedade por meio de resgate oral e escrito dos textos acumulados na sociedade empírica. De sorte que na clássica obra Memória e sociedade: lembranças de velhos, de Ecléa Bosi, a autora ressalta a importância do conhecimento e da cultura armazenada pelos idosos ao longo de suas experiências. Tais informações se encontram na memória de cada um, sendo que esses sujeitos da/na linguagem têm suas memórias em estado de inércia. Contudo, ao requisitá-las, estas estão prontas para se movimentarem e, assim contribuir para a compreensão do homem contemporâneo.

Assim sendo, a intenção presente nesse trabalho, é mostrar que ao produzir um texto o enunciador precisa saber quais serão os significados que podem extrair do saber acumulado tanto na comunidade onde atual quanto no meio social em que circulará a informação por ele prestada. Ademais, o sentido de texto aqui ganha maior espaço e passa a ser entendido parte significativa da memória histórica e cultural, configurando assim numa reescritura paráfrase do saber socialmente acumulado pelos indivíduos em suas comunidades. Portanto, produzir texto é uma atividade diária a qual requer do produtor técnica e esforço contínuo no sentido de estabelecer associação entre o que pretende informar e formar com suas mensagens e, consequentemente, possibilitar ao leitor as inferências possíveis do assunto a partir do resgate da memória histórica e cultural nele existente e que pode ser trazida à tona por meu dos significados dos discursos, constituindo assim uma nova memória discursiva.

Para Barthes (1987) é nesse momento que o professor de linguagem deve atuar como mediador das memórias discursivas presentes no ambiente escolar. Assim: “O professor não tem aqui outra atividade senão a de pesquisar e de falar - eu diria prazerosamente de sonhar alto a sua pesquisa - não de julgar, de escolher, ...”os caminhos para os seus alunos produzirem textos, ao contrário; juntos com seus aprendizes busca-se no inconsciente coletivo informações que lhes sejam úteis como exemplos e associações de pensamentos. Por isso a leitura diária faz-se questão fundamental no processo de formação da memória discursiva e cultural do cidadão. Parafraseando o famoso dito popular: você é o que come. Diria que sua memória discursiva e cultural é o que você ler. Isso porque à medida que se realiza a leitura a estrutura da língua (léxico, sintaxe, classe gramaticais, etc.) vai se fixando em sua mente, podendo ser solicitada mais tarde quando da escritura de uma mensagem.

"O PASSATEMPO DO TEMPO PASSADO"

Este ensaio tem como desígnio explicar a ordem do discurso “misto” – literário e historiográfico de Irecê a saga dos migrantes e historias de sucesso (2004), de Jackson Rubem, uma vez que, a obra é uma compilação de memórias orais, na qual se destacam as reminiscências dos migrantes, mais especificamente, paraibanos.
Por questão didática, adota-se a idéia de que a literatura e a história usam o mesmo subsídio para sua construção, isto é, ambas obtém seus instrumentos de combate a partir da verossimilhança. Portanto, “interpretar a experiência, com objetivo de orientar e elevar o homem” (Nye, 1966, p.123 apud Hutcheon 1991, p. 141) é a linha que orienta os relatos da obra em questão, pois o autor se debruça sobre os fatos e sublima “estórias” e famílias de migrantes paraibanos.
Numa tentativa de classificação, considerar-se, pois, que Irecê a saga dos migrantes é uma “metaficção historiográfica” a qual segundo Linda Hutcheon (1991) tem se apresentado numa espécie de romance, porque é através deste tipo de escritura que se imortaliza o passado que por alguma razão não foi considerado pela história oficial. Neste caso existe na obra em estudos um vínculo tênue entre história e narrativa literária. Entretanto, esta última esteticamente é bastante discutível no que se refere a sua qualidade artística. Por outro lado, quando vista sob o prisma do registro historiográfico, o livro analisado é de grande valia, uma vez que “toda história é uma história de alguma entidade que existiu durante um considerável período de tempo, e que o historiador quer afirmar o que é literalmente verdadeiro a seu respeito num sentido que faz distinção entre o historiador e um contador de estórias fictícias ou mentirosas. (M. White, 1963, p.4 apud Hutcheon 1991, p. 141).
Em sendo um contador de causos, Jackson Rubem certamente silenciou ou enalteceu discursos, os quais estão narrados na primeira parte do livro. Observa-se, pois, nesta parte da narrativa sua pretensão historiográfica, visto que o autor faz releituras de acontecimentos ocorridos na região, destacando os migrantes como protagonistas.
Pode-se ver a intenção do autor em relatar os feitos nada ortodoxos de uma família de migrantes, quando esta se dirigia à Irecê. Segundo o cronista, foi às margens do Rio São Francisco que (lembrem-se, pois, que mesmo no começo do século a ação à se citada a seguir, constitui-se contrária à legislação do país). Então, transcrevemo-la:
“Vicente tomou a dianteira e perguntou ao dono da fazenda, por quanto ele vendia um daqueles animais. Disse que estavam famintos, sofrendo bastante, mas o dono da fazenda não se importou com o sofrimento deles e disse que seus animais não estavam a (sic) venda. ‘Vicente, que era o mais brabo (sic) de todos, gritou: “traga o cravinote! De fome é que a gente não vai morrer.’”RUBEM, 2004, p.17).
Iguais esta passagem várias ilustram a obra. É interessante a tendência da interpretação dos relatos por parte do escriba, uma vez que ele parece submergir no ambiente da narrativa. Confira no excerto: “(...) Vicente caminhou alguns passos, aproximou-se de um boi gordo, apontou a arma para a cabeça e disparou, matando o animal na hora.” RUBEM, 2004, p.17).
Já segunda parte do livro, à qual o autor sugere no prefácio ser outro livro, é na verdade uma coluna social, pois, ali há mera exposição de figuras (dispensa-se qualquer juízo). Assim sendo, fica perceptível a acriticidade da obra.
Ver-se, portanto, o esforço do autor por meio de sua versão das estórias, transforma a multíplice significação da diáspora nordestina em fragmentos da história. Para tanto, fundamenta-se na subjetividade dos relatos orais que lhes foram contadas por aqueles que, de uma forma ou de outra sobreviveram e, com um golpe de sorte conseguiram se firmar.
Para Hutcheon (1991, p. 210-211) O poder subjetivo da narrativa oral é totalizante, levando à crença de que ao transformá-la em escrita, constitui-se história. Entretanto, é sabido que isto não se aplica à obra: Irecê a saga dos migrantes e historias de sucesso porque há vários hiatos no que se refere à estrutura da narrativa: ordem do discurso e metalinguagem. Por fim, esta metaficção historiográfica traz de maneira subliminar elementos da pós-modernidade, isto é, diante de uma crise de identidade, certos indivíduos ou grupos buscam o resgate e reificação de seu passado.
Bibliografias

HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-modernismo: história, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991.
RUBEM, Jackson. Irecê a saga dos migrantes: histórias de sucesso. Irecê [BA], Print Fox, 2004.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

MINHAS FANTASMAGORIAS

Leitores, o que lhes apresento a partir de agora é o que chamariam os filósofos espiritualistas e psicólogos freudianos e jungianos de meu ‘duplo eu’. Entretanto, o denomino de meu poeta fantasmal porque o que ele fala é de fato algo de outro mundo. O mundo da alma, que por sinal, a ciência moderna se encarregou de tirar de circulação faz tempo. Porém, meu fantasma lírico é um herói. Não daqueles gregos que enfrentava a fúria dos deuses..., mas sim herói da resistência, pois a cada manhã ensolarada ou sombria, tenta encontrar sinais de que estar vivo e amar valem à pena! Inclusive a pena que escreve o bilhetinho de amor, o poema, o cartão que acompanha ramalhete de flores predicando um encontro romântico no qual corpos se entregarão às fantasias da alma e aos prazeres da carne.
O lado bom do meu poeta fantasmagórico é que ele não tem estresse. Sabem por quê? Ele é pansensível e isso faz com que ele se movimente em todos os meios intelectual, acadêmico, popular e poético. Contudo, tem suas preferências, claro, pois como todo cidadão mesmo que seja um espectro, tem direito de mostrar suas vontades. Afinal, estamos numa democracia, ora essa! E sua predileção é o interior das pessoas onde tudo está. Daí, graças à pansensibilidade da suas falas, a qual atinge com flecha enevenada o lado mais endurecido e dormente do ser humano; o coração! Agitando-o e levando-o à embriaguez. Ébrio de prazer se desnude de vestimentas morais e sai em busca de felicidade...
Discurso sentimentalista? Afirmo: não o é! Porque é com ele e seus versos traquinos que aprendo diariamente coisas sobre a vida no mundo individualista e perverso no qual vivemos. - Eu, no mundo físico; ele no metafísico - Aquelas nem os anos de estudos formam capazes de me ensinar. Assim, tornei-me seu eterno aprendiz.
A propósito, as falas de meu fantasmagórico espectro são poesias suspensas no ar como se fossem partículas humanas se desprenderem de nós, deixando-nos, por acaso, abrir nossas couraças cotidianas.
Contrário a isso, e tentando ver outros lados da questão, é que creio na força da sua pansensibilidade, responsável por tentar fazer dessas fugas o encontro de mim com vários sujeitos. Não obstante as “almas sebosas” não admitirem que suas essências ou excrescências não se afasta de si, devido a seu grau de egoísmo, o qual, portanto, lhe faz tão infeliz que nem sente quão sua alma foi anestesiada, tornando-lhe incessível às coisas bela da vida; a paixão!
Diante dessa situação, às vezes, falo ao meu poeta imaginário: “talvez fosse melhor escrever sobre histórias, amenidades ou fatos reais” Mas, ele logo me repreende dizendo: “A história pode não ser a verdade em sua essência; amenidades são maquiagens que cobrem a realidade com seus tons aristocráticos em chá da tarde de uma minoria que nega a se próprio; racionalidade é a batuta da ciência e, portanto, com ela os maestros regem suas orquestras como se estivesse no “monte parnaso” podendo apenas ser vistos, já mais tocados! Então, meu caro Robério Pereira Barreto, não se apoquente com as minhas atitudes porque não lhe causarei grandes problemas, apenas você será tachado de “neolírico diletante.”

ARRELIA DE MORTE




No além sertão
há gente vivendo
à imagem e sem pão.

Moribundo, o sertanejo
sente correr gélido
nas veias o sangue
aguado sem sustança;
sente na espinha teimoso calafrio;
Fome talvez!?

Desejoso pastoreia o céu.
Lá, nuvens em forma...
não são de água
apenas vento soprando.

Tal arrelia o leva a pensar
na melodia da morte;
porque a natureza lhe arrelia:
Urrrrrrr, Urrrrrrr, Urrrrrrr
Sóis um homem sem sorte!

À noite na imensidão do norte
o roceiro de rosto disforme
tem o velho e magro cão
como único consorte.

18 de julho de 2007.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

MIRAGEM



Seu jeito de olhar:
sereno, sex, enigmático
hipinotiza- me tal
a serpete que mira a presa
deixando-a estado letárgico.


Seus olhos seduzem-me
sua boca me acalanta
seu cheiro me embriaga
seu corpo me encanta
sua pele me aquece igual brasa...
seus cabelos me cobrem como manto...
Enfim, cadê você!?


É tudo tão real
Desejo-te...
Que pena é uma miragem!?

Irecê - BA, 16 de julho de 2007, 20 h 48 min.
(Robério Pereira Barreto).

domingo, 15 de julho de 2007

SILENTE COBIÇA


SILENTE COBIÇA
(Robério Pereira Barreto)

É madrugada.../
Há horas vidas se acalmam,/
menos coração/
que de tão agitado/
dilata o peito às palmas.../
tamanho o desejo por ti./


Em disparo silente/
Uni-se ao cantar do galo/
Tentando forma uma aurora;/
Em vão, pois falta/
O brilho e luz do amanhecer;/
Você!


UMA POÉTICA DA SOLIDÃO


À maneira de Nietzsche me relaciono bem com a solidão, de modo que a tenho como companheira de escrita, tirando desse momento de penumbra íntima, os substratos para a minha poesia.


Não obstante estar à maior parte de meu tempo lidando com pessoas, este convívio é importante, mas, às vezes, secam-me as emoções, porque a todo instante deparo-me com as contradições humanas..., as quais jamais serão dissipadas, pois físico e mentalmente todos nós carregamos o contraditório como marca individual, restando, pois o isolamento da alma em sua magnífica complexidade.


Neste momento, o meu objeto de desejo é consolidado; filtragem das contradições da humanidade (quanta pretensão, não?). Embora saiba que tudo que falo poeticamente é apenas subjetivismo diletante.


Espero que um dia meus leitores – diga-se de passagem, não são muitos – possam me entender e, assim, perceberem que não sou um defensor saudosista da estética romântica. Penso que a revolução proposta pelo romantismo, na verdade, foi uma ideal cujos anseios da burguesia se auto-afirmaram por longos períodos no poder.


A sedução causada pela solidão ao meu imo poético é, sem dúvida, conseqüência das perambulações do eu lírico pelo universo das emoções passionais. Isto é, por meio da poesia ele liberta os fantasmas que nos atormentam por dias a fio. Então, é possível que não sejamos compreendidos pela crítica, senão reconhecido pelo leitor, homem simples que traz no inconsciente; angústias e passionalidades mil.

sábado, 14 de julho de 2007

IMATURA IDOLATRIA



IMATURA IDOLATRIA



(Robério Pereira Barreto)

O coração geme de rancor,
porém não lhe esquece
prefere continuar sofredor
e, chamando por ti adormece.


Acordado, tudo se repete:
recorda o sabor do beijo,
o toque suave de sua pele
roçando lhe o rosto
de tesão estremece.


Agora, tudo se foi
mas continuas a única
de tão real que sóis
o peito corrói.

21h31, 14 de julho de 2007









BALBÚRDIA DE AMOR


O barulho das ondas de nosso amor

ganha na atmosfera escura da cela,

melodia alegre e ritmo furta-cor.


O escarcéu de meu corpo

unindo-se ao seu letargicamente faz subir vapor.

Neste clima, o perfume exala de nós o cheiro da paixão,

guiando-nos pelo turvo caminho do prazer, tesão!


Cego na volição de possuir-te,

sigo o barulho das ondas tal radar,

encontro sua boca entre suspiro e respiração rouca.

(Robério Pereira Barreto, 14 de julho de 2007. 20h)

IRECÊ NASCEU À MERCÊ DAS ÀGUAS





Em 1987 sob à sombra da quixabeira e às margens de cacimbas de água salobra nasceu o povoado Carahybas, “cujo significado é "pela água, à tona d'água, à mercê da corrente". Depois de cinco décadas, com topônimo de Irecê, o município emancipou-se e está situado a 478 km da cidade de Salvador, o município de Irecê fica na zona fisiográfica da Chapada Diamantina Setentrional, abrangendo toda a área do Polígono das Secas. Pertence à bacia do São Francisco.


No campo econômico ocupa status de ser a maior cidade da microrregião, tendo a maior população, e por ser a mais evoluída tecnologicamente. A microrregião de Irecê é composta por 19 municípios: América Dourada, Barra do Mendes, Barro Alto, Cafarnaum, Canarana, Central, Gentio do Ouro, Ibipeba, Ibititá, Irecê, Itaguaçu da Bahia, João Dourado, Jussara, Lapão, Mulungu do Morro, Presidente Dutra, São Gabriel, Souto Soares e Uibaí.


O urbe é famoso e reconhecido pelo grande potencial agrícola e agropecuário, tendo recebido o título de "Cidade do Feijão" pelas grandes safras realizadas aqui no início da década de 1990. Além do feijão, também é famosa por ser a capital mundial da Mamona. A economia de Irecê e região é baseada na produção agrícola, na pecuária, e no comércio local. A cidade foi o primeiro produtor de feijão do nordeste, e o segundo do País, embora apresente uma área relativamente pequena: 313,695 km² entretanto, tem uma densidade demográfica significativa; 62.197 hab, est, 2006; 198,3 hab./ km², fuso horário UTC – 3. Isto leva a indicadores positivos: IDH 0,666 PNUD/2000, PIB R$ 157.419.184,00 IBGE/2003, PIB per capita 2.623,22 IBGE/2003.

Para comprovar esse cenário afirmativo, surgiu o Projeto Quixabeira o qual resgata memória da colonização através da preservação de uma arvoré que, segundo memória coletiva, ali acamparam os primeiros migrantes que vieram de outras regiões do estado e do nordeste brasileiro.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

ROBÉRIO: POETA DAS MADRUGADAS


Foi com hipocorístico de Poeta das madrugadas que o jornalista e téologo Dorjival Silva, do sitios eletrônicos http://www.tangarareporter.com.br/ e http://www.diariodetangara.blogspot.com/ anunciou o próximo o livro de poemas Bramidos da solidão, deste blogueiro que lhes dirige a palavra e ainda deu destaque ao tema da obra conforme segue transcrição:

"OUVINDO BRADOS DA SOLIDÃO. Este é o tema do novo livro de poemas do poeta, jornalista e professor universitário Robério Pereira Barreto. A obra deverá ser lançada em breve. Leia agora em primeira mão, parte do prefécio do livro:Bramidos da solidão, de Robério Pereira Barreto (2007) se constitui numa obra poética com a tentativa de trazer à tona as aflições do leitor apaixonado, levando-o à condição de intérprete de suas próprias agonias." Quero penhorar distinção do nobre colega ao apresentar aos seus webleitores mais este projeto, no qual serão apresentadas a público noventa e seis páginas de pura poesia.