sexta-feira, 20 de junho de 2008

OS EMBARAÇOS DO PROFESSOR DE LÍNGUA PORTUGUESA NA DIVERSIDADE TEÓRICO-METODOLÓGICA


Robério Pereira Barreto – UNEB- Campus XVI

RESUMO: Neste trabalho serão apresentados os nós do ensino da gramática na escola, tendo por objetivo observar como os professores têm ensinado a Língua Portuguesa na sala de aula, e as concepções modernas de linguagem. Uma vez que tem havido indecisão dos profissionais da língua(gem) na hora de atuar em sala de aula, ficando, portanto, sem saber se agem conforme metodologias advindas da lingüística moderna ou, se agem de acordo com o tradicional ensinamento da gramática. Ao fazemos um breve levantamento histórico do ensino de Língua Portuguesa, buscando compreender como se processam as atividades de aquisição de lingua(gem) na escola, e as concepções dos professores frente ao ensino gramatical tivemos as mais díspares acepções sobre a aquisição do idioma nacional. Por outro lado, temos ainda a questão do preconceito lingüístico presente na sociedade que privilegia os ordenamentos da escrita, buscando desmistificar os mitos que envolvem o ensino de Língua Portuguesa. É relevante observarmos o processo histórico da Língua Portuguesa em nosso país, mesmo porque é uma língua de civilização, visto que os primeiros habitantes das terras brasileiras, os índios, eram falantes de línguas indígenas como o tupi, guarani, entre outras. No Brasil, as variações lingüísticas presentes na oralidade divergem das raízes do português culto, essencial para a língua escrita. O problema do ensino do padrão só se põe de forma grave quando se trata do ensino padrão a quem não o fala usualmente...” (POSSENTI, 1996: 17), e este tem sido um dos fatores negativos para o êxito do ensino da Língua Portuguesa. Outro problema freqüente no ensino de Língua Portuguesa é a confusão gerada em torno da gramática, confunde-se ensino da língua com o ensino da gramática. As evidências apontam para a necessidade de uma reestruturação do ensino de Língua Portuguesa criando meios para que os alunos se tornem bons falantes e escritores do idioma.
Palavras-chaves: Língua Portuguesa; Ensino; Professor; Diversidade Lingüística.


Introdução

Neste trabalho serão apresentados os “nós” do ensino da gramática na escola, tendo por objetivo observar como os professores têm ensinado a Língua Portuguesa na sala de aula, e as concepções modernas de linguagem. Uma vez que tem havido indecisão dos profissionais da língua na hora de atuar, ficando, portanto, sem saber se agem conforme as metodologias advindas da lingüística moderna ou, se atum de acordo com o tradicional ensinamento da gramática.
Um dos fatores que ocasionam esses impasses é a falta de conhecimento mais aprofundado das novas teorias lingüísticas. A maioria dos professores, principalmente, os que estão a mais tempo em sala de aula, crêem que a maneira tradicional é a mais eficiente e segura para o ensino da língua. Isto demonstra a falta de acesso a uma reclassificação dos saberes e, por conseguinte, conhecimento sobre outras metodologias.
Assim, esse trabalho propõe que a gramática seja trabalhada dentro de um contexto real da linguagem, para uma melhor aquisição da competência lingüística do aluno.
Ao fazemos um breve levantamento histórico da Língua Portuguesa, buscando compreender como se processam seu ensino na escola e as concepções dos professores frente ao ensino gramatical, tivemos as mais díspares acepções sobre a aquisição do idioma nacional. Por outro lado, notamos ainda, a questão do preconceito lingüístico presente na sociedade, a qual privilegia os ordenamentos da escrita, buscando desmistificar os mitos que envolvem o ensino de Língua Portuguesa.
Pesquisa qualitativa realizada com os professores buscando compreender o que é importante para o ensino de Língua Portuguesa, bem como observando a visão de cada um sobre o ensino da gramática e que metodologias devem ser adotadas para que os alunos tenham uma compreensão ampla da língua e desenvolvam suas habilidades orais e escritas nos mais variados meios sociais, demonstra a obstinação do profissional em aceitar os ditames do ensino gramaticalista, em detrimento de uma sistematização dos elementos sociolingüísticos trazidos pelos estudantes ao universo da sala de aula.

Como se processa o ensino de Língua Portuguesa na escola

É relevante observarmos o processo histórico da Língua Portuguesa em nosso país, mesmo porque é uma língua de civilização, visto que os primeiros habitantes das terras brasileiras, os índios, eram falantes de línguas indígenas; o tupi, guarani, etc. A Língua Portuguesa chegou ao Brasil através das grandes navegações, trazida pelos colonizadores portugueses, pioneiros náuticos, sendo utilizada como meio de comunicação entre europeus e asiáticos, e estabelecendo-se no Brasil por meio do processo de civilização das nações indígenas e, mais tarde o idioma africano.
Segundo Bearzoti (2001), a Língua Portuguesa hoje é idioma oficial de oito nações, sendo a sexta língua mais falada no mundo, com quase 200 milhões de falantes, “é hoje uma língua culta de dimensão internacional e intercontinental, falada nos cinco continentes”. Entretanto, por ser uma língua falada em países pobres e subdesenvolvidos acaba por não ter a expressão mundial que deveria.
No Brasil, as variações lingüísticas presentes na oralidade divergem das raízes do português culto, o qual é essencial para a língua escrita. O ocorre que para a maioria da população esta língua culta torna-se distante e confusa, passível de contato apenas na escola e nos meios de comunicação formais. Neste caso, podemos observar que a língua falada pela grande massa populacional difere do português padrão, ensinado na escola, o que dificulta o processo de ensino e aprendizagem dos estudantes de classe populares. “... o problema do ensino do padrão só se põe de forma grave quando se trata do ensino padrão a quem não o fala usualmente...” (POSSENTI, 1996, p.17), e este tem sido um dos fatores negativos para o êxito do ensino da Língua Portuguesa. Outro problema freqüente no ensino de Língua Portuguesa é a confusão gerada em torno da gramática; confunde-se ensino da língua com o ensino da gramática. Aquela geralmente marcada pelo uso de livros e manuais didáticos, partindo de metodologias tradicionalistas que vêem a língua dissecada em partes gramaticais, nunca como um todo significativo.
Este ensino gramaticista tem sido alvo de críticas e questionamentos, sendo culpabilizado pelo fracasso escolar. As evidências apontam para a necessidade de uma reestruturação do ensino de Língua Portuguesa criando meios para que os alunos se tornem bons falantes e escritores do idioma. Segundo Luft (1997) o ensino gramaticalista tende a abafar os talentos naturais, gerando aversão ao estudo da língua e incutindo insegurança, ou seja, reprime a expressão livre e autêntica do usuário do idioma nacional.
Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa (PCN/LP, 2000), a Língua Portuguesa tem sido marcada por uma seqüenciação de conteúdos, em que primeiro ensina-se a juntar sílabas para formar palavras, palavras formar frases e frases textos, porém este ensino descontextualizado serve somente para o aluno aprender a decodificar signos.

Se o objetivo é que o aluno aprenda a produzir e a interpretar textos, não é possível tomar como unidade básica de ensino nem a letra, nem a sílaba, nem a palavra, nem a frase que, descontextualizadas, pouco tem a ver com a competência discursiva...(PCN/LP, 2000, p. 35).

Compreendemos que neste contexto que o uso da língua tem que levar à capacidade de se produzir discursos orais ou escritos, adequados à comunicação em espaços específicos, formais - escrita, informais, conversas no cotidiano.
Mesmo com a existência de discussões teóricas e críticas sobre o ensino da Língua Portuguesa observa-se que mudanças efetivas ainda não ocorreram na escola. Em verdade, pode-se dizer que o professor de Língua Portuguesa se encontra num completo dilema, entre o novo e o tradicionalista, não conseguindo definir-se sobre o que ensinar. E assim, acabam por aceitar os livros didáticos e modelos de antigos professores tradicionalistas, sem contar aqueles que valorizam o ensino da gramática na escola para a preparação do educando para os possíveis vestibulares, concursos públicos, etc.
Com tais inquietações surge à necessidade de uma analise reflexiva sobre como tem se desenvolvido o processo de ensino da língua materna e como deve ser de fato este ensino. Verificando a problemática aqui levantada, observa-se que este ensino pautado nas regras gramaticais não tem alcançado os reais objetivos, que é levar o aluno a adquirir competências lingüísticas orais e escritas, mesmo porque não se levam em consideração os seguintes aspectos: “...Como aprendemos a falar? Falando e ouvindo. Com aprenderemos a escrever? Escrevendo e lendo, e sendo corrigidos, e reescrevendo, e tendo nossos textos lidos e comentados muitas vezes, com uma freqüência semelhante a freqüência da fala e das correções da fala...” (POSSENTI, 1996: 48).
Se o ensino da Língua Portuguesa só se preocupa com as questões gramaticais, sem dúvidas, a aprendizagem da língua, em si, acaba ficando em segundo plano, e o educando com a idéia de que não domina a língua materna. Para Luft (1997), o professor tradicionalista não considera que todo falante nativo sabe sua língua precisa apenas desenvolvê-la e praticá-la em outros níveis, enfim, parte do pressuposto de que o aluno não sabe a língua, e que cabe a ele ensiná-la.
Enquanto que, o ensino voltado para as questões lingüísticas exige do professor um posicionamento flexível e de valorização cultural do aluno, levando em consideração as particularidades e o contexto social em que este se encontra inserido.


O que a Lingüística traz de positivo ao ensino de línguas são as noções fundamentais de linguagem e língua, de variedades e registros; a noção de que não há língua que não evolua; a noção de que o uso e os fatos devem prevalecer sobre preconceitos normativistas – sobretudo, a noção de que a língua é um saber interior, pessoal, dos falantes, de onde o ensino deve partir e em que deve, sempre, se basear. (LUFT, 1997: 97)


No processo de ensino em que se observam os preceitos lingüísticos o professor jamais deve colocar o aluno num grau zero de conhecimento, mesmo porque deve se observar à gramática internalizada desenvolvida pelo falante. “Esse sistema de regras que os falantes internalizam na infância é que constitui a verdadeira gramática da língua, a legítima e autêntica, da qual todos os demais (livros, teorias de gramática, filólogos e lingüistas, etc) não passam de reproduções...” (LUFT, 1997: 97)
Infelizmente, a realidade do ensino de Língua Portuguesa não prima em sua totalidade pela utilização dos aspectos lingüistas, quando muito mascaram o ensino gramaticalista, ou seja, propõem-se atividades que deveriam levar a uma prática lingüista, mas que acabam servindo de pretexto para o estudo gramatical, podendo assim ser exemplificado com as boas e velhas interpretações textuais, tem-se o texto, mas que acaba não sendo observados os aspectos semânticos e discursivos presentes no mesmo, mas sim as famosas classes gramaticais.
É necessário desatrelar o ensino da Língua Portuguesa do ensino gramatical, para Possenti (1996), tal modificação poderá ocorrer quando as escolas se derem conta de que estão ensinando aos alunos o que já sabem, a gramática inerente a todo nativo, a qual a escola precisa levar em conta, para a partir daí trabalhá-la em outros níveis, inclusive desenvolvendo as habilidades lingüísticas orais e escritas, privilegiando a palavra escrita, mas não diminuindo a importância das características da oralidade para compreensão do processo de ensino.


1.2 - O Professor e suas concepções de ensino gramatical


Todo ensino tem muito haver com as concepções que o professor possui, no caso do ensino de Língua Portuguesa não é diferente. Se o professor possuir uma visão restrita de ensino, atrelada apenas a aspectos gramaticais, sua prática enquanto professor também será restrita, passando a incutir em seus alunos os mesmos valores que possui, muitas vezes reproduzindo insegurança e servilismo. “Em se tratando da área de Língua Portuguesa, o professor também terá outro papel fundamental: o de modelo. Além de ser aquele que ensina os conteúdos, é alguém que pode ensinar o valor que a língua tem...” (PCN/LP, 2000: 48)
O trato dado à língua pelo professor é essencial para o bom desenvolvimento da prática pedagógica e do sucesso de ensino aprendizagem. Se o professor habitua-se ao comodismo dos currículos prontos e bitolados, que não consideram a língua como uma unidade viva e dinâmica, sem dúvida, o ensino não atingirá níveis de compreensão e domínio pelo estudante.
Para Luft (1997), propor um ensino diferenciado requer do professor segurança e competência, bem como estar informado sobre o que há de novo em teorias de linguagem, isto não significa ensinar ao educando tais teorias, mas sim para que ele produza práticas de estudos para o domínio da língua, observando os reais objetivos do ensino da Língua Portuguesa.


Os objetivos de Língua Portuguesa salientam também a necessidade de os cidadãos desenvolverem sua capacidade de compreender textos orais e escritos, de assumir a palavra e produzir textos, em situações de participação social. Ao propor que se ensine aos alunos o uso das diferentes formas de linguagem (oral e escrita), busca-se o desenvolvimento da capacidade de atração construtiva e transformadora. O domínio do dialogo na explicitação, discussão, contraposição e argumentação de idéias é fundamental na aprendizagem da cooperação e no desenvolvimento de atitude de autoconfiança, de capacidade para interagir e de respeito ao outro. A aprendizagem precisa então estar inserida em ações reais de intervenção, a começar pelo âmbito da própria escola. (PCN/LP, 2000:46)


É natural que haja dificuldades em se propor um ensino que observe tais características, pois isto requer esforço e dedicação por parte do professor, assim como uma formação profissional adequada, bem como propiciar atividades que envolvam os alunos e os demais participantes do processo educativo. Em muitos casos o que dificulta a melhoria do ensino de língua materna é esta indisposição do professor em comprometer-se com as exigências que este processo requer, algumas vezes, por ser muito mais cômodo fazer uso do livro didático, e em outros casos por não compreender criticamente as teorias modernas da linguagem.
Aos professores de Língua Portuguesa, profissionais cuja responsabilidade é formar leitores e escritores competentes, o apego demasiado ao uso de regras e normas gramaticais só distancia seu objetivo de trabalho, para Louzada (1998, 19) “trata-se primordialmente da mudança de postura do profissional de ensino em relação a concepção de linguagem e do que é ensinar língua materna”, sem esta abertura à novas concepções de ensino fica impossível pensar numa transformação no ensino de Língua Portuguesa.
1.3 - O descompasso entre as teorias e as práticas de ensino da gramática


Segundo Faraco (2001), as teorias que definem a linguagem sob três aspectos diferentes são: a Filologia, a Gramática e a Lingüística. Sendo a filologia e a gramática criadas pela cultura helenística, enquanto que a lingüística é uma ciência moderna. A filologia estuda as manifestações escritas de culturas antigas, cujo objetivo é fixar esses textos de maneira confiável e mais próxima possível do original, isto envolve desde a comparação de manuscritos e diferentes edições de textos (após a invenção da impressa), até o estudo das palavras e seus respectivos significados. Para o autor, a gramática é uma espécie de livro de etiqueta que dita as regras de escrita, e o gramático aquele que se ocupa em estabelecer as normas do uso da escrita. Enquanto que a lingüística tem como objeto à própria língua, o lingüista preocupa-se com todos os fenômenos lingüísticos em torno do uso da língua, não se prendendo ao uso culto, mas estuda toda e qualquer manifestação escrita. Com relação a isto, há muitas divergências contra o trabalho do lingüista, pois afirmam que este não valoriza o uso padrão da língua, informação esta que não procede, aliás, foram eles que descreveram-na da melhor maneira.
Em se tratando de lingüística é indispensável recorrer aos estudos de Avram Noam Chomsky, lingüista americano, nascido em 1928, e que em 1950 elevou sua pesquisa sobre linguagem ao nível científico, tendo como ponto central à capacidade inata do ser humano em comunicar-se.
Para Luft (1997) a teoria de Chomsky determina que o ser humano nasce provido de uma capacidade inata para a linguagem, que é ativada pelo meio social, ou seja, ninguém nasce com a gramática de uma determinada língua, mas sim com uma estrutura genérica que serve como base para aprender as estruturas específicas de qualquer língua.

Não foi por escolha nossa que adquirimos o idioma que falamos: ele simplesmente se desenvolveu em nossa mente em virtude da nossa construção interior e do meio ambiente em que vivemos. [...] para cada um de nós, a língua se desenvolve em conseqüência de nossa constituição atual, quando somos colocados no meio ambiente apropriado. (Chomsky, 1981:18-9 IN: LUFT, 1997:56)


A linguagem vista pelo prisma da teoria chomskyana não pode ser considerada tão complexa como faz crer o ensino tradicionalista, o grande problema é que o ensino tradicional não considera essa gramática natural do falante, mas somente aquela aprendida através dos livros. “O mais importante é compreender que qualquer pessoa quando fala não faz isso sem “regras”. Ela pode estar violando uma “regra” da língua padrão, da língua de cultura, da gramática da linguagem formal, mas não viola a “regra” da sua linguagem, da sua própria gramática” (LOUZADA,1998:20)
É importante lembrar que a gramática natural de cada indivíduo é aquela que norteia a fala, a oralidade, entretanto deve servir como base para a expressão de processos comunicativos mais elaborados. Segundo Luft (1997) é sob essa base que o professor irá construir sua prática, juntamente com o aluno, de forma realista, útil e produtiva. E assim é preciso que o professor observe a gramática internalizada que cada aluno traz para a sala de aula, bem como o contexto social e as características de sua formação, e é partindo das distâncias que a linguagem dele apresenta da língua culta, o professor vai sustentar seu trabalho, agindo assim estará rompendo com o paradigma; o estudante ao ingressar na escola encontra-se no grau zero de conhecimento da língua.
Dessa maneira o que se ver é a imposição do “realismo lingüístico é indispensável ao professor: a língua (e a gramática) é como é, não como deveria ser, como o professor queria que fosse, como os gramáticos pretendem impor que seja, presos a modelos do passado” (LUFT, 1997:67).
Ao observarmos a língua e sua estrutura com de fato se apresenta, concebendo-a na sua plenitude, e não a distanciando da oralidade, meio pela qual a utilizamos constantemente, torna-se menos complexo propor um ensino que valorize a língua e respectivamente o seu usuário, sem se prender aos processos inflexíveis das gramáticas normativas, ou o chamado “absolutismo gramatical” como define Luft (1997:67).
Na verdade a grande dificuldade em se desvencilhar desse absolutismo gramatical está no fato de pouco se conhecer a realidade do ensino lingüista, de não se compreender criticamente as teorias da linguagem, ou pior não produzir posicionamento ou argumentação frente a estas teorias. “É urgente que o professor de língua materna seja tecnicamente bem preparado, com sólida fundamentação lingüista, para termos um ensino mais eficiente, adequado à realidade do país, dos alunos e da escola”. (LUFT,1997:70)
No tocante a este assunto, é que se faz a relação do descompasso entre as teorias e práticas do ensino da gramática, pois mesmo com todo o avanço da lingüística, percebe-se uma carência assombrosa de práticas de ensino que primem pelo aspecto natural da linguagem, e isto está intimamente ligado à formação profissional do professor e suas concepções de linguagem, bem como de aspectos ligados a sua dignificação profissional.
A condição financeira também influi muito na atualização, motivação e no próprio desempenho do seu papel de professor. É necessário que seja dado ao professor suporte teórico, emocional e financeiro para que este desempenhe um ensino qualitativo de Língua Portuguesa.


O professor de língua materna deve ser um profissional especializado e competente. E bem remunerado para que possa atuar e reciclar constantemente, comprar livros e revistas, e dispor de todo o tempo necessário nessa tarefa difícil, mas do maior interesse num país que deseje conscientizar, libertar e dignificar seu povo. (LUFT,1997:70)


À tarefa que cabe ao professor de língua materna é árduo e espinhoso, propor um ensino que conscientize e liberte lhe exige muita força de vontade e disposição, além de estar preparado para enfrentar todos os obstáculos possíveis, tanto teoricamente, quanto emocionalmente.
É preciso compreender, entretanto, que não significa que o professor deva trabalhar as teorias gramaticais em sala de aula, mas conhecê-las e gerar posicionamentos para fazer o confronto destas com a realidade de seus educandos. Mas, infelizmente, este é que tem sido o drama do ensino da gramática nas aulas de Língua Portuguesa, acredita-se necessário utilizar suas teorias “a tradição sempre foi ser mais teórico que prático, mais normativo que descritivo, e distante da realidade” (LUFT,1997:71).
Geralmente também se confunde a idéia de se trabalhar na perspectiva da lingüística com “não trabalhar a gramática”, é comum ouvirmos comentários sob o desprezo dado à gramática normativa e que esta deveria ser rasgada ou queimada, isto é uma das confusões gerada pelo total despreparo e desconhecimento teórico da lingüística, pois esta vertente teórica condena a opressão gerada pelo ensino tradicionalista da gramática, não à gramática em si.
Para Luft (1997) a escola e os professores devem encarar com lucidez o fato de os alunos já chegam com uma gramática internalizada, entretanto com essa teoria deve-se trabalhar reforçando e ampliando para se chegar a outra teoria: a da gramática da língua culta, mesmo porque dentro do universo da linguagem as teorias não se excluem, mas se completam.
A escola como instituição de ensino e conhecimento tem a necessidade de compreender a linguagem e suas teorias, proporcionando aos professores o debate e as discussões sobre as praticas de linguagem, assim como dar suporte ao trabalho do professor. Isso implica numa revisão das práticas de ensino na instituição, até mesmo daqueles que fazem parte das outras áreas do ensino, não deixando a cargo somente do professor de línguas, mesmo porque de uma maneira ou de outra, todos utilizam a linguagem para desempenhar seu trabalho, “por isso, todas as disciplinas têm a responsabilidade de ensinar a utilizar os textos de que fazem uso, mas é a de Língua Portuguesa que deve tomar para si o papel de fazê-lo de modo mais sistemático”. (PCN/LP, 2000:31)
Se a função da escola e do ensino de Língua Portuguesa é auxiliar o aluno na aquisição das competências lingüísticas, não se pode tratar a linguagem como um conteúdo em si. Mas sim como um meio para melhorar a qualidade da produção lingüística, através de atividades que proponham a reflexão e o uso da língua, entretanto, é preciso que o professor tenha clareza e consciência deste trabalho.
O que há de mais prejudicial para o ensino de Língua Portuguesa é a incompatibilidade de concepções de ensino dentro de uma mesma instituição, gerando atritos e discussões que não levam a prática nenhuma, só o que se consegue é desestabilizar ainda mais o ensino.

Parece que estamos em guerra. Os gramáticos não concordam entre si. Os lingüistas brigam com os gramáticos tradicionais. Professores da mesma instituição não se entendem, vão aos jornais e expõem ao público os pontos discordantes a respeito do ensino de língua portuguesa. Jornais e revistas publicam artigos que dão aos leitores a impressão de que o ensino de português se tornou caótico. As brigas e mal entendidos nas suas manifestações multiformes, desorientam os professores que, nesta altura dos acontecimentos, se perguntam: o que fazer? O que ensinar? (STAUB, 2001:18)


É preciso então acentuar a necessidade do ensino da norma culta, o que se precisa ter claro é como ensiná-la, sem causar violências ou agressões lingüísticas, sem exigir que se perca os referenciais da língua não culta, ou seja, o ensino só deixará de ser excludente e confuso quando o professor tiver uma formação lingüística adequada que não exclua a importância dos demais ramos das teorias da linguagem.
E, isso exige da instituição e dos professores um planejamento da ação pedagógica de forma a garantir situações de aprendizagem que envolva os vários aspectos da língua, sendo trabalhado não somente pelos professores de língua materna, mas todo o corpo docente, até mesmo porque as responsabilidades pelo sucesso ou fracasso do sistema de ensino não deve recair sobre os ombros do profissional da área da linguagem.

Referências

BAGNO, Marcos. A Língua de Eulália: novela sociolingüística. 11ª ed. São Paulo: Contexto, 2001.
______________. Preconceito Lingüístico: como é, como se faz. 9ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2001.
BARRETO,Robério Pereira. Desvelando o sentido de ser professor de Língua Portuguesa no cotidiano da escola pública. Sapezal: 2005 (prelo)
BEARZOTI, Paulo.Revista Discutindo Literatura. Ano I Nº 02, pg 12-15.
LOUZADA, Maria Silvia Olivi. O Ensino do Português na Escola. IN: MURRIE, Zuleika de Felice (Org.) O Ensino de Português. São Paulo: Contexto, 1998.
LUFT, Celso Pedro. Língua e Liberdade. 5ª ed. são Paulo: Ática, 1997.
PCNS, Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa. Brasília, Secretaria de Educação Fundamental, 1997.
POSSENTI, Sírio. Por que (não) Ensinar Gramática na Escola. 10ª Reimpressão, Mercado das Letras: Associação de Leitura no Brasil, Campinas: São Paulo, 2003.
SALOMON, Délcio Vieira. Como Fazer Uma Monografia. 10ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
SILVA, Rosa Mattos e. Tradição Gramatical e Gramática Tradicional. 5ª ed. São Paulo: Contexto, 2002.
TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e Interação: uma proposta para o ensino da gramática. 9ª ed. rev. São Paulo: Cortez, 2003.

J Artigo a ser apresentado na Semana de Letras da Uneb – Campus XXIII – Seabra – BA.

O CIBERDISCURSO E O FENÔMENO DA DIVERSIDADE NA LÍNGUA EM GRUPO SOCIAL, INTERNAUTAS

Robério Pereira Barreto[1]

Sabemos que a partir de Saussure o caráter social das línguas tornou-se fartamente esclarecido. Até porque passamos a entendê-la como sistema de signos convencionais os quais auxiliam os membros de dada comunidade lingüística realizarem comunicação à sua maneira, cremos ainda que, a função dela seja cada vez mais fundamental para que as relações humanas se estabeleçam cada vez mais em tempo real. Por isso, a comunicação nas redes digitais tem sido cada vez mais acompanhada de procedimentos de pesquisa científica nos quais se ligam novas ciências e técnicas, especialmente a cibernética.
Com base nisso, Preti (2003) nos lembra que a sociedade e a língua mantêm relações amplas e, com isso, nos situa dizendo que:


Desde que nascemos um mundo de signos lingüísticos nos cerca, e suas inúmeras possibilidades comunicativas começam a tornar-se reais a partir do momento em que, pela imitação e associação, começamos a formular nossas mensagens. E toda nossa vida em sociedade supõe um problema de intercambio e comunicação que se realiza fundamentalmente pela língua, o meio mais comum de que dispomos para tal. (PRETI, 2003, p. 11)


Dessa maneira, situamos os ciberdiscursos[2] produzidos nas mídias digitais como elementos de justaposição dos signos, isto é, no meio digital, sobremodo na internete, os usuários da língua utilizam gestos, sons e imagens por meio dos quais são identificados e aceitos nas comunidades de fala. Neste sentido, entendemos a dinâmica social da língua na medida em que “é o suporte de uma dinâmica social que compreende não só as relações diárias entre os membros de comunidade como também uma atividade intelectual que vai desde o fluxo informativo dos meios de comunicação de massa até a vida cultural, científica ou literária.” (Preti, 2003, p.12).
Além disso, a língua é um fenômeno de interação por meio do qual os atores comunicativos atuam nos grupos sociais, elevando a realidade ao status de signos. Com isso a vida se manifesta em significantes verbais e não-verbais, sendo às vezes arbitrários com os quais se processam os fluxos da comunicação nas redes digitais, sobretudo, na internete.
Diante disso, inferimos que a produção de linguagem nos espaços virtuais onde a Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) se tornou ferramenta essencial, a produção lingüística ganhou caráter interdisciplinar, isto é, o homem comum, bem como poetas, sentiu a necessidade de ampliar seus campos comunicativos; para isso produzem enunciações cujos sentidos são aportados pelo enunciatário conforme seu lugar de fala e escuta na rede digital.
Assim sendo, vimos ao longo das últimas décadas do século passado, o nascimento e a expansão dos meios de comunicação de massa e, por conseguinte, a divulgação de pesquisas sobre o aumento de necessidades individuais e coletivas de aproximação dos saberes entre ciência e técnicas de produção de discurso. Isto tem sido realizado de maneira nunca vista antes, pelos usuários das salas de bate-papo, grupos e comunidades cibernéticas.
Há quem afirme ainda que essa geração de usuário da língua venha, à sua maneira, usando um código lingüístico baseado no processo fonético da língua. Desse modo, vai aos poucos fixando na consciência coletiva dos internautas, comportamentos lingüísticos que garantem a unificação do código, revelando os ideais da comunicação entre os grupos cibernéticos.
Para Perini esta questão é fruto de uma legislação, isto é, uma norma lingüística por meio da qual os usuários desse código [sala de bate-papo] acabam por eleger a “melhor maneira de comunicar-se dentro de seu grupo geográfico e social”. (PERINI, 2003, p. 47). Ainda conforme o autor:


...a partir do instante em que a comunidade aceita uma língua como seu meio primordial de comunicação, toda e qualquer variação lhe será prejudicial, motivo pelo qual a tendência é manter sua unidade, colaborando todos, consciente e inconscientemente, no sentido de sua nivelação, pois dessa maneira a compreensão será mais fácil, e a própria integração do indivíduo na cultura comum se dará com maior facilidade. (PERINI, 2003, p. 48)


Neste sentido, o caráter social da língua pretendido por Saussure se concretiza nos espaços digitais onde há uma constante manipulação da estrutura, sobremodo, no léxico e na fonologia em que são difundidas variações muito grandes. Estes aspectos serão mais detalhados quando forem analisados os excertos do corpus selecionado.
Em tese, a linguagem praticada pelos internautas no espaço cibernético é do ponto de vista social eminentemente urbana, portanto, supõe-se que seus usuários sejam de cultura média. De acordo com Perini isso contribui para a unificação dos falantes, bem como a divulgação de elementos da cultura e sociedades regionais, visto que tudo é posto num nível lingüístico em que todos se compreendem em todos os lugares do mundo.
[1] Professor de Linguagens e literaturas.
[2] Ver Barreto e Baldinotti Ciberdiscurso e interculturalidade na web. Tangará da Serra [MT], Editora Tangará, 2005.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

ALVOROÇO

Os brados de minha alma
Por seu amor
São como lágrimas descendo
Entre os montes da face
Em torrentes marciais
Ao encontro de ti;
Fazem barulho no peito
E sufocam o coração.

Passado a tempestade
E frieza da recepção;
A calmaria da saudade de ti
Fez-me refletir:
Sou feliz e...

Ó paixão, meu coração
Está em ebulição
A espera de nosso beijo
No qual estará o fim das mazelas
que separação e o tempo,
Por conta próprio nos impôs.

19 de junho de 2008, 17h08
Robério Pereira Barreto

domingo, 15 de junho de 2008

PEDIDO...

Um dia ao nascer entre
Dores e sofrimentos pedi:
Ó, céus fazei de mim um ser feliz!

Esse pedido foi congelado
Sinto que a fila não andou para meu lado
E o tal pedido arquivado.

Agora, o reintero, porém modificado
Ó, ceus fazei de mim uma pessoa
Com coração duro e espírito cruel.

Protege esse coração das armadilhas
E falsos amores que dele se aproxima
E preparar essa boca com o mais amargo do fel.

Tangará da Serra - MT, 15 de junho de 2008, 17h04.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

HOMIZIADO...

Em algum lugar
Esconde a felicidade
Onde estará o devir...

Porém, não sei ainda
Por onde seguir
Para encontrar
Um lugar feliz.

Certo estou de que
Homiziado no futuro
A cada dia sou.

Amanhã, depois de amanhã
E depois de depois de amanhã
Haverá algum lugar onde
Possa existir pessoa menos vã?


06 de junho de 2008, 21h58min
Robério Pereira Barreto

quarta-feira, 4 de junho de 2008

IDA...

Cá me vou às labutas
E às alegrias da liberdade
Em que de mal comigo fico
Porém não carrego maldade.

Cá me vou às brumas
E às gélidas noites do sertão,
Petrificando a alma para
Aquiescer com as dores da paixão.

Cá me vou aos saltos
E aos prantos inundando o planalto
Com as lágrimas das saudades.

Cá me vou e
Onde era campina de amor
A seiva da saudade pântano edificou.

Cá me vou às duras penas
Solitário sonhador.

04 de junho de 2008, 21h31min
Robério Pereira Barreto

terça-feira, 3 de junho de 2008

MAR DE PAIXÃO

A vontade de você
Sem poder a ter
Maltrata a alma
Que nem o mar de ressaca
Fere a face da praia.

Resignada, a alma
Refugia-se na imensidão
Azul do mar de lágrimas que,
A falta que faz essa paixão.

Em desejo de ti, a alma
Entra em guerras
Caminha por vales
Sobe serras e
Refugia-se nas águas densas
Desse mar de paixão.


03 de junho 2008, 11h57min.
Robério Pereira Barreto

segunda-feira, 2 de junho de 2008

CHAMADO DA PAIXÃO

A vontade de ti amar
Sem ressalvas me dar medo.
O coração palpitando veloz
Vira a alma pelo avesso.

Nego essa condição
Mas, o peito em forte atração
Obscurece os sentidos...

Compelido pelo desejo de te...
Puno a carne em chamas,
Negando-te de maneira insana...

Aos poucos apago fogueira
Que nesse ser inflama;
Ai denega a paixão que é chama...

02 de junho de 2008, 23h23min
Robério Pereira Barreto

domingo, 1 de junho de 2008

ÚLTIMO BEIJO

Como queria poder abafar meu coração
que não pára de gritar em tom grave
que não posso sem ti viver!

Mas não consigo, pois sua presença é real
e imprescindível para mim como o oxigênio
que alimenta e faz crescer a flor de beleza natural.

Depois de você em meu existir
não mais consigo andar por ai
por que a cada rosto que abre um riso,
é como sentir sua boca dando-me o último beijo.

Como queria ser amnésico agora!
assim não lembraria de quando foi embora,
deixando para trás as lembranças e dor do amor
que por falta de oxigênio infartou!

Robério Pereira Barreto.
Domingo, dias dos pais, 13 de agosto de 2006, 18h9’

VESTÍGIOS

Nunca meu coração esteve tão célere como agora,
Porque aumenta a pulsação ao aproximar-me de ti,
O corpo esquenta igual a um vulcão prestes a explodir.

E nas entranhas d’minha alma
Nascem desejos tão ardentes que me dominam;
O sangue ao calor da paixão ferve,
Derretendo quaisquer que sejam os esforços racionais

Para manter-me equilibrado diante de sua beleza alva.
Digo a mim: Controle seu impulsos e decline por ela seu fervor,
Mas me falta energia para lhe declara meu amor,
Sua compleição me consome
Qual a luz da manhã afasta os vestígios da noite escura.

Robério Pereira Barreto, 11 de agosto de 2006.

DEVIR

Nasci na geração da rebeldia
por isso vivo em busca de um novo dia
no qual possa ser livre e amar sem garantia
e obrigação de ser o que desejam para mim.

Agora sei que em todo amanhecer
posso contar com você,
porque a vida real é horrenda
e se não tiver um pouco de seu ser em mim
posso não resistir, venho a morrer.

Vindo a morrer sem que você
tenha sido minha na intimidade d”alma,
irei padecer nos infortúnios da solidão
e o espírito eternamente vai sofrer na escuridão.

Negrume que antes de lhe encontrar
vivia pensando que estava no fim
e que a vida era para mim um deserto
no qual se anda e tem a morte por certo.

Robério Pereira Barreto,
02 de julho de 2006.

RESSURREIÇÃO

Ano de 20013 e lá estava o relógio na parede, cujo marasmo dos ponteiros denunciava como o tempo naquela casa acontecia. Sustentava-se por um fio que de tanto estar ali, naquela mesma posição mostra-se indiferente a tudo à sua volta. Em seu formato cilíndrico e cores medievais fazia o movimento contrário aos acontecimentos da casa. Ali, vidas, amores, desamores, alegrias e tristezas ocorriam à velocidade da luz, porém não eram suficientes para abalar a sua existência enquanto membro ausente da família. Entretanto, eis que alguém olha para a parede e percebe que os ponteiros do relógio tinham parado à zero (00h). Naquele instante foi uma surpresa, susto geral como se uma tragédia tivesse abatido sobre todos. Daí surgiu os maiores lamentos:
- Nossa! Que houve? Que horrível? Com parcimônia, a matriarca da família, sentada em sua cadeira de fios a laser; indagou.
- Certamente, acabou o fluído atômico. Vociferou uma
mocinha com roupas de néon e cabelos coloridos cheio de luzes.
- Imagina! Que houve com todos? Devem estar loucos. Faz anos que esse relógio encontra-se nessa posição. É como se pedisse para que alguém lhe desse um pouco de atenção – entretanto, passaram por esta sala gerações, e ali estava ele, imóvel, jogado ao limpo da indiferença. Certamente, cansou da inércia daqueles que deveriam ao menos considerá-lo com alguém da família e morreu. Agora é preciso acontecer o milagre da ressuscitação!

sábado, 31 de maio de 2008

IDENTIDADE COMO DISCURSO PUBLICITÁRIO



A publicidade é um requisito importante para a comunicação no sistema de moda. Desde muito tempo até hoje são variadas as maneiras para se registrar e difundir as interações sociais por meio da moda.
Para isso se justapõem inúmeras linguagens – verbal e não verbal entre outras. Estes discursos se interpenetram, objetivando garantir e atender aos desejos básicos de preservação da cultura e do consumo na sociedade contemporânea. Entre estes discursos destaca-se a produção publicitária relativa à moda. Assim sendo, neste ensaio intenta-se construir argumentos sobre a importância do discurso na construção de uma marca e, por seu turno, a fixação desta no inconsciente coletivo, promovendo assim uma espécie de identidade comum aos usuários de determinados tipos de serviços e produtos.
Para tanto, se elege como corpus a peça publicitário de uma empresa do ramo de confecções situada na cidade de Irecê- BA, veiculada em outdoors, rádio e espaços públicos (lixeiras, painéis, placas, etc.) com a mensagem: “FABIANO É AQUI moda com identidade.” que segundo informações prestadas pela gerente da loja, tal texto foi produzido por uma empresa de publicidade da capital.
Busca-se, portanto, entender ainda os processos semio-ideológicos presentes em tal texto. Para isso, se utilizará como suporte teórico-metodológico os fundamentos da semiótica, uma vez que tal ciência possibilita o desvelamento dos signos usados na constituição do discurso em questão.
Sabe-se a priori que a publicidade traz em sua essência e, por conseguinte, aglutina em si vários expedientes das linguagens, transformando suas mensagens em signos artísticos na medida em que se juntam variadas imagens para formatar o texto num único signo. Neste instante, privilegia-se a publicidade como gênero discursivo[1] e que tem uma significância para a comunicação na sociedade contemporânea, sobremodo quando a mensagem se dirige à moda como construto da identidade individual ou coletiva.
Conforme estudiosos, o fato de a publicidade traduzir uma concepção de linguagem de arte visual e meio de expressão narrativo não se refere as apreciações gratuitas, constata-se, portanto, a facilidade que tal discurso tem em transcender às barreiras da comunicação interpessoal, pois o signo do proprietário é a marca que identifica e promove a regra do negócio.

Desvelando conceitos
Sabe-se, portanto que à primeira vista a publicidade é um sistema de signos lingüísticos e semiológicos que formam e dão significados à mensagem. Entretanto, é necessário que se conheça o canal por meio do qual o texto será veiculado. Fala-se ainda que a publicidade tenha a sua origem na Babilônia, onde foi encontrada por arqueólogos uma espécie de tabuleta em cerâmica contendo mensagens promovendo a venda de gado e alimentos.
Dessa forma, a publicidade passa-se a ser empregada aqui como uma comunicação de caráter persuasivo que visa defender os interesses econômicos de uma indústria ou empresa, bem como mecanismo que possibilita a fixação de uma marca ou produto na mente do consumidor, levando-o a criação e ou aceitação da identidade proposta por ela.
No que se refere a identidade neste sistema, Charaudeau (2006, p.72) fala de indentidade como sendo instâncias de informação e considera que todo ato de comunicação coloca em relação as instância de produção e recepção para que possa surtir os efeitos significados pelos enunciados. Para ele, a instancia de produção é ampla e porque além de fornecedor de informação propulsiona o desejo de consumir, levando seu público à captação de recursos socioculturais para inferir à mensagem proposta pelo discurso publicitário. Já a instância de recepção está o prazer em ser visto na pela identidade criada pela informação.

Assim, a instância de produção deve se considerada de modo diferente, ora como organizadora do conjunto do sistema de produção, num lugar externo, ora como organizadora da enunciação discursiva da informação. A instância de recepção também dever ser desdobrada: de um ponto de vista interno à instância midiática, [...] a instância de recepção propriamente dita, com uma atividade própria de consumo, é deisgnada como “instância-publico””. (Charaudeau, 2006, p.72).


Para Dichter a publicidade faz com as coisas ganhem alma, isto é, os produtos aos serem adquiridos pelo consumidor, automaticamente, influenciam muitas vezes as reações de outras pessoas de maneira específica, por que a ele foi dada uma identidade. Então, a imagem e personalidade da marca fazem com que o usuário se veja valorizado entre os grupos sociais a que pertence.

Referências
BAKHTIN, Mikhail M. Estética da criação verbal (trad. do francês Maria E. G.G. Pereira). São Paulo: Martins Fontes, 1992.
BARBOSA, Ivan Santo.Os sentidos da publicidade:estudos interdisciplinares. São Paulo: Thompson Learning, 2005.
JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunicação (trad. I.Blinkstein e José P. Paes). São Paulo: Cultrix, 1971.
LOTMAN, I. A estrutura do texto artístico (trad. M.C.V. Raposo e A. Raposo). Lisboa: Estampa, 1978.
MARANHÃO, J. A arte da publicidade, estética, crítica e kitsch. Campinas: Papirus, 1988.
RANDAZZO, Sal. A criação de mitos na publicidade: como os publicitários usam o poder do mito e do simbolismo para criar marcas de sucesso. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
[1] Entendido aqui como espaço comunicacional amplo onde se justapõem linguagens de arte visual e verbal e meio de expressão narrativo em que princípios semiológicos e lingüísticos adquirem valor significativo, seja como arte; seja como instrumento cultural e político.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

PAIXÃO TELEPÁTICA

Sua ausência-presença é a energia
Que move a máquina dessa paixão,
Transformando a dor da separação
Na doce magia da combustão.

Quero-te todo hora e dia
Com a força do pensamento;
Faço amor contigo todo momento
Em que sua face invade minha mente.

Neste prazer independente
Desejo ti minha amante
Austera e complacente.

30 de maio de 2008, 19h33min
Robério Pereira Barreto

TAVERNA DA PAIXÃO

A noite está ficando fria
E com ela vem uma gélida
Sensação de que estou
Numa taverna dostoiéskiana
Onde tudo a alma espia.

Desorientado, tudo se move
E aos poucos uma imagem de ti
Nas paredes úmidas surgi,
Daí tento fitá-la, logo foge.

Embriagado com a frieza da aparição
Derramo à mesa lágrimas de saudade
E tenho vontade de aquecer
Corpo e a alma nas chamas
Desse suave e belicosa boca...

30 de maio de 2008, 19h08
Robério Pereira Barreto

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A MISÉRIA INTELECTUAL CONTEMPORÂNEA: CULTURA DO CONTROL “C” E CONTROL “V”

Gostaria de poder dizer a partir do meu lugar de fala, professor e pesquisador sobre a produção de linguagens e leituras nos meios digitais, que estamos vivendo um instante paradoxal no que se refere à “produção” do conhecimento, uma vez que ao mesmo tempo em que se reclama da falta de bibliotecas públicas para os estudantes buscarem livros para ler e fazerem pesquisas escolares tem-se dados oficiais mostrando o aumento do número de leitores em todo o país, sobretudo daqueles que lêem e produzem ciberdiscurso, isto é, há uma massa de jovens estudantes dominando a técnica e o código da linguagem das salas virtuais, desprezando com isso, a pesquisa em livros de referências.
Há quem defenda esta questão e existem também aqueles que atacam o uso indiscriminado de qualquer um desses meios de acesso ao saber. Na verdade, o que se pode dizer a respeito disso é que tem havido, sobremodo, no meio escolar, inclusive no espaço universitário uma disposição à lei do menor esforço, ou seja, estudantes desde as séries iniciais até a universidade, conforme tenho notado em trabalhos a que me são destinados; a cultura do “copiar e colar”, caracterizando assim a miséria intelectual dos alunos.
Em alguns casos a pobreza é tão grande que o “analfabeto digital” copia e cola na íntegra as informações, sem ao menos se dá ao trabalho de apagar o endereço do site de onde usurpou as idéias. Entretanto, o mais chocante é que, às vezes, alguns “espertos” ao serem solicitados a explicarem o que supostamente produziu, comentem os mesmos erros de conceitos e até de escrita oriundos do texto de origem.
Queria ainda lembrar que a rede mundial de computadores veio para facilitar a vida em muitos aspectos, conforme foram todas as tecnologias até então. Entretanto há pessoas menos cuidadosas que a usam para meios fraudulentos, principalmente, no que diz respeito as produção de trabalhos escolares, sejam eles elementares ou acadêmicos.
Com isso venho acompanhando dois aspectos imprescindíveis à formação do sujeito no que se refere à formação intelectual: O analfabetismo digital dos professores, bem como sua indisposição para leitura sistemática dos assuntos atualizados de sua área de atuação; a preguiça intelectual dos estudantes em debruçarem-se sobre determinado tema, dessecando-o a partir de inferências, resultado de pesquisas e leituras em fontes mais confiáveis. (pensar dói, não é mesmo?).
Dessa forma estamos criando a pretexto de uma inclusão digital, falsos pesquisadores, ou melhor, forjamos a temperatura de Bytes, especialistas em “copiar e colar” idéias alheias, as quais na maioria das vezes é uma síntese rasa de questões importantes para a vida e a intelectualidade dos estudantes.
No campo da leitura a questão se agrava ainda mais, visto que muitos não têm paciência de ler até o final do texto e acaba por ter uma visão caolha do assunto apresentado pelo “autor” que sintetizou a informação a sua maneira. Tenho observado com muita freqüência estas ocorrência no campo da literatura, uma vez que os estudantes não lêem mais as obras originais, mesmo aquelas disponíveis em site especializados (a exemplo disso é o site: www.domíniopúblico.gov.br) no qual o Ministério da Educação e Cultura – MEC disponibiliza obras dos autores consagrados da literatura nacional e universal o qual vive em vias de sair do ar porque não se tem o acesso desejado, uma vez que se prefere copiar e colar os resumos das obras de sites especializados como se fosse de autoria própria; quanta miséria intelectual neste contemporâneo! Como diriam os pessimistas: pode ficar pior quando chegarem às escolas, se é que vão chegar para todos, os famigerados computadores portáteis com acesso à internete, prometidos pelo governo federal. Imaginemos a situação: aqui no sertão onde não há livros para se formar a base da consciência de leitura e escrita, quão geral será a miséria intelectual dos estudantes ao reproduzirem as idéias e pensamentos advindos dos centros digitais e tecnológicos dos pais e do mundo. Alienação total! E nós, professores mais vez continuaremos reféns de todo esse caos programado, como diria o personagem da Juvenal Antena: justamente porque sempre somos os culpados por todas as desgraças do sistema.

HIC ET NUNC

As folhas no outono
Desfalecem nas carícias do vento.
Sob o olhar apaixonado do pôr do sol
Passeiam pela pele do rio
Como se o acariciasse para acordar.

Assim é meu coração nessas manhãs
Em que o frio da solidão o congela
À espera de sua boca acordando
Com afagos calientes...

Na pele corre um ardor
Que queima a alma sem pudor;
Ai tudo é vazio não a tenho
Como o rio tem as folhas de outono
Acariciando-o em infinita devoção.

Hic et nunc sinto apenas saudades
De ser como outrora;
Sua boca aquiescendo às minhas vontades
Em seu prazer de...

28 de maio de 2008, 13h25min
Robério Pereira Barreto

domingo, 25 de maio de 2008

NEOREALISMO DAS RUAS: JORGE AMADO E NABIL AYOUCH

Este ensaio parte do princípio de que as linguagens artísticas sejam literárias, ou cinematográficas têm em suas essências elementos da realidade os quais são transformados pela abstração da arte. Em outros termos, o cinema como expressão artística oferece ao espectador-leitor uma linguagem híbrida em que se justapõem vários signos: imagético, sonoro e verbal. Com isso, a mensagem fílmica ganha relevância artística e social à medida que se projetam possibilidades de interpretação a respeito de dada realidade.
Pensa-se, portanto, que o uso das matrizes de linguagem conforme quer Santaella em seu matrizes de linguagem e pensamento: sonoro, visual e verbal (2001) no discurso cinematográfico, sobretudo, quando este é comparado ao outras alocuções, por exemplo, à literatura; tem-se assim um mecanismo de interpretação significativo no que se refere ao posicionamento de cada matriz nos espaços narrativos promovidos por cada um desses gêneros textuais.
Mediante esta questão, toma-se como referência para comparação e a análise as narrativas As ruas de casablanca (2000), de Nabil Ayouch e Capitães da areia (1967), de Jorge Amado, buscando nelas os elementos centrais que configuram a dramaticidade das obras, destacando assim os signos que compõem as “realidades” narradas em cada uma delas. Até por que, a temática de ambas as obras, embora tenha surgidas em momentos diferentes diz respeito à vida na sociedade contemporânea; o abando e violência a que são submetidos os meninos de rua no mundo inteiro, independentemente de suas origens religiosas.
Com isso, tomam-se o cinema e a literatura como instrumentos que ocupam lugares centrais na comunicação quando se refere à representação da realidade, possibilitando inclusive, a interpretação da história dos povos e, por conseguinte os seus costumes através dos quais são demonstrados culturas e identidades. Assim, não há dúvida de que os filmes e as obras literárias são ricos mecanismos para a compreensão de outros aspectos e de como as sociedades e outras instâncias os utilizam como meio de difusão de idéias e comportamentos até então não realizados pelo Estado. Nesse texto, serão destacadas as matrizes de linguagem que estruturam os discursos das obras já mencionadas anteriormente; narratividade, constituição das personagens, espaço e tempo da narração, etc.
A questão que orientará as discussões a seguir é a seguinte: Quais os pontos de confluência entre as narrativas As ruas de casablanca (2000), de Nabil Ayouch e Capitães da areia (1967), de Jorge Amado que podem ser analisadas sob o prisma da semiótica? Porém, antes de ir direto a esta resposta, faz-se necessário uma reflexão sobre o significado e importância do cinema para a sociedade. Para tanto, realizar-se-á uma incurssão pelos caminhos da narrativa e, sobretudo, do cinema, na tentativa de promover uma discussão clarificadora a respeito das matrizes de linguagem que asseguram a estética do gênero.
Sabe-se que a literatura e o cinema nos dão certamente alguns dos instrumentos mais eficazes para a compreensão dos processos culturais e ideológicos ocorridos em dados momentos numa dada sociedade, por isso analisar-se-á a relações entre as narrativas filmicas, destacando os princípios estéticos de cada uma delas. Sabe-se ainda que a narrativa literária representa algo para além da metafísica, porque é estrategicamente elaborada a partir de uma representação de um pensamento. Na mesma perspectiva encontra-se o cinema, entretanto, a narrativa cinematográfica tem sido amplamente recebida pelo espectador-leitor devido à hibridização da linguagem, isto é, no filme se justapõem as matrizes sonora, visual e verbal com objetivo de fornece elementos estéticos para a interpretação da temática proposta pela narração. Espera-se, portanto que ao longo dessa análise estes pontos sejam elucidados, facilitando assim a compreensão dos objetos em estudos, filmes.

Arte de representar o real
Em linhas gerais, diz-se que o filme é fruto de uma ordem físico-química, tendo sido reconhecido mais amplamente a partir do instante em que se verificou a disposição e retenção das imagens pelo olho humano no campo visual, tornando possível que as imagens fossem registradas em movimento com a percepção igual do olho humano, que viria a concretizar o desejo de muitos povos, registro do cotidiano em movimento, cores e sons. Para leite (2003, p.12) o primeiro fruto da invenção do cinema “foi a captação de cenas do cotidiano”, justapondo-se às outras artes de narrar o cotidiano, uma vez que até então os acontecimentos eram garantidos pelas narrativas históricas e literárias, bem como pela fotografia. “Com o cinematografo, o mundo natural e o mundo criado pelo homem poderiam ser fixados em imagens animadas e os primeiros filmes produzidos nada mais foram do que se poderia chamar de fotografias animadas” (Leite, 2001, p.12). Todavia, há de se lembrar que o filme tem sua essência na composição e estética narrativas e, portanto, este é um dos elementos que o liga à literatura.
Nesse contexto, inferi-se que o filme por ser um gênero narrativo agrega a si várias técnicas e linguagens, tornando-se hibrido por natureza e ação, uma vez que “o cinema é resultante do aperfeiçoamento da linguagem e técnica da pintura e da fotografia. Com isso, configura-se a premissa de que se trata de um discurso cuja hibridização dilui-se dando a entender que estamos diante de uma criação em que o real é transformado em mágica, pois se aglutinam matrizes sonoro, visual e verbal ao acontecimento a ser narrado.

Referências
NAZÁRIO, Luiz. As sombras móveis. Belo Horizonte, UFMG, 1999.
SANTAELLA, Lúcia. Matrizes da linguagem e pensamento: Sonora visual verbal. São Paulo: Iluminuras, 2001.
MACIEL, Kátia. Transcinema e a estética da interrupção. In. FATORELLI, Antônio. , BRUNO, Fernanda (orgs.) Limiares da imagem:tecnologia e estética na cultura contemporânea. Rio de Janeiro: MauadX, 2006, p. 71.
JAGUARIBE, Beatriz. Realismo sujo e experiência autobiográfica. In. FATORELLI, Antônio. , BRUNO, Fernanda (orgs.) Limiares da imagem:tecnologia e estética na cultura contemporânea. Rio de Janeiro: MauadX, 2006, p. 109.
TEIXEIRA, Francisco Elinaldo. Documentário moderno. In. MASCARELO, Fernando. História do cinema mundial. Campinas-SP, Papirus, 2006, p. 253.
FRANÇA, Andréa. Cinema de Terras e fronteiras. In. MASCARELO, Fernando. História do cinema mundial. Campinas-SP, Papirus, 2006, p. 395.

FARRAPOS

Noite enluarada, enluarada...
Ruas movimentadas
Onde passeiam fantasmas
De olhos fitos a procura de si.

Olhar vibrante, vibrante olhar...
Na escuridão reconhece em faces
As vagas de sua exaustão.

O pincelo da insignificância
Preenchem as lacunas da infância;
Os farrapos humanos
Nascem nas sombras da ilusão.

24 de maio de 2008, 16h25min
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 23 de maio de 2008

CONLUIO...


Na conspiração de astros e estrelas
Sou vítima de primeira,
Quando a perco de vista
E fico chorando a desdita.

Na busca por um aconchego
Lanço ao universo um grito
Sufocado cheio de apelo:
Não me faça viver nesse
Ingrato desmazelo!

Seu silêncio eloqüente
Machuca com lança de fogo
Esse coração plangente.

22 de maio de 2008, 16h53min
Robério Pereira Barreto

terça-feira, 20 de maio de 2008

DELÍRIO

É manhã noturna
E sob essa luz turva
Quero amar-te
Com toda a minha ternura.

Num abraço seguro
Quero envolver-te
Até desfalecer-nos
Num prazer obtuso.

Jubiloso, a ti cantarei
A canção infinita da paixão:
Amar-te nessa manhã noturna
É saltitar de alegria na vias
Sublimes da adoração.

20 de maio de 2008, 23h
Robério Pereira Barreto

FRÁGIL BELEZA

A lua desce a rua
Sinuosamente tímida
Depois que foi tocada
Pelo manto suave da noite.

Elegantemente bela
Passeia na passarela
Do infinito...

Maliciosos, astros e estrelas
Cochicham uns aos outros
Quão imensa é sua delicadeza.

Inerte em sua frágil frieza
Faz-se senhora de si
E deslumbra a todos
Com infinita beleza...

20 de maio de 2008, 18h39min
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 15 de maio de 2008

ENCARCERADA NO DEVIR

Nas noites de néon
A alma plasmando nas alegorias,
Passeia moribunda em mudez...

Entre luzes violetas
E janelas púrpuras;
Torna-se à obscura
Na claridade impura.

Em espaço-nave ver o devir
Sem ao menos do passado
Ter podido sair.

Embriagada à luz do laser,
Abduz-se pela imortalidade;
Mumifica-se na incerteza...

15 de maio de 2008, 16h43min.
Robério Pereira Barreto

CASINHA DE AMOR

Uma casinha na caatinga
Acabei de desenhar
Para na janela debruçar.

E na matina acordar
Para ver meu amor
Vestida na luz da manhã
Dourada se levantar;
E sob o cheiro da aurora
Pelo sertão juntos caminhar.

Ela, com seu cheiro de flor
O meu dia enche de amor,
Acalentando no peito
A chama de...

15 de maio de 2008, 4h
Robério Pereira Barreto

domingo, 11 de maio de 2008

ESCOLHAS

Tantos livros lidos ao pé da letra
E histórias nas entrelinhas inferidas...

Tantas vivências percorridas
Á duras horas insones;
Quantos saberes adquiridos,
Em meditação, a mente
Por vezes se fez constante.

Face à bela singeleza de ti
Nada, nada do que pensei
Que em sacrifício aprendi
Agora serve a me.

Frágil, quase senil...
Rendo e faço-me
Das coisas do coração,
Infante e simples aprendiz...

11 de maio de 2008, 22h13
Robério Pereira Barreto

TRANSEUNTE

Caminhante nas veredas da alma
Sua luz leva ao peito à calma
Para seguir viagem rumo à paz.

Debruçado nas incertezas
Ante as encruzilhadas do devir
Segui a diante é viver claras
E longas andanças sem perder
A esperança de si.

Sol a pino e noites frias
São desse caminhante
Féis companhias.

Sede, fome agonia
Desbotam a alma,
Deixando-a sem alegria.

11 de maio de 2008, 20h39
Robério Pereira Barreto

sábado, 10 de maio de 2008

DESPEDIDA

Eis que tenho que partir
Mesmo sem saber aonde ir
Peço-te perdão por quaisquer
Erros que cometi.

Juro, todos foram na intenção
De acertar e lhe fazer feliz.

Absorto confesso:
Conhecer você foi entre as coisas
Que vivi neste tempo,
O melhor caminho que fiz.

Perambulo em mim mesmo
Sinto-me frágil;
Sou um arremedo a viver a esmo
Porque não posso fazê-la feliz.


10 de maio de 2008, 00h29min.
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 9 de maio de 2008

DESMEDIDO ARDOR

No fascínio de ti
A vida corre solta na mente;
Tudo é turvo e não consigo
Fazer outra coisa se não
Pensar em amar-te inclemente.

Agora, tudo parece fora de cor,
As flores no buquê se misturam
E a distingo como a mais bela flor.

Nesse jardim dos desejos
Muitas belezas há,
E seu perfume faz o lugar
Onde posso lhe encontrar.

Mesmo na noite escura
Beijo-te na maior loucura
Como se bebesse na mais
Pura das fontes de amor...

09 de maio de 08, 23h18min
Robério Pereira Barreto

INÚTIL RESISTIR...

O mistério do olhar
Que cai sobre mim
Leva-me a outro lugar;
O infinito prazer de amar.

A magia que reluz
Dele [olhar] é a mesma que
Entre caminhos diversos me conduz.

Atrapalhado em tal fulgor
Sinto-me simples sofredor
Que no escuro da solidão
Recolho-me a evitar paixão.

Submisso a este enigmático
E reluzente olhar, não resisto
E, aos pouco me entrego...

09 de maio de 2008, 17h12
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 8 de maio de 2008

FAZ-ME!

Faz-me sentir seu cheiro
Nesse lugar ermo...

Faz-me deliciar seus beijos
Nesse banquete de desejos...

Faz-me emergir à alma
Nesse mar em chamas...

Faz-me grudar suas mãos
Nesse corpo suado de paixão...

Faz-me querer seu prazer
Aos gritos abafando os meus gemidos
Na infinitude dos perigos de amar-te.

08 de maio de 08, 22h07min.
Robério Pereira Barreto

segunda-feira, 5 de maio de 2008

PRAZER ABSOLUTO

Como passarinho que voa
Carregando no bico o maduro
Fruto de jambo...
Carrego à boca o sabor de ti

Incrustado no pensamento
Está a imagem desse corpo
Naturalmente bronzeado
E esculpido à mão pela natureza.

As idéias flutuam como folhas
Atiradas ao leito do rio.
Em prazer absoluto,
Me deixo envolve pelas carícias
E gritos absurdos do seu peito.

05 de maio de 2008, 23h21
Robério Pereira Barreto

domingo, 4 de maio de 2008

A INSTANTANEIDADE DA FÉ


A proliferação de técnica e meios digitais da informação possibilitou que vários tipos de conhecimentos se ampliassem de maneira extraordinária. Tal produtividade vai da educação à fé. Para Baudrillard (1991) estes aspectos são uma espécie de “destino indelével sobre o qual pesa a sedução” a qual se dá através de discursos engendrados pelo sistema econômico, garantindo à religião uma posição de destaque no que se refere à idéia de separação entre o bem o e mal, sedução digital da fé.
As linhas que se seguem, buscam o entendimento da expansão da fé por meio da mídia televisiva, a qual ocupar lugar privilegiado em várias grades televisivas, sobretudo, nas veiculadas nas manhãs de sábado. É interessante notar ainda que, neste dia, das 7 às 10 horas da manhã, há acerca de 10 emissoras de televisão com programas religiosos ou afins. O olhar aqui presente é segundo a programação distribuída por emissoras abertas; via antena parabólica.
Dessa maneira, parte-se da suposição de que a televisão transformou o modo de como o homem comum tem visto a cultura, a sociedade e, sobretudo, a fé. Esta é oferecida além templo, ou melhor, o mundo transformou-se em santuário graças ao alcance dos satélites que, associando elementos retóricos e psicológicos presentes nos discursos dos pastores, verdadeiros animadores de auditório conseguem conduzir uma massa ignorante a um universo cheio de fantasia e sedução num mercado ora tão competitivo, da fé.
Por um lado, tal questão é compreensível quando vista sob a ótica da modernização das igrejas tanto no plano da evangelização quanto nas inovações das metodologias usadas pelos pastores, os quais evoluíram ao epíteto de pastores eletrônicos, com discurso e estratégias de convencimento próximas à publicidade. Por outro, se tem ai a subjetividade divina que vai ao encontro da “estupidez das massas, vítimas da mídia” Baudrillard (2005, p. 42) de consumo que transforma a crença do povo em produto de degustação a qualquer preço e hora.
No mercado religioso, esta prática há muito ultrapassou o limite do bom senso, uma vez que se criou um “hiperespaço” no qual tudo parece mais verdadeiro que a própria “verdade” da fé.
Para Baudrillard (2005) é através da tela que se promove o falso ao status de verdadeiro, tamanha a evolução realizada pelos meios de massa. Assim é possível compreender o porquê de tudo que é levado à tela religiosa, ganha credibilidade instantânea, isto é, “a informação e mais verdadeira que o verdadeiro por ser verdadeira em tempo real”. (idem, p. 45).
O filósofo francês ainda adverte sobre as variadas dimensões que informações religiosas podem tomar no hiperespaço construído pela mídia devota. “as coisas não têm mais uma, duas ou três dimensões: flutuam numa dimensão intermediária. Logo nada mais de critérios de verdade ou de objetividade, mas uma escola de verossimilhança.” (op. cit.).
Nesta perspectiva, o pensamento de Baudrillard materializa-se nos testemunhos dos fiéis diante das câmeras, às vezes, chegam a forçar uma situação no sentido de se fazerem presentes e, por conseguinte, ter seu momento de fama, integrando a partir disso, o grupo das “celebridades de Deus”. Então, não é por acaso que a fé seja colocada à mostra, transformando-se num produto em promoção à qual a maioria das pessoas não teria acesso senão através da intervenção da mídia. Com isso, se percebe a existência de uma realidade econômica nas pregações dos “pastores e padres eletrônicos”, uma vez que nos intervalos comerciais dos cultos os responsáveis apresentam seus cardápios de produtos religiosos – livros, revistas, Cds e Dvds além do tradicional dízimo – e tudo em nome do Senhor. Então, ninguém que deseja alcançar os píncaros da fama – testemunho ao vivo – jamais pode se furtar de oferecer uma quantia significativa, ou uma história de fracassos pessoais e econômicos para servir como “tragédia na tela da fé” a qual será simulada por atores cujo desempenho dramático e estético é bastante questionável.
Bibliografia consultada.

BAUDRILLARD, Jean. Tela total: mito-ironias da era virtual e da imagem. 4. ed. Porto Alegre: Sulina, 2005.

CRIATIVIDADE DISCURSIVA NA WEB

No contemporâneo as atividades humanas estão passando por grandes modificações a tal ponto de a criatividade se transformar em crise. Por isso, as fronteiras entre o real e o virtual na arte, na literatura e na linguagem parecem não existir, uma vez que há um entrecruzar de identidades construídas a partir dos discursos produzidos com toques de mouse.
Quanto à criatividade, que por muito tempo ficou relegada a artistas e gênios da criação, ganha espaço e projeção, criando assim, uma comunidade de falantes que interagem com seus pares através de ciberdiscurso. Isso tem criado de alguma maneira conflitos e as identidades passam a ser classificadas a partir da capacidade que os agentes comunicativos têm em demarcarem seus territórios virtuais.
Por isso, consideramos as identidades no espaço cibernético como algo abstrato e, por isso, os confrontos se dão por meio da produção lingüística específica. Na segunda parte serão apresentadas, discussões acerca das relações sociais e humanas, formuladas a partir das revoluções que a mídia e a rede digital provocaram no homem contemporâneo, relacionando as aos aspectos produtivos da sociedade, tendo o ciberdiscurso com mediador das negociações de sentidos,sociais e culturais no ambiente que a tecnologia vem criando em ritmo vertiginoso.
Isso tem modificado o meio social contemporâneo de tal sorte que os pensamentos e ações econômicas, políticas e culturais se processam conforme a velocidade e a disponibilidade da comunidade em usar tais artífices. Uma coisa é certa; uma nova linguagem com vocabulário e sintaxe própria tornou-se real no cotidiano da comunidade moderna, na qual ciência, arte, literatura e política são discutidas à velocidade da fibra ótica.

O ciberdiscurso: liberalidade da linguagem

Vários estudiosos têm conceituado a linguagem a partir das relações sociais que o homem estabelece com o meio e a realidade sócio-cultural em que vive. Assim, Lotman assegura que tal procedimento só se fundamenta quando as informações são significadas pelos atores culturais e sociais da linguagem, transformando-as em signos convencionalmente aceitos pelo grupo. A exemplo disso, estão os ciberdiscursos produzidos nos chats da Internet, nos quais os usuários codificam os signos e os adaptam às suas necessidades lingüísticas do meio eletrônico. Para tanto, eles (internautas) precisam transformar ou adequar esses sinais em signos que realizem a comunicação efetiva dos fatos.
Nesse contexto, e à maneira do semioticista francês Roland Barthes compreende-se que o uso da língua no chat dar-se de maneira individualiza, isto é, apenas um grupo de pessoas faz da língua eletrônica “ato individual de seleção e atualização” e passa a relatar suas experiências a partir do estilo lingüístico convencionalizado, pois a língua de modo geral deixa à disposição de seus usuários várias possibilidades de articular discursos. “Ao assumir o discurso, o individuo busca escolher os meios de expressão que melhor configurem suas idéias, pensamentos e desejos. Essa escolha é que caracteriza o estilo[1].” Em outros termos, tal procedimento quando estendido à linguagem praticada pelos internautas vê-se, uma individualização via transgressão lingüística mostrada por meio da escolha criativa do vocabulário dos internautas, o qual ganham aspectos fonológicos (não se transforma naum mesmo sendo realizado via escrita), ênfase nos termos concretos (uso alternado de letras maiúsculas e minúsculas no meio das palavras; AmiZaDI) e abstratos (apresentação de símbolos e ícones correspondentes ao seus estados emocionais; :) = alegre e ): = triste) na preferência por formas verbais e não verbais, propensão para determinadas figuras de linguagem. Proença Filho ao tratar da questão do estilo lingüístico praticado pelos usuários da língua, sugere que o modo como as pessoas se comunicam é resultante das atitudes culturais surgidas com tendências “análogas nas manifestações artísticas, na religião, na psicologia, na sociologia, nas formas de polidez, nos costumes, vestuários, gestos, etc..[2]” Assim sendo, se depreende dessas acepções que o estilo lingüístico empregado nos ciberdiscursos são representacionais, por isso Lévy assegura: “O pensamento se dá em uma rede na qual neurônios, módulos cognitivos, humanos, instituições de ensino, línguas, sistemas de escrita, livros e computadores se interconectam, transformam e tradu
[1] FILHO PROENÇA. 2001, p. 23-4.
[2] Op. cit, p. 24.

RECEPÇÃO DO POEMA COMISERAÇÃO

Sabe-se que o poeta precisa do seu leitor para que sua obra aconteça como tal. Então, o apreciador do texto literário - leitor - assumi papel importante na edificação dos sentidos pretendidos pelo autor. A crítica literária reconhece isso ao considerar a literatura como matéria da experiência humana da qual o leitor participa quando da interpretação do objeto lido.
Assim sendo, o pensamento de que o ser humano é um pano de fundo ou uma fonte de inspiração, mais do que um efeito da textualidade: "o ser humano escreve, o ser humano pensa, e sempre perseguindo e defendendo-se contra o outro ser humano." Bloom, 2000, p. 60).
Diante dessa afirmativa, ler-se a seguir a recepção de um(a) leitor(a) desse espaço poético, ao fazer consideração e expressar sua inferência do poema Comiseração publicado no dia de ontem.

Não tenho vontade de parar de ler, de sentir a carícia (também) do olhar dos seus olhos... Também posso me afogar no seu carinho e entorpecer meu ser que clama por amor!” É na comiseração do sentir que o poeta adentra almas solitárias fundindo-se entre o real e o lírico sonhador. Digo que, é o espírito poético roberiano envolvendo-se de tal forma enigmática e profunda com seu leitor, que este assume extasiado um envolvimento confessional no mundo imaginário e criativo do poeta. É o anseio do amor sublimado que mescla fragilidade e vontade de se fazer amado, e de amar...
Poeta...não tem como parar de ler, não tem como deixar de sentir um turbilhão de sentimentos entrelaçados entre magia e real...Enfim, aquilo que você expõe maravilhosamente na sua escrita, escrita de fazer pular o coração, e deixa aflorar os sentimentos mais íntimos de uma pobre mortal como eu!
Este é um bom exemplo de estética da recepção; o leitor inteagindo com a mensagem poética e à sua maneira expressando entendimento.
Obrigado

sábado, 3 de maio de 2008

CORPO: ENIGMÁTICO SIGNO DE LINGUAGEM

Introdução

Este texto foi construído com intuito de discutir as significações presentes no corpo, sobretudo, no corpo feminino com os estudantes do curso de Letras da UNEB, câmpus XVI, Irecê–BA, na disciplina Consciência corporal e linguagem, ofertada pelo Colegiado de Letras, semestre 2007.2. Esta disciplina foi ministrada em parceria com a professora de Artes e Educação, Edineiram Maciel a qual trabalho as questões práticas idealizadas em nossas discussões e que culminaram na escrita de mini-peças protagonizadas ao final do curso pelos próprios estudantes da disciplina.
Decidimos que, embora a disciplina tivesse apenas 30h/a deveríamos dividi-la em duas partes, a saber: i) estudo da fundamentação teórica cuja fonte era a semiótica, tendo como referência as discussões sobre signo, advindas de Charles Sanders Peirce, referendadas pelos estudos de Lúcia Santaella, principalmente em sua obra Matrizes de linguagem e pensamento: sonora, visual e verbal (2000); ii) aplicação de tais conceitos, usando-se como base as linguagens corporais do próprios alunos no ambiente sala de aula. Diante disso, metodologicamente as ações foram direcionadas para atividades práticas de autoconhecimento do signo corporal de cada um no universo da classe, observamos com isso como, às vezes, princípios religiosos e culturais acentuam limitações quando se vai usar do corpo como signo de linguagem para realizar comunicação.
É importante destacar que a turma era composta por 25 (vinte e cinco) estudantes, sendo 23 mulheres e 2 homens, mesmo assim evidenciaram muitas limitações quanto ao falar do corpo como portador de significações, sobretudo quando se pedia que se fizesse comentários sobre alguns signos que compõem o inconsciente coletivo sobre o corpo, ficando inclusive, bastante evidente a concepção masculino sobre a linguagem do corpo feminino; sensibilidade, fetiche, segredo, pecado, etc.


Diálogando com autoridades

Hodiernamente falar sobre o corpo e sua linguagem é um risco, uma vez que a nossa sociedade tem valorizado o corpo físico e seus artifícios de beleza e sedução em detrimento de questões mais psicológicas, nas quais e, por seu turno, estão localizados expedientes de linguagem em que se situam as identidades corporais.
Isto talvez siga a lógica do sistema; a eternização da prisão do corpo em paradigmas beneficia a vários mecanismos sociais e, sobremodo, àqueles de caráter controladores, como por exemplo, a religião. Por isso Chauí (1991) adverte que mesmo isso sendo uma realidade cultural não pôde desde que o mundo é mundo reconhecer que:
seres humanos e animais são dotados de corpos sexuados e as práticas sexuais obedecem a regras, exigências naturais e cerimônias humanas.” [...] as proibições e permissões são interiorizadas pela consciência individual, graças a inúmeros procedimentos sociais (como a educação, por exemplo) e também expulsas para longe da consciência, quando transgredidos porque, caso, trazem sentimentos de dor, sofrimento e culpa que desejamos esquecer ou ocultar.(Chauí, 1991, pp.9-10)

Tem-se, pois, na afirmação da filósofa brasileira, a partida para se questionar: Qual o significado do corpo? Como os entes sociais percebem os sinais nos corpos? De que lugares emergem essas necessidades discursivas? A posteriori espera-se respostas a cada uma dessas perguntas. Por enquanto é possível ponderar dizendo que os corpos só significam quando emergidos em universos de linguagem inter-humana e, portanto, cada corpo produz e significa para si e os demais, a partir da vivencia de signos individuais e coletivos institucionalizados pela comunidade onde se realiza a comunicação.
Assim, a linguagem é fio condutor da condição humana, porque o homem necessidade de outros corpos (reais ou abstratos) para se comunicar, e com isso construir interfaces dialógicas. Então, na medida em que os corpos se relacionam com a cultura e realidade de uma comunidade eles [corpos] agregam, refletem e refratam significações, isto é, o corpo é um portador e refrator de linguagem e, portanto, significa! Entretanto, só se reconhecem esta questão a partir do momento em que se evidenciam os limites impostos pelos sistemas cultural, social e econômico sobre o que pode, ou não ser feito do corpo.
No plano cultural, é sabido que ao longo de séculos o corpo foi visto sob a ótica do misticismo, isto é, para muitas culturas o corpo era, ou ainda é território sagrado e, portanto, quaisquer tentativas de entendê-lo seria uma profanação. Talvez por esta razão, a significância a ele atribuída ainda está pautada no signo do sagrado. Entretanto, questões sócio-econômicas em algumas circunstâncias assumiram papel imperativo na construção de um novo sentido para o corpo (exemplo são as mulheres do Oriente Médio que passaram a consumir produtos da moda e beleza ocidentais), vindo a questionar antigos paradigmas.
Randazzo (1997) ao tratar da questão de identidades e mitologias que se vinculam ao corpo feminino coloca em destaque dois pontos significativos para a compreensão do binarismo corpo/alma que forma a pessoa, a saber:

O desenvolvimento psíquico dos indivíduos sai de um ser indefinido e inconsciente, para chegar a um ser consciente de si mesmo (do ego). O desenvolvimento pessoal e a emergente consciência do ego servem para criar um sentido de identidade que ajuda o homem e a mulher a entenderem quem são e qual é o lugar deles na sociedade. Esta identidade é importante à medida que se produz um discurso sobre o corpo. (Grifo meu) (RANDAZZO, 1997, p. 23)

Para o Estado, a classificação e manutenção dos gêneros em masculino e feminino facultam o controle dos corpos, uma vez que tudo está organizado sob o signo da dicotomia e, por isso, o profissional da linguagem precisa se situar nas entrelinhas dos discursos que separam cada um dos gêneros, sob pena de perder a sintonia com os valores, sensibilidade e estilo de vida reivindicado por cada ser social. Para que isso não ocorra é fundamental que busca em nível profundo a alma e a psique de cada sujeito, isto deve ir além dos modismos estabelecidos pelo sistema, visto que este, por sua vez já cristalizou o que é o corpo masculino e feminino posicionando-os em seus devidos lugares de discurso, ou conforme que Homi Bhabha em seus “entre lugares de cultura”.
A consciência do corpo, sobretudo a do corpo feminino, segundo Jung ocorre no plano da inconsciência, isto é, ao corpo físico são justapostas imagens e símbolos advindas das experiências socioculturais diretamente repassadas pelos organismos de cultura, como, por exemplo, a religião, a escola e a família. “A psique inconsciente não chega ao conhecimento recorrendo à lógica e à razão, mas sim olhando para o cânone de simbolismo e imagética apropriados à pesquisa”. (Randazzo, 1997, p. 98).
Segundo Jung, “todo o material simbólico emana das camadas mais profundas do inconsciente coletivo que nos falam através de imagens arquétipicas. Elas não são o resultado da nossa consciência, esse aspecto da psique lógico ordenado. Ao contrário, os símbolos do mito são o resultado do trabalho intuitivo e inconsciente da psique humana.” (Randazzo, 1997, p.100). Assim sendo, os corpos masculino e feminino possuem ambos instinto agressivo, um instinto de guerra que é representado pelo arquétipo do Guerreiro. Então, “homens e mulheres também têm em comum o instinto materno representado pelo arquétipo da Grande Mãe. Nas culturas ocidentais, entretanto, alguns arquétipos estão associados a macho e fêmea, e acabaram determinando o que as pessoas consideram masculino e feminino, afirma Randazzo.
Neste ínterim, os corpos são visto pelos entes sociais como portadores de significados diferentes e, com isso, lhes atribuem sentimentos diferentes. Portanto, ainda impera a intolerância quanto à expressão de sentimentos; os homens são como os personagens que John Wayne representava nos seus filmes: sujeitos fortes e calados que agüentam firme sem chorar nem mostrar seus sentimentos. Já das mulheres espera-se que seja como Donna Reed, mães dedicadas que vivem para os filhos e os maridos; Grande Mãe, pois suas virtudes nascem basicamente da doação do próprio corpo: nutrição, proteção e amor incondicional.
Conforme Hill (1992) os corpos masculino e feminino são formatados sob signo de estático e dinâmico. Já Neumann ao tratar do arquétipo do corpo feminino estático centraliza o corpo da mulher a partir da imagem metaforizado barco. “mulher=corpo=barco correspondendo àquilo que talvez seja a mais fundamental experiência do feminino da humanidade – do homem assim como da mulher. “O aspecto estático do princípio feminino tira a sua imagem básica do útero – escuro, úmido, aconchegante e apegado ao que está se desenvolvendo dentro dele” (Hill, 1992, p.4).
Diante disso, a sociedade e seus entes individuais e coletivos vêem o corpo feminino sob o signo da proteção ofertada pela Grande Mãe. Esta por sua vez é construída pela “imagem feminina universal que mostra a mulher como eterno ventre e eterna provedora. É uma imagem que existe desde o começo dos tempos e me todas as culturas (.” Randazzo, 1997, p.103).
Segundo Bachofen (1992, p. 79), a mulher sob o signo do corpo protetor mantém desde os tempos pré-helênicos o “amor maternal” superior ao paternal, visto que este veio a ser reconhecido posteriormente por causa da ordem moral estabelecida pela sociedade.

Os homens primitivos ficavam certament impressionados com o amor todo especial entre a mae e seu filho. Talvez por isso é que apesar da sua maior força física os homens primitivos temiam e adoravam a mulher. Praticamente todas as culturas pré-helênicas adoravam deusas e eram matriarcais, com maior parte da riqueza e do poder passando de mãe para filha. (BACHOFEN, 1992, p.79).

Dessa maneira, evidencia-se, portanto a importância do arquétipo da Grande Mãe relacionada ao corpo feminino, visto que metaforicamente a mulher representa nesta perspectiva a Deusa Terra, conforme assegura a seguir Bachofen:

A superioridade da mulher em relação ao homem despertou mais particularmente a nossa surpresa devido à sua contradição em relação à força física. As leis da natureza outorgam o cetro do poder ao mais forte. Se mãos mais fracas o tirarem dele, quer dizer que outros aspectos da natureza humana foram acionados, forças mais profundas fizeram sua influência ser sentida (BACHOFEN, 1992, p. 85)

Já Jung o arquétipo da Grande Mãe representado no corpo feminino “tem a ver com um lugar de origem, com a natureza... Também significa o inconsciente, a nossa vida natural e instintiva, o reino fisiológico, o corpo em que moramos ou estamos contidos; pois a ‘mãe’ também é a matriz, o molde oco, o barco que transporta e alimenta, e, do ponto de vista psicológico, representa, portanto os alicerces da consciência.” (Jung, 1985, p.158).
Assim sendo, todo signo de grandeza e proteção que acolha, defenda e alimente outra coisa menor ou desprotegida, segundo Jung pertence ao primordial reino do matriacardo. Por isso o estudioso relaciona o corpo feminino ao da Deusa Terra. Nesta perspectiva, Randozzo (1997) chama atenção para o fato de que “nas culturas pré-tecnológicas adorava de alguma forma deusas da terra. A terra é sentida como uma Grande Mãe que, com sua generosidade, sustenta e alimenta todas as criaturas.” (idem) A exemplo, tem-se na mitologia grega a deusa Gaia era vista como a própria terra.
O corpo feminino na nas culturas pré-tecnológicas era visto pelo o homem como ser maligno, porque sangra em ciclos periódicos coincidentes com as fases da lua. Isto conforme informa a discípula de Jung. Esther Harding era e ainda é fruto da dicotomia força-sensibilidade a qual é formatada no plano dos mistérios femininos que acabam “enfeitiçando” os homens.

O “animal” feminino, longe de rejeitar as solicitações do macho no período do cio, deseja e procura a sua companhia. Nenhum tabu refreia a fêmea no exercício dos seus encantos. Todos os machos da espécie chegam de longe para ficar perto dela e são capazes de pensar em qualquer outra coisa enquanto ela continuar naquelas condições. Qualquer um que tenha tido uma cadela conhece bem a força do “espírito maligno” pelo qual ela fica possuída, Os machos que procuram por ela esquecem o sono a comida e negligenciam os seus “deves” na suas próprias casas. Ficam, de fato, enfeitiçados. (HARTING, 1990, p.60).

O reconhecimento desse poder atribuído ao corpo feminino veio ocorre na modernidade, momento que se aceitou tal aspecto da feminilidade da mulher. Todavia, ainda se usa este fenômeno feminino contra as próprias mulheres, numa tentativa de prova que elas [mulheres] são portadores de irracionalidades e incapacidades de controlar os seus próprios comportamentos. Em 1486, um frade dominicano concluiu que: “toda bruxaria vem da luxuria carnal, que nas mulheres é insaciável”. (Kors e Peters, 1976, p.127).
Infere-se, portanto que, o corpo feminino sob o olhar masculino é o signo do mistério e, por isso merece atenção à suas ações, embora fique explícito que ao mesmo tempo em que os homens adoravam, receavam o poder sedutor da sexualidade da mulher, uma vez que tal sexualidade era vista operando tanto no plano cósmico – humanidade surgindo do útero original da mãe natureza – quanto ao nível mais pessoal – o individuo nascendo do ventre da sua mãe biológica – deve ter sido um choque e tanto. A “mãe” terna e carinhosa que gerou ambos também tinha um lado escuro insensível e frio. (A exemplo disso, se tem a tragédia de Sófocles, Édipo Rei, na qual a mãe atendendo aos pedidos do marido desfaz-se do filho, mais tarde vindo a ter com ele três filhos).

Considerações

Efemeramente, conclui-se que o corpo, sobretudo, o feminino na cultura e sociedade atuais, embora tenha havido grandes lutas feministas na década de 1970, até hoje, ainda é visto como um signo ambivalente, pois carrega consigo significado de pecado, pois sua beleza e capacidade de proteção ameaçam a integridade moral e religiosa do homem, colocando o corpo dele em estado de pulsão, em que o desejo o torna irracional e irresponsável quando abatido pelo poder de mulher fatal. A exemplo disso, se tem no inconsciente coletivo a imagem de Marlene Dietrich, personificada por “Lola-Lola, a sedutora dançarina de cabaré de cartola e meias de seda que ela retratou em Anjo azul, a de uma mulher liberada que escolhe os seus homens, ganha a sua própria vida e considera o sexo um desafio. O público ficou encantado com esta criatura saída da experiência de ninguém mas da imaginação de todo o mundo”. (New York Times, 1992, p. A1 apud Randazzo, 1997, p. 120).
Assim sendo, o homem deseja, porém receia o corpo feminino em sua essência por medo de ser tragado pelo limo primordial, de ser devorado pela libertina, insensível força procriadora da Grande Mãe. Embora inconscientemente saiba que a mulher fatal é uma ficção, mas uma extrapolação de realidades biológicas das mulheres que permanecem constantes. (Paglia, 1990, p. 14).

Referências

CHAUÍ, Marilena. Repressão sexual essa nossa desconhecida. 12. São Paulo: Brasiliense, 1991.
FOUCAULT, Michel. Historia da sexualidade: vontade de saber São Paulo, Graal 1985.
_________ Historia da sexualidade: o cuidado de si. São Paulo, Graal 1985.
GIDDENS, Anthony, A transformação da intimidade, São Paulo: Editora da Unesp, 1993.RANDAZZO, Sal. A criação de mi

COMISERAÇÃO

Na carícia de teu olhar
Dispo a alma a contemplar-te.
E na lassidão de querer...
Afogo-me na fonte de seu prazer


Entorpecido na torrente de carinho
Que dele nasce fico mesquinho
E assim a quero toda em mim.


Os teus olhos escondem a solidão
Penetrante que me hipnotiza
Sem a menor compaixão.

Vitimado por teu nobre olhar
Sinto ao mirar em sua direção
O corpo se afastando da alma,
Logo entra em convulsão...


03 de maio de 2008, 21h24min.
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 2 de maio de 2008

CARÊNCIA SUA

Não importaria se o tempo voasse
Queria ficar com você numa boa
N campo, na cidade se lá onde fosse.

Não suportaria
Afastar-me de você.
Nem que fosse ao mar de calmaria.

Gritar seu nome a toda voz
Não me incomodariam os ouvidos
Silenciá-lo à minha boca,
Isto sim, me mataria.

Sua ausência me magoa
Tanto que o coração ecoa
Brados tristes ao infinito...


02 de maio de 2008, 22h51min
Robério Pereira Barreto

A VOZ DO LEITOR DO POETA DA SOLIDÃO

Este postagem tem um quê de especial porque se trata da voz metonímica dos que lêem esse humilde espaço poético e, por sua vez, apreciam minha produção literário.

"Ai, ai.... seu blog está lindo, fiquei realmente... "embevecida?" ao ler todos as suas poesias... não sei lhe dizer qual deles é o mais belo, porém os que mais tocaram meu coração sem dúvida foram Iniqüidade e Fim do Caminhar... nossa seus versos parecem ter lido os sussurros do meu coração por toda uma vida... Amei. Parabéns poeta."
Obrigado a todos!

INIQÜIDADE

Como o vento que penetra
No dificultoso galho da favela
Para refrescar a flor que brota
Inocente entre venenosos espinhos,
Sua alegria penetrou esse coração,
Ferindo-o sem compaixão.

Preso à tentação de sua beleza,
Ele se prostra aos seus pés
Clamando por uma migalha,
Embora tenha a fartura diante de si.

Soberba com a flor protegida
Pelos espinhos cheios de veneno,
Simplesmente ignora e
Em pequenos pedaços o esgarça...

E agora o que a gente faz?
Ama ou o deixando em paz,
Porque se for além com isso
Não dará outra, o matará!

02 de maio de 2008, 02h12
Robério Pereira Barreto

IMPROFÍCUA BEATITUDE

Quero dividir contigo
O silêncio ruidoso
Que faz esse coração
Aflito se esconde em si mesmo

Esfalfando-me nos meus medos
Golpeio-me com a lança da solidão
Para expurgar da alma os desejos vãos...

O silêncio testemunha e grita a toda voz:
Improficua atitude de privar o corpo e alma
De sentir prazer escondendo na vã beatitude!

Confuso, compartilho esse imenso
E desvairado mundo silencioso
Que ao me angustiosamente me alivia.

02 de maio de 08, 00h51min.

Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 1 de maio de 2008

RESISTINDO...

No meu querer a ti
Passei por tormentas,
Naufrágios interiores...

Lutei contra mim mesmo,
Admirando sua beleza
Vaguei entre meus vazios
E com dor na alma sofri a esmo.

Solto o pensamento vacila
Ao pisar no lado de fora de si
Fica perdido à luz do devir...

Agora tudo há um pouco de ti
Sinto falta de sua companhia
E sorriso e boca banhando
O corpo de ardentes beijos...

01 de maio de 2008, 22h40min
Robério Pereira Barreto

PERAMBULAR

No marchar da vida,
A cada passo o caminho modifica...

Então, o coração em desalinhado;
Andarilho sem destino percorre
O Universo feito menino solto
Na rua em dia de fria chuva
A fazer cascata de alegria.

Nessas loucuras de andanças
Sem rumo de direção
É livre feito criança
Porém, às vezes, não sabe escolher
A melhor ladeira a descer...

Perdido, fica submisso
Às vontades do malvado devir
Que aproveitando de suas incertezas
Maldosamente se diverte
Ao vê-lo desvairadamente sofrer
Entre a madrugada e o amanhecer...

01 de maio de 2008, 17h17
Robério Pereira Barreto

FIM DO CAMINHAR

Nada pior do que acordado sonhar
Com alguém que se escolheu
Para na eternidade da alma se entregar
E, de repente, tudo se dilui no ar.

Desperto dessa infame emoção
Procurando algo para segurar,
Não encontro, tudo é ilusão
As mãos inertes não podem lhe alcançar.

Sozinho, não tenho a quem reclamar;
Ao longe surge à sombra um pouco de ti
A perseguir...

Agora é hora de não mais
Esse caminho trilhar
porque caminhei nele até cansar.

01 de maio de 2008, 12h19
Robério Pereira Barreto

ABRAÇANDO O SILÊNCIO...

No agito silencioso da alma
Sua ausente presença
É-me preciosa; acalma-me.

Maliciosamente suas mãos
Navegam a preencher os vazios de mim,
Que tomam conta de tudo aqui
Sem ao menos eu permitir.

Abraçado no silencio sozinho penso:
Será que tudo isso é por que
Tem que ser você
Para meu peito encher
De alegria e prazer?

Não dar para negar
Que abraço o silêncio
Por medo de te esquecer...

01 de maio de 2008, 11h52
Robério Pereira Barreto

quarta-feira, 30 de abril de 2008

ANOITECI EM VOCÊ

Naquela noite...

O amor tomou conta do meu céu
Ao tê-la em mim por instantes mil,
Quando deixamos cair o véu
Que nos cegava a paixão.

Sem ti em aqui
Cerro os olhos
Para voltar àquele momento;
Quando em gritos éramos
Levado ao prazer infinito...

Livres, porém distantes
Retorno aos instantes
Em que sua boca suave
Deliciava a mim como...

30 de abril de 2008, 12h19
Robério Pereira Barreto

domingo, 27 de abril de 2008

RASTRO DE MIM

Como a aranha que deixa
Nos fios da teia
Parte de sua vida...

Este ser deixa no caminho
Por onde passa rastro
Pensando em retornar um dia
À paixão cheia de galardia,
.

Então, o coração em arritmia
Descompassadamente marca
A hora do reencontro...



27 de abril de 2008, 20h41
Robério Pereira Barreto

DEPOIS DA PARTIDA

Qual beija-flor na primavera
Saboreia a vida da flor
Osculei sua boca
E trago comigo seu sabor...

Entre as muralhas da separação
Há em mim um pouco de ti
Porque insone fecho os olhos
E a tenho no fundo na memória.

Agora, restam-me as horas
Que nos separam do crepúsculo
Nevoento à brilhante e cheirosa aurora.

Boca e olhos fechados degustam
Nossos últimos momentos,
Quando entre medo e volúpia
Éramos apenas almas juntas.

27 de abril de 2008, 10h55
Robério Pereira Barreto

sábado, 26 de abril de 2008

MÓRBIDO DESEJO

Moribundo e perdido na (in)maginação,
O silêncio ecoa gemidos fúnebres da alma,
Levando o corpo à contrição.

(Des) pedaçado pelo vento do devir
Que sopra labaredas fumegantes;
O cadáver nu é chamuscado pela
Indiferença da in(decisão)
Impossibilitado não reage, chora.

No relento da solidão
Queima-se em lágrimas
Como se fosse vulcão
Chorando a dor da seperação.

A maresia que cai aumenta
As chamas da (dês) ilusão.

Mórbido desejo, ou dor da separação?

26 de abril de 2008, 00h31
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 25 de abril de 2008

PRECARIEDADE...


Por detrás de clara lua
Escondem-se fantasmas
Que flutuam na escuridão...

No labirinto da mente
Voam cacos de mim...

Solto no espaço negro
De esse meu singelo existir,
Fios de negrura do devir
Reluzem na imensidão...


25 de abril de 2008, 22h56min
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 24 de abril de 2008

FIOS DE NOITE

FIOS DE NOITE

No lugar da letargia
Depois de mais um dia
Em que a dura lida
Era suportada na
Esperança de te encontrar
Com sorriso manhoso...

Tenho uma vigília constante
Acompanhada de imagens,
Sabores e cheiros seus,
Fazem de o coração ser pulsante.

Agora, estremecido na cobiça
De seu carinho e aconchego,
Os fios da escuridão são
De mim mesmo minha comiseração.

Entorpecido pelo negrume da noite
Reclamo a mim mesmo a falta de ti
Pedindo: aplacar minha insone ilusão
Com sua meiguice consideração;
Beije-me até a exaustão.

24 de abril de 2008, 00h10min.
Robério Pereira Barreto

quarta-feira, 23 de abril de 2008

SONO INVADIDO

INVASÃO

Nesse momento, enquanto vejo no rosto
As marcas da noite anterior,
No espelho sua imagem toma meu espelho
Como se me dissesse: Eis me aqui novamente.

Não, não é verdade...
Você continua a me seguir
Essa noite não me deixou dormir
Invadiu meus pensamentos
Fazendo-me um zumbi...

Dê-me uma razão para estar assim
Ou melhor, me diga qual mal lhe fiz
Porque quero nesse momento apenas ser feliz.

Se lhe falei algo
É porque simplesmente lhe quis
Em meus abraços para beijar...

Mesmo que pareça infantil
Não há razão para seguir
Meus pensamentos
Me deixando assim...

23 de abril de 2008, 09h11
Robério Pereira Barreto

ERROS

FOI ASSIM...


A cada manhã procurando meus erros
Escritos nas linhas amassadas do lençol
Depois de uma noite sem dormir,
Olhando a estrelas e a lua sobre mim.
Foi assim... aqui estou...

No rosto estão as marcas da espera
Todo olhar voltado à porta.
Insone a noite inteira espreitando-te
Não veio, só judiou de mim.

O corpo chamou por ti
E em silêncio latejante,
No mais alto dos gritos infames
Calou o tambor do peito...

Padecendo de carinho toda a noite
Mantive meus pensamentos em ti
Tirando do tecido a maciez
Que queria tira da sua pele.
Não veio, só judiou de mim.

Derrotado, fiz do lençol Confessor
Que na balburdia do meu delírio;
Ouviu-me sonolento fazer promessas
De que se um dia nos encontrarmos
Não haverá razão que me segure
Amar-te-ei sem reservas seja
Onde estivermos...
Foi assim... aqui estou...
Não veio, só judiou de mim.

23 de abril de 2008, 00h44
Robério Pereira Barreto

terça-feira, 22 de abril de 2008

MALINO OLHAR

FULMINANTE OLHAR

Ao seu lado sinto medo
Porque desejo seu beijo
Em demasiada alegria.

O coração em arritmia
Se derrete ante este olhar
Ingênuo e fulminante...

Em volúpias mil
Sinto-me infantil a cobiçar
Um afago nesse regaço...

Em transe engulo ar ardil
E sigo vagante na aspiração
De tê-la ao menos num instante
Nem que para isso fique febril.

22 de abril de 2008, 16h43.
Robério Pereira Barreto

BELEZAD DE...

SINTO APENAS...

Neste imenso lugar
Sinto a falta de ti
Com esse matreiro olhar
Esgarçando-me em desejos...

E, por detrás da cortina branca
A cair do céu cobrindo-lhes
Ombros e cândida face,
Sobressai uma beleza deslumbrante.

Com formosura vibrante
A desabrochar naturalmente,
Amanhã se esforça na sua lindeza
Para alinhar-se a ti.

Tristeza e felicidade me fazem
Acordar olhando para o céu,
Esperando a caída do véu
Que cobre sua face e lábios de mel.

22 de abril de 2008, 13h
Robério Pereira Barreto

domingo, 20 de abril de 2008

AMOR NAS ALTURAS...

CAMA DE LUA.

Gosto de sentir os fios da lua
Roçando minha face como
Suas mãos suavemente nuas
Desciam em frenética maestria
Para encontrar abrigo em meu
Peito ofegantemente sem jeito.

Encabulado, porém gostando
De tamanha ousadia
Deixava a timidez ao vento,
Para tomá-la nos braços
E sob pingos de lua subtrair
Dessa beleza láctea o prazer
Num beijo demorado.

Depois de embebedado por ti
De forma sublime e crua
Desfaleço nos lençóis de cristais
Que cobrem a cama do universo
Na qual esse amor se perpetuará.


20 de abril de 2008, 22h45
Robério Pereira Barreto

COMPLEIÇÃO...

COMPLEIÇÃO
Posso ver e sentir
Seus braços aqui
Acariciando-me a tez
Em chama...

Depois de amá-la
Sonolento, fico sem voz,
Ouvindo sua aveludada
Fala acalentando esse exausto corpo.

Como recompensa
Entrego-me às suas mãos
Que enxuga o suor...

Em febre delirante
Convido-lhe a amar
Em paixão vibrante...

20 de abril de 2008, 19h27
Robério Pereira Barreto

SINA GUIA

SINA GUIA

Que a vida me guie
Ao encontro de algo
Ao qual certamente confie.

Nessa caminhada quero a luz
Que, como a paixão me leve
Me ceguei diante dessa beleza
Magistral de seu espírito flui.

Afogar-me-ei na secura da ilusão
De um pode ter a ti
Ofegante sobre o meu coração
Depois de amar-te de montão.

Lânguidos, olhos brilham
Como se fosse derreter
A escuridão...

20 de abril de 2008, 00h47
Robério Pereira Barreto