domingo, 1 de junho de 2008

RESSURREIÇÃO

Ano de 20013 e lá estava o relógio na parede, cujo marasmo dos ponteiros denunciava como o tempo naquela casa acontecia. Sustentava-se por um fio que de tanto estar ali, naquela mesma posição mostra-se indiferente a tudo à sua volta. Em seu formato cilíndrico e cores medievais fazia o movimento contrário aos acontecimentos da casa. Ali, vidas, amores, desamores, alegrias e tristezas ocorriam à velocidade da luz, porém não eram suficientes para abalar a sua existência enquanto membro ausente da família. Entretanto, eis que alguém olha para a parede e percebe que os ponteiros do relógio tinham parado à zero (00h). Naquele instante foi uma surpresa, susto geral como se uma tragédia tivesse abatido sobre todos. Daí surgiu os maiores lamentos:
- Nossa! Que houve? Que horrível? Com parcimônia, a matriarca da família, sentada em sua cadeira de fios a laser; indagou.
- Certamente, acabou o fluído atômico. Vociferou uma
mocinha com roupas de néon e cabelos coloridos cheio de luzes.
- Imagina! Que houve com todos? Devem estar loucos. Faz anos que esse relógio encontra-se nessa posição. É como se pedisse para que alguém lhe desse um pouco de atenção – entretanto, passaram por esta sala gerações, e ali estava ele, imóvel, jogado ao limpo da indiferença. Certamente, cansou da inércia daqueles que deveriam ao menos considerá-lo com alguém da família e morreu. Agora é preciso acontecer o milagre da ressuscitação!

sábado, 31 de maio de 2008

IDENTIDADE COMO DISCURSO PUBLICITÁRIO



A publicidade é um requisito importante para a comunicação no sistema de moda. Desde muito tempo até hoje são variadas as maneiras para se registrar e difundir as interações sociais por meio da moda.
Para isso se justapõem inúmeras linguagens – verbal e não verbal entre outras. Estes discursos se interpenetram, objetivando garantir e atender aos desejos básicos de preservação da cultura e do consumo na sociedade contemporânea. Entre estes discursos destaca-se a produção publicitária relativa à moda. Assim sendo, neste ensaio intenta-se construir argumentos sobre a importância do discurso na construção de uma marca e, por seu turno, a fixação desta no inconsciente coletivo, promovendo assim uma espécie de identidade comum aos usuários de determinados tipos de serviços e produtos.
Para tanto, se elege como corpus a peça publicitário de uma empresa do ramo de confecções situada na cidade de Irecê- BA, veiculada em outdoors, rádio e espaços públicos (lixeiras, painéis, placas, etc.) com a mensagem: “FABIANO É AQUI moda com identidade.” que segundo informações prestadas pela gerente da loja, tal texto foi produzido por uma empresa de publicidade da capital.
Busca-se, portanto, entender ainda os processos semio-ideológicos presentes em tal texto. Para isso, se utilizará como suporte teórico-metodológico os fundamentos da semiótica, uma vez que tal ciência possibilita o desvelamento dos signos usados na constituição do discurso em questão.
Sabe-se a priori que a publicidade traz em sua essência e, por conseguinte, aglutina em si vários expedientes das linguagens, transformando suas mensagens em signos artísticos na medida em que se juntam variadas imagens para formatar o texto num único signo. Neste instante, privilegia-se a publicidade como gênero discursivo[1] e que tem uma significância para a comunicação na sociedade contemporânea, sobremodo quando a mensagem se dirige à moda como construto da identidade individual ou coletiva.
Conforme estudiosos, o fato de a publicidade traduzir uma concepção de linguagem de arte visual e meio de expressão narrativo não se refere as apreciações gratuitas, constata-se, portanto, a facilidade que tal discurso tem em transcender às barreiras da comunicação interpessoal, pois o signo do proprietário é a marca que identifica e promove a regra do negócio.

Desvelando conceitos
Sabe-se, portanto que à primeira vista a publicidade é um sistema de signos lingüísticos e semiológicos que formam e dão significados à mensagem. Entretanto, é necessário que se conheça o canal por meio do qual o texto será veiculado. Fala-se ainda que a publicidade tenha a sua origem na Babilônia, onde foi encontrada por arqueólogos uma espécie de tabuleta em cerâmica contendo mensagens promovendo a venda de gado e alimentos.
Dessa forma, a publicidade passa-se a ser empregada aqui como uma comunicação de caráter persuasivo que visa defender os interesses econômicos de uma indústria ou empresa, bem como mecanismo que possibilita a fixação de uma marca ou produto na mente do consumidor, levando-o a criação e ou aceitação da identidade proposta por ela.
No que se refere a identidade neste sistema, Charaudeau (2006, p.72) fala de indentidade como sendo instâncias de informação e considera que todo ato de comunicação coloca em relação as instância de produção e recepção para que possa surtir os efeitos significados pelos enunciados. Para ele, a instancia de produção é ampla e porque além de fornecedor de informação propulsiona o desejo de consumir, levando seu público à captação de recursos socioculturais para inferir à mensagem proposta pelo discurso publicitário. Já a instância de recepção está o prazer em ser visto na pela identidade criada pela informação.

Assim, a instância de produção deve se considerada de modo diferente, ora como organizadora do conjunto do sistema de produção, num lugar externo, ora como organizadora da enunciação discursiva da informação. A instância de recepção também dever ser desdobrada: de um ponto de vista interno à instância midiática, [...] a instância de recepção propriamente dita, com uma atividade própria de consumo, é deisgnada como “instância-publico””. (Charaudeau, 2006, p.72).


Para Dichter a publicidade faz com as coisas ganhem alma, isto é, os produtos aos serem adquiridos pelo consumidor, automaticamente, influenciam muitas vezes as reações de outras pessoas de maneira específica, por que a ele foi dada uma identidade. Então, a imagem e personalidade da marca fazem com que o usuário se veja valorizado entre os grupos sociais a que pertence.

Referências
BAKHTIN, Mikhail M. Estética da criação verbal (trad. do francês Maria E. G.G. Pereira). São Paulo: Martins Fontes, 1992.
BARBOSA, Ivan Santo.Os sentidos da publicidade:estudos interdisciplinares. São Paulo: Thompson Learning, 2005.
JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunicação (trad. I.Blinkstein e José P. Paes). São Paulo: Cultrix, 1971.
LOTMAN, I. A estrutura do texto artístico (trad. M.C.V. Raposo e A. Raposo). Lisboa: Estampa, 1978.
MARANHÃO, J. A arte da publicidade, estética, crítica e kitsch. Campinas: Papirus, 1988.
RANDAZZO, Sal. A criação de mitos na publicidade: como os publicitários usam o poder do mito e do simbolismo para criar marcas de sucesso. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
[1] Entendido aqui como espaço comunicacional amplo onde se justapõem linguagens de arte visual e verbal e meio de expressão narrativo em que princípios semiológicos e lingüísticos adquirem valor significativo, seja como arte; seja como instrumento cultural e político.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

PAIXÃO TELEPÁTICA

Sua ausência-presença é a energia
Que move a máquina dessa paixão,
Transformando a dor da separação
Na doce magia da combustão.

Quero-te todo hora e dia
Com a força do pensamento;
Faço amor contigo todo momento
Em que sua face invade minha mente.

Neste prazer independente
Desejo ti minha amante
Austera e complacente.

30 de maio de 2008, 19h33min
Robério Pereira Barreto

TAVERNA DA PAIXÃO

A noite está ficando fria
E com ela vem uma gélida
Sensação de que estou
Numa taverna dostoiéskiana
Onde tudo a alma espia.

Desorientado, tudo se move
E aos poucos uma imagem de ti
Nas paredes úmidas surgi,
Daí tento fitá-la, logo foge.

Embriagado com a frieza da aparição
Derramo à mesa lágrimas de saudade
E tenho vontade de aquecer
Corpo e a alma nas chamas
Desse suave e belicosa boca...

30 de maio de 2008, 19h08
Robério Pereira Barreto

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A MISÉRIA INTELECTUAL CONTEMPORÂNEA: CULTURA DO CONTROL “C” E CONTROL “V”

Gostaria de poder dizer a partir do meu lugar de fala, professor e pesquisador sobre a produção de linguagens e leituras nos meios digitais, que estamos vivendo um instante paradoxal no que se refere à “produção” do conhecimento, uma vez que ao mesmo tempo em que se reclama da falta de bibliotecas públicas para os estudantes buscarem livros para ler e fazerem pesquisas escolares tem-se dados oficiais mostrando o aumento do número de leitores em todo o país, sobretudo daqueles que lêem e produzem ciberdiscurso, isto é, há uma massa de jovens estudantes dominando a técnica e o código da linguagem das salas virtuais, desprezando com isso, a pesquisa em livros de referências.
Há quem defenda esta questão e existem também aqueles que atacam o uso indiscriminado de qualquer um desses meios de acesso ao saber. Na verdade, o que se pode dizer a respeito disso é que tem havido, sobremodo, no meio escolar, inclusive no espaço universitário uma disposição à lei do menor esforço, ou seja, estudantes desde as séries iniciais até a universidade, conforme tenho notado em trabalhos a que me são destinados; a cultura do “copiar e colar”, caracterizando assim a miséria intelectual dos alunos.
Em alguns casos a pobreza é tão grande que o “analfabeto digital” copia e cola na íntegra as informações, sem ao menos se dá ao trabalho de apagar o endereço do site de onde usurpou as idéias. Entretanto, o mais chocante é que, às vezes, alguns “espertos” ao serem solicitados a explicarem o que supostamente produziu, comentem os mesmos erros de conceitos e até de escrita oriundos do texto de origem.
Queria ainda lembrar que a rede mundial de computadores veio para facilitar a vida em muitos aspectos, conforme foram todas as tecnologias até então. Entretanto há pessoas menos cuidadosas que a usam para meios fraudulentos, principalmente, no que diz respeito as produção de trabalhos escolares, sejam eles elementares ou acadêmicos.
Com isso venho acompanhando dois aspectos imprescindíveis à formação do sujeito no que se refere à formação intelectual: O analfabetismo digital dos professores, bem como sua indisposição para leitura sistemática dos assuntos atualizados de sua área de atuação; a preguiça intelectual dos estudantes em debruçarem-se sobre determinado tema, dessecando-o a partir de inferências, resultado de pesquisas e leituras em fontes mais confiáveis. (pensar dói, não é mesmo?).
Dessa forma estamos criando a pretexto de uma inclusão digital, falsos pesquisadores, ou melhor, forjamos a temperatura de Bytes, especialistas em “copiar e colar” idéias alheias, as quais na maioria das vezes é uma síntese rasa de questões importantes para a vida e a intelectualidade dos estudantes.
No campo da leitura a questão se agrava ainda mais, visto que muitos não têm paciência de ler até o final do texto e acaba por ter uma visão caolha do assunto apresentado pelo “autor” que sintetizou a informação a sua maneira. Tenho observado com muita freqüência estas ocorrência no campo da literatura, uma vez que os estudantes não lêem mais as obras originais, mesmo aquelas disponíveis em site especializados (a exemplo disso é o site: www.domíniopúblico.gov.br) no qual o Ministério da Educação e Cultura – MEC disponibiliza obras dos autores consagrados da literatura nacional e universal o qual vive em vias de sair do ar porque não se tem o acesso desejado, uma vez que se prefere copiar e colar os resumos das obras de sites especializados como se fosse de autoria própria; quanta miséria intelectual neste contemporâneo! Como diriam os pessimistas: pode ficar pior quando chegarem às escolas, se é que vão chegar para todos, os famigerados computadores portáteis com acesso à internete, prometidos pelo governo federal. Imaginemos a situação: aqui no sertão onde não há livros para se formar a base da consciência de leitura e escrita, quão geral será a miséria intelectual dos estudantes ao reproduzirem as idéias e pensamentos advindos dos centros digitais e tecnológicos dos pais e do mundo. Alienação total! E nós, professores mais vez continuaremos reféns de todo esse caos programado, como diria o personagem da Juvenal Antena: justamente porque sempre somos os culpados por todas as desgraças do sistema.

HIC ET NUNC

As folhas no outono
Desfalecem nas carícias do vento.
Sob o olhar apaixonado do pôr do sol
Passeiam pela pele do rio
Como se o acariciasse para acordar.

Assim é meu coração nessas manhãs
Em que o frio da solidão o congela
À espera de sua boca acordando
Com afagos calientes...

Na pele corre um ardor
Que queima a alma sem pudor;
Ai tudo é vazio não a tenho
Como o rio tem as folhas de outono
Acariciando-o em infinita devoção.

Hic et nunc sinto apenas saudades
De ser como outrora;
Sua boca aquiescendo às minhas vontades
Em seu prazer de...

28 de maio de 2008, 13h25min
Robério Pereira Barreto

domingo, 25 de maio de 2008

NEOREALISMO DAS RUAS: JORGE AMADO E NABIL AYOUCH

Este ensaio parte do princípio de que as linguagens artísticas sejam literárias, ou cinematográficas têm em suas essências elementos da realidade os quais são transformados pela abstração da arte. Em outros termos, o cinema como expressão artística oferece ao espectador-leitor uma linguagem híbrida em que se justapõem vários signos: imagético, sonoro e verbal. Com isso, a mensagem fílmica ganha relevância artística e social à medida que se projetam possibilidades de interpretação a respeito de dada realidade.
Pensa-se, portanto, que o uso das matrizes de linguagem conforme quer Santaella em seu matrizes de linguagem e pensamento: sonoro, visual e verbal (2001) no discurso cinematográfico, sobretudo, quando este é comparado ao outras alocuções, por exemplo, à literatura; tem-se assim um mecanismo de interpretação significativo no que se refere ao posicionamento de cada matriz nos espaços narrativos promovidos por cada um desses gêneros textuais.
Mediante esta questão, toma-se como referência para comparação e a análise as narrativas As ruas de casablanca (2000), de Nabil Ayouch e Capitães da areia (1967), de Jorge Amado, buscando nelas os elementos centrais que configuram a dramaticidade das obras, destacando assim os signos que compõem as “realidades” narradas em cada uma delas. Até por que, a temática de ambas as obras, embora tenha surgidas em momentos diferentes diz respeito à vida na sociedade contemporânea; o abando e violência a que são submetidos os meninos de rua no mundo inteiro, independentemente de suas origens religiosas.
Com isso, tomam-se o cinema e a literatura como instrumentos que ocupam lugares centrais na comunicação quando se refere à representação da realidade, possibilitando inclusive, a interpretação da história dos povos e, por conseguinte os seus costumes através dos quais são demonstrados culturas e identidades. Assim, não há dúvida de que os filmes e as obras literárias são ricos mecanismos para a compreensão de outros aspectos e de como as sociedades e outras instâncias os utilizam como meio de difusão de idéias e comportamentos até então não realizados pelo Estado. Nesse texto, serão destacadas as matrizes de linguagem que estruturam os discursos das obras já mencionadas anteriormente; narratividade, constituição das personagens, espaço e tempo da narração, etc.
A questão que orientará as discussões a seguir é a seguinte: Quais os pontos de confluência entre as narrativas As ruas de casablanca (2000), de Nabil Ayouch e Capitães da areia (1967), de Jorge Amado que podem ser analisadas sob o prisma da semiótica? Porém, antes de ir direto a esta resposta, faz-se necessário uma reflexão sobre o significado e importância do cinema para a sociedade. Para tanto, realizar-se-á uma incurssão pelos caminhos da narrativa e, sobretudo, do cinema, na tentativa de promover uma discussão clarificadora a respeito das matrizes de linguagem que asseguram a estética do gênero.
Sabe-se que a literatura e o cinema nos dão certamente alguns dos instrumentos mais eficazes para a compreensão dos processos culturais e ideológicos ocorridos em dados momentos numa dada sociedade, por isso analisar-se-á a relações entre as narrativas filmicas, destacando os princípios estéticos de cada uma delas. Sabe-se ainda que a narrativa literária representa algo para além da metafísica, porque é estrategicamente elaborada a partir de uma representação de um pensamento. Na mesma perspectiva encontra-se o cinema, entretanto, a narrativa cinematográfica tem sido amplamente recebida pelo espectador-leitor devido à hibridização da linguagem, isto é, no filme se justapõem as matrizes sonora, visual e verbal com objetivo de fornece elementos estéticos para a interpretação da temática proposta pela narração. Espera-se, portanto que ao longo dessa análise estes pontos sejam elucidados, facilitando assim a compreensão dos objetos em estudos, filmes.

Arte de representar o real
Em linhas gerais, diz-se que o filme é fruto de uma ordem físico-química, tendo sido reconhecido mais amplamente a partir do instante em que se verificou a disposição e retenção das imagens pelo olho humano no campo visual, tornando possível que as imagens fossem registradas em movimento com a percepção igual do olho humano, que viria a concretizar o desejo de muitos povos, registro do cotidiano em movimento, cores e sons. Para leite (2003, p.12) o primeiro fruto da invenção do cinema “foi a captação de cenas do cotidiano”, justapondo-se às outras artes de narrar o cotidiano, uma vez que até então os acontecimentos eram garantidos pelas narrativas históricas e literárias, bem como pela fotografia. “Com o cinematografo, o mundo natural e o mundo criado pelo homem poderiam ser fixados em imagens animadas e os primeiros filmes produzidos nada mais foram do que se poderia chamar de fotografias animadas” (Leite, 2001, p.12). Todavia, há de se lembrar que o filme tem sua essência na composição e estética narrativas e, portanto, este é um dos elementos que o liga à literatura.
Nesse contexto, inferi-se que o filme por ser um gênero narrativo agrega a si várias técnicas e linguagens, tornando-se hibrido por natureza e ação, uma vez que “o cinema é resultante do aperfeiçoamento da linguagem e técnica da pintura e da fotografia. Com isso, configura-se a premissa de que se trata de um discurso cuja hibridização dilui-se dando a entender que estamos diante de uma criação em que o real é transformado em mágica, pois se aglutinam matrizes sonoro, visual e verbal ao acontecimento a ser narrado.

Referências
NAZÁRIO, Luiz. As sombras móveis. Belo Horizonte, UFMG, 1999.
SANTAELLA, Lúcia. Matrizes da linguagem e pensamento: Sonora visual verbal. São Paulo: Iluminuras, 2001.
MACIEL, Kátia. Transcinema e a estética da interrupção. In. FATORELLI, Antônio. , BRUNO, Fernanda (orgs.) Limiares da imagem:tecnologia e estética na cultura contemporânea. Rio de Janeiro: MauadX, 2006, p. 71.
JAGUARIBE, Beatriz. Realismo sujo e experiência autobiográfica. In. FATORELLI, Antônio. , BRUNO, Fernanda (orgs.) Limiares da imagem:tecnologia e estética na cultura contemporânea. Rio de Janeiro: MauadX, 2006, p. 109.
TEIXEIRA, Francisco Elinaldo. Documentário moderno. In. MASCARELO, Fernando. História do cinema mundial. Campinas-SP, Papirus, 2006, p. 253.
FRANÇA, Andréa. Cinema de Terras e fronteiras. In. MASCARELO, Fernando. História do cinema mundial. Campinas-SP, Papirus, 2006, p. 395.

FARRAPOS

Noite enluarada, enluarada...
Ruas movimentadas
Onde passeiam fantasmas
De olhos fitos a procura de si.

Olhar vibrante, vibrante olhar...
Na escuridão reconhece em faces
As vagas de sua exaustão.

O pincelo da insignificância
Preenchem as lacunas da infância;
Os farrapos humanos
Nascem nas sombras da ilusão.

24 de maio de 2008, 16h25min
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 23 de maio de 2008

CONLUIO...


Na conspiração de astros e estrelas
Sou vítima de primeira,
Quando a perco de vista
E fico chorando a desdita.

Na busca por um aconchego
Lanço ao universo um grito
Sufocado cheio de apelo:
Não me faça viver nesse
Ingrato desmazelo!

Seu silêncio eloqüente
Machuca com lança de fogo
Esse coração plangente.

22 de maio de 2008, 16h53min
Robério Pereira Barreto

terça-feira, 20 de maio de 2008

DELÍRIO

É manhã noturna
E sob essa luz turva
Quero amar-te
Com toda a minha ternura.

Num abraço seguro
Quero envolver-te
Até desfalecer-nos
Num prazer obtuso.

Jubiloso, a ti cantarei
A canção infinita da paixão:
Amar-te nessa manhã noturna
É saltitar de alegria na vias
Sublimes da adoração.

20 de maio de 2008, 23h
Robério Pereira Barreto

FRÁGIL BELEZA

A lua desce a rua
Sinuosamente tímida
Depois que foi tocada
Pelo manto suave da noite.

Elegantemente bela
Passeia na passarela
Do infinito...

Maliciosos, astros e estrelas
Cochicham uns aos outros
Quão imensa é sua delicadeza.

Inerte em sua frágil frieza
Faz-se senhora de si
E deslumbra a todos
Com infinita beleza...

20 de maio de 2008, 18h39min
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 15 de maio de 2008

ENCARCERADA NO DEVIR

Nas noites de néon
A alma plasmando nas alegorias,
Passeia moribunda em mudez...

Entre luzes violetas
E janelas púrpuras;
Torna-se à obscura
Na claridade impura.

Em espaço-nave ver o devir
Sem ao menos do passado
Ter podido sair.

Embriagada à luz do laser,
Abduz-se pela imortalidade;
Mumifica-se na incerteza...

15 de maio de 2008, 16h43min.
Robério Pereira Barreto

CASINHA DE AMOR

Uma casinha na caatinga
Acabei de desenhar
Para na janela debruçar.

E na matina acordar
Para ver meu amor
Vestida na luz da manhã
Dourada se levantar;
E sob o cheiro da aurora
Pelo sertão juntos caminhar.

Ela, com seu cheiro de flor
O meu dia enche de amor,
Acalentando no peito
A chama de...

15 de maio de 2008, 4h
Robério Pereira Barreto

domingo, 11 de maio de 2008

ESCOLHAS

Tantos livros lidos ao pé da letra
E histórias nas entrelinhas inferidas...

Tantas vivências percorridas
Á duras horas insones;
Quantos saberes adquiridos,
Em meditação, a mente
Por vezes se fez constante.

Face à bela singeleza de ti
Nada, nada do que pensei
Que em sacrifício aprendi
Agora serve a me.

Frágil, quase senil...
Rendo e faço-me
Das coisas do coração,
Infante e simples aprendiz...

11 de maio de 2008, 22h13
Robério Pereira Barreto

TRANSEUNTE

Caminhante nas veredas da alma
Sua luz leva ao peito à calma
Para seguir viagem rumo à paz.

Debruçado nas incertezas
Ante as encruzilhadas do devir
Segui a diante é viver claras
E longas andanças sem perder
A esperança de si.

Sol a pino e noites frias
São desse caminhante
Féis companhias.

Sede, fome agonia
Desbotam a alma,
Deixando-a sem alegria.

11 de maio de 2008, 20h39
Robério Pereira Barreto

sábado, 10 de maio de 2008

DESPEDIDA

Eis que tenho que partir
Mesmo sem saber aonde ir
Peço-te perdão por quaisquer
Erros que cometi.

Juro, todos foram na intenção
De acertar e lhe fazer feliz.

Absorto confesso:
Conhecer você foi entre as coisas
Que vivi neste tempo,
O melhor caminho que fiz.

Perambulo em mim mesmo
Sinto-me frágil;
Sou um arremedo a viver a esmo
Porque não posso fazê-la feliz.


10 de maio de 2008, 00h29min.
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 9 de maio de 2008

DESMEDIDO ARDOR

No fascínio de ti
A vida corre solta na mente;
Tudo é turvo e não consigo
Fazer outra coisa se não
Pensar em amar-te inclemente.

Agora, tudo parece fora de cor,
As flores no buquê se misturam
E a distingo como a mais bela flor.

Nesse jardim dos desejos
Muitas belezas há,
E seu perfume faz o lugar
Onde posso lhe encontrar.

Mesmo na noite escura
Beijo-te na maior loucura
Como se bebesse na mais
Pura das fontes de amor...

09 de maio de 08, 23h18min
Robério Pereira Barreto

INÚTIL RESISTIR...

O mistério do olhar
Que cai sobre mim
Leva-me a outro lugar;
O infinito prazer de amar.

A magia que reluz
Dele [olhar] é a mesma que
Entre caminhos diversos me conduz.

Atrapalhado em tal fulgor
Sinto-me simples sofredor
Que no escuro da solidão
Recolho-me a evitar paixão.

Submisso a este enigmático
E reluzente olhar, não resisto
E, aos pouco me entrego...

09 de maio de 2008, 17h12
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 8 de maio de 2008

FAZ-ME!

Faz-me sentir seu cheiro
Nesse lugar ermo...

Faz-me deliciar seus beijos
Nesse banquete de desejos...

Faz-me emergir à alma
Nesse mar em chamas...

Faz-me grudar suas mãos
Nesse corpo suado de paixão...

Faz-me querer seu prazer
Aos gritos abafando os meus gemidos
Na infinitude dos perigos de amar-te.

08 de maio de 08, 22h07min.
Robério Pereira Barreto

segunda-feira, 5 de maio de 2008

PRAZER ABSOLUTO

Como passarinho que voa
Carregando no bico o maduro
Fruto de jambo...
Carrego à boca o sabor de ti

Incrustado no pensamento
Está a imagem desse corpo
Naturalmente bronzeado
E esculpido à mão pela natureza.

As idéias flutuam como folhas
Atiradas ao leito do rio.
Em prazer absoluto,
Me deixo envolve pelas carícias
E gritos absurdos do seu peito.

05 de maio de 2008, 23h21
Robério Pereira Barreto

domingo, 4 de maio de 2008

A INSTANTANEIDADE DA FÉ


A proliferação de técnica e meios digitais da informação possibilitou que vários tipos de conhecimentos se ampliassem de maneira extraordinária. Tal produtividade vai da educação à fé. Para Baudrillard (1991) estes aspectos são uma espécie de “destino indelével sobre o qual pesa a sedução” a qual se dá através de discursos engendrados pelo sistema econômico, garantindo à religião uma posição de destaque no que se refere à idéia de separação entre o bem o e mal, sedução digital da fé.
As linhas que se seguem, buscam o entendimento da expansão da fé por meio da mídia televisiva, a qual ocupar lugar privilegiado em várias grades televisivas, sobretudo, nas veiculadas nas manhãs de sábado. É interessante notar ainda que, neste dia, das 7 às 10 horas da manhã, há acerca de 10 emissoras de televisão com programas religiosos ou afins. O olhar aqui presente é segundo a programação distribuída por emissoras abertas; via antena parabólica.
Dessa maneira, parte-se da suposição de que a televisão transformou o modo de como o homem comum tem visto a cultura, a sociedade e, sobretudo, a fé. Esta é oferecida além templo, ou melhor, o mundo transformou-se em santuário graças ao alcance dos satélites que, associando elementos retóricos e psicológicos presentes nos discursos dos pastores, verdadeiros animadores de auditório conseguem conduzir uma massa ignorante a um universo cheio de fantasia e sedução num mercado ora tão competitivo, da fé.
Por um lado, tal questão é compreensível quando vista sob a ótica da modernização das igrejas tanto no plano da evangelização quanto nas inovações das metodologias usadas pelos pastores, os quais evoluíram ao epíteto de pastores eletrônicos, com discurso e estratégias de convencimento próximas à publicidade. Por outro, se tem ai a subjetividade divina que vai ao encontro da “estupidez das massas, vítimas da mídia” Baudrillard (2005, p. 42) de consumo que transforma a crença do povo em produto de degustação a qualquer preço e hora.
No mercado religioso, esta prática há muito ultrapassou o limite do bom senso, uma vez que se criou um “hiperespaço” no qual tudo parece mais verdadeiro que a própria “verdade” da fé.
Para Baudrillard (2005) é através da tela que se promove o falso ao status de verdadeiro, tamanha a evolução realizada pelos meios de massa. Assim é possível compreender o porquê de tudo que é levado à tela religiosa, ganha credibilidade instantânea, isto é, “a informação e mais verdadeira que o verdadeiro por ser verdadeira em tempo real”. (idem, p. 45).
O filósofo francês ainda adverte sobre as variadas dimensões que informações religiosas podem tomar no hiperespaço construído pela mídia devota. “as coisas não têm mais uma, duas ou três dimensões: flutuam numa dimensão intermediária. Logo nada mais de critérios de verdade ou de objetividade, mas uma escola de verossimilhança.” (op. cit.).
Nesta perspectiva, o pensamento de Baudrillard materializa-se nos testemunhos dos fiéis diante das câmeras, às vezes, chegam a forçar uma situação no sentido de se fazerem presentes e, por conseguinte, ter seu momento de fama, integrando a partir disso, o grupo das “celebridades de Deus”. Então, não é por acaso que a fé seja colocada à mostra, transformando-se num produto em promoção à qual a maioria das pessoas não teria acesso senão através da intervenção da mídia. Com isso, se percebe a existência de uma realidade econômica nas pregações dos “pastores e padres eletrônicos”, uma vez que nos intervalos comerciais dos cultos os responsáveis apresentam seus cardápios de produtos religiosos – livros, revistas, Cds e Dvds além do tradicional dízimo – e tudo em nome do Senhor. Então, ninguém que deseja alcançar os píncaros da fama – testemunho ao vivo – jamais pode se furtar de oferecer uma quantia significativa, ou uma história de fracassos pessoais e econômicos para servir como “tragédia na tela da fé” a qual será simulada por atores cujo desempenho dramático e estético é bastante questionável.
Bibliografia consultada.

BAUDRILLARD, Jean. Tela total: mito-ironias da era virtual e da imagem. 4. ed. Porto Alegre: Sulina, 2005.

CRIATIVIDADE DISCURSIVA NA WEB

No contemporâneo as atividades humanas estão passando por grandes modificações a tal ponto de a criatividade se transformar em crise. Por isso, as fronteiras entre o real e o virtual na arte, na literatura e na linguagem parecem não existir, uma vez que há um entrecruzar de identidades construídas a partir dos discursos produzidos com toques de mouse.
Quanto à criatividade, que por muito tempo ficou relegada a artistas e gênios da criação, ganha espaço e projeção, criando assim, uma comunidade de falantes que interagem com seus pares através de ciberdiscurso. Isso tem criado de alguma maneira conflitos e as identidades passam a ser classificadas a partir da capacidade que os agentes comunicativos têm em demarcarem seus territórios virtuais.
Por isso, consideramos as identidades no espaço cibernético como algo abstrato e, por isso, os confrontos se dão por meio da produção lingüística específica. Na segunda parte serão apresentadas, discussões acerca das relações sociais e humanas, formuladas a partir das revoluções que a mídia e a rede digital provocaram no homem contemporâneo, relacionando as aos aspectos produtivos da sociedade, tendo o ciberdiscurso com mediador das negociações de sentidos,sociais e culturais no ambiente que a tecnologia vem criando em ritmo vertiginoso.
Isso tem modificado o meio social contemporâneo de tal sorte que os pensamentos e ações econômicas, políticas e culturais se processam conforme a velocidade e a disponibilidade da comunidade em usar tais artífices. Uma coisa é certa; uma nova linguagem com vocabulário e sintaxe própria tornou-se real no cotidiano da comunidade moderna, na qual ciência, arte, literatura e política são discutidas à velocidade da fibra ótica.

O ciberdiscurso: liberalidade da linguagem

Vários estudiosos têm conceituado a linguagem a partir das relações sociais que o homem estabelece com o meio e a realidade sócio-cultural em que vive. Assim, Lotman assegura que tal procedimento só se fundamenta quando as informações são significadas pelos atores culturais e sociais da linguagem, transformando-as em signos convencionalmente aceitos pelo grupo. A exemplo disso, estão os ciberdiscursos produzidos nos chats da Internet, nos quais os usuários codificam os signos e os adaptam às suas necessidades lingüísticas do meio eletrônico. Para tanto, eles (internautas) precisam transformar ou adequar esses sinais em signos que realizem a comunicação efetiva dos fatos.
Nesse contexto, e à maneira do semioticista francês Roland Barthes compreende-se que o uso da língua no chat dar-se de maneira individualiza, isto é, apenas um grupo de pessoas faz da língua eletrônica “ato individual de seleção e atualização” e passa a relatar suas experiências a partir do estilo lingüístico convencionalizado, pois a língua de modo geral deixa à disposição de seus usuários várias possibilidades de articular discursos. “Ao assumir o discurso, o individuo busca escolher os meios de expressão que melhor configurem suas idéias, pensamentos e desejos. Essa escolha é que caracteriza o estilo[1].” Em outros termos, tal procedimento quando estendido à linguagem praticada pelos internautas vê-se, uma individualização via transgressão lingüística mostrada por meio da escolha criativa do vocabulário dos internautas, o qual ganham aspectos fonológicos (não se transforma naum mesmo sendo realizado via escrita), ênfase nos termos concretos (uso alternado de letras maiúsculas e minúsculas no meio das palavras; AmiZaDI) e abstratos (apresentação de símbolos e ícones correspondentes ao seus estados emocionais; :) = alegre e ): = triste) na preferência por formas verbais e não verbais, propensão para determinadas figuras de linguagem. Proença Filho ao tratar da questão do estilo lingüístico praticado pelos usuários da língua, sugere que o modo como as pessoas se comunicam é resultante das atitudes culturais surgidas com tendências “análogas nas manifestações artísticas, na religião, na psicologia, na sociologia, nas formas de polidez, nos costumes, vestuários, gestos, etc..[2]” Assim sendo, se depreende dessas acepções que o estilo lingüístico empregado nos ciberdiscursos são representacionais, por isso Lévy assegura: “O pensamento se dá em uma rede na qual neurônios, módulos cognitivos, humanos, instituições de ensino, línguas, sistemas de escrita, livros e computadores se interconectam, transformam e tradu
[1] FILHO PROENÇA. 2001, p. 23-4.
[2] Op. cit, p. 24.

RECEPÇÃO DO POEMA COMISERAÇÃO

Sabe-se que o poeta precisa do seu leitor para que sua obra aconteça como tal. Então, o apreciador do texto literário - leitor - assumi papel importante na edificação dos sentidos pretendidos pelo autor. A crítica literária reconhece isso ao considerar a literatura como matéria da experiência humana da qual o leitor participa quando da interpretação do objeto lido.
Assim sendo, o pensamento de que o ser humano é um pano de fundo ou uma fonte de inspiração, mais do que um efeito da textualidade: "o ser humano escreve, o ser humano pensa, e sempre perseguindo e defendendo-se contra o outro ser humano." Bloom, 2000, p. 60).
Diante dessa afirmativa, ler-se a seguir a recepção de um(a) leitor(a) desse espaço poético, ao fazer consideração e expressar sua inferência do poema Comiseração publicado no dia de ontem.

Não tenho vontade de parar de ler, de sentir a carícia (também) do olhar dos seus olhos... Também posso me afogar no seu carinho e entorpecer meu ser que clama por amor!” É na comiseração do sentir que o poeta adentra almas solitárias fundindo-se entre o real e o lírico sonhador. Digo que, é o espírito poético roberiano envolvendo-se de tal forma enigmática e profunda com seu leitor, que este assume extasiado um envolvimento confessional no mundo imaginário e criativo do poeta. É o anseio do amor sublimado que mescla fragilidade e vontade de se fazer amado, e de amar...
Poeta...não tem como parar de ler, não tem como deixar de sentir um turbilhão de sentimentos entrelaçados entre magia e real...Enfim, aquilo que você expõe maravilhosamente na sua escrita, escrita de fazer pular o coração, e deixa aflorar os sentimentos mais íntimos de uma pobre mortal como eu!
Este é um bom exemplo de estética da recepção; o leitor inteagindo com a mensagem poética e à sua maneira expressando entendimento.
Obrigado

sábado, 3 de maio de 2008

CORPO: ENIGMÁTICO SIGNO DE LINGUAGEM

Introdução

Este texto foi construído com intuito de discutir as significações presentes no corpo, sobretudo, no corpo feminino com os estudantes do curso de Letras da UNEB, câmpus XVI, Irecê–BA, na disciplina Consciência corporal e linguagem, ofertada pelo Colegiado de Letras, semestre 2007.2. Esta disciplina foi ministrada em parceria com a professora de Artes e Educação, Edineiram Maciel a qual trabalho as questões práticas idealizadas em nossas discussões e que culminaram na escrita de mini-peças protagonizadas ao final do curso pelos próprios estudantes da disciplina.
Decidimos que, embora a disciplina tivesse apenas 30h/a deveríamos dividi-la em duas partes, a saber: i) estudo da fundamentação teórica cuja fonte era a semiótica, tendo como referência as discussões sobre signo, advindas de Charles Sanders Peirce, referendadas pelos estudos de Lúcia Santaella, principalmente em sua obra Matrizes de linguagem e pensamento: sonora, visual e verbal (2000); ii) aplicação de tais conceitos, usando-se como base as linguagens corporais do próprios alunos no ambiente sala de aula. Diante disso, metodologicamente as ações foram direcionadas para atividades práticas de autoconhecimento do signo corporal de cada um no universo da classe, observamos com isso como, às vezes, princípios religiosos e culturais acentuam limitações quando se vai usar do corpo como signo de linguagem para realizar comunicação.
É importante destacar que a turma era composta por 25 (vinte e cinco) estudantes, sendo 23 mulheres e 2 homens, mesmo assim evidenciaram muitas limitações quanto ao falar do corpo como portador de significações, sobretudo quando se pedia que se fizesse comentários sobre alguns signos que compõem o inconsciente coletivo sobre o corpo, ficando inclusive, bastante evidente a concepção masculino sobre a linguagem do corpo feminino; sensibilidade, fetiche, segredo, pecado, etc.


Diálogando com autoridades

Hodiernamente falar sobre o corpo e sua linguagem é um risco, uma vez que a nossa sociedade tem valorizado o corpo físico e seus artifícios de beleza e sedução em detrimento de questões mais psicológicas, nas quais e, por seu turno, estão localizados expedientes de linguagem em que se situam as identidades corporais.
Isto talvez siga a lógica do sistema; a eternização da prisão do corpo em paradigmas beneficia a vários mecanismos sociais e, sobremodo, àqueles de caráter controladores, como por exemplo, a religião. Por isso Chauí (1991) adverte que mesmo isso sendo uma realidade cultural não pôde desde que o mundo é mundo reconhecer que:
seres humanos e animais são dotados de corpos sexuados e as práticas sexuais obedecem a regras, exigências naturais e cerimônias humanas.” [...] as proibições e permissões são interiorizadas pela consciência individual, graças a inúmeros procedimentos sociais (como a educação, por exemplo) e também expulsas para longe da consciência, quando transgredidos porque, caso, trazem sentimentos de dor, sofrimento e culpa que desejamos esquecer ou ocultar.(Chauí, 1991, pp.9-10)

Tem-se, pois, na afirmação da filósofa brasileira, a partida para se questionar: Qual o significado do corpo? Como os entes sociais percebem os sinais nos corpos? De que lugares emergem essas necessidades discursivas? A posteriori espera-se respostas a cada uma dessas perguntas. Por enquanto é possível ponderar dizendo que os corpos só significam quando emergidos em universos de linguagem inter-humana e, portanto, cada corpo produz e significa para si e os demais, a partir da vivencia de signos individuais e coletivos institucionalizados pela comunidade onde se realiza a comunicação.
Assim, a linguagem é fio condutor da condição humana, porque o homem necessidade de outros corpos (reais ou abstratos) para se comunicar, e com isso construir interfaces dialógicas. Então, na medida em que os corpos se relacionam com a cultura e realidade de uma comunidade eles [corpos] agregam, refletem e refratam significações, isto é, o corpo é um portador e refrator de linguagem e, portanto, significa! Entretanto, só se reconhecem esta questão a partir do momento em que se evidenciam os limites impostos pelos sistemas cultural, social e econômico sobre o que pode, ou não ser feito do corpo.
No plano cultural, é sabido que ao longo de séculos o corpo foi visto sob a ótica do misticismo, isto é, para muitas culturas o corpo era, ou ainda é território sagrado e, portanto, quaisquer tentativas de entendê-lo seria uma profanação. Talvez por esta razão, a significância a ele atribuída ainda está pautada no signo do sagrado. Entretanto, questões sócio-econômicas em algumas circunstâncias assumiram papel imperativo na construção de um novo sentido para o corpo (exemplo são as mulheres do Oriente Médio que passaram a consumir produtos da moda e beleza ocidentais), vindo a questionar antigos paradigmas.
Randazzo (1997) ao tratar da questão de identidades e mitologias que se vinculam ao corpo feminino coloca em destaque dois pontos significativos para a compreensão do binarismo corpo/alma que forma a pessoa, a saber:

O desenvolvimento psíquico dos indivíduos sai de um ser indefinido e inconsciente, para chegar a um ser consciente de si mesmo (do ego). O desenvolvimento pessoal e a emergente consciência do ego servem para criar um sentido de identidade que ajuda o homem e a mulher a entenderem quem são e qual é o lugar deles na sociedade. Esta identidade é importante à medida que se produz um discurso sobre o corpo. (Grifo meu) (RANDAZZO, 1997, p. 23)

Para o Estado, a classificação e manutenção dos gêneros em masculino e feminino facultam o controle dos corpos, uma vez que tudo está organizado sob o signo da dicotomia e, por isso, o profissional da linguagem precisa se situar nas entrelinhas dos discursos que separam cada um dos gêneros, sob pena de perder a sintonia com os valores, sensibilidade e estilo de vida reivindicado por cada ser social. Para que isso não ocorra é fundamental que busca em nível profundo a alma e a psique de cada sujeito, isto deve ir além dos modismos estabelecidos pelo sistema, visto que este, por sua vez já cristalizou o que é o corpo masculino e feminino posicionando-os em seus devidos lugares de discurso, ou conforme que Homi Bhabha em seus “entre lugares de cultura”.
A consciência do corpo, sobretudo a do corpo feminino, segundo Jung ocorre no plano da inconsciência, isto é, ao corpo físico são justapostas imagens e símbolos advindas das experiências socioculturais diretamente repassadas pelos organismos de cultura, como, por exemplo, a religião, a escola e a família. “A psique inconsciente não chega ao conhecimento recorrendo à lógica e à razão, mas sim olhando para o cânone de simbolismo e imagética apropriados à pesquisa”. (Randazzo, 1997, p. 98).
Segundo Jung, “todo o material simbólico emana das camadas mais profundas do inconsciente coletivo que nos falam através de imagens arquétipicas. Elas não são o resultado da nossa consciência, esse aspecto da psique lógico ordenado. Ao contrário, os símbolos do mito são o resultado do trabalho intuitivo e inconsciente da psique humana.” (Randazzo, 1997, p.100). Assim sendo, os corpos masculino e feminino possuem ambos instinto agressivo, um instinto de guerra que é representado pelo arquétipo do Guerreiro. Então, “homens e mulheres também têm em comum o instinto materno representado pelo arquétipo da Grande Mãe. Nas culturas ocidentais, entretanto, alguns arquétipos estão associados a macho e fêmea, e acabaram determinando o que as pessoas consideram masculino e feminino, afirma Randazzo.
Neste ínterim, os corpos são visto pelos entes sociais como portadores de significados diferentes e, com isso, lhes atribuem sentimentos diferentes. Portanto, ainda impera a intolerância quanto à expressão de sentimentos; os homens são como os personagens que John Wayne representava nos seus filmes: sujeitos fortes e calados que agüentam firme sem chorar nem mostrar seus sentimentos. Já das mulheres espera-se que seja como Donna Reed, mães dedicadas que vivem para os filhos e os maridos; Grande Mãe, pois suas virtudes nascem basicamente da doação do próprio corpo: nutrição, proteção e amor incondicional.
Conforme Hill (1992) os corpos masculino e feminino são formatados sob signo de estático e dinâmico. Já Neumann ao tratar do arquétipo do corpo feminino estático centraliza o corpo da mulher a partir da imagem metaforizado barco. “mulher=corpo=barco correspondendo àquilo que talvez seja a mais fundamental experiência do feminino da humanidade – do homem assim como da mulher. “O aspecto estático do princípio feminino tira a sua imagem básica do útero – escuro, úmido, aconchegante e apegado ao que está se desenvolvendo dentro dele” (Hill, 1992, p.4).
Diante disso, a sociedade e seus entes individuais e coletivos vêem o corpo feminino sob o signo da proteção ofertada pela Grande Mãe. Esta por sua vez é construída pela “imagem feminina universal que mostra a mulher como eterno ventre e eterna provedora. É uma imagem que existe desde o começo dos tempos e me todas as culturas (.” Randazzo, 1997, p.103).
Segundo Bachofen (1992, p. 79), a mulher sob o signo do corpo protetor mantém desde os tempos pré-helênicos o “amor maternal” superior ao paternal, visto que este veio a ser reconhecido posteriormente por causa da ordem moral estabelecida pela sociedade.

Os homens primitivos ficavam certament impressionados com o amor todo especial entre a mae e seu filho. Talvez por isso é que apesar da sua maior força física os homens primitivos temiam e adoravam a mulher. Praticamente todas as culturas pré-helênicas adoravam deusas e eram matriarcais, com maior parte da riqueza e do poder passando de mãe para filha. (BACHOFEN, 1992, p.79).

Dessa maneira, evidencia-se, portanto a importância do arquétipo da Grande Mãe relacionada ao corpo feminino, visto que metaforicamente a mulher representa nesta perspectiva a Deusa Terra, conforme assegura a seguir Bachofen:

A superioridade da mulher em relação ao homem despertou mais particularmente a nossa surpresa devido à sua contradição em relação à força física. As leis da natureza outorgam o cetro do poder ao mais forte. Se mãos mais fracas o tirarem dele, quer dizer que outros aspectos da natureza humana foram acionados, forças mais profundas fizeram sua influência ser sentida (BACHOFEN, 1992, p. 85)

Já Jung o arquétipo da Grande Mãe representado no corpo feminino “tem a ver com um lugar de origem, com a natureza... Também significa o inconsciente, a nossa vida natural e instintiva, o reino fisiológico, o corpo em que moramos ou estamos contidos; pois a ‘mãe’ também é a matriz, o molde oco, o barco que transporta e alimenta, e, do ponto de vista psicológico, representa, portanto os alicerces da consciência.” (Jung, 1985, p.158).
Assim sendo, todo signo de grandeza e proteção que acolha, defenda e alimente outra coisa menor ou desprotegida, segundo Jung pertence ao primordial reino do matriacardo. Por isso o estudioso relaciona o corpo feminino ao da Deusa Terra. Nesta perspectiva, Randozzo (1997) chama atenção para o fato de que “nas culturas pré-tecnológicas adorava de alguma forma deusas da terra. A terra é sentida como uma Grande Mãe que, com sua generosidade, sustenta e alimenta todas as criaturas.” (idem) A exemplo, tem-se na mitologia grega a deusa Gaia era vista como a própria terra.
O corpo feminino na nas culturas pré-tecnológicas era visto pelo o homem como ser maligno, porque sangra em ciclos periódicos coincidentes com as fases da lua. Isto conforme informa a discípula de Jung. Esther Harding era e ainda é fruto da dicotomia força-sensibilidade a qual é formatada no plano dos mistérios femininos que acabam “enfeitiçando” os homens.

O “animal” feminino, longe de rejeitar as solicitações do macho no período do cio, deseja e procura a sua companhia. Nenhum tabu refreia a fêmea no exercício dos seus encantos. Todos os machos da espécie chegam de longe para ficar perto dela e são capazes de pensar em qualquer outra coisa enquanto ela continuar naquelas condições. Qualquer um que tenha tido uma cadela conhece bem a força do “espírito maligno” pelo qual ela fica possuída, Os machos que procuram por ela esquecem o sono a comida e negligenciam os seus “deves” na suas próprias casas. Ficam, de fato, enfeitiçados. (HARTING, 1990, p.60).

O reconhecimento desse poder atribuído ao corpo feminino veio ocorre na modernidade, momento que se aceitou tal aspecto da feminilidade da mulher. Todavia, ainda se usa este fenômeno feminino contra as próprias mulheres, numa tentativa de prova que elas [mulheres] são portadores de irracionalidades e incapacidades de controlar os seus próprios comportamentos. Em 1486, um frade dominicano concluiu que: “toda bruxaria vem da luxuria carnal, que nas mulheres é insaciável”. (Kors e Peters, 1976, p.127).
Infere-se, portanto que, o corpo feminino sob o olhar masculino é o signo do mistério e, por isso merece atenção à suas ações, embora fique explícito que ao mesmo tempo em que os homens adoravam, receavam o poder sedutor da sexualidade da mulher, uma vez que tal sexualidade era vista operando tanto no plano cósmico – humanidade surgindo do útero original da mãe natureza – quanto ao nível mais pessoal – o individuo nascendo do ventre da sua mãe biológica – deve ter sido um choque e tanto. A “mãe” terna e carinhosa que gerou ambos também tinha um lado escuro insensível e frio. (A exemplo disso, se tem a tragédia de Sófocles, Édipo Rei, na qual a mãe atendendo aos pedidos do marido desfaz-se do filho, mais tarde vindo a ter com ele três filhos).

Considerações

Efemeramente, conclui-se que o corpo, sobretudo, o feminino na cultura e sociedade atuais, embora tenha havido grandes lutas feministas na década de 1970, até hoje, ainda é visto como um signo ambivalente, pois carrega consigo significado de pecado, pois sua beleza e capacidade de proteção ameaçam a integridade moral e religiosa do homem, colocando o corpo dele em estado de pulsão, em que o desejo o torna irracional e irresponsável quando abatido pelo poder de mulher fatal. A exemplo disso, se tem no inconsciente coletivo a imagem de Marlene Dietrich, personificada por “Lola-Lola, a sedutora dançarina de cabaré de cartola e meias de seda que ela retratou em Anjo azul, a de uma mulher liberada que escolhe os seus homens, ganha a sua própria vida e considera o sexo um desafio. O público ficou encantado com esta criatura saída da experiência de ninguém mas da imaginação de todo o mundo”. (New York Times, 1992, p. A1 apud Randazzo, 1997, p. 120).
Assim sendo, o homem deseja, porém receia o corpo feminino em sua essência por medo de ser tragado pelo limo primordial, de ser devorado pela libertina, insensível força procriadora da Grande Mãe. Embora inconscientemente saiba que a mulher fatal é uma ficção, mas uma extrapolação de realidades biológicas das mulheres que permanecem constantes. (Paglia, 1990, p. 14).

Referências

CHAUÍ, Marilena. Repressão sexual essa nossa desconhecida. 12. São Paulo: Brasiliense, 1991.
FOUCAULT, Michel. Historia da sexualidade: vontade de saber São Paulo, Graal 1985.
_________ Historia da sexualidade: o cuidado de si. São Paulo, Graal 1985.
GIDDENS, Anthony, A transformação da intimidade, São Paulo: Editora da Unesp, 1993.RANDAZZO, Sal. A criação de mi

COMISERAÇÃO

Na carícia de teu olhar
Dispo a alma a contemplar-te.
E na lassidão de querer...
Afogo-me na fonte de seu prazer


Entorpecido na torrente de carinho
Que dele nasce fico mesquinho
E assim a quero toda em mim.


Os teus olhos escondem a solidão
Penetrante que me hipnotiza
Sem a menor compaixão.

Vitimado por teu nobre olhar
Sinto ao mirar em sua direção
O corpo se afastando da alma,
Logo entra em convulsão...


03 de maio de 2008, 21h24min.
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 2 de maio de 2008

CARÊNCIA SUA

Não importaria se o tempo voasse
Queria ficar com você numa boa
N campo, na cidade se lá onde fosse.

Não suportaria
Afastar-me de você.
Nem que fosse ao mar de calmaria.

Gritar seu nome a toda voz
Não me incomodariam os ouvidos
Silenciá-lo à minha boca,
Isto sim, me mataria.

Sua ausência me magoa
Tanto que o coração ecoa
Brados tristes ao infinito...


02 de maio de 2008, 22h51min
Robério Pereira Barreto

A VOZ DO LEITOR DO POETA DA SOLIDÃO

Este postagem tem um quê de especial porque se trata da voz metonímica dos que lêem esse humilde espaço poético e, por sua vez, apreciam minha produção literário.

"Ai, ai.... seu blog está lindo, fiquei realmente... "embevecida?" ao ler todos as suas poesias... não sei lhe dizer qual deles é o mais belo, porém os que mais tocaram meu coração sem dúvida foram Iniqüidade e Fim do Caminhar... nossa seus versos parecem ter lido os sussurros do meu coração por toda uma vida... Amei. Parabéns poeta."
Obrigado a todos!

INIQÜIDADE

Como o vento que penetra
No dificultoso galho da favela
Para refrescar a flor que brota
Inocente entre venenosos espinhos,
Sua alegria penetrou esse coração,
Ferindo-o sem compaixão.

Preso à tentação de sua beleza,
Ele se prostra aos seus pés
Clamando por uma migalha,
Embora tenha a fartura diante de si.

Soberba com a flor protegida
Pelos espinhos cheios de veneno,
Simplesmente ignora e
Em pequenos pedaços o esgarça...

E agora o que a gente faz?
Ama ou o deixando em paz,
Porque se for além com isso
Não dará outra, o matará!

02 de maio de 2008, 02h12
Robério Pereira Barreto

IMPROFÍCUA BEATITUDE

Quero dividir contigo
O silêncio ruidoso
Que faz esse coração
Aflito se esconde em si mesmo

Esfalfando-me nos meus medos
Golpeio-me com a lança da solidão
Para expurgar da alma os desejos vãos...

O silêncio testemunha e grita a toda voz:
Improficua atitude de privar o corpo e alma
De sentir prazer escondendo na vã beatitude!

Confuso, compartilho esse imenso
E desvairado mundo silencioso
Que ao me angustiosamente me alivia.

02 de maio de 08, 00h51min.

Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 1 de maio de 2008

RESISTINDO...

No meu querer a ti
Passei por tormentas,
Naufrágios interiores...

Lutei contra mim mesmo,
Admirando sua beleza
Vaguei entre meus vazios
E com dor na alma sofri a esmo.

Solto o pensamento vacila
Ao pisar no lado de fora de si
Fica perdido à luz do devir...

Agora tudo há um pouco de ti
Sinto falta de sua companhia
E sorriso e boca banhando
O corpo de ardentes beijos...

01 de maio de 2008, 22h40min
Robério Pereira Barreto

PERAMBULAR

No marchar da vida,
A cada passo o caminho modifica...

Então, o coração em desalinhado;
Andarilho sem destino percorre
O Universo feito menino solto
Na rua em dia de fria chuva
A fazer cascata de alegria.

Nessas loucuras de andanças
Sem rumo de direção
É livre feito criança
Porém, às vezes, não sabe escolher
A melhor ladeira a descer...

Perdido, fica submisso
Às vontades do malvado devir
Que aproveitando de suas incertezas
Maldosamente se diverte
Ao vê-lo desvairadamente sofrer
Entre a madrugada e o amanhecer...

01 de maio de 2008, 17h17
Robério Pereira Barreto

FIM DO CAMINHAR

Nada pior do que acordado sonhar
Com alguém que se escolheu
Para na eternidade da alma se entregar
E, de repente, tudo se dilui no ar.

Desperto dessa infame emoção
Procurando algo para segurar,
Não encontro, tudo é ilusão
As mãos inertes não podem lhe alcançar.

Sozinho, não tenho a quem reclamar;
Ao longe surge à sombra um pouco de ti
A perseguir...

Agora é hora de não mais
Esse caminho trilhar
porque caminhei nele até cansar.

01 de maio de 2008, 12h19
Robério Pereira Barreto

ABRAÇANDO O SILÊNCIO...

No agito silencioso da alma
Sua ausente presença
É-me preciosa; acalma-me.

Maliciosamente suas mãos
Navegam a preencher os vazios de mim,
Que tomam conta de tudo aqui
Sem ao menos eu permitir.

Abraçado no silencio sozinho penso:
Será que tudo isso é por que
Tem que ser você
Para meu peito encher
De alegria e prazer?

Não dar para negar
Que abraço o silêncio
Por medo de te esquecer...

01 de maio de 2008, 11h52
Robério Pereira Barreto

quarta-feira, 30 de abril de 2008

ANOITECI EM VOCÊ

Naquela noite...

O amor tomou conta do meu céu
Ao tê-la em mim por instantes mil,
Quando deixamos cair o véu
Que nos cegava a paixão.

Sem ti em aqui
Cerro os olhos
Para voltar àquele momento;
Quando em gritos éramos
Levado ao prazer infinito...

Livres, porém distantes
Retorno aos instantes
Em que sua boca suave
Deliciava a mim como...

30 de abril de 2008, 12h19
Robério Pereira Barreto

domingo, 27 de abril de 2008

RASTRO DE MIM

Como a aranha que deixa
Nos fios da teia
Parte de sua vida...

Este ser deixa no caminho
Por onde passa rastro
Pensando em retornar um dia
À paixão cheia de galardia,
.

Então, o coração em arritmia
Descompassadamente marca
A hora do reencontro...



27 de abril de 2008, 20h41
Robério Pereira Barreto

DEPOIS DA PARTIDA

Qual beija-flor na primavera
Saboreia a vida da flor
Osculei sua boca
E trago comigo seu sabor...

Entre as muralhas da separação
Há em mim um pouco de ti
Porque insone fecho os olhos
E a tenho no fundo na memória.

Agora, restam-me as horas
Que nos separam do crepúsculo
Nevoento à brilhante e cheirosa aurora.

Boca e olhos fechados degustam
Nossos últimos momentos,
Quando entre medo e volúpia
Éramos apenas almas juntas.

27 de abril de 2008, 10h55
Robério Pereira Barreto

sábado, 26 de abril de 2008

MÓRBIDO DESEJO

Moribundo e perdido na (in)maginação,
O silêncio ecoa gemidos fúnebres da alma,
Levando o corpo à contrição.

(Des) pedaçado pelo vento do devir
Que sopra labaredas fumegantes;
O cadáver nu é chamuscado pela
Indiferença da in(decisão)
Impossibilitado não reage, chora.

No relento da solidão
Queima-se em lágrimas
Como se fosse vulcão
Chorando a dor da seperação.

A maresia que cai aumenta
As chamas da (dês) ilusão.

Mórbido desejo, ou dor da separação?

26 de abril de 2008, 00h31
Robério Pereira Barreto

sexta-feira, 25 de abril de 2008

PRECARIEDADE...


Por detrás de clara lua
Escondem-se fantasmas
Que flutuam na escuridão...

No labirinto da mente
Voam cacos de mim...

Solto no espaço negro
De esse meu singelo existir,
Fios de negrura do devir
Reluzem na imensidão...


25 de abril de 2008, 22h56min
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 24 de abril de 2008

FIOS DE NOITE

FIOS DE NOITE

No lugar da letargia
Depois de mais um dia
Em que a dura lida
Era suportada na
Esperança de te encontrar
Com sorriso manhoso...

Tenho uma vigília constante
Acompanhada de imagens,
Sabores e cheiros seus,
Fazem de o coração ser pulsante.

Agora, estremecido na cobiça
De seu carinho e aconchego,
Os fios da escuridão são
De mim mesmo minha comiseração.

Entorpecido pelo negrume da noite
Reclamo a mim mesmo a falta de ti
Pedindo: aplacar minha insone ilusão
Com sua meiguice consideração;
Beije-me até a exaustão.

24 de abril de 2008, 00h10min.
Robério Pereira Barreto

quarta-feira, 23 de abril de 2008

SONO INVADIDO

INVASÃO

Nesse momento, enquanto vejo no rosto
As marcas da noite anterior,
No espelho sua imagem toma meu espelho
Como se me dissesse: Eis me aqui novamente.

Não, não é verdade...
Você continua a me seguir
Essa noite não me deixou dormir
Invadiu meus pensamentos
Fazendo-me um zumbi...

Dê-me uma razão para estar assim
Ou melhor, me diga qual mal lhe fiz
Porque quero nesse momento apenas ser feliz.

Se lhe falei algo
É porque simplesmente lhe quis
Em meus abraços para beijar...

Mesmo que pareça infantil
Não há razão para seguir
Meus pensamentos
Me deixando assim...

23 de abril de 2008, 09h11
Robério Pereira Barreto

ERROS

FOI ASSIM...


A cada manhã procurando meus erros
Escritos nas linhas amassadas do lençol
Depois de uma noite sem dormir,
Olhando a estrelas e a lua sobre mim.
Foi assim... aqui estou...

No rosto estão as marcas da espera
Todo olhar voltado à porta.
Insone a noite inteira espreitando-te
Não veio, só judiou de mim.

O corpo chamou por ti
E em silêncio latejante,
No mais alto dos gritos infames
Calou o tambor do peito...

Padecendo de carinho toda a noite
Mantive meus pensamentos em ti
Tirando do tecido a maciez
Que queria tira da sua pele.
Não veio, só judiou de mim.

Derrotado, fiz do lençol Confessor
Que na balburdia do meu delírio;
Ouviu-me sonolento fazer promessas
De que se um dia nos encontrarmos
Não haverá razão que me segure
Amar-te-ei sem reservas seja
Onde estivermos...
Foi assim... aqui estou...
Não veio, só judiou de mim.

23 de abril de 2008, 00h44
Robério Pereira Barreto

terça-feira, 22 de abril de 2008

MALINO OLHAR

FULMINANTE OLHAR

Ao seu lado sinto medo
Porque desejo seu beijo
Em demasiada alegria.

O coração em arritmia
Se derrete ante este olhar
Ingênuo e fulminante...

Em volúpias mil
Sinto-me infantil a cobiçar
Um afago nesse regaço...

Em transe engulo ar ardil
E sigo vagante na aspiração
De tê-la ao menos num instante
Nem que para isso fique febril.

22 de abril de 2008, 16h43.
Robério Pereira Barreto

BELEZAD DE...

SINTO APENAS...

Neste imenso lugar
Sinto a falta de ti
Com esse matreiro olhar
Esgarçando-me em desejos...

E, por detrás da cortina branca
A cair do céu cobrindo-lhes
Ombros e cândida face,
Sobressai uma beleza deslumbrante.

Com formosura vibrante
A desabrochar naturalmente,
Amanhã se esforça na sua lindeza
Para alinhar-se a ti.

Tristeza e felicidade me fazem
Acordar olhando para o céu,
Esperando a caída do véu
Que cobre sua face e lábios de mel.

22 de abril de 2008, 13h
Robério Pereira Barreto

domingo, 20 de abril de 2008

AMOR NAS ALTURAS...

CAMA DE LUA.

Gosto de sentir os fios da lua
Roçando minha face como
Suas mãos suavemente nuas
Desciam em frenética maestria
Para encontrar abrigo em meu
Peito ofegantemente sem jeito.

Encabulado, porém gostando
De tamanha ousadia
Deixava a timidez ao vento,
Para tomá-la nos braços
E sob pingos de lua subtrair
Dessa beleza láctea o prazer
Num beijo demorado.

Depois de embebedado por ti
De forma sublime e crua
Desfaleço nos lençóis de cristais
Que cobrem a cama do universo
Na qual esse amor se perpetuará.


20 de abril de 2008, 22h45
Robério Pereira Barreto

COMPLEIÇÃO...

COMPLEIÇÃO
Posso ver e sentir
Seus braços aqui
Acariciando-me a tez
Em chama...

Depois de amá-la
Sonolento, fico sem voz,
Ouvindo sua aveludada
Fala acalentando esse exausto corpo.

Como recompensa
Entrego-me às suas mãos
Que enxuga o suor...

Em febre delirante
Convido-lhe a amar
Em paixão vibrante...

20 de abril de 2008, 19h27
Robério Pereira Barreto

SINA GUIA

SINA GUIA

Que a vida me guie
Ao encontro de algo
Ao qual certamente confie.

Nessa caminhada quero a luz
Que, como a paixão me leve
Me ceguei diante dessa beleza
Magistral de seu espírito flui.

Afogar-me-ei na secura da ilusão
De um pode ter a ti
Ofegante sobre o meu coração
Depois de amar-te de montão.

Lânguidos, olhos brilham
Como se fosse derreter
A escuridão...

20 de abril de 2008, 00h47
Robério Pereira Barreto

sábado, 19 de abril de 2008

Seria a Iracema do sertão?

BELA DO SERTÃO

Negros e belos olhos
Enfeitam-lhe a face cor de jambo
Emoldurada por essa boca
De lábios carnudos, macios
E doces tal caju colhido no pé.

Cabelos negríssimos
Cobrem-lhes delicado
E perfumoso pescoço
Por onde deslizo desfaço-me
Em maliciosas carícias...

Embriagado na simplicidade
De sua beleza coração pulsa
Porque a desejo...

Em desatino peço
Mais que carinho, Você!

19 de abril de 2008, 23h52min.

LIED

NARCÍSEA

Envolta na teia cristalina da lua
Caminhas pela noite iluminada,
Levando na bagagem mente
As saudades da gente.

Na aresta da avenida infinita
Há figuras desenhadas a pincel
Na tela da escuridão vibrante.

Coberta pelo globo de néon
Mimetiza-se na escultura fria
De luzes a confundir os passantes
A fitarem lhe de olhos vibrantes.

Perdida na vasta beleza de si
Como Narciso, passeia a esmo
Admirando-se no devir.

20 de abril de 2008. 22h32min
Robério Pereira Barreto

quinta-feira, 17 de abril de 2008

OBTUSA LUCIDEZ

Nos fios de lua
A mente vaga na rua.

A procura de si
Perambula na imensidão,
Carente isola-se na claridade
Que a faz demente.

Ofuscada pela lucidez da vida,
Entregar-se a leviandade
E Renegar a verdade:
Ora, chegou-se ao fim.

17 de abril de 2008, 08h08
Robério Pereira Barreto

quarta-feira, 16 de abril de 2008

BANQUETE

Em noite de amor em babylon
Corpos desfiam em suas peles
Carinhos que provocam arrepios
Como se fossem nylon.

Em movimentos frêmitos,
Bocas e braços entrelaçam-se
Em energia contagiante.

Absortos no prazer do encontro
Recolhem-se aos desejos,
De outrora escondidos na inocência.

Livres, a ingenuidade perde-se
Em meio aos sabores do banquete
Oferecido pela noite em que
O prazer suplanta saudade e dor.

Robério Pereira Barreto

POEMA NO VALE

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POEMA NO JORNAL

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domingo, 13 de abril de 2008

MÍDIA DE MASSA: O CORO DA TRAGÉDIA MODERNA

Neste ensaio, discute-se brevemente o poder da mídia de massa em fabricar consenso, adiantar-se a seu modo aos episódios, criando juízos de valores diante de acontecimentos cotidianos das metrópoles, crimes. Isto é, refere-se nas linhas a seguir a cobertura que a mídia, sobretudo, a imprensa televisiva de massa tem dado ao "Caso Isabella" – criança que morreu após ser encontrada no jardim do prédio onde morava com o pai e madrasta - ocorrido recentemente em São Paulo.
Sabe-se, portanto, que o papel da mídia na sociedade contemporânea é informar, pois estamos numa democracia cujo princípio é fazer com que o público, por meio dos meios de comunicação tenha acesso aos acontecimentos de maneira livre e imparcial. Entretanto, o que se viu nestes últimos dias nos telejornais foi um verdadeiro coro trágico, isto é, fez-se do ocorrido uma comoção nacional, (quantas Isabellas não morrem diariamente de fome, doença, miséria,etc., inclusive quantas não se foram recetemente de dengue no Rio de Janeiro) devido às interpretações e entrevistas controvertidas, ou seja, cada agente de fala ao se posicionar de seu lugar de discurso (polícia, promotor, advogados de defesa) contradiziam-se e neste labirinto de discursos a mídia de “grande consumo” acabou fabricando um consenso para o telespectador; a criança foi assassinada... a partir da fala da autoridade - promotor de justiça - tudo já está esclarecido, porém este discurso é desfeito pela fala da policia técnica quando afirma que ainda falta concluir os exames e laudos.
Destarte, estas contradições discursivas levaram a mídia de massa à exaltação de tal modo que, num processo catártico as pessoas nas ruas reproduzem a opinião dos apresentadores de telejornais como se estes fossem autoridades, levando ao acontecido tom de tragédia. Para Charaudeau, desse tipo de fato resulta que, “por efeito de retorno, as mídias são levadas a tomar posição sobre o que deve ser a informação, sobre a maneira de tratá-la” (CHARAUDEAU, 2006, P. 13).
Para Aristóteles em sua Poética, a tragédia se caracteriza por ser:
“... imitação de uma ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes (do drama), (imitação que se efetua) não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções.” (ARISTÓTELES, 1973:447).
Desse modo, há no discurso da mídia a promoção intencional da catarse aristotélica, a qual consiste na purificação, na moderação, na sublimação dos dois sentimentos mais característicos da tragédia: a compaixão e o terror. Sendo que, estes elementos são introduzidos no inconsciente coletivo pelos apresentadores de jornais de “grande consumo” de tal maneira que, mesmo sendo, ou não culpados pelo ocorrido, os “pais” já foram julgados e condenados pelo tribunal popular.
Evidencia-se assim o que Foucault considerou em seu livro Ordem do discurso (1971) de possibilidades de se atingir “o núcleo interior e oculto” do receptor por meio de um discurso, no qual existem probabilidades para que, neste lugar de fala se posicione o manipulador ante as deficiências do manipulado, espectador.
Este tipo de mídia conforme Charaudeau (2006, p.18) há o intento “em declarar sua intenção, a qual é somente através da vítimação e do engodo que se pode concluir que existe uma manipulação”. Isto mostra o quanto à imprensa de massa tem poder sobre aqueles cuja ignorância é marca de sua identidade, uma que vez o papel da imprensa é transmitir e informar um saber a quem supostamente não o possui e não aproveitar desse expediente para promover a catarse, levando a uma espécie de prazer trágico por meio da massificação das controvérsias das falas, as quais são produzidas por sujeitos que se posicionam apenas de seu lugar de fala, jornalistas interessados em vender notícias.
Para Charaudeau isto acontece por que a informação ganha status de produto de consumo e que ofertar primeiro no mercado da comunicação, o torno
“... mais forte quanto maior é o grau de ignorância, por parte do alvo, a respeito do saber que lhe é transmitido. Assim sendo, a informação midiática está diante de uma contradição: se escolhe dirigir-se a um alvo constituído pelo maior número de receptores possível, deve basear-se no que se chama de “hipótese fraca” sobre o grau de saber desse alvo e, logo, considerar que ele é pouco esclarecido. (Idem).
Para atingir esse nível, os agentes de comunicação usam linguagem afetiva, visando um retorno, porque elas não transmitem o que ocorre na realidade, são suposições, porém, se o fizessem não asseguraria a atenção dos espectadores. Assim sendo, pode-se afiançar que o “Caso Isabella” se tornou mais um espetáculo na mídia de grande consumo, colocando em xeque a capacidade das instituições do estado em se posicionar em tempo real do que reportar de um acontecimento estarrecedor.
Referências
FOUCAULT, M. Ordem do discurso. São Paulo: Graal, 2000.
CHAREAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2006.

sábado, 12 de abril de 2008

MACABEA: HEROÍNA TRÁGICA NA METRÓPOLE

Este ensaio traz à discussão a posição do sujeito desterritorializado, isto é, apresenta-se a trajetória da heroína trágica, Macabea. A narrativa A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector é edificada sob o olhar do narrador Rodrigo S.M. que aos poucos demonstra como o sujeito clareceano, Macabea é justaposta aos símbolos socioculturais de um meio social estranho ao de sua origem, cujo drama se inicia e é corroborado pela falta de sentimento de pertença, ou seja, a protagonista vive as mazelas e vicissitudes da nova realidade sociocultural, Rio de Janeiro, e não podia ter nenhuma referência para si. Devido a isso, ela passa por grandes dificuldades em virtude da falta de intelecto e personalidade suficientemente fortes para lidar com os novos desafios que lhes foram impostos pela nova realidade. Restando-lhes duas saídas: i) negar sua origem e construir imaginariamente uma nova identidade; ii) atribuir suas incompetências e desgraças ao destino, passando destarte, a ser uma nova vítima da tragédia. Com isso Rodrigo S.M a posiciona tragicamente, elevando-a ao panteão das vítimas da modernidade, imigração constante das massas e sujeitos. O que se tem a partir daí é o drama interior do personagem em meio à busca e à fuga de sua verdade.
Para Aristóteles em sua Poética, a tragédia se caracteriza por ser:
... imitação de uma ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes (do drama), (imitação que se efetua) não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções. (ARISTÓTELES, 1973:447).
Conforme Estudiosos da obra de Lispector afiançam, A hora da estrela, de Clarice Lispector tem como base as influências da tradição do teatro grego no romance moderno. Isto, sem dúvida é possível de vislumbrar em alguns pontos de contato com o texto trágico, não só no que concerne à transposição de recursos dramáticos para o gênero narrativo, como também no que diz respeito à proximidade de temas entre o texto clariceano e a obra Édipo Rei, de Sófocles, já que os dois textos tratam do desvelar de si mesmo e do próprio destino.
A realidade manifestada em A hora da estrela é dotada de extremo subjetivismo, não sendo uma essência, mas sim uma estrutura plurissignificativa que depende de uma determinada ótica para se manifestar sob uma forma distinta. Assim, na narrativa clariceana é comum o multiperspectivismo, isto é, coexistem o olhar do narrador e o olhar dos personagens, no qual só se pode falar em realidades plurais, uma vez que a protagonista se torna “fantoche”, sendo manipulada pelos fatos sócio-psicológicos que acerca.
Para Aristóteles neste tipo de discurso está presente a epifania, ou seja, é o medo de si dos demais, aqui representado nas ações de Macabea em seu quarto ouvindo o radio-relógio. Isto a leva ao prazer trágico, o qual evocar a catarse, provocando alívio de emoções, através da purgação. A catarse aristotélica, de acordo com o Antônio Freire (1985), consiste na purificação, na moderação, na sublimação dos dois sentimentos mais característicos da tragédia: a compaixão e o terror. Portanto, a protagonista é uma mulher comum, para quem ninguém olharia, ou melhor, a quem qualquer um desprezaria: corpo franzino, doente, feia, maus hábitos de higiene. Além disso, era alvo fácil da propaganda e da indústria cultural (para exemplificar, seu desejo maior era ser igual à Marilyn Monroe, símbolo sexual da época). Nossa personagem não sabe quem é, o que a torna incapaz de impor-se frente a qualquer um.
Dessa forma, Macabea caracteriza-se como sujeito trágico, pois ao longo da narrativa, ela segue de maneira linear seu próprio esvaziamento enquanto sujeito, perdendo inclusive sua autonomia, devido à obediência aos ditames do destino. Se na tradição trágica se diz que o personagem sucumbe devido a um erro cometido por ignorância. Infere-se com isso que Macabea ao nascer cometera seu primeiro erro, passando a ter sua vida definida pelo poder metafísico.
Eu também acho esquisito, mas minha mãe botou ele por promessa a Nossa Senhora da Boa Morte se eu não vingasse, até um ano de idade eu não era chamada porque não tinha nome, eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome que ninguém tem mas parece que deu certo. (LISPECTOR, 1998:43).
O trágico não reside na noção do aniquilamento, mas na idéia de que a própria salvação torna-se o aniquilamento. Não é na degradação da heroína que se cumpre a tragicidade, mas no fato de ela sucumbir no caminho que tomou justamente para fugir da ruína. Deste modo, ao tentar escapar de seu destino, fugindo da casa da tia, Macabea encontra em figuras desconhecidas uma possibilidade se compreende enquanto sujeito. Triste, nossa personagem busca consolo numa cartomante, que prevê que ela seria finalmente feliz: “a felicidade viria do "estrangeiro".
Segundo Nietzsche (s/d), em A origem da tragédia, existem dois elementos essenciais na fundação da tragédia: o espírito apolíneo e o instinto dionisíaco. Nascido como conflito, o encontro destes dois estados, através de um milagre metafísico, harmonicamente, dá origem à tragédia àtica. Preso a um destino, o heroína trágica precisa cumprir seu percurso de desnudamento da aparência, o que ocorre através da extinção da individuação apolínea pelo êxtase dionisíaco. Reintegrado ao coletivo, Macabea receberá a gratidão da comunidade, pela qual doou seu sacrifício. Para haver tragédia é necessário o conflito, que irá se instaurar na medida em que os personagens buscam sua autonomia, desafiando os deuses e as leis da polis.
Em A hora da estrela, os acontecimentos – assumidos como história inventada e mediada pelo narrador – se materializam no decorrer da própria escrita: “Pergunto-me se eu deveria caminhar à frente do tempo e esboçar logo um final. Acontece, porém que eu mesmo ainda não sei bem como esse isto terminará”. Aqui, o narrador prefere se concentrar no interior da personagem Macabéa, pois é a partir dele que as reflexões e os conflitos se estabelecem. A heroína de Clarice é apenas mais um dos rostos sofridos dos que imigram para os grandes centros urbanos.
O pathos de Macabéa se relaciona com valores interiores; seu destino em nada influi na vida da cidade: “Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás dos balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam”. Macabéa é a anti-heroína, cuja história tem o valor questionado pelo próprio narrador.
Macabéa também não tem noção de si mesma: “Se tivesse a tolice de se perguntar ‘quem sou eu?' cairia estatelada e em cheio no chão. É que ‘quem sou eu?' provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.” Macabéa não se questiona; sua ignorância é total. Também não busca nenhuma verdade, não tem esperança no amanhã e no seu destino. O desvendar de sua verdade, que acontece por acaso na fatalidade de seu atropelamento, só lhe é possível na iminência da morte: “Hoje, pensou ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci.” É preciso ainda mencionar que Macabéa também encontra no final trágico sua forma de redenção – finalmente ela “é”, como personagem central de sua própria história, tornando-se a estrela de sua própria morte.
Para Derrida citado por Hutcheon “o sujeito é absolutamente indispensável. Eu não destruo o sujeito; eu o situo” (Hutcheon, 1991, p. 204). Dessa forma, podemos situar Macabea, conforme ensinamento do pós-modernismo é reconhecer e situá-la nas diferenças das ideologias e subjetividades do sistema, o qual a envolve e absorve nas teias dos sistemas culturais pelos quais ela passou.
Por fim, Macabea, esse sujeito feminino produto da espetacularização da fêmea desprovida de corpo e mente é consumida pela sua própria insignificância diante da grandiosidade do sistema. Mesmo na modernidade o, sujeito, às vezes, nem sempre suporta toda essa superposição de choques, essa impessoalização das relações e a falta de espiritualidade. Tampouco Macabéa o suportou, sobretudo ela que “era à-toa na cidade inconquistável”. O Rio de Janeiro era a cidade incompreensível, inatingível e impossível para Macabéa, na qual não consegui se situar na linguagem simbólica e cifrada da metrópole carioca, a qual acabou a “engolida”; Macabéa não conseguiu se adaptar ao Rio de Janeiro, a cidade toda feita contra ela a levou a uma espécie de afasia. Na chegada quase muda, foi emudecida completamente, pois se tratava de uma lugar, para ela, surda e cega. (FREITAG, 1998).
Referências
ARISTÓTELES. Poética. In: Os pensadores . Vol IV. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
BORELLI, Olga. Clarice Lispector – Esboço para um possível retrato. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
CANDIDO, Antonio. No Raiar de Clarice Lispector. In Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970.
ÉSQUILO. In: SZONDI, Peter. Ensaio sobre o trágico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.
FREITAG, Barbara. O Mito da Megalópole na Literatura Brasileira. Revista do Tempo Brasileiro, nº 132, Rio de Janeiro: 1998.
FREIRE, Antônio. O teatro grego . Braga: Pub. Da Faculdade de Filosofia, 1985.
HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imafo, 1991.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela . Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
NIETZSCHE, Frederich. A origem da tragédia . /s.l./: Guimarães Ed., /s.d. b/.
NUNES, Benedito. O Drama da Linguagem – Uma Leitura de Clarice Lispector. 2. ed., São Paulo: Editora Ática, 1995.
SÓFOCLES. Édipo-Rei . São Paulo: Abril Cultiral, 1980.
SÁ, Olga de. A Escritura de Clarice Lispector. Petrópolis: Vozes, 1993.
WALDMAN, Berta. Clarice Lispector: a paixão segundo C.L. São Paulo: Escuta, 1992.

terça-feira, 8 de abril de 2008

ASPECTOS ESTÉTICOS NA LITERATURA E CULTURA DA DIÁSPORA DO CICLO FEIJÃO

ORALIDADE E SUPERAÇÃO NA POÉTICA DA DIÁSPORA DO “FEIJÃO”
Robério Pereira Barreto©
Este texto é a primeira (em formato de resumo) da parte do projeto homônimo desenvolvido por mim, no Departamento de Ciências Humanas e Tecnologias, da Uneb – Universidade do Estado da Bahia, Câmpus XVI, Irecê- BA, desde o segundo semestre de 2007, o qual foi aceito como comunicação no Congresso Internacional da ABECAN – Associação Brasileira de Estudos Canadenses, UFBA, Salvador-BA, de 11 a 14 de novembro de 2007. Objetivamos inicialmente compreender os aspectos estéticos provenientes da diáspora interna – ciclo do feijão – ocorrida na região de Irecê -BA, a partir da década de 70, momento em que o território ireceense recebeu significativa massa de migrantes dos estados nordestinos, Pernambuco e Paraíba, modificando ao longo do ciclo do feijão as características locais de tal maneira que, hoje, não se tem claro quais de fato são a identidade do povo e cultura locais.
Neste espaço, ocorreram simbioses importantes, isto é, as gerações que se seguiram à “diáspora do ciclo do feijão” construíram na diversidade suas relações socioculturais baziladas na tolerância e na superação, uma vez que a maioria dos descendentes enfrentou problemas relativos à sua aceitação individual e, sobretudo, cultural. Dizendo de outro modo, os primeiros migrantes foram levados a espaços de produção, ou seja, tiveram oportunidade de trabalhar a terra, e com isso realizarem seus sonhos: plantar e colher o alimento para o sustento de sua família. Já no que se referem ao uso de tecnologias ficaram bem além, pois não detinham saberes escolásticos suficientes para dominarem as tecnologias que iam surgindo ao longo do ciclo do feijão. É sabido ainda que uma parcela desses migrantes, não tendo acesso a terra para plantar feijão, dedicou-se ao comércio. Isso faz com que a cidade se tornasse o centro informal de comércio, onde se compra e vendia, na maioria das vezes, usando apenas o empenho da palavra e a garantia era o “fio do bigode”.
Estes fatos demonstram que a região é de cultura oral e, portanto, os espaços para o letramento só se tornaram possível a partir da segunda geração dos migrantes, a qual foi incentivada migrar para a cidade em busca de escolarização. Isto, conforme Jackson Rubem seu livro: Irecê, a saga dos migrantes (2004), possibilitou a construção de uma nova caracterização do cidadão irecense, pois muitos dos jovens, filhos dos paraibanos e pernambucanos que vieram para o cultivo do feijão, tendo ou não adquiridos patrimônio, fizeram com que seus filhos fizessem o caminho de volta em busca de estudos, especialmente com destino à Paraíba. Ainda de acordo com a obra citada, atualmente a maior parte dos profissionais formados, foi graduada nas universidades paraibanas. Por outro lado, os filhos dos nativos preferiam mandar seus filhos à capital da Bahia e, às vezes, ao Rio de Janeiro. Com isso, evidencia-se que, locais e migrantes promoveram de certa consciente ou inconscientemente a cultura híbrida que temos hoje; uma cidade que ainda não se definiu literária, artística e culturalmente, porque há em todos os recantos elementos culturais justapostos, fazendo com que não seja possível se compreender qual é afinal a identidade cultura da cidade, embora hajam manifestações isoladas, como por exemplo, a festa junina na qual predomina o forró, a vaquejada, etc. No plano literário sobressaem produções escritas, sejam elas poéticas ou não, fruto do trabalho de autores filhos da diáspora. De acordo com antologia publicada pela Academia Ireceense de Letras e Artes – AILA, fazem parte desse processo, os irmãos João e Pedro Correia – PB; Irajá Claudino de Souza[1]- PB; José Galdino de Souza – PB; José Otávio de Moura – PE. A partir da criação da agremiação literária e da editora Printfox, por Jackson Rubem surgiram escritores locais, como o próprio Rubem, Moacir Eduão Farias, Núbia Paiva e outros que, embora não tivessem nascidos em Irecê veio de cidades vizinhas para estudar e, assim, contribuir com a ainda incipiente produção literária local.
© Professor de Lingüística e Literatura da UNEB – Câmpus – XVI – Irecê – BA, poeta e escritor.
[1] Presidente da Academia Ireceense de Letras e escritor que prima pela poesia popular dando as suas palavras ritmos e cadência próprias da literatura de cordel.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

CATÁLISE POÉTICA NOS ESCRITOS DE REJANE TACH

Este pequeno ensaio chega com o objetivo de mostrar algumas das características da poetiza Rejane Tach que, como a maioria dos habitantes do Centro-Oeste, sobretudo de Mato Grosso são fruto de um processo diásporico interno que culminou em vários tipos de expressões socioculturais. Dentre estas destacam-se a literatura matogrossense na qual há vários estilos desde o clássico contemporâneo Manoel de Barros, passando pela pós-modernidade de Lucinda Persona até chegar ao estilo neo-romantismo, próprio da poesia de Rejane Tach. Em Mato Grosso, na verdade, existe uma produção artística que expressa os sentimentos de artistas que ao longo desse tres décadas em que se deu a separa e emancipação política administrativa do MAto Grosso do Sul, tem revelado a identidade de seu povo miscigenado, embora mantenha sua arte articulada com os elementos regionais.

Dessa maneira, é muito importante destacar a estilo rejaneano de fazer poesia falando das angústias que lhe toma a alma diante desse sistema brutal, o individualismo promovido pelas idéias de "modernidade tardia". Para isso, seguem algumas singelas linhas para demonstrar ao público com poetiza e poesia se imbricam num só ser ante as dúvidas da vida.

As ponderações que se seguem nas linhas abaixo são ínfimas, diante da grandiosidade que têm os versos confessionais de Rejane Tach. Diferentemente do seu livro anterior: Sanas loucuras, (2007) onde estão registrados sentimentos intimistas, estes, por sua vez parecem ter sido urdidos nas entranhas de um eu-lírico demasiado ambivalente, cujo desejo central parece ser a expurgação de todos os sentimentos que a alma humana guardou nos recônditos mais secretos e, agora, eles se rebelaram e vieram à tona, colocando o leitor para refletir diante de questões subjetivas, conforme sugerem os versos: A correr pelo silêncio/Sem contorno algum/Anda minha alma e/Decompõe-se num sopro Sutil...
Faz-se imperativo questionar: o que significa para o eu-lírico rejaneano a correria desta alma pelo silêncio? O que é este silêncio? Enfim, por ser uma poetiza de estilo ambivalente, sem dúvida, não existem respostas pré-configuradas. Ao contrário, à medida que se adentrar ao universo poético tacheano, novos inquéritos surgem ao invés de réplicas.
Em realidade, sua produção tem algo além do enigmático que, por natureza só a poesia oferece aos espíritos sensíveis às contradições da humanidade; encontram-se na maioria dos versos uma espécie de vazio, ou na melhor das hipóteses, uma continuidade do discurso do silêncio, todavia, esta alocução parece ser agressiva, logo é censurada pelo eu-lírico da poetiza. Comprava-se tal assertiva à medida que se nota a presença contínua e até exagerada das reticências em todos os poemas. Teria o eu-poético algo a confessar? Só lendo cada um dos poemas com a merecida atenção para se chegar a um veredito. Ai está o convite leitor para descobrir o “mistério” das reticências rejaneanas!
No poema a transcrito na íntegra a seguir, Rejane entrecorta os discursos de uma forma tal que ficam suspensas no ar múltiplas possibilidades de leitura, exigindo, portanto, para sua poesia um leitor modelo, conforma idealizou Umberto Eco. Mas, então como inferir os sentidos desses vazios?
Minha alma...fala comigo!
O que vai dizer-me?
Vai mentir-me?
Pra eu sobreviver como sempre foi?
Pateticamente transparente...
Sob um interminável apetite de...
Obscenas branduras...
Naturalmente, é possível que algum leitor imprudente venha sugerir uma exegese inapropriada e, assim, desvendar os misteriosos vazios dessa poesia cuja ambivalência promove uma assimetria na decodificação dos sentidos.
Sabemos que, na verdade, a poesia de Rejane é fruto de uma profunda catálise de signos, em que vários eu-liricos se manifestam por meio de uma linguagem alquimística. Nota-se que de acordo com movimento da linguagem empregada em cada poema, a poetiza expõe seus “arquétipos inconscientes”. Não seria forçoso sugerir que nos poemas da autora há uma intenção de obter por meio da expressão poética o resgate da personalidade, para isso é necessário tomar decisões complexas, cujo resultado é segundo se ver nas estrofes abaixo, uma ritual de passagem, ou melhor, o eu-lírico está diante de uma dicotomia universal: morte e vida.
Abraça a morte se quiser...
Sem receio de um dia
Aqui não caminhar...

Liberta-te!
Em teus anseios de sono
Para além
De algum lugar
Inimaginável em tua luz !
Assim, se ver na produção em destaque neste ensaio uma possível configuração poética em que se justapõem significantes e significados e, por isso, a metaforização da linguagem é acompanhada por profunda ambigüidade do eu rejaneano.

Robério Pereira Barreto

[1] Professor de Linguagem Literatura da Universidade do Estado da Bahia – UNEB – Câmpus XVI – Irecê – BA.

EXPLICAÇÕES AO BLOGGER-LEITOR

Prezados Senhores,

Antes, porém, agradeço-lhes a benevolência e a disposição em acessar este espaço de escrita e reflexão sobre as linguagens cotidianas. Ademais, gostaria de lhes informar que estou republicando poemas já veiculado em um jornal matogrossense "O jornal do Vale" para que você, blogger-leitor possa ter acesso a estes trabalhos ainda não publicado nestes espaço. Aproveitem!

POEMA DE JORNAL 2

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POESIA EM O JORNAL DO VALE

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