sexta-feira, 9 de maio de 2008

INÚTIL RESISTIR...

O mistério do olhar
Que cai sobre mim
Leva-me a outro lugar;
O infinito prazer de amar.

A magia que reluz
Dele [olhar] é a mesma que
Entre caminhos diversos me conduz.

Atrapalhado em tal fulgor
Sinto-me simples sofredor
Que no escuro da solidão
Recolho-me a evitar paixão.

Submisso a este enigmático
E reluzente olhar, não resisto
E, aos pouco me entrego...

09 de maio de 2008, 17h12
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 8 de maio de 2008

FAZ-ME!

Faz-me sentir seu cheiro
Nesse lugar ermo...

Faz-me deliciar seus beijos
Nesse banquete de desejos...

Faz-me emergir à alma
Nesse mar em chamas...

Faz-me grudar suas mãos
Nesse corpo suado de paixão...

Faz-me querer seu prazer
Aos gritos abafando os meus gemidos
Na infinitude dos perigos de amar-te.

08 de maio de 08, 22h07min.
Robério Pereira Barreto

segunda-feira, 5 de maio de 2008

PRAZER ABSOLUTO

Como passarinho que voa
Carregando no bico o maduro
Fruto de jambo...
Carrego à boca o sabor de ti

Incrustado no pensamento
Está a imagem desse corpo
Naturalmente bronzeado
E esculpido à mão pela natureza.

As idéias flutuam como folhas
Atiradas ao leito do rio.
Em prazer absoluto,
Me deixo envolve pelas carícias
E gritos absurdos do seu peito.

05 de maio de 2008, 23h21
Robério Pereira Barreto

domingo, 4 de maio de 2008

A INSTANTANEIDADE DA FÉ


A proliferação de técnica e meios digitais da informação possibilitou que vários tipos de conhecimentos se ampliassem de maneira extraordinária. Tal produtividade vai da educação à fé. Para Baudrillard (1991) estes aspectos são uma espécie de “destino indelével sobre o qual pesa a sedução” a qual se dá através de discursos engendrados pelo sistema econômico, garantindo à religião uma posição de destaque no que se refere à idéia de separação entre o bem o e mal, sedução digital da fé.
As linhas que se seguem, buscam o entendimento da expansão da fé por meio da mídia televisiva, a qual ocupar lugar privilegiado em várias grades televisivas, sobretudo, nas veiculadas nas manhãs de sábado. É interessante notar ainda que, neste dia, das 7 às 10 horas da manhã, há acerca de 10 emissoras de televisão com programas religiosos ou afins. O olhar aqui presente é segundo a programação distribuída por emissoras abertas; via antena parabólica.
Dessa maneira, parte-se da suposição de que a televisão transformou o modo de como o homem comum tem visto a cultura, a sociedade e, sobretudo, a fé. Esta é oferecida além templo, ou melhor, o mundo transformou-se em santuário graças ao alcance dos satélites que, associando elementos retóricos e psicológicos presentes nos discursos dos pastores, verdadeiros animadores de auditório conseguem conduzir uma massa ignorante a um universo cheio de fantasia e sedução num mercado ora tão competitivo, da fé.
Por um lado, tal questão é compreensível quando vista sob a ótica da modernização das igrejas tanto no plano da evangelização quanto nas inovações das metodologias usadas pelos pastores, os quais evoluíram ao epíteto de pastores eletrônicos, com discurso e estratégias de convencimento próximas à publicidade. Por outro, se tem ai a subjetividade divina que vai ao encontro da “estupidez das massas, vítimas da mídia” Baudrillard (2005, p. 42) de consumo que transforma a crença do povo em produto de degustação a qualquer preço e hora.
No mercado religioso, esta prática há muito ultrapassou o limite do bom senso, uma vez que se criou um “hiperespaço” no qual tudo parece mais verdadeiro que a própria “verdade” da fé.
Para Baudrillard (2005) é através da tela que se promove o falso ao status de verdadeiro, tamanha a evolução realizada pelos meios de massa. Assim é possível compreender o porquê de tudo que é levado à tela religiosa, ganha credibilidade instantânea, isto é, “a informação e mais verdadeira que o verdadeiro por ser verdadeira em tempo real”. (idem, p. 45).
O filósofo francês ainda adverte sobre as variadas dimensões que informações religiosas podem tomar no hiperespaço construído pela mídia devota. “as coisas não têm mais uma, duas ou três dimensões: flutuam numa dimensão intermediária. Logo nada mais de critérios de verdade ou de objetividade, mas uma escola de verossimilhança.” (op. cit.).
Nesta perspectiva, o pensamento de Baudrillard materializa-se nos testemunhos dos fiéis diante das câmeras, às vezes, chegam a forçar uma situação no sentido de se fazerem presentes e, por conseguinte, ter seu momento de fama, integrando a partir disso, o grupo das “celebridades de Deus”. Então, não é por acaso que a fé seja colocada à mostra, transformando-se num produto em promoção à qual a maioria das pessoas não teria acesso senão através da intervenção da mídia. Com isso, se percebe a existência de uma realidade econômica nas pregações dos “pastores e padres eletrônicos”, uma vez que nos intervalos comerciais dos cultos os responsáveis apresentam seus cardápios de produtos religiosos – livros, revistas, Cds e Dvds além do tradicional dízimo – e tudo em nome do Senhor. Então, ninguém que deseja alcançar os píncaros da fama – testemunho ao vivo – jamais pode se furtar de oferecer uma quantia significativa, ou uma história de fracassos pessoais e econômicos para servir como “tragédia na tela da fé” a qual será simulada por atores cujo desempenho dramático e estético é bastante questionável.
Bibliografia consultada.

BAUDRILLARD, Jean. Tela total: mito-ironias da era virtual e da imagem. 4. ed. Porto Alegre: Sulina, 2005.

CRIATIVIDADE DISCURSIVA NA WEB

No contemporâneo as atividades humanas estão passando por grandes modificações a tal ponto de a criatividade se transformar em crise. Por isso, as fronteiras entre o real e o virtual na arte, na literatura e na linguagem parecem não existir, uma vez que há um entrecruzar de identidades construídas a partir dos discursos produzidos com toques de mouse.
Quanto à criatividade, que por muito tempo ficou relegada a artistas e gênios da criação, ganha espaço e projeção, criando assim, uma comunidade de falantes que interagem com seus pares através de ciberdiscurso. Isso tem criado de alguma maneira conflitos e as identidades passam a ser classificadas a partir da capacidade que os agentes comunicativos têm em demarcarem seus territórios virtuais.
Por isso, consideramos as identidades no espaço cibernético como algo abstrato e, por isso, os confrontos se dão por meio da produção lingüística específica. Na segunda parte serão apresentadas, discussões acerca das relações sociais e humanas, formuladas a partir das revoluções que a mídia e a rede digital provocaram no homem contemporâneo, relacionando as aos aspectos produtivos da sociedade, tendo o ciberdiscurso com mediador das negociações de sentidos,sociais e culturais no ambiente que a tecnologia vem criando em ritmo vertiginoso.
Isso tem modificado o meio social contemporâneo de tal sorte que os pensamentos e ações econômicas, políticas e culturais se processam conforme a velocidade e a disponibilidade da comunidade em usar tais artífices. Uma coisa é certa; uma nova linguagem com vocabulário e sintaxe própria tornou-se real no cotidiano da comunidade moderna, na qual ciência, arte, literatura e política são discutidas à velocidade da fibra ótica.

O ciberdiscurso: liberalidade da linguagem

Vários estudiosos têm conceituado a linguagem a partir das relações sociais que o homem estabelece com o meio e a realidade sócio-cultural em que vive. Assim, Lotman assegura que tal procedimento só se fundamenta quando as informações são significadas pelos atores culturais e sociais da linguagem, transformando-as em signos convencionalmente aceitos pelo grupo. A exemplo disso, estão os ciberdiscursos produzidos nos chats da Internet, nos quais os usuários codificam os signos e os adaptam às suas necessidades lingüísticas do meio eletrônico. Para tanto, eles (internautas) precisam transformar ou adequar esses sinais em signos que realizem a comunicação efetiva dos fatos.
Nesse contexto, e à maneira do semioticista francês Roland Barthes compreende-se que o uso da língua no chat dar-se de maneira individualiza, isto é, apenas um grupo de pessoas faz da língua eletrônica “ato individual de seleção e atualização” e passa a relatar suas experiências a partir do estilo lingüístico convencionalizado, pois a língua de modo geral deixa à disposição de seus usuários várias possibilidades de articular discursos. “Ao assumir o discurso, o individuo busca escolher os meios de expressão que melhor configurem suas idéias, pensamentos e desejos. Essa escolha é que caracteriza o estilo[1].” Em outros termos, tal procedimento quando estendido à linguagem praticada pelos internautas vê-se, uma individualização via transgressão lingüística mostrada por meio da escolha criativa do vocabulário dos internautas, o qual ganham aspectos fonológicos (não se transforma naum mesmo sendo realizado via escrita), ênfase nos termos concretos (uso alternado de letras maiúsculas e minúsculas no meio das palavras; AmiZaDI) e abstratos (apresentação de símbolos e ícones correspondentes ao seus estados emocionais; :) = alegre e ): = triste) na preferência por formas verbais e não verbais, propensão para determinadas figuras de linguagem. Proença Filho ao tratar da questão do estilo lingüístico praticado pelos usuários da língua, sugere que o modo como as pessoas se comunicam é resultante das atitudes culturais surgidas com tendências “análogas nas manifestações artísticas, na religião, na psicologia, na sociologia, nas formas de polidez, nos costumes, vestuários, gestos, etc..[2]” Assim sendo, se depreende dessas acepções que o estilo lingüístico empregado nos ciberdiscursos são representacionais, por isso Lévy assegura: “O pensamento se dá em uma rede na qual neurônios, módulos cognitivos, humanos, instituições de ensino, línguas, sistemas de escrita, livros e computadores se interconectam, transformam e tradu
[1] FILHO PROENÇA. 2001, p. 23-4.
[2] Op. cit, p. 24.

RECEPÇÃO DO POEMA COMISERAÇÃO

Sabe-se que o poeta precisa do seu leitor para que sua obra aconteça como tal. Então, o apreciador do texto literário - leitor - assumi papel importante na edificação dos sentidos pretendidos pelo autor. A crítica literária reconhece isso ao considerar a literatura como matéria da experiência humana da qual o leitor participa quando da interpretação do objeto lido.
Assim sendo, o pensamento de que o ser humano é um pano de fundo ou uma fonte de inspiração, mais do que um efeito da textualidade: "o ser humano escreve, o ser humano pensa, e sempre perseguindo e defendendo-se contra o outro ser humano." Bloom, 2000, p. 60).
Diante dessa afirmativa, ler-se a seguir a recepção de um(a) leitor(a) desse espaço poético, ao fazer consideração e expressar sua inferência do poema Comiseração publicado no dia de ontem.

Não tenho vontade de parar de ler, de sentir a carícia (também) do olhar dos seus olhos... Também posso me afogar no seu carinho e entorpecer meu ser que clama por amor!” É na comiseração do sentir que o poeta adentra almas solitárias fundindo-se entre o real e o lírico sonhador. Digo que, é o espírito poético roberiano envolvendo-se de tal forma enigmática e profunda com seu leitor, que este assume extasiado um envolvimento confessional no mundo imaginário e criativo do poeta. É o anseio do amor sublimado que mescla fragilidade e vontade de se fazer amado, e de amar...
Poeta...não tem como parar de ler, não tem como deixar de sentir um turbilhão de sentimentos entrelaçados entre magia e real...Enfim, aquilo que você expõe maravilhosamente na sua escrita, escrita de fazer pular o coração, e deixa aflorar os sentimentos mais íntimos de uma pobre mortal como eu!
Este é um bom exemplo de estética da recepção; o leitor inteagindo com a mensagem poética e à sua maneira expressando entendimento.
Obrigado

sábado, 3 de maio de 2008

CORPO: ENIGMÁTICO SIGNO DE LINGUAGEM

Introdução

Este texto foi construído com intuito de discutir as significações presentes no corpo, sobretudo, no corpo feminino com os estudantes do curso de Letras da UNEB, câmpus XVI, Irecê–BA, na disciplina Consciência corporal e linguagem, ofertada pelo Colegiado de Letras, semestre 2007.2. Esta disciplina foi ministrada em parceria com a professora de Artes e Educação, Edineiram Maciel a qual trabalho as questões práticas idealizadas em nossas discussões e que culminaram na escrita de mini-peças protagonizadas ao final do curso pelos próprios estudantes da disciplina.
Decidimos que, embora a disciplina tivesse apenas 30h/a deveríamos dividi-la em duas partes, a saber: i) estudo da fundamentação teórica cuja fonte era a semiótica, tendo como referência as discussões sobre signo, advindas de Charles Sanders Peirce, referendadas pelos estudos de Lúcia Santaella, principalmente em sua obra Matrizes de linguagem e pensamento: sonora, visual e verbal (2000); ii) aplicação de tais conceitos, usando-se como base as linguagens corporais do próprios alunos no ambiente sala de aula. Diante disso, metodologicamente as ações foram direcionadas para atividades práticas de autoconhecimento do signo corporal de cada um no universo da classe, observamos com isso como, às vezes, princípios religiosos e culturais acentuam limitações quando se vai usar do corpo como signo de linguagem para realizar comunicação.
É importante destacar que a turma era composta por 25 (vinte e cinco) estudantes, sendo 23 mulheres e 2 homens, mesmo assim evidenciaram muitas limitações quanto ao falar do corpo como portador de significações, sobretudo quando se pedia que se fizesse comentários sobre alguns signos que compõem o inconsciente coletivo sobre o corpo, ficando inclusive, bastante evidente a concepção masculino sobre a linguagem do corpo feminino; sensibilidade, fetiche, segredo, pecado, etc.


Diálogando com autoridades

Hodiernamente falar sobre o corpo e sua linguagem é um risco, uma vez que a nossa sociedade tem valorizado o corpo físico e seus artifícios de beleza e sedução em detrimento de questões mais psicológicas, nas quais e, por seu turno, estão localizados expedientes de linguagem em que se situam as identidades corporais.
Isto talvez siga a lógica do sistema; a eternização da prisão do corpo em paradigmas beneficia a vários mecanismos sociais e, sobremodo, àqueles de caráter controladores, como por exemplo, a religião. Por isso Chauí (1991) adverte que mesmo isso sendo uma realidade cultural não pôde desde que o mundo é mundo reconhecer que:
seres humanos e animais são dotados de corpos sexuados e as práticas sexuais obedecem a regras, exigências naturais e cerimônias humanas.” [...] as proibições e permissões são interiorizadas pela consciência individual, graças a inúmeros procedimentos sociais (como a educação, por exemplo) e também expulsas para longe da consciência, quando transgredidos porque, caso, trazem sentimentos de dor, sofrimento e culpa que desejamos esquecer ou ocultar.(Chauí, 1991, pp.9-10)

Tem-se, pois, na afirmação da filósofa brasileira, a partida para se questionar: Qual o significado do corpo? Como os entes sociais percebem os sinais nos corpos? De que lugares emergem essas necessidades discursivas? A posteriori espera-se respostas a cada uma dessas perguntas. Por enquanto é possível ponderar dizendo que os corpos só significam quando emergidos em universos de linguagem inter-humana e, portanto, cada corpo produz e significa para si e os demais, a partir da vivencia de signos individuais e coletivos institucionalizados pela comunidade onde se realiza a comunicação.
Assim, a linguagem é fio condutor da condição humana, porque o homem necessidade de outros corpos (reais ou abstratos) para se comunicar, e com isso construir interfaces dialógicas. Então, na medida em que os corpos se relacionam com a cultura e realidade de uma comunidade eles [corpos] agregam, refletem e refratam significações, isto é, o corpo é um portador e refrator de linguagem e, portanto, significa! Entretanto, só se reconhecem esta questão a partir do momento em que se evidenciam os limites impostos pelos sistemas cultural, social e econômico sobre o que pode, ou não ser feito do corpo.
No plano cultural, é sabido que ao longo de séculos o corpo foi visto sob a ótica do misticismo, isto é, para muitas culturas o corpo era, ou ainda é território sagrado e, portanto, quaisquer tentativas de entendê-lo seria uma profanação. Talvez por esta razão, a significância a ele atribuída ainda está pautada no signo do sagrado. Entretanto, questões sócio-econômicas em algumas circunstâncias assumiram papel imperativo na construção de um novo sentido para o corpo (exemplo são as mulheres do Oriente Médio que passaram a consumir produtos da moda e beleza ocidentais), vindo a questionar antigos paradigmas.
Randazzo (1997) ao tratar da questão de identidades e mitologias que se vinculam ao corpo feminino coloca em destaque dois pontos significativos para a compreensão do binarismo corpo/alma que forma a pessoa, a saber:

O desenvolvimento psíquico dos indivíduos sai de um ser indefinido e inconsciente, para chegar a um ser consciente de si mesmo (do ego). O desenvolvimento pessoal e a emergente consciência do ego servem para criar um sentido de identidade que ajuda o homem e a mulher a entenderem quem são e qual é o lugar deles na sociedade. Esta identidade é importante à medida que se produz um discurso sobre o corpo. (Grifo meu) (RANDAZZO, 1997, p. 23)

Para o Estado, a classificação e manutenção dos gêneros em masculino e feminino facultam o controle dos corpos, uma vez que tudo está organizado sob o signo da dicotomia e, por isso, o profissional da linguagem precisa se situar nas entrelinhas dos discursos que separam cada um dos gêneros, sob pena de perder a sintonia com os valores, sensibilidade e estilo de vida reivindicado por cada ser social. Para que isso não ocorra é fundamental que busca em nível profundo a alma e a psique de cada sujeito, isto deve ir além dos modismos estabelecidos pelo sistema, visto que este, por sua vez já cristalizou o que é o corpo masculino e feminino posicionando-os em seus devidos lugares de discurso, ou conforme que Homi Bhabha em seus “entre lugares de cultura”.
A consciência do corpo, sobretudo a do corpo feminino, segundo Jung ocorre no plano da inconsciência, isto é, ao corpo físico são justapostas imagens e símbolos advindas das experiências socioculturais diretamente repassadas pelos organismos de cultura, como, por exemplo, a religião, a escola e a família. “A psique inconsciente não chega ao conhecimento recorrendo à lógica e à razão, mas sim olhando para o cânone de simbolismo e imagética apropriados à pesquisa”. (Randazzo, 1997, p. 98).
Segundo Jung, “todo o material simbólico emana das camadas mais profundas do inconsciente coletivo que nos falam através de imagens arquétipicas. Elas não são o resultado da nossa consciência, esse aspecto da psique lógico ordenado. Ao contrário, os símbolos do mito são o resultado do trabalho intuitivo e inconsciente da psique humana.” (Randazzo, 1997, p.100). Assim sendo, os corpos masculino e feminino possuem ambos instinto agressivo, um instinto de guerra que é representado pelo arquétipo do Guerreiro. Então, “homens e mulheres também têm em comum o instinto materno representado pelo arquétipo da Grande Mãe. Nas culturas ocidentais, entretanto, alguns arquétipos estão associados a macho e fêmea, e acabaram determinando o que as pessoas consideram masculino e feminino, afirma Randazzo.
Neste ínterim, os corpos são visto pelos entes sociais como portadores de significados diferentes e, com isso, lhes atribuem sentimentos diferentes. Portanto, ainda impera a intolerância quanto à expressão de sentimentos; os homens são como os personagens que John Wayne representava nos seus filmes: sujeitos fortes e calados que agüentam firme sem chorar nem mostrar seus sentimentos. Já das mulheres espera-se que seja como Donna Reed, mães dedicadas que vivem para os filhos e os maridos; Grande Mãe, pois suas virtudes nascem basicamente da doação do próprio corpo: nutrição, proteção e amor incondicional.
Conforme Hill (1992) os corpos masculino e feminino são formatados sob signo de estático e dinâmico. Já Neumann ao tratar do arquétipo do corpo feminino estático centraliza o corpo da mulher a partir da imagem metaforizado barco. “mulher=corpo=barco correspondendo àquilo que talvez seja a mais fundamental experiência do feminino da humanidade – do homem assim como da mulher. “O aspecto estático do princípio feminino tira a sua imagem básica do útero – escuro, úmido, aconchegante e apegado ao que está se desenvolvendo dentro dele” (Hill, 1992, p.4).
Diante disso, a sociedade e seus entes individuais e coletivos vêem o corpo feminino sob o signo da proteção ofertada pela Grande Mãe. Esta por sua vez é construída pela “imagem feminina universal que mostra a mulher como eterno ventre e eterna provedora. É uma imagem que existe desde o começo dos tempos e me todas as culturas (.” Randazzo, 1997, p.103).
Segundo Bachofen (1992, p. 79), a mulher sob o signo do corpo protetor mantém desde os tempos pré-helênicos o “amor maternal” superior ao paternal, visto que este veio a ser reconhecido posteriormente por causa da ordem moral estabelecida pela sociedade.

Os homens primitivos ficavam certament impressionados com o amor todo especial entre a mae e seu filho. Talvez por isso é que apesar da sua maior força física os homens primitivos temiam e adoravam a mulher. Praticamente todas as culturas pré-helênicas adoravam deusas e eram matriarcais, com maior parte da riqueza e do poder passando de mãe para filha. (BACHOFEN, 1992, p.79).

Dessa maneira, evidencia-se, portanto a importância do arquétipo da Grande Mãe relacionada ao corpo feminino, visto que metaforicamente a mulher representa nesta perspectiva a Deusa Terra, conforme assegura a seguir Bachofen:

A superioridade da mulher em relação ao homem despertou mais particularmente a nossa surpresa devido à sua contradição em relação à força física. As leis da natureza outorgam o cetro do poder ao mais forte. Se mãos mais fracas o tirarem dele, quer dizer que outros aspectos da natureza humana foram acionados, forças mais profundas fizeram sua influência ser sentida (BACHOFEN, 1992, p. 85)

Já Jung o arquétipo da Grande Mãe representado no corpo feminino “tem a ver com um lugar de origem, com a natureza... Também significa o inconsciente, a nossa vida natural e instintiva, o reino fisiológico, o corpo em que moramos ou estamos contidos; pois a ‘mãe’ também é a matriz, o molde oco, o barco que transporta e alimenta, e, do ponto de vista psicológico, representa, portanto os alicerces da consciência.” (Jung, 1985, p.158).
Assim sendo, todo signo de grandeza e proteção que acolha, defenda e alimente outra coisa menor ou desprotegida, segundo Jung pertence ao primordial reino do matriacardo. Por isso o estudioso relaciona o corpo feminino ao da Deusa Terra. Nesta perspectiva, Randozzo (1997) chama atenção para o fato de que “nas culturas pré-tecnológicas adorava de alguma forma deusas da terra. A terra é sentida como uma Grande Mãe que, com sua generosidade, sustenta e alimenta todas as criaturas.” (idem) A exemplo, tem-se na mitologia grega a deusa Gaia era vista como a própria terra.
O corpo feminino na nas culturas pré-tecnológicas era visto pelo o homem como ser maligno, porque sangra em ciclos periódicos coincidentes com as fases da lua. Isto conforme informa a discípula de Jung. Esther Harding era e ainda é fruto da dicotomia força-sensibilidade a qual é formatada no plano dos mistérios femininos que acabam “enfeitiçando” os homens.

O “animal” feminino, longe de rejeitar as solicitações do macho no período do cio, deseja e procura a sua companhia. Nenhum tabu refreia a fêmea no exercício dos seus encantos. Todos os machos da espécie chegam de longe para ficar perto dela e são capazes de pensar em qualquer outra coisa enquanto ela continuar naquelas condições. Qualquer um que tenha tido uma cadela conhece bem a força do “espírito maligno” pelo qual ela fica possuída, Os machos que procuram por ela esquecem o sono a comida e negligenciam os seus “deves” na suas próprias casas. Ficam, de fato, enfeitiçados. (HARTING, 1990, p.60).

O reconhecimento desse poder atribuído ao corpo feminino veio ocorre na modernidade, momento que se aceitou tal aspecto da feminilidade da mulher. Todavia, ainda se usa este fenômeno feminino contra as próprias mulheres, numa tentativa de prova que elas [mulheres] são portadores de irracionalidades e incapacidades de controlar os seus próprios comportamentos. Em 1486, um frade dominicano concluiu que: “toda bruxaria vem da luxuria carnal, que nas mulheres é insaciável”. (Kors e Peters, 1976, p.127).
Infere-se, portanto que, o corpo feminino sob o olhar masculino é o signo do mistério e, por isso merece atenção à suas ações, embora fique explícito que ao mesmo tempo em que os homens adoravam, receavam o poder sedutor da sexualidade da mulher, uma vez que tal sexualidade era vista operando tanto no plano cósmico – humanidade surgindo do útero original da mãe natureza – quanto ao nível mais pessoal – o individuo nascendo do ventre da sua mãe biológica – deve ter sido um choque e tanto. A “mãe” terna e carinhosa que gerou ambos também tinha um lado escuro insensível e frio. (A exemplo disso, se tem a tragédia de Sófocles, Édipo Rei, na qual a mãe atendendo aos pedidos do marido desfaz-se do filho, mais tarde vindo a ter com ele três filhos).

Considerações

Efemeramente, conclui-se que o corpo, sobretudo, o feminino na cultura e sociedade atuais, embora tenha havido grandes lutas feministas na década de 1970, até hoje, ainda é visto como um signo ambivalente, pois carrega consigo significado de pecado, pois sua beleza e capacidade de proteção ameaçam a integridade moral e religiosa do homem, colocando o corpo dele em estado de pulsão, em que o desejo o torna irracional e irresponsável quando abatido pelo poder de mulher fatal. A exemplo disso, se tem no inconsciente coletivo a imagem de Marlene Dietrich, personificada por “Lola-Lola, a sedutora dançarina de cabaré de cartola e meias de seda que ela retratou em Anjo azul, a de uma mulher liberada que escolhe os seus homens, ganha a sua própria vida e considera o sexo um desafio. O público ficou encantado com esta criatura saída da experiência de ninguém mas da imaginação de todo o mundo”. (New York Times, 1992, p. A1 apud Randazzo, 1997, p. 120).
Assim sendo, o homem deseja, porém receia o corpo feminino em sua essência por medo de ser tragado pelo limo primordial, de ser devorado pela libertina, insensível força procriadora da Grande Mãe. Embora inconscientemente saiba que a mulher fatal é uma ficção, mas uma extrapolação de realidades biológicas das mulheres que permanecem constantes. (Paglia, 1990, p. 14).

Referências

CHAUÍ, Marilena. Repressão sexual essa nossa desconhecida. 12. São Paulo: Brasiliense, 1991.
FOUCAULT, Michel. Historia da sexualidade: vontade de saber São Paulo, Graal 1985.
_________ Historia da sexualidade: o cuidado de si. São Paulo, Graal 1985.
GIDDENS, Anthony, A transformação da intimidade, São Paulo: Editora da Unesp, 1993.RANDAZZO, Sal. A criação de mi

COMISERAÇÃO

Na carícia de teu olhar
Dispo a alma a contemplar-te.
E na lassidão de querer...
Afogo-me na fonte de seu prazer


Entorpecido na torrente de carinho
Que dele nasce fico mesquinho
E assim a quero toda em mim.


Os teus olhos escondem a solidão
Penetrante que me hipnotiza
Sem a menor compaixão.

Vitimado por teu nobre olhar
Sinto ao mirar em sua direção
O corpo se afastando da alma,
Logo entra em convulsão...


03 de maio de 2008, 21h24min.
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 2 de maio de 2008

CARÊNCIA SUA

Não importaria se o tempo voasse
Queria ficar com você numa boa
N campo, na cidade se lá onde fosse.

Não suportaria
Afastar-me de você.
Nem que fosse ao mar de calmaria.

Gritar seu nome a toda voz
Não me incomodariam os ouvidos
Silenciá-lo à minha boca,
Isto sim, me mataria.

Sua ausência me magoa
Tanto que o coração ecoa
Brados tristes ao infinito...


02 de maio de 2008, 22h51min
Robério Pereira Barreto

A VOZ DO LEITOR DO POETA DA SOLIDÃO

Este postagem tem um quê de especial porque se trata da voz metonímica dos que lêem esse humilde espaço poético e, por sua vez, apreciam minha produção literário.

"Ai, ai.... seu blog está lindo, fiquei realmente... "embevecida?" ao ler todos as suas poesias... não sei lhe dizer qual deles é o mais belo, porém os que mais tocaram meu coração sem dúvida foram Iniqüidade e Fim do Caminhar... nossa seus versos parecem ter lido os sussurros do meu coração por toda uma vida... Amei. Parabéns poeta."
Obrigado a todos!

INIQÜIDADE

Como o vento que penetra
No dificultoso galho da favela
Para refrescar a flor que brota
Inocente entre venenosos espinhos,
Sua alegria penetrou esse coração,
Ferindo-o sem compaixão.

Preso à tentação de sua beleza,
Ele se prostra aos seus pés
Clamando por uma migalha,
Embora tenha a fartura diante de si.

Soberba com a flor protegida
Pelos espinhos cheios de veneno,
Simplesmente ignora e
Em pequenos pedaços o esgarça...

E agora o que a gente faz?
Ama ou o deixando em paz,
Porque se for além com isso
Não dará outra, o matará!

02 de maio de 2008, 02h12
Robério Pereira Barreto

IMPROFÍCUA BEATITUDE

Quero dividir contigo
O silêncio ruidoso
Que faz esse coração
Aflito se esconde em si mesmo

Esfalfando-me nos meus medos
Golpeio-me com a lança da solidão
Para expurgar da alma os desejos vãos...

O silêncio testemunha e grita a toda voz:
Improficua atitude de privar o corpo e alma
De sentir prazer escondendo na vã beatitude!

Confuso, compartilho esse imenso
E desvairado mundo silencioso
Que ao me angustiosamente me alivia.

02 de maio de 08, 00h51min.

Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 1 de maio de 2008

RESISTINDO...

No meu querer a ti
Passei por tormentas,
Naufrágios interiores...

Lutei contra mim mesmo,
Admirando sua beleza
Vaguei entre meus vazios
E com dor na alma sofri a esmo.

Solto o pensamento vacila
Ao pisar no lado de fora de si
Fica perdido à luz do devir...

Agora tudo há um pouco de ti
Sinto falta de sua companhia
E sorriso e boca banhando
O corpo de ardentes beijos...

01 de maio de 2008, 22h40min
Robério Pereira Barreto

PERAMBULAR

No marchar da vida,
A cada passo o caminho modifica...

Então, o coração em desalinhado;
Andarilho sem destino percorre
O Universo feito menino solto
Na rua em dia de fria chuva
A fazer cascata de alegria.

Nessas loucuras de andanças
Sem rumo de direção
É livre feito criança
Porém, às vezes, não sabe escolher
A melhor ladeira a descer...

Perdido, fica submisso
Às vontades do malvado devir
Que aproveitando de suas incertezas
Maldosamente se diverte
Ao vê-lo desvairadamente sofrer
Entre a madrugada e o amanhecer...

01 de maio de 2008, 17h17
Robério Pereira Barreto

FIM DO CAMINHAR

Nada pior do que acordado sonhar
Com alguém que se escolheu
Para na eternidade da alma se entregar
E, de repente, tudo se dilui no ar.

Desperto dessa infame emoção
Procurando algo para segurar,
Não encontro, tudo é ilusão
As mãos inertes não podem lhe alcançar.

Sozinho, não tenho a quem reclamar;
Ao longe surge à sombra um pouco de ti
A perseguir...

Agora é hora de não mais
Esse caminho trilhar
porque caminhei nele até cansar.

01 de maio de 2008, 12h19
Robério Pereira Barreto

ABRAÇANDO O SILÊNCIO...

No agito silencioso da alma
Sua ausente presença
É-me preciosa; acalma-me.

Maliciosamente suas mãos
Navegam a preencher os vazios de mim,
Que tomam conta de tudo aqui
Sem ao menos eu permitir.

Abraçado no silencio sozinho penso:
Será que tudo isso é por que
Tem que ser você
Para meu peito encher
De alegria e prazer?

Não dar para negar
Que abraço o silêncio
Por medo de te esquecer...

01 de maio de 2008, 11h52
Robério Pereira Barreto

quarta-feira, 30 de abril de 2008

ANOITECI EM VOCÊ

Naquela noite...

O amor tomou conta do meu céu
Ao tê-la em mim por instantes mil,
Quando deixamos cair o véu
Que nos cegava a paixão.

Sem ti em aqui
Cerro os olhos
Para voltar àquele momento;
Quando em gritos éramos
Levado ao prazer infinito...

Livres, porém distantes
Retorno aos instantes
Em que sua boca suave
Deliciava a mim como...

30 de abril de 2008, 12h19
Robério Pereira Barreto

domingo, 27 de abril de 2008

RASTRO DE MIM

Como a aranha que deixa
Nos fios da teia
Parte de sua vida...

Este ser deixa no caminho
Por onde passa rastro
Pensando em retornar um dia
À paixão cheia de galardia,
.

Então, o coração em arritmia
Descompassadamente marca
A hora do reencontro...



27 de abril de 2008, 20h41
Robério Pereira Barreto

DEPOIS DA PARTIDA

Qual beija-flor na primavera
Saboreia a vida da flor
Osculei sua boca
E trago comigo seu sabor...

Entre as muralhas da separação
Há em mim um pouco de ti
Porque insone fecho os olhos
E a tenho no fundo na memória.

Agora, restam-me as horas
Que nos separam do crepúsculo
Nevoento à brilhante e cheirosa aurora.

Boca e olhos fechados degustam
Nossos últimos momentos,
Quando entre medo e volúpia
Éramos apenas almas juntas.

27 de abril de 2008, 10h55
Robério Pereira Barreto

sábado, 26 de abril de 2008

MÓRBIDO DESEJO

Moribundo e perdido na (in)maginação,
O silêncio ecoa gemidos fúnebres da alma,
Levando o corpo à contrição.

(Des) pedaçado pelo vento do devir
Que sopra labaredas fumegantes;
O cadáver nu é chamuscado pela
Indiferença da in(decisão)
Impossibilitado não reage, chora.

No relento da solidão
Queima-se em lágrimas
Como se fosse vulcão
Chorando a dor da seperação.

A maresia que cai aumenta
As chamas da (dês) ilusão.

Mórbido desejo, ou dor da separação?

26 de abril de 2008, 00h31
Robério Pereira Barreto