quarta-feira, 18 de julho de 2007

MINHAS FANTASMAGORIAS

Leitores, o que lhes apresento a partir de agora é o que chamariam os filósofos espiritualistas e psicólogos freudianos e jungianos de meu ‘duplo eu’. Entretanto, o denomino de meu poeta fantasmal porque o que ele fala é de fato algo de outro mundo. O mundo da alma, que por sinal, a ciência moderna se encarregou de tirar de circulação faz tempo. Porém, meu fantasma lírico é um herói. Não daqueles gregos que enfrentava a fúria dos deuses..., mas sim herói da resistência, pois a cada manhã ensolarada ou sombria, tenta encontrar sinais de que estar vivo e amar valem à pena! Inclusive a pena que escreve o bilhetinho de amor, o poema, o cartão que acompanha ramalhete de flores predicando um encontro romântico no qual corpos se entregarão às fantasias da alma e aos prazeres da carne.
O lado bom do meu poeta fantasmagórico é que ele não tem estresse. Sabem por quê? Ele é pansensível e isso faz com que ele se movimente em todos os meios intelectual, acadêmico, popular e poético. Contudo, tem suas preferências, claro, pois como todo cidadão mesmo que seja um espectro, tem direito de mostrar suas vontades. Afinal, estamos numa democracia, ora essa! E sua predileção é o interior das pessoas onde tudo está. Daí, graças à pansensibilidade da suas falas, a qual atinge com flecha enevenada o lado mais endurecido e dormente do ser humano; o coração! Agitando-o e levando-o à embriaguez. Ébrio de prazer se desnude de vestimentas morais e sai em busca de felicidade...
Discurso sentimentalista? Afirmo: não o é! Porque é com ele e seus versos traquinos que aprendo diariamente coisas sobre a vida no mundo individualista e perverso no qual vivemos. - Eu, no mundo físico; ele no metafísico - Aquelas nem os anos de estudos formam capazes de me ensinar. Assim, tornei-me seu eterno aprendiz.
A propósito, as falas de meu fantasmagórico espectro são poesias suspensas no ar como se fossem partículas humanas se desprenderem de nós, deixando-nos, por acaso, abrir nossas couraças cotidianas.
Contrário a isso, e tentando ver outros lados da questão, é que creio na força da sua pansensibilidade, responsável por tentar fazer dessas fugas o encontro de mim com vários sujeitos. Não obstante as “almas sebosas” não admitirem que suas essências ou excrescências não se afasta de si, devido a seu grau de egoísmo, o qual, portanto, lhe faz tão infeliz que nem sente quão sua alma foi anestesiada, tornando-lhe incessível às coisas bela da vida; a paixão!
Diante dessa situação, às vezes, falo ao meu poeta imaginário: “talvez fosse melhor escrever sobre histórias, amenidades ou fatos reais” Mas, ele logo me repreende dizendo: “A história pode não ser a verdade em sua essência; amenidades são maquiagens que cobrem a realidade com seus tons aristocráticos em chá da tarde de uma minoria que nega a se próprio; racionalidade é a batuta da ciência e, portanto, com ela os maestros regem suas orquestras como se estivesse no “monte parnaso” podendo apenas ser vistos, já mais tocados! Então, meu caro Robério Pereira Barreto, não se apoquente com as minhas atitudes porque não lhe causarei grandes problemas, apenas você será tachado de “neolírico diletante.”

ARRELIA DE MORTE




No além sertão
há gente vivendo
à imagem e sem pão.

Moribundo, o sertanejo
sente correr gélido
nas veias o sangue
aguado sem sustança;
sente na espinha teimoso calafrio;
Fome talvez!?

Desejoso pastoreia o céu.
Lá, nuvens em forma...
não são de água
apenas vento soprando.

Tal arrelia o leva a pensar
na melodia da morte;
porque a natureza lhe arrelia:
Urrrrrrr, Urrrrrrr, Urrrrrrr
Sóis um homem sem sorte!

À noite na imensidão do norte
o roceiro de rosto disforme
tem o velho e magro cão
como único consorte.

18 de julho de 2007.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

MIRAGEM



Seu jeito de olhar:
sereno, sex, enigmático
hipinotiza- me tal
a serpete que mira a presa
deixando-a estado letárgico.


Seus olhos seduzem-me
sua boca me acalanta
seu cheiro me embriaga
seu corpo me encanta
sua pele me aquece igual brasa...
seus cabelos me cobrem como manto...
Enfim, cadê você!?


É tudo tão real
Desejo-te...
Que pena é uma miragem!?

Irecê - BA, 16 de julho de 2007, 20 h 48 min.
(Robério Pereira Barreto).

domingo, 15 de julho de 2007

SILENTE COBIÇA


SILENTE COBIÇA
(Robério Pereira Barreto)

É madrugada.../
Há horas vidas se acalmam,/
menos coração/
que de tão agitado/
dilata o peito às palmas.../
tamanho o desejo por ti./


Em disparo silente/
Uni-se ao cantar do galo/
Tentando forma uma aurora;/
Em vão, pois falta/
O brilho e luz do amanhecer;/
Você!


UMA POÉTICA DA SOLIDÃO


À maneira de Nietzsche me relaciono bem com a solidão, de modo que a tenho como companheira de escrita, tirando desse momento de penumbra íntima, os substratos para a minha poesia.


Não obstante estar à maior parte de meu tempo lidando com pessoas, este convívio é importante, mas, às vezes, secam-me as emoções, porque a todo instante deparo-me com as contradições humanas..., as quais jamais serão dissipadas, pois físico e mentalmente todos nós carregamos o contraditório como marca individual, restando, pois o isolamento da alma em sua magnífica complexidade.


Neste momento, o meu objeto de desejo é consolidado; filtragem das contradições da humanidade (quanta pretensão, não?). Embora saiba que tudo que falo poeticamente é apenas subjetivismo diletante.


Espero que um dia meus leitores – diga-se de passagem, não são muitos – possam me entender e, assim, perceberem que não sou um defensor saudosista da estética romântica. Penso que a revolução proposta pelo romantismo, na verdade, foi uma ideal cujos anseios da burguesia se auto-afirmaram por longos períodos no poder.


A sedução causada pela solidão ao meu imo poético é, sem dúvida, conseqüência das perambulações do eu lírico pelo universo das emoções passionais. Isto é, por meio da poesia ele liberta os fantasmas que nos atormentam por dias a fio. Então, é possível que não sejamos compreendidos pela crítica, senão reconhecido pelo leitor, homem simples que traz no inconsciente; angústias e passionalidades mil.

sábado, 14 de julho de 2007

IMATURA IDOLATRIA



IMATURA IDOLATRIA



(Robério Pereira Barreto)

O coração geme de rancor,
porém não lhe esquece
prefere continuar sofredor
e, chamando por ti adormece.


Acordado, tudo se repete:
recorda o sabor do beijo,
o toque suave de sua pele
roçando lhe o rosto
de tesão estremece.


Agora, tudo se foi
mas continuas a única
de tão real que sóis
o peito corrói.

21h31, 14 de julho de 2007









BALBÚRDIA DE AMOR


O barulho das ondas de nosso amor

ganha na atmosfera escura da cela,

melodia alegre e ritmo furta-cor.


O escarcéu de meu corpo

unindo-se ao seu letargicamente faz subir vapor.

Neste clima, o perfume exala de nós o cheiro da paixão,

guiando-nos pelo turvo caminho do prazer, tesão!


Cego na volição de possuir-te,

sigo o barulho das ondas tal radar,

encontro sua boca entre suspiro e respiração rouca.

(Robério Pereira Barreto, 14 de julho de 2007. 20h)

IRECÊ NASCEU À MERCÊ DAS ÀGUAS





Em 1987 sob à sombra da quixabeira e às margens de cacimbas de água salobra nasceu o povoado Carahybas, “cujo significado é "pela água, à tona d'água, à mercê da corrente". Depois de cinco décadas, com topônimo de Irecê, o município emancipou-se e está situado a 478 km da cidade de Salvador, o município de Irecê fica na zona fisiográfica da Chapada Diamantina Setentrional, abrangendo toda a área do Polígono das Secas. Pertence à bacia do São Francisco.


No campo econômico ocupa status de ser a maior cidade da microrregião, tendo a maior população, e por ser a mais evoluída tecnologicamente. A microrregião de Irecê é composta por 19 municípios: América Dourada, Barra do Mendes, Barro Alto, Cafarnaum, Canarana, Central, Gentio do Ouro, Ibipeba, Ibititá, Irecê, Itaguaçu da Bahia, João Dourado, Jussara, Lapão, Mulungu do Morro, Presidente Dutra, São Gabriel, Souto Soares e Uibaí.


O urbe é famoso e reconhecido pelo grande potencial agrícola e agropecuário, tendo recebido o título de "Cidade do Feijão" pelas grandes safras realizadas aqui no início da década de 1990. Além do feijão, também é famosa por ser a capital mundial da Mamona. A economia de Irecê e região é baseada na produção agrícola, na pecuária, e no comércio local. A cidade foi o primeiro produtor de feijão do nordeste, e o segundo do País, embora apresente uma área relativamente pequena: 313,695 km² entretanto, tem uma densidade demográfica significativa; 62.197 hab, est, 2006; 198,3 hab./ km², fuso horário UTC – 3. Isto leva a indicadores positivos: IDH 0,666 PNUD/2000, PIB R$ 157.419.184,00 IBGE/2003, PIB per capita 2.623,22 IBGE/2003.

Para comprovar esse cenário afirmativo, surgiu o Projeto Quixabeira o qual resgata memória da colonização através da preservação de uma arvoré que, segundo memória coletiva, ali acamparam os primeiros migrantes que vieram de outras regiões do estado e do nordeste brasileiro.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

ROBÉRIO: POETA DAS MADRUGADAS


Foi com hipocorístico de Poeta das madrugadas que o jornalista e téologo Dorjival Silva, do sitios eletrônicos http://www.tangarareporter.com.br/ e http://www.diariodetangara.blogspot.com/ anunciou o próximo o livro de poemas Bramidos da solidão, deste blogueiro que lhes dirige a palavra e ainda deu destaque ao tema da obra conforme segue transcrição:

"OUVINDO BRADOS DA SOLIDÃO. Este é o tema do novo livro de poemas do poeta, jornalista e professor universitário Robério Pereira Barreto. A obra deverá ser lançada em breve. Leia agora em primeira mão, parte do prefécio do livro:Bramidos da solidão, de Robério Pereira Barreto (2007) se constitui numa obra poética com a tentativa de trazer à tona as aflições do leitor apaixonado, levando-o à condição de intérprete de suas próprias agonias." Quero penhorar distinção do nobre colega ao apresentar aos seus webleitores mais este projeto, no qual serão apresentadas a público noventa e seis páginas de pura poesia.

CULTUS E CIVILIS: DICOTOMIAS DA PÓS-MODERNIDADE

O conceito de cultura é usado com acepções múltiplas, desde a mais simples e abstrata até a mais complexa e abrangente. O mesmo ocorre com termo identidade, sobretudo quando é levado ao plano cultural e lingüístico.

Nesse ensaio, busca-se discutir o primado da cultura a partir da ótica da colonização, tendo como recorte os acontecimentos ocorridos nas duas últimas décadas do século passado, quando na região de Irecê - BA, o ciclo do feijão , década de 80 promoveu um deslocamento na migração nordestina. Para isso, toma-se como referência o pensamento de Alfredo Bosi, em Dialética da colonização, através do qual se toma conhecimento a respeito dos conceitos de cultura empregados para designar as relações do homem com a comunidade na qual está inserido.
Toma-se aqui de empréstimo do latim, colo que, segundo Bosi (1996, p.11), na língua de Roma, “eu moro, eu ocupo a terra, eu trabalho, eu cultivo o campo” o que se aplica à nossa realidade representa bem o movimento dialético ocorrido na comunidade na região de Irecê - BA nos dois últimos decênios. Ou seja, viemos para cá sob perspectiva do colo, no sentido literal do termo, migrantes nordestinos, sobremodo, paraibanos e pernambucanos viram aqui oportunidades de se transformarem em donos de suas próprias terras e, com isso construírem suas vidas tanto no plano econômico como no político.
Os fatos e a história da região dão-nos conta de que houve de maneira seqüencial “o deslocamento” que os agentes sociais fazem do seu mundo (sis) de vida para outro onde irão exercer a capacidade de lavrar ou fazer o solo alheio. O íncola que emigra, torna-se colonus”, pondera Bosi. Isto foi um continuum na região por aproximadamente vinte anos (1979 – 1990), havendo um crescimento da economia de modo que a cidade de Irecê - BA recebeu o título de “capital do feijão”, o qual foi noticiado pela a imprensa nacional, atraindo durante aquele período, centenas de migrantes em busca de melhores condições de vida, muito embora trouxessem pouco a oferecer (mão de obra nem sempre especializada) à sociedade local em termos culturais, artísticos, sociais e humanos, uma vez que o conhecimento acumulado que traziam consigo, não serviam aos locais. Entretanto, “A colonização dá um ar de recomeço e de arranque a culturas seculares”. (Bosi, 1992, p.12).
Para Ferreira Gullar “o novo é para nós, contraditoriamente, a liberdade e a submissão” se se quer entender isso como iniciação ao processo dialético da colonização, se observa então como os nativos têm reagido às interferências das correntes migratórias no processo cultural do Estado; são indiferentes num primeiro momento, noutro agressivos. Contudo, não resistem às pressões sócio-econômicas dos migrantes e acabam deixando-se suplantar, até porque, a força da corrente migratória é híbrida e, portanto, dilui-se, evitando ser atacada em suas bases.
É por isso que “a colonização não pode ser tratada como uma simples corrente migratória: ela é a resolução de carência e conflitos da matriz e uma tentativa de retomar, sob novas condições, o domínio sobre a natureza e o semelhante que tem acompanhado universalmente o chamado processo civilizatório”. (Bosi, 1992, p. 13)
Na verdade, a colonização vai aos poucos se construindo através das forças simbólicas, as quais são mediadas pelo Estado e com o apoio dos meios de comunicação de massa. No caso específico da região de Irecê-BA, essa força foi mediada pelo próprio sistema, ou seja, foi a partir da década de setenta, que o Governo Federal incentivou o cultivo de feijão e mamona, dando assim um impulso significativo no processo de colonização da terra. Por outro lado, se iniciou problemas ambientais, pois a caatinga fora devasta em nome da plantação de feijão. Com isso, teve-se uma “invasão de íncolas” cujo objetivo era fazer a dominação dos naturais e, consequentemente, empregar tanto na terra quando na sociedade locais; hábitos e costumes advindos de suas origens. (veja-se o exemplos dos nordestinos e mais recentemente dos gaúchos na região de Barreiras, onde plantam soja, transformando-a em colônia, para, de modo simbólico manter suas tradições e origem. Portanto, “A colonização é um projeto totalizante cujas forças motrizes poderão sempre buscar-se no nível do colo: ocupar um novo chão, explorar os seus bens, submeter os seus naturais.” (Bosi, 1992, p. 15) tem razão em afiançar isso de maneira sistemática.
O colonizador vê o nativo como sujeito incapaz de promover as mudanças que ele supostamente as fariam se no seu lugar estivesse. Ainda no plano do empréstimo do latim, mudando-se, portanto de categoria gramatical; supino de colo chaga-se a culturus aqui tomado com significado amplo:Cultura é o conjunto das práticas, das técnicas dos símbolos e dos valores que se devem transmitir às novas gerações para garantir a reprodução de um estado de coexistência social. A educação é o momento institucional marcado do processo. (Bosi, 1992, p. 15)
Encontra-se no pensamento do autor, algo importante a ser dissecado antes de continuar a discussão, trata-se da “reprodução de um estado de coexistência social.” Isso bem entendido leva-se à percepção do por que de haver tantos centros de tradição espalhados por ai. Na realidade, esses centros tentam em sua manifestação, a busca de sua identidade, a qual já está hibridizada e, por isso, é buscada por meio de símbolos que revelem seu poder de dominação; saber é poder, conforme dizia Francis Bacon. Será isso um reflexo da civilização cultural pós-modernidade?

A (RE)CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES

Neste ensaio se apresentam de maneira preliminar alguns fatos de pesquisa sobre possíveis a(s) identidade(s) presentes na poética dos escritores locais – irecenses - que, de algum modo, estão diluídos nas experiências da implantação de um sistema sócio-cultural dominado historicamente pela violência imposta pelos senhores e coronéis da região, tendo sido agravada mais tarde, com o movimento da diaspórica do ciclo do feijão, momento em que a região de Irecê – BA recebeu grande massa migratória dos estados nordestinos. Para tanto, utilizar-se-á a linha dos estudos culturais e da estética literária contemporânea as quais conduzirão à investigação no sentido de clarificar o processo de escrita dos autores regionais. Com efeito, observar-se-á ainda como a colonização ocorreu na região, e quais foram às contribuições trazidas e implantadas por essa corrente migratória na cultura local, bem como os impactos (positivo e negativo) que isto teve na vida das pessoas e da comunidade artística local, sobretudo, na literatura.

Como todo evento de pesquisa fundamenta-se na perspectiva de classificação, este trabalho não por acaso segue a mesma metodologia na tentativa de identificar e classificar os principais pontos estéticos e culturais da poesia local, buscando a compreensão da origem estético-ideológica dessa literatura. Dessa maneira, procurar-se-á ainda evidenciar o que realmente foi o processo de colonização da região, partindo da premissa de que houve desde o começo do século passado disputas por terras, as quais, às vezes, resultaram em fusões econômicas, políticas, lingüísticas, refletindo, pois, muito subliminarmente na cultura devido à “inércia” dos migrantes que nesse campo não contribuíram com os nativos.

Importaria dizer preliminarmente, que a produção poética irecense é marcada por carências estéticas e simbólicas, porque os autores produziram trabalhos literários[1] na tentativa de preencher as rupturas latentes no sistema cultural, o qual está pautado na dialética da opressão econômica e da violência gratuita dos colonizadores a terra aos seus moradores.

Mediante estas questões, acesso as algumas obras, elegeu-se um corpus significativo, o qual nos dará segurança para afirmar quais são os textos que melhor representam a produção literária irecense, tendo como ponto nefrálgico a questão da violência e da crise de identidade. Por se tratar de estudos de textos literários (poesia e prosa), adotar-se-á como procedimento de pesquisa, o método bibliográfico e interpretativo.

A obra literária traz por si algo de enigmático, bem como o autor devido a isto, atua, às vezes, como rebelde, visionário, filtro dos eventos sócio-culturais da sociedade na qual é agente. Isto pode ser visto no prefácio à obra Em Irecê revivendo com um pouco de fantasia..., (1999), de Adalvo Nunes Dourado, quando o prefaciador Walter Ney Dourado Rodrigues diz: “As histórias contidas em seu livro buscam resgatar a memória de fatos ocorridos com nossos antepassados.” Ao proceder à análise metódica do produto e do produtor, infere-se que, na verdade, ambos são frutos de um sistema político cultural particular. Diante disto, neste trabalho se toma como objeto de interpretação os livros: Em Irecê revivendo com um pouco de fantasia..., (1999), de Adalvo Nunes Dourado; Campestre e seus horrores, (2006), de Edizio Mendonça. Ambos narram passagem que se confundem com histórias pessoais e fatos aos quais parece os autores terem sido partícipes, deixando vir à tona elementos da cultura e da identidade dos moradores da região de Irecê – BA, antes da avalanche migratória nordestina que tomou conta da região.
Nota

[1] O termo literário, aqui empregado é no sentido da palavra escrita, porque a maior parte dos autores regionais que fizeram da palavra para narrativas históricas e pessoais, fugindo, pois, do evento estético da literatura. Conquanto, não se pode dizer que não haja nos textos certo grau de poeticidade.

ALFABETIZAR NA ESCOLA DE TRADIÇÃO ORAL: DILEMAS E PERSPECTIVAS


Este artigo discute a presença e uso da escrita na sociedade contemporânea, o que de fato a caracteriza como tal. Ver-se, portanto ai, a importância do acesso ao código escrito-digital para que o aluno desenvolva cidadania. Então, nesse contexto é possível transcender da alfabetização como aquisição e decodificação do código escrito para a concepção maior da aprendizagem de língua escrita, letramento. Neste trabalho, ponderou-se sobre a situação dos alfabetizandos e profissionais da língua(gem) da cidade de São Gabriel no que se refere ao acesso e uso do código escrito como elemento instigador da leitura e da escrita no espaço escolar. Por certo, existe uma constante falta de interação entre as práticas cotidianas de letramento do estudante; contato com as mídias impressas dos espaços abertos e os diversos elementos sociolingüísticos oferecidos pela escola, porque às práticas da leitura e escrita são superficiais. Estas se fossem bem usadas, tornar-se-iam aliadas da escola na preparação de estudantes capazes de realizar comunicação usando o código escrito e eletrônico. Para tanto, tomar-se-á como objeto de ação os preceitos da língua escrita. Diante disso, é preciso uma revisão no uso dos instrumentos de alfabetização existentes na escola, visto que há uma valorização da tradição oral em detrimento da observância do paradigma da escrita, haja vista que a maioria das crianças a ser alfabetizadas nesses contextos chega à escola cantando músicas de sucesso, ouvidas nas rádios, bem como vistas na televisão e ainda conhecem jogos eletrônicos e navegam na internet. Eis, pois o desafio do alfabetizador ante a nova realidade da escola no sertão baiano.
Nota
[1] Este artigo faz parte do trabalho de pesquisa que iniciei a pouco para compreender melhor a trajetória do processo de alfabetização e letramento dos estudantes da escola municipais da cidade de São Gabriel – BA, intitulado: Ensino de Escrita na sociedade de tradição oral: Dilemas e perspectivas.

OS ENTRETONS DA LINGUAGEM DA MÍDIA IMPRESSA

Este é um texto que não traz originalidade em sua temática. Porém, é declaradamente uma tentativa de organizar e discutir elementos teóricos acerca do discurso contemporâneo da mídia. Deste ponto de vista, mostrar que, sob o aparato da massificação, há ideologias implícitas na maneira como são informadas as notícias sobre o cotidiano da sociedade, bem como compreender as variabilidades dos textos conforme o enfoque dado pelo aparelho veiculador dos fatos. Com isso procurar-se-á por meio dos estudos destas variantes, a compreensão das categorias de sentido propostas pelas narrativas noticiosas, ponderando sobre a estrutura da linguagem, a montagem do discurso, bem como a interpretação do fato.

Desse modo faz-se importante a assunção do ato de interpretar os entretons da linguagem nos relatos da imprensa escrita, uma vez que, o ato de narrar tem sido mascarado pelo fato noticioso no qual a imagem (ilustração do texto) metamorfoseia o discurso, dando lhe várias facetas. É a partir da inferência de que “A interpretação produz uma espécie particular de discurso: o do comentário, o da crítica o da explicação de textos, etc.”[i], que vale a pena recorrer à gênese do verbo interpretar[ii], para, em seguida, pontuar os entretons que permeiam o discurso da mídia.
Sabe-se, pois, que ação midiática é fruto de um ato enunciativo no qual o enunciador interpreta um fato, estabelecendo uma relação discursiva em que a linguagem passa a ser difundida e corroborada pelas imagens e o contexto de onde se enuncia a notícia. Com isso, há intermediação por parte do canal onde a mensagem é veiculada, levando assim a duas instâncias críticas do discurso: repórter e leitor. Este último tem a função de apreciar a informação construindo para si significados conforme as qualidades e ideologias contidas na reportagem.

Espera-se que ao longo dos diálogos com os teóricos da área se estabeleçam conexões clarificadoras a respeito da práxis discursiva da mídia e o papel do ledor. Assim sendo, evidencia-se aqui a metodologia empregada neste trabalho, isto é, prioriza-se a atividade bibliográfica, para, em seguida, tratar das questões analíticas do corpus em discussão: textos da mídia impressa.

A mídia impressa contemporânea e, de certo modo imediatista, por isso supõe-se que por trás deste processo há assimilação da ideologia de mercado, ou seja, a notícia é o objeto de consumo nesse mercado onde a novidade declara o preço do produto, sem, contudo, estabelecer a idoneidade do produtor. “A novidade e a experimentação substituem os tradicionais padrões estéticos de harmonia e beleza narrativa da experiência vida in lócus, pois, valoriza-se a informação como mercadoria no mercado mídiatico[iii].” (grifo meu).
Notas
[i] Teixeira, Lucia. As cores do discurso: análise do discurso da crítica de arte. Niterói: EDUFF, 1996, p. 10.
[ii] Verbo latino interpretari, o fazer do interpretes. O significado inicial de interpres é ‘intermediário’, ‘negociante’, o que barganha preço’. Logo, conclui-se que o significado corrente de ‘interprete’, isto é, ‘ aquele que explica’.
[iii] TEIXEIRA, 1996, p. 10.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

USO DA LÍNGUA(GEM) ESCRITA: EDIFICAÇÃO DE CIDADANIA

Introdução


No contemporâneo, o conhecimento e domínio da língua oral e escrita são elementos fundamentais para que homem, de fato, efetive sua participação na vida social da comunidade da qual faz parte. Por isso, o ensino-aprendizagem da língua nacional na escola deve seguir paradigmas que leve o aprendiz a entender que, é por meio deste processo que ele comunica, tem acesso à informação, expressa e defende seus pontos de vista, partilha ou constrói visões de mundo e, consequentemente, produz informação usando a estrutura lingüística empregada pela sociedade onde atua em determinado momento histórico.


De acordo com o PCNs de Língua Portuguesa (Parâmetros Curriculares Nacionais) a escola tem a “responsabilidade de garantir a todos os seus alunos o acesso aos saberes lingüísticos, necessários para o exercício da cidadania, direito inalienável de todos.” (PCNS, 2001, p. 15). Com essa perspectiva, os profissionais da língua (gem) que atuam nas séries iniciais precisam compreender que sua ação enquanto professor está baseada na produção lingüística individual e coletiva, sendo a primeira realizada por ele e seus alunos; segunda, fruto da interação verbal de ambos com a comunidade a qual todos pertencem.

Essa visão permite o desvelamento de alguns problemas pelos quais passam crianças oriundas de classe sociais subalternas; estas encontram maiores dificuldades na aquisição do código escrito por falta de acesso a revistas, livros, jornais, mídias impressas. Tal fato se explica pela falta de contato com o mundo da escrita, bem como atividades sociais mediadas lingüística e culturalmente pelo padrão forma da língua, texto. Com efeito, infere-se que, aprender a ler e escrever é para o aluno, a construção de sua liberdade por meio do conhecimento e aplicação de elementos conceituais contidos nos registros escritos que o fará compreender a importância da língua formal como representação do pensamento sistemático, bem como da forma gráfica da linguagem.

Dessa forma, pode-se repensar sobre as novas possibilidades de ensino de leitura e escrita nas séries iniciais e, conseqüentemente, no ensino básico, considerando, pois, que a aquisição do conhecimento lingüístico e cultural está relacionada com o universo cotidiano dos aprendentes de língua materna e, por isso, se constituem como partes de uso da fala e da escrita como expressão e comunicação de pensamento individual e coletivo através de textos. “Ser um usuário competente da escrita é, cada vez mais, condição para a efetiva participação social e cultural da comunidade onde aluno e professor se fazem sujeitos da comunicação. (grifo meu).” (PCNs, 2001, p.22).

2. Linguagem e interação sociocultural


A compreensão e domínio da língua, sobremodo, das variantes escrita e oral possibilita ao usuário o pleno exercício da cidadania, pois é por meio delas que os homens de letramento[1] se comunicam, trocam informação, expressam-se e defendem suas ideologias. Assim, à escola comprometida com a libertação de seus alunos, devem em primeiro lugar, construir com estes (alunos) pontes que os levem à inferência de que expressarem oralmente seus sentimentos não é suficiente para lhe garantirem o direito de cidadão, partícipes de uma sociedade formatada na e para a escrita. Entretanto, este tem sido o único meio pelo qual se consegue expressar. De tal maneira que, ao usarem a escrita, transferem-se a ela elementos da fala, transgredindo a norma padrão.

A linguagem nesse contexto é uma maneira de interação interindíviduos, a qual é orientada para a comunicação; tal procedimento lingüístico se realiza a partir das relações estabelecidas pelos interlocutores que, seguindo suas experiências culturais na sociedade ajuda a construir sua história. O exemplo, disso se tem as conversas de bar, entre amigos, lista de compras, ou a carta – diferentes práticas sociais das quais se podem participar usando a código nacional, língua portuguesa. Nesta perspectiva, há o entendimento de que a língua é um sistema que se constrói por signos lingüísticos, históricos e sociais que possibilitam ao cidadão significar e ressignificar a realidade e o mundo a que pertence e pretende construir. “aprendê-la é aprender não só as palavras, mas também os seus significados culturais e, com eles, os modos pelos quais as pessoas do seu meio social entendem e interpretam a realidade e a si mesmas.” (PCNs, 2001, p. 24).

Assim sendo, a linguagem leva à construção de importantes dimensões sociolingüísticas, isto é, ela se constitui como elemento necessário ao emissor, tenha este ou não algo a dizer de a alguém. Para tanto, este processo interativo pede que se formate na mente uma série de representações constituídas sobre o mundo ao qual ele é agente.

Produzir linguagem significa produzir discurso. Significa dizer alguma coisa para alguém, de uma determinada forma, num determinado contexto histórico. [...] quando se interage verbalmente com alguém, o discurso se organiza a partir dos conhecimentos que se acredita que o interlocutor possua sobre o assunto, do que se supõe serem suas opiniões e convicções, simpatias e antipatias, da relação de afinidade e do grau de familirialidade que se tem, da posição social e hierárquica que se ocupa em relação a ele e vice-versa. (PCNs-Língua Portuguesa, 2001, p. 25).

Para Maigueneau (2004) viver no mundo contemporâneo implica ser colocado em uma situação múltipla de textos, mesmo sendo estes efêmeros: panfletos, catálogos, jornais, cartazes, guias turísticos, malas-diretas de propaganda etc. Ainda segundo o estudioso francês a escola deve instrumentalizar os estudantes de ferramentas que os possibilitem entender que esse corpora é uma produção lingüística – texto – produto da atividade discursiva oral ou escrita que forma um todo significativo e acabado, qualquer que seja sua extensão. É uma seqüência verbal constituída por um conjunto de relações que se estabelecem a partir da coesão[2] e da coerência.
Dessa maneira, um texto só é um texto quando pode ser compreendido como unidade significativa global, quando possui textualidade. Caso contrário, tem se aí um amontoado de enunciados vazios. “Todo texto se organiza dentro de um determinado gênero. Os vários gêneros existentes, por sua vez, constituem formas relativamente estáveis de enunciados, disponíveis na cultura, caracterizados por três elementos: conteúdo temático, estilo e construção composicional.” (PCNs – Língua Portuguesa, 2001, p. 26).

Com relação aos textos, os gêneros são determinados historicamente a partir das intenções comunicativas, como parte das condições de produção dos discursos, gera usos sociais que determinam os gêneros que darão forma aos textos. Assim sendo, identifica-se um gênero a partir de marcas textuais, estruturais e históricas: “era uma vez” conto; “senhoras e senhores” pronunciamento público, apresentação de espetáculo; “Querida mamãe” epistolares.

3. Ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa na escola

A língua deve ser entendida como sistema dinâmico, o qual se caracteriza como tal devido ao uso contínuo e sistêmico dos elementos estruturais que a compõe. Assim sendo, considera-se que o ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa está pautado na articulação de: aluno, língua e ensino.
Nesta tríade, o aluno é sujeito primário do processo, pois é agente e paciente da ação de aprender; a língua objeto de conhecimento; A Língua Portuguesa se apresenta nesse esquema, constituída de fala e escrita tanto dentro quanto fora do espaço escolar; a língua que se pratica em instâncias públicas e a que existe nos textos escritos que circulam socialmente. Com relação ao ensino, é importante que o profissional da linguagem entenda seu papel de mediador, atuando de maneira a encaminhar o estudante à aquisição da língua e, conseqüentemente a assimilação da estrutura lingüística do idioma nacional. “o professor deverá planejar, implementar e dirigir as atividades didáticas, com o objetivo de desencadear, apoiar e orientar o esforço de ação e reflexão do aluno. (PCNs – Língua Portuguesa, 2001, p. 29).

Ainda para os PCNs em questão, uma educação que se queira comprometida com a produção e uso lingüístico coerente, esta deve levar os usuários da língua(gem) desde as séries iniciais a praticarem sua cidadania por meio do uso efetivo da língua enquanto instrumento de significação social e individual. “Todas as disciplinas têm a responsabilidade de ensinar a utilizar os textos de que fazem uso, mas é a de Língua Portuguesa que deve tomar para si o papel de fazê-lo de modo mais sistemático.” (PCNs, 2001, p. 31).
Este fato conduz ao entendimento de que à escola cabe ensinar ao aluno ler, escrever e falar: é muito comum se considerarem as variedades lingüísticas de menor prestígio como inferiores ou erradas.

Cabe à escola ensinar o aluno a utilizar a linguagem oral nas diversas situações comunicativas, especialmente nas mais formais: planejamento e realizações de entrevistas, debates, seminários diálogos com autoridades, dramatizações, etc. [...] A aprendizagem de procedimentos eficazes tanto de fala como de escuta, em contextos mais formais, dificilmente ocorrerá se a escola não tomar para si a tarefa de promovê-la. (PCNs – Língua Portuguesa, 2001, p. 32).

Na escrita alfabética é um sistema de escrita regido pelo princípio do fonograma em que o signo gráfico representa normalmente um ou mais fonemas do idioma. É importante notar que, na escola ensina escrita como se esta fosse algo misterioso e, portanto, poucos conseguem desvendá-lo, produzindo textos que atendam às necessidades dos usuários da língua. Isso é porque as pessoas praticarem suas experiências através da oralidade (paqueram, compram, vendem e trocam informações através da fala). Não obstante, uma sociedade letrada como é a nossa, apresenta-se às crianças histórias ou notícias de jornal para elas que ainda não sabem ler e escrever convencionalmente ensina-se a estas como são organizados, na escrita, estes dois gêneros: desde o vocabulário adequado a cada um, até os recursos coesivos[3]. “A capacidade de decifrar o escrito é não só condição para a leitura independente como – verdadeiro rito de passagem – um saber de grande valor social.” (PCNs – Língua Portuguesa, 2001, p. 34).

4. O texto como unidade significativa de ensino


Ensinar o idioma nacional nas séries iniciais é uma ação marcada pela adição de vários elementos lingüísticos: ensina-se a juntar sílabas (ou letras) para formar palavras, a juntar palavras para formar frases e a juntar frases para formar textos. Na verdade, isso não corresponde à realidade e a necessidade da criança que, diante de uma gama significativa de letramento adquiri uma competência discursiva[4]. Esses “textos” nesta perspectiva não podem ser considerados como tais, porque não passam de simples amontoados de frases. Isto até tem mostrado que os professores tentam aproximar os textos das crianças – simplificando-os -, no lugar de aproximar as crianças dos textos de qualidade. Tal atividade tem mostrado efeitos sérios, pois, ficam muitas dúvidas para a criança, isto é, “não se formam bons leitores oferecendo materiais de leitura empobrecidos, justamente no momento em que as crianças são iniciadas no mundo da escrita. As pessoas aprendem a gostar de ler quando, de alguma forma, a qualidade de suas vidas melhora com a leitura.” (PCNs – Língua Portuguesa, 2001, p. 36).
Esta prática leva-nos à reflexão sobre o ensino aprendizagem da língua nas séries iniciais, porque a linguagem se realiza por meio de atividades lingüísticas, as quais possibilitam a expansão da capacidade produtiva e interpretativa de textos pela criança. Nesse contexto, a produção lingüística deve ser dividida e observada sob dois conceitos importantes: epilinguística e metalingüística; estas por sua vez conduzem à reflexão e a sistematização do uso da língua nacional, tanto na vertente oral como escrita, sendo esta última a que mais demanda de cuidado. Desse modo, a atividade epilinguística remete á questão do uso oral e suas configurações próprias. Exemplo, no meio de uma conversa um dos interlocutores afirma: “acho que essa palavra não é a melhor para se dizer isso. Que tal...?
Tem-se ai uma perspectiva de mudança no sentido o que de fato constitui a cidadania por meio da linguagem, isto é, o cidadão no seu fazer cotidiano encontra ressonância na sua produção lingüística a partir da enunciação oral. Por outro lado, isto revela uma série de problemas, os quais estão além do universo lingüístico, porque isto demonstra que o estado tem falhando na formação lingüística da criança desde muito cedo, de maneira que, mesmo estando numa urbe de letramento, ou seja, na sociedade civilizada na qual a comunicação, normalmente, se dá por meio do código escrito, ainda é visível a crise da escrita. Afirmando de outro modo, mesmo quando as classes menos favorecidas intentam participar do sistema lingüístico e cultural da linguagem escrita, traz consigo “vícios’ da linguagem oral, pois é o universo qual esta submergido deste os primeiros contatos com a língua.

5. Arremate efêmero

Ante a tal quadro de crise de compreensão e emprego da língua na modalidade formal – escrita – ficam claras questões sociais, econômicas e culturais, sobretudo, aqui na região de Irecê – BA onde a sociedade é eminentemente oralizada e, portanto, há que se considerar a pouca vocação da escola na observação desse fenômeno, uma vez que seus profissionais atuam de maneira paradoxo. Isto é, se ensina nas escolas, especialmente na disciplina de língua portuguesa os princípios da gramática e da escrita, usando na maioria das vezes o texto como pretexto para ensinar aquilo que, não será de uso significativo para o estudante porque ele estará submetido a um universo de mídia imagética e oralizada. Por fim, compreende-se que, neste processo é possível encontrar mecanismo de inserção social dos indivíduos no mundo da escrita, através da retextualização do material lingüístico oralmente construído no cotidiano por eles. Com isso, os farão inferir que, a escrita e a oralidade comungam princípios sintáticos e semânticos, além claro, de cada um ter seu lugar de uso na comunidade.


Referências bibliográficas
KATO, Mary A. No mundo da Escrita: uma perspectiva psicolingüística. São Paulo: Ática, 1995.
Marcuschi, Luiz Antonio. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo, Cortez, 2001.
Neves, Maria Helena de Moura. Gramática na escola. São Paulo, Contexto, 1990.
Neves, Maria Helena de Moura. Que gramática estudar na escola? São Paulo, Contexto, 2003.
PCNs – Língua Portuguesa, 2002
SAUSSURE, Ferdinand de – Curso de Lingüística Geral, São Paulo, Editora Cultrix.
Notas
[1] Letramento, aqui, é empregado como resultado da participação ativa dos sujeitos em prática sociais que, direto ou indiretamente, usam a escrita como sistema simbólico e tecnológico. Estas práticas por sua vez Têm caráter discursivo e que usam a escrita como meio para torná-las significativas, ainda que às vezes não envolvam as atividades específicas de ler ou escrever, uma vez que, às vezes os usuários de tal processo não dominam integramente os sistemas de leitura e escrita. Com isso, infere-se que, nas sociedades urbanas contemporâneas (periferia das cidades), há elevado grau de letramento porque os agentes sociais participam de modo efetivo da vida da comunidade onde vivem. Em detrimento, há baixo grau de alfabetização visto que essas mesmas pessoas não dão conta de produz texto inteligíveis.
[2] Coesão, neste texto, diz respeito ao conjunto de recursos por meio dos quais as sentenças se interligam, formando um texto.
[3] Recursos coesivos são elementos lingüísticos da superfície de um texto que indicam as relações existentes entre as palavras e os enunciados que o compõem.
[4] Competência discursiva, aqui, está sendo compreendidos como a capacidade de se produzir discursos – orais ou escritos – adequados às situações enunciativas em questão, considerando todos os aspectos e decisões envolvidos nesse processo.

ENSINO DE ESCRITA NA SOCIEDADE DE TRADIÇÃO ORAL

Consideradas as problemáticas sociais e econômicas que se abatem sobre os sistemas de alfabetização brasileiros, tem se ainda a questão do mau ensino e uso da língua nacional. Para a maioria dos profissionais da linguagem, ensinar a ler e, sobretudo, a escrever envolve uma série de fatores que nem sempre as metodologias inovadoras dão os resultados esperados.

As instituições escolares ainda ensinam com base num modelo de ensino, no qual os aprendizes de Língua Portuguesa não vêem a menor graça. Isto porque os assuntos tratados na sala de aula já são velhos conhecidos deles. Isto ocorra de maneira real, enquanto na escola tudo não passa de abstração. Assim, o professor de Língua Portuguesa e o Alfabetizador devem repensar suas práticas e as funções a serem atribuídas às aulas do idioma nacional, quando tive como objeto de ação a escrita.
Usar o texto como pré-texto para ensinar à escrita, às vezes é um equivoco, pois há comunidade nesse país que não tem acesso à palavra escrita conforme quer a escola; por uma série de fatores: isolamento dos centros editoriais, falta de recursos financeiros e cultura de leitura-escrita. Isto porque há cidades no Brasil onde a população não tem acesso a jornais e a revistas. Conquanto, vive imersa no universo da mídia televisiva, no qual as crianças e os adultos gastam boa parte de seu tempo diante da telinha, e o pior é que na maioria das vezes não depreendem os significados das mensagens veiculadas por tal veículo.
Nesse contexto estão padecendo os alfabetizadores, uma vez que ambos vivem o dilema da falta de conhecimento e metodologias que os auxiliem na mudança de comportamento em sala de aula, na qual há um publico inconscientemente “iletrado funcional”, ou seja, as pessoas conseguem ir e vir sem que faça se quer uma leitura apurada das mensagens escritas que lhes cercam. Isso demonstra que, há de alguma maneira, a valorização da oralidade, fazendo com que se tenha em certas partes do país quase uma sociedade ágrafa. O interessante é que existe em algumas regiões uma espécie de incentivo à oralização. Em outras palavras, tomando a região de Irecê-BA, num raio de cem quilômetros, há vinte cidades e todas têm emissora de rádio, mas não há imprensa escrita em sua maioria. Todos esses aspectos estão afetando o trabalho dos professores de Língua Portuguesa e, sobremodo, o dos alfabetizadores, os quais encontram em sala de aula resistência à produção escrita por parte do alunado, de maneira que estes preferem narrar oralmente suas experiências que as escreverem.
Desse modo, a concepção escolar de ensinar à escrita está, nesse caso, quase fadada ao fracasso, porque os métodos que vêem sendo usados pela escola desconsideram a mídia de massa; aqui entendida como televisão e rádio como possibilidade real para melhoria de tal processo, esquecendo, pois, que em tais veículos também se faz uso de material escrito, o qual, na maioria das vezes não é legitimado pela norma, contudo é um texto que em suas deficiências, atende às necessidades da comunidade a qual não se interessa no processo de construção da informação, mas sim no resultado, informação oral. Conclui-se assim, que é preciso uma revisão no uso dos instrumentos de alfabetização existentes na escola, visto que há uma valorização da tradição oral em detrimento da observância do paradigma da escrita, haja vista que a maioria das crianças a ser alfabetizadas nesses contextos chega à escola cantando músicas de sucesso, ouvidas nas rádios, bem como vistas na televisão, ainda conhecem jogos eletrônicos e navegam na internet. Contudo, este saber não atende às perspectivas de escrita solicitada pela escola. Eis, pois o desafio do alfabetizador na era da mídia oral.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

MORTE NA CAATINGA




No céu cor de fogo
aves de rapina anunciam
que a morte no ar está,
mais tarde todas terão jantar.
Bichos pequenos e até grandes
mesmo que corram
não vão muito aguentar,
morte certa!
Para que apelar?
Cobra, lagartixa e preá
em desespero giram
para lá e para cá
Não adianta não tem
que possa lhes salvar,
é a morte na caatinga
que tem hora de chegar.
Mês de agosto...
por aqui só desgosto
porque a caatinga
põe-se em grande alvoroço
tentando a vida de seus filhos salvar.
Quanto esforço em vão
porque é fogo para todos os lados
cheira morte no sertão.
(Robério Pereira Barreto, 11/07/07)

TRUANICES


No entardecer, vários plurais
manifestam-se a me convencer
de que a soma dos singulares
existentes em mim,
é maior que a vontade de você
Particular para o mundo sou
na maneira de amar-te,
porém pluralizo-me,
em mil facetas me dou.
Em cada uma delas
flui de mim algo
que me exaspera
em fazer-te feliz.
Entretanto, na ausência de ti
resta-me a truanice
de meu eu dividir
entre choro e saudade,
sozinho fazê-lo rir.
(Robério Pereira Barreto)


segunda-feira, 9 de julho de 2007


CARTA À SOLIDÃO


Eis me aqui nesse vazio e solitário recanto a lembrar-me de ti inesquecível solidão. Na paixão das lembranças de nossas entregas, meu peito arrefece e, sufocado nas cachoeiras de saudades dilata-se ao mesmo tempo que aperta o coração; Choro! Então, solidão, escrevo a ti sob ópio do separação que, tomando aos poucos meu ser e alma, traz-me a sensação de querer possuí-la sem devoção. Nossa, estou aceso. Parece que lhe ouço gemer de gozo e, em volúpia infernal crava em mim unhas sacrificiais, fórceps que tira das entranhas o filho que, por teimosia agarra-se a sua mãe e não quer nascer; medo da separação! Aos gritos, clamo querendo senti-la mais profundo em dor e prazer.


CLAMOR DA PAIXÃO
O vento grita na minha janela
faz meu coração chorar
pedindo por ela.
em mim uma dor
que só vendo
para saber quão é cruel
o eco desse maldito vento
a rir do meu sofrimento...
Só tu, vento...!
nesse recanto
faz meu coração viver
latejante e insano.
Cala-te, ó vento infame!
não vês que sofro?
Deixa-me em silêncio sepulcral
Quero curtir essa dor cortante,
a falta dela em meus braços.
(Robério Pereira Barreto)

TENHA PIEDADE DE MIM, SENHOR LADRÃO!
Faz algum tempo que a imprensa vem mostrando casos de corrupção e violência contra a vida e a honra dos brasileiros. Nada demais, pois é assim que deve se pautar a imprensa de um país democrático. Por outro lado, temos visto também contradições nas instituições policias desse país. Enquanto a PF atua com inteligência prendendo figurões dos três poderes – executivo, legislativo e, quem diria, do judiciário – a demais forças policiais mantêm-se em compasso desigual, pois lhes faltam recursos materiais e humanos qualificados para o combate à criminalidade.
Todos os dias país a fora, centenas de cidadãos e cidadãs têm sua integridade atingida de alguma maneira, a ponto de não acreditarem mais nas instituições que, de fato, deveriam nos representar e nos proteger, pois estas não conseguem mais controlarem si internamente, uma vez que alguns de seus agentes estão comprometidos com o crime organizado.
Estas e outras questões têm levado o cidadão comum não acreditar nos discursos daqueles que se intitulam autoridades. "Que país é esse" onde se pede piedade ao ladrão?